Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(113) "As mulheres querem-se submissas"

“Quem é mais inteligente, o homem ou a mulher? Porquê?

O homem. Porque todos os ‘grandes homens’ foram homens”.

 

“No caso de uma mulher ser violada numa área urbana, ela e o violador devem ser ambos mortos, ela porque deveria ter gritado pedindo socorro e ele porque os direitos de outro homem (o homem a quem ela fora prometida) estavam a ser violados”, Deuteronómio 23/27.

 

Os violadores de homens são “veementemente aconselhados a violarem antes mulheres, porque tal, além de ser menos repugnante, é menos errado”, Juízes 19.

 

 

 

Lembro-me sempre da resposta que um colega de liceu deu a um “inquérito”. Na altura não havia internet, nem telemóveis, nem Livros de Rosto (FB), pelo que para nos conhecermos melhor ou para fazermos melhor figura, até porque se tratava de uma classe mista (coisa rara naqueles tempos, só possível pelo escasso número de alunas que não poderiam ser deixadas fora da escolaridade), utilizávamos um caderno com folhas em branco, onde de dez em dez páginas colocávamos no cabeçalho uma pergunta a que todos teríamos de ir respondendo, ficando assim cada um a saber o que os outros pensavam. Ingenuidades.

A pergunta a que me refiro era a seguinte: “Quem é mais inteligente, o homem ou a mulher? Porquê?

A resposta desse meu colega: “O homem. Porque todos os ‘grandes homens’ foram homens”.

 

Não vale a pena recordar aqui todos aqueles casos em que nas sociedades contemporâneas as mulheres são maltratadas e vilipendiadas, seja qual for a maneira porque o são, nem recordar todas aquelas muito influentes figuras públicas, de juízes a presidentes, nem aquela multidão de figuras não públicas nem influentes que abrem a boca para que lhes saiam palavras que ouviram e repetem, porque sim, porque são homens numa sociedade patriarcal.

 

Mas, o que vale a pena recordar, é a influência que a religião teve e tem na perpetuação destes comportamentos, especialmente nos casos de violação, assalto sexual e incesto.

A Bíblia é, para além do que ela possa representar como obra de fé, o melhor repositório das normas e costumes aceites pela sociedade, não só existentes como reguladores mas como indicadores do caminho a seguir, aprovados e aceites pelo Senhor. As Bíblias, escritas ou faladas, das várias religiões, sempre tiveram tendência para conservarem os quadros gerais das sociedades existentes, guiando-as no bom caminho.

Relativamente às mulheres, eis alguns comportamentos sociais constantes da Bíblia da religião judaico-cristã:

 

Violação de Betsabé pelo Rei David

(https://www.biblegateway.com/passage/?search=2+samuel+11&version=NRSV).

Andando pelo seu palácio, David viu uma mulher muito bela a banhar-se. Ao informar-se sobre ela, foi-lhe dito que “era Betsabé, filha de Eliam, mulher de Uria, o Hitita”. David mandou buscá-la e possuiu-a. Regressando a casa, a mulher descobriu que tinha engravidado, e comunicou isso a David.

David mandou chamar Uria, que andava a combater, para lhe perguntar se a guerra estava a correr bem. De seguida disse-lhe para ir descansar para  casa e deu-lhe um presente. A intenção de David era que Uria acabasse por deitar-se com Betsabé por forma a que, quando nascesse a criança, Uria não desconfiasse que o filho não era dele.

Só que Uria preferiu ficar no palácio do rei e não foi para casa. Então David, mandou colocá-lo no posto de combate mais perigoso da altura, onde Uria acabou por morrer em combate.

Quando a mulher soube da sua morte, procedeu às lamentações habituais. Depois de terminado o luto, David mandou buscá-la, e tornou-a sua mulher.

 

Violação de Tamar pelo seu meio-irmão Amnão

(https://www.biblegateway.com/passage/?search=2+samuel+13&version=NRSV)

Absalão, filho de David, tinha uma irmã muito bela, chamada Tamar. Um outro filho de David, Amnão, perdeu-se de amores por ela. Mas como ela era virgem, tornava-se difícil conseguir alguma coisa dela. Então fez-se de doente, e pediu ao pai que lhe mandasse Tamar para lhe fazer a comida.

Quando ela chegou, fez-se esquisito e disse-lhe que não lhe apetecia comer na sala. Disse-lhe para lhe dar a comida na cama, pois estava muito fraco. Quando a apanhou lá, sendo mais forte que ela, forçou-a e violou-a. Depois, pô-la na rua. 

Quando Tamar chegou ao palácio, o seu irmão Absalão disse-lhe para se calar, porquanto Amnão era irmão dela. Quando o Rei David soube do acontecido, ficou muito zangado, mas não puniu o seu filho Amnão, porque o amava muito, e era o seu primogénito.

