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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(111) Madoff: a ganância sistémica

 

Como é que particularmente este indivíduo não sabia que o seu esquema acabaria por ser descoberto? Porque é que mesmo sabendo isso, não conseguiu resistir à sua implementação?

 

O investimento capitalista é sempre uma aposta arriscada nas oportunidades de lucro de um expediente, um empréstimo contraído em termos de futuro. Por isto, a própria dinâmica do capitalismo esbate a fronteira entre o investimento legítimo e a especulação selvagem.

 

“Os homens fazem o seu próprio cérebro, mas eles não sabem que o fazem”, Cathherine Malabou.

 

 

 

 

Vale a pena reler o artigo de Stephen Gandel na revista Time, de 12 de dezembro de 2008, “A Última queda de Wall Street: Madoff Acusado de Fraude” (Wall Street’s Latest Downfall: Madoff Charged with Fraud) (http://content.time.com/time/business/article/0,8599,1866154,00.html):

 

“Bernard Madoff, o ex-presidente da Nasdaq (National Association of Securities Dealers Automated Quotations) que ontem, quinta feira, foi acusado de cometer uma enorme fraude, sempre foi tido por ser uma pessoa estranha […] Agora, parece que também possa ser visto como um vigarista, e possivelmente um dos maiores da Wall Street. De acordo com o gabinete do Procurador da Justiça, Madoff admitiu ter defraudado clientes num valor de 50 biliões de dólares através de um extenso esquema de Ponzi, efetuado ao longo de vários anos.

A sus firma, iniciada há cinco décadas com o dinheiro que ganhara como agente de seguros na Far Rockaway, Queens, dedicava-se inicialmente ao negócio de mediação entre os compradores e os vendedores de valores. Era uma função essencial para um mercado como a Nasdaq, que na altura não tinha um local próprio onde ao compradores e vendedores se pudessem encontrar cara a cara para as suas transacionarem. A firma de Madoff foi a grande impulsionadora para o crescimento da Nasdaq, criando um sistema que levou a que muitos dos grandes investidores da Bolsa de Nova Iorque passassem a negociar com a Nasdaq […].

Nos anos 90, Madoff vai usar o seu reconhecido sucesso obtido como mediador do mercado para promover uma firma de aconselhamento e gestão de fundos. Madoff conseguiu arranjar dinheiro para o seu fundo através dos seus contactos sociais, cortejando muitas vezes investidores nos clubes privados de que ele e a sua família eram membros {…].

Á superfície, os fundos de Madoff até pareciam ser investimentos de risco limitado. O seu fundo principal garantia rendimentos regulares, na ordem de um a dois pontos percentuais mensais. A estratégia declarada consistia na aquisição de grande quantidade de ações, suplementando esses investimentos com estratégias de compra de outras opções. Supostamente, esta combinação daria rendimentos estáveis e preveniria perdas.

Mas, algures durante o ano de 2005, segundo a SEC (Security and Exchanges Comission), os investimentos de Madoff começam a serem transformados num esquema de Ponzi, passando a recorrer ao dinheiro dos compradores recentes para reembolsar outros clientes já existentes e que desejavam reaver os ganhos. Segundo a SEC, Madoff relatou que em janeiro de 2008, o seu negócio geria 17,1 biliões de dólares. À medida que o mercado se deteriorava, Madoff continuava a assegurar aos investidores que os seus fundos se manteriam em alta, chegando mesmo a alcançarem 5,6% nos finais de novembro. Durante o mesmo período, as ações da Standard & Poor 500, com a qual Madoff realizava a maior parte das transações, tinham caído em média 37,7%.

Apesar dos ganhos obtidos, um número crescente de investidores começou a exigir a Madoff o reembolso dos seus títulos. Na primeira semana de dezembro, segundo a SEC, Madoff disse a um diretor sénior da firma, que os reembolsos que os clientes exigiam, atingiam os 7 biliões de dólares. Na quarta-feira Madoff falou com os dois filhos e explicou-lhes que a sua atividade de gestão de fundos era fraudulenta, “um gigantesco esquema de Ponzi”, e que a bancarrota estava à porta. Os filhos contactaram o advogado, para que as autoridades federais fossem alertadas para a fraude.

[…] Muitos dos que conheciam Madoff mostraram-se espantados com essas revelações. “Muito do dinheiro com que trabalhava era de amigos e da família”. […] “É qualquer coisa de inexplicável. Até as pessoas com quem falei e que com ele tinham longas amizades estavam em choque”.

 

 

Segundo este relato, a opinião pública encontrava-se chocada com a atuação de Madoff, e não a conseguia explicar, mas, em qualquer dos casos, não tinha grandes dúvidas de estar perante um comportamento imprevisível de um indivíduo peculiar que acabara por se revelar como sendo um vigarista.

Como tal, foi preso, condenado, e tudo seguiu na mesma, assunto já esquecido pois, tal como no circo, o espetáculo tem de continuar. Há pressa em continuar, não vale a pena gastar-se tempo a retirarem-se quaisquer conclusões, tratou-se, como todos muito bem sabem, apenas de um caso aberrante de ganância individual.

 Querem-nos fazer acreditar que estamos perante um vício ou uma irracionalidade pessoal. A explicação mais neutra, mais esperada e que deixa tudo na mesma. O sistema a funcionar.

 

 

Mas, como é que um esquema tão conhecido e tão básico como o de Ponzi, já tentado várias vezes, consegue surgir e desenvolver-se no mais sofisticado e vigiado centro de especulação financeira do mundo, a Bolsa de Nova Iorque?