 

Violação em massa de mulheres

(https://www.biblegateway.com/passage/?search=Judges+21&version=NRSV)

Devido a uma guerra religiosa instalada, as tribos de Israel negaram-se a darem as filhas em casamento à tribo dos Benjaministas. Isto conduziria à extinção dessa tribo. Convocaram uma assembleia de todas as tribos, para decidirem sobre o combate aos Benjaministas, sob pena de matarem quem não comparecesse. Não compareceu a tribo da região de Gilead, Jabesh. Então, para que a tribo dos Benjaministas não se extinguisse por não lhes poderem dar as suas filhas para mulheres, e como os de Jabesh tinham de ser mortos por não terem comparecido à assembleia, decidiram enviar doze mil soldados para a região de Gilead com instruções para “matarem todos os homens e mulheres que já se tivessem deitado com homens, bem como crianças.”

Todas as mulheres que não fossem virgens, seriam violadas e mortas. Escaparam quatrocentas virgens, que seriam trazidas para Shiloh, em Canaan, para serem oferecidas aos Benjaministas, evitando assim a extinção da tribo.

 

Susana e os dois anciãos

(https://www.biblegateway.com/passage/?search=Susanna&version=NRSV)

Susana, filha de Hilkiak, era uma mulher muito bonita e muito temente de Deus. Casada com Joaquim, um proprietário muito rico e com prestígio.

Os juízes costumavam frequentar a sua casa. Nesse ano, tinham sido nomeados dois anciãos para juízes. Depois de todos saírem da casa, Susana costumava passear-se pelo jardim. Os juízes viam-na, e começaram a sentir desejos de a possuir.

Um dia resolveram confessarem-se um ao outro, e acabaram por planear uma forma de a apanhar sozinha. Assim, quando Susana resolveu banhar-se, pedindo às suas empregadas para saírem e fecharem as portas, os dois anciãos passaram à ação. Dirigiram-se a ela e disseram:

“Olha, as portas do jardim estão fechadas, e ninguém nos pode ver. Nós estamos cheios de desejo por ti; por isso, vem de livre vontade deitar-te connosco. Se recusares, nós testemunharemos contra ti dizendo que estava aqui contigo um homem jovem, e foi por isso que mandaste sair as empregadas”.

 

Violação de dez concubinas de David por Absalão

(https://www.biblegateway.com/passage/?search=2Sam%2015:16,%202Sam%2016:22,%202Sam%2020:3&version=NRSV)

Tendo o rei David partido de Jerusalém, todo o seu séquito o seguiu, com exceção de dez concubinas que foram deixadas para cuidar do palácio. O seu filho, Absalão, tendo ficado em Jerusalém, não se coibiu, e à vista de todos, possuiu as dez concubinas do pai.

Quando David regressou à sua casa em Jerusalém, mandou retirar as concubinas do palácio, e colocou-as numa casa guardada, onde, com todas as mordomias permaneceriam fechadas até ao dia em que ele morresse, vivendo como se fossem viúvas.

 

Abraão oferece a sua mulher Sara ao Faraó do Egito

(https://www.biblegateway.com/passage/?search=Genesis+12&version=NRSV)

Por ordem do Senhor, Abraão, já com setenta e cinco anos, partiu para a Cananeia, com a sua mulher Sara e Lot, o filho do seu irmão. Como na Cananeia grassava uma fome imensa, Abraão resolveu passar para o Egipto. E, disse para a mulher:

“Eu sei que és uma mulher muito bonita; e quando os egípcios te virem, dirão, ‘Esta é a sua mulher’; então vão matar-me, mas deixar-te-ão viver. Diz, portanto, que és minha irmã, e isso será bom para mim, e a minha vida será poupada”.

Quando os funcionários do Faraó a viram, gabaram-na ao Faraó. E a mulher foi levada para o palácio do Faraó. Pelo negócio, Abraão recebeu imensas ofertas, escravos, camelos, gado.

Mas, por causa de Sara ser a mulher de Abraão, Deus infligiu grandes pragas ao Faraó e à sua casa. O Faraó chamou Abraão e perguntou-lhe:

“Porque é que me fizeste isto? Porque é que não me disseste que ela era tua mulher? Porque é que me disseste que era tua irmã, e assim acabei por casar com ela? Aqui está a tua mulher, fica com ela e vão-se embora daqui”.

 

Abraão oferece a sua mulher Sara a Abimelec de Gerar

(https://www.biblegateway.com/passage/?search=Genesis+20&version=NRSV)

Encontrando-se como estrangeiro na região de Gerar, no Negueve, Abraão apresentou ao Rei Abimelech de Gerar, a sua mulher Sara como sendo filha. E o rei trouxe-a para o palácio. Mas, nessa noite, Deus aparece-lhe num sonho chamando-lhe a atenção para o crime que iria cometer, porque “ela não era uma mulher que ele pudesse possuir, uma vez que era uma mulher casada”.

“Devolve a mulher ao homem, porque ele é um profeta […] e se não o fizeres, tu e todos os teus morrerão.”

No dia seguinte, Abimelech chama Abraão e pergunta-lhe: “Em que é que estavas a pensar, para me fazeres tal coisa?” Abraão responde dizendo: “Fi-lo porque pensei que sendo esta uma região que não teme a Deus, certamente me matariam por causa da minha mulher. Além disso, ela é de facto minha irmã, filha do meu pai, mas não de minha mãe”.