 

Nós tivemos a Dona Branca, mas ela não era propriamente uma figura grada do sistema financeiro nem aqui em Portugal. Já Madoff, pertencia à elite do sistema financeiro mundial, fora o grande impulsionador da Nasdaq, chegando mesmo a seu presidente, para além de outras atividades socialmente reconhecidas, como a contribuição em dinheiro para os partidos e algumas organizações de beneficência.

 

Mas, como é que particularmente este indivíduo não sabia que o seu esquema acabaria por ser descoberto? Porque é que mesmo sabendo isso, não conseguiu resistir à sua implementação?

 

Casos como este, são resultantes da enorme tentação de transformar dissimuladamente uma atividade de negócios lícita num esquema ilícito, sobrepondo-se e adiantando-se assim a todos os outros. A enorme pressão e a pulsão interna para continuar a fazer expandir a tal esfera da circulação para que o sistema continuasse a funcionar, fez com que, em certo ponto, se ultrapassasse aquela ténue linha de separação entre o lícito e o ilícito. A compulsão expansionista inscrita no próprio sistema.

 

É bom lembrar que o investimento capitalista é sempre uma aposta arriscada nas oportunidades de lucro de um expediente, um empréstimo contraído em termos de futuro. Por isto, a própria dinâmica do capitalismo esbate a fronteira entre o investimento legítimo e a especulação selvagem.

 

 

Se sempre tivéssemos vivido numa sociedade em que predominasse a utilização da energia nuclear, certamente, devido aos procedimentos e protocolos associados a tal atividade, viveríamos numa sociedade totalmente militarizada.

Que influência é que a vida consentida numa sociedade militarizada, acabaria por acarretar, ao longo do tempo, para o nosso cérebro? Será que o cérebro poderá ser socializado? Será que a própria sociedade pode também ser naturalizada pelo cérebro?

 

Estas interrogações tornaram-se mais pertinentes agora que se foi descobrindo que o modelo do cérebro nas neurociências e os modelos ideológicos da sociedade capitalista predominante, como que parece serem paralelos.

Sabe-se hoje que o cérebro não é completamente determinado. Algumas das suas estruturas anatómicas estão geneticamente programadas, mas grande parte da sua organização neural está aberta a influências exteriores. Isto significa que uma importante parte da estrutura do nosso cérebro depende da maneira como vivemos e das nossas experiências.

Ou seja, o nosso cérebro não é rígido, mas antes evolutivo, aberto, flexível, em transformação constante. Esta “plasticidade” do cérebro é o que lhe permite manter uma identidade enquanto vai evoluindo, alterando-se, transformando-se em contacto com o meio ambiente e segundo a aleatoriedade das circunstâncias.

 

Esta descrição do cérebro, tem levado alguns a concluírem que ela é idêntica à imagem do mundo capitalista atual em que vivemos, em que o poder, embora não centralizado, continua a ser exercido por um posto de comando que atua em rede, em que se incensa a adaptabilidade absoluta, a flexibilidade, e onde se rejeitam os indivíduos sem mobilidade, muito rígidos.

Como se a consciência do cérebro coincidisse pura e simplesmente com o espírito do capitalismo.

 

A professora de filosofia na Universidade de Paris Ouest-Nanterre, Catherine Malabou, vem explicar essas coincidências no seu livro Que faire de notre cerveau? (Que fazer com o nosso cérebro?):

 

 Admitindo que quer o cérebro quer a sociedade capitalista prosseguem, aparentemente, idênticos modelos descentralizados de comando com elevada capacidade de adaptação e flexibilidade, como se a sociedade capitalista refletisse ou imitasse a organização neuronal do cérebro ou como se o cérebro refletisse ou imitasse a sociedade capitalista, Malabou vem, contudo, chamar-nos a atenção para o que considera ser um discurso reducionista científico quando, por ter plasticidade, consideraram o sujeito neuronal como sendo dócil, moldável e adaptável, porquanto, segundo ela, é exatamente por ter plasticidade que esse mesmo sujeito é também capaz de resistir e de se rebelar.

 

É que a organização do cérebro vai-se fazendo por forma a que possa servir de modelo para compreender todos os tipos de organizações, como, por exemplo, a sociedade. O que se passa no cérebro é como que a organização de um quadro (paradigma) que nos vai permitir compreender o que se passa na sociedade e nas suas relações sociais.

É devido à sua plasticidade, que o cérebro se constrói a ele próprio desdobrando a sua estrutura, por forma a ir-nos mantendo informados sobre nós próprios (o nosso Eu).

Ou seja, a sociedade influencia o nosso cérebro, mas, devido à sua plasticidade, o nosso cérebro está sempre a assimilar e a transbordar na procura de um novo real, influenciando constantemente a sociedade. É essa propriedade que lhe permite desenvolver-se, desdobrar-se, sobrepor-se e infiltrar-se onde quer que seja. Nisto reside a sua capacidade para resistir e para se rebelar.

 

Por isto, Malabou, incita-nos a cuidar do nosso cérebro, dizendo-nos que:

 

“Os homens fazem o seu próprio cérebro, mas eles não sabem que o fazem”,

talvez a recordar o que Marx dissera:

“Os homens fazem a sua própria história, mas eles não sabem que a fazem”. 

 

 

Adenda: Este mês, a HBO vai lançar um filme sobre Madoff, com Robert De Niro e Michelle Pfeiffer, intitulado “O Feiticeiro das Mentiras” (The Wizard of Lies). O título diz tudo.

 

 

 

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