 

Violação de homens por homens no Genesis 19 e nos Juízes 19

(https://www.biblegateway.com/passage/?search=judges+19&version=NRSV). Nos relatos destes casos acontecidos, os violadores são veementemente aconselhados a violarem antes mulheres em vez de homens, porque tal, além de ser menos repugnante, é menos errado.

 

Soluções prescritas no Deuteronómio para casos de violação

(https://www.biblegateway.com/passage/?search=Deuteronomy+22%3A23-27&version=NRSV)

(https://www.biblegateway.com/passage/?search=Deuteronomy+22%3A28-29&version=NRSV)

No caso de uma mulher ser violada numa área urbana, ela e o violador devem ser ambos mortos, ela porque deveria ter gritado pedindo socorro e ele porque os direitos de outro homem (o homem a quem ela fora prometida) estavam a ser violados.

Se a violação ocorresse no campo, apenas o homem seria executado, porque a mulher mesmo que gritasse poderia não ser ouvida.

Se a violação fosse de uma virgem, mas se ela não estivesse prometida, se o homem fosse apanhado no ato, teria de pagar uma multa em prata ao pai, e ela tornar-se-ia sua mulher, sem possibilidade de divórcio.

 

 

 

A violação era, pois, uma situação normalmente vulgar e admitida na Bíblia. A mulher nunca era chamada a dar o seu consentimento. A mulher era a responsável por manter a sua “pureza” sexual. E esta condição não tinha nada que ver com o seu bem-estar, mas com o facto de ser propriedade do homem, propriedade que não podia ser estragada.

O marido dispõe da mulher, entrega-a a quem quiser, e estas ações não são tidas em conta como violação.

Noções como as da autonomia e do consentimento das mulheres, raramente se encontram na Bíblia. A violação era, na maior parte das vezes, apenas um problema de competição e propriedade masculina.

 

Até o facto de ser bela, era usado contra ela, pois tal era responsável por atrair a atenção dos homens. John Berger (Ways of Seeing), explica-nos, a propósito do famoso quadro de Tintoretto (“Susana e os Anciãos”), em que Susana aparece a banhar-se e a olhar-se num espelho, que:

(https://en.wikipedia.org/wiki/Susanna_and_the_Elders_(Tintoretto)).

 

O espelho é muitas vezes usado como um símbolo de vaidade da mulher. Moralizador, mas em grande parte, hipócrita. Pinta-se uma mulher nua porque gostamos de olhar para ela, põe-se um espelho na mão dela e chamamos ao quadro “Vaidade”, e passamos a condenar moralmente uma mulher cuja nudez nós reproduzimos para nosso próprio gozo”.

 

 

 

Na nossa muito atual e avançada sociedade, ainda este ano um juiz do Canadá, perguntava a uma queixosa de violação, porque não tinha ela” mantido os joelhos juntos”.

(https://www.nytimes.com/2017/03/10/world/canada/canada-judge-robin-camp-resigns.html?_r=0).

 

Um outro juiz, em Stanford, EUA, autorizou a exibição de fotos por parte dos violadores em que a violada aparecia em poses provocantes, e, portanto, justificativas das ações dos homens.

(https://www.theguardian.com/us-news/2016/jun/09/stanford-sexual-assault-judge-aaron-persky-de-anza-college).

 

O então candidato a senador Todd Akin, EUA, dizia que a “violação legítima” raramente conduzia a gravidez, e que o corpo feminino tinha maneiras “para fechar aquela coisa”.

(http://www.independent.co.uk/news/uk/home-news/2012-the-year-when-it-became-okay-to-blame-victims-of-sexual-assault-8432716.html).

 

 

Não se devem atribuir culpas às religiões, porque elas aparecem depois das sociedades terem sido formadas, pelo que procuraram manter o que encontraram. Quando muito, as religiões poderão ser cúmplices no pastoreio da sociedade após a sua aceitação. Como dizia o Cardeal: “As mulheres querem-se submissas, e o povo quer-se humilde”.

O que levanta o problema de a submissão das mulheres ser antes um processo natural ligado ao aparecimento e ‘desenvolvimento’ das sociedades humanas.

 

Seja como for, a presença desta matriz continua, ainda hoje, visível e entranhada por todo o lado, tal como aconteceu recentemente com os raptos de centenas de raparigas feitos pelos islamitas do Boko Haram da Nigéria, pelo que não basta defendermo-nos dizendo que estes não fazem parte da nossa civilização.

 Efetivamente, fazem mesmo parte da nossa civilização, e é isso que deveria ser investigado e discutido, e não o facto de serem africanos, ou islamistas, ou fundamentalistas, ou terroristas. Isso são as cortinas que não nos deixam ver a realidade.

Mais ou menos transparentes, são esses os verdadeiros véus integrais tão característicos desta nossa civilização humana. Todos andamos de burca.

 

 

 

 

 

 

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2022
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2021
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2020
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2019
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2018
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2017
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2016
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2015
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub