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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(108) A ilusão ética

 

Se nós não nos importamos com o sofrimento infligido a muitas pessoas à distância, porque é que havemos de nos importar com o sofrimento infligido a uma só pessoa feito à nossa frente?

 

“Um inimigo é alguém cuja história não se ouviu”, Wendy Brown.

 

Hitler foi nosso inimigo apenas porque não ouvimos a sua história.

 

“É só a nossa crença em Deus, é só o mandamento divino de amarmos o próximo, que em última análise nos impede de torturar pessoas!”, S. Harris.

 

 

 

 

Já todos reparámos que é muito mais fácil ajudarmos quem nos está próximo do que ajudarmos quem está longe. É mais fácil ajudar um membro da nossa família ou um nosso amigo, do que um desconhecido qualquer.

 Mesmo sabendo que a ajuda seria muito mais necessária para uma criança que vive na maior da pobreza em África, sem qualquer tipo de proteção social, optamos antes pela ajuda à criança que vive no nosso país onde existe uma certa proteção social.

 

Já todos reparámos que nos é sempre muito mais difícil de suportar assistirmos à tortura de um indivíduo à nossa frente, do que assistirmos ao lançamento à distância de uma bomba que vá causar a morte de milhões de pessoas.

 

Todos nós ficamos horrorizados perante a desumanidade daquelas imagens, repetidamente passadas, daquele ser humano a ser degolado pelos representantes do chamado Estado Islâmico, ultrapassando tudo aquilo que poderíamos imaginar.

E, todos nós tentamos não querer saber que ele fora apanhado há dois anos na Síria, onde o governo americano distribuía armas, dinheiro e conselheiros às forças que se opunham ao governo sírio, provavelmente até armando os futuros fundadores do Califado, que agora acusam de falta de humanidade.

 

É como se houvesse uma repulsa instintiva nossa ao sermos testemunhas diretas de torturas ou do sofrimento de um indivíduo, repulsa que não temos no caso do sofrimento ser de massas distantes, que não nos são nada e que não nos dizem nada. Isto constitui uma ilusão ética.

 

Essa ilusão assenta no facto do nosso raciocínio abstrato se ter desenvolvido muito, ao passo que as nossas respostas ético-emocionais continuarem a ser condicionadas por antigas reações instintivas de simpatia perante o sofrimento e a dor, quando somos testemunhas diretas.

 

 Esta nossa caraterística vai ser aproveitada por aqueles que pretendem legitimar a tortura como meio para conseguir informações, e que o fazem utilizando o seguinte argumento:

Se nós não nos importamos com o sofrimento infligido a muitas pessoas à distância, porque é que nos havemos de importar com o sofrimento infligido a uma só pessoa feito à nossa frente?

 

Esta nossa caraterística é também aproveitada por aqueles que nos pretendem levar a condenar casos individuais de violação de direitos humanos, ao mesmo tempo que toleramos a morte anónima de milhares de pessoas.

Por exemplo, Nixon e Kissinger ordenaram o bombardeamento do Camboja (com o qual os EUA não estavam em guerra) matando dezenas de milhar de pessoas. Contudo, nenhum deles é sequer considerado criminoso quando comparados com os responsáveis pelo ataque às Torres Gémeas. Ilusão de ética?

As imagens do horror do 11 de Setembro foram abundantemente mostradas pelos media, contudo, a televisão Al Jazira foi acusada de cumplicidade com os terroristas por mostrar as imagens dos resultados dos bombardeamentos americanos em Fallujah. Ética da ilusão?

 

É Lacan que nos vem explicar que “o sujeito não é qualquer coisa de diretamente dado, mas um pressuposto, qualquer coisa que se pressupõe, um objeto de crença”.

 

 Ou seja, devido a toda a carga judaico-cristã que transportamos, a empatia que sentimos perante o sujeito torturado não é resultante da sua proximidade física, mas antes por revermos nele a insondável infinidade de algo que nos é comum: a nossa humanidade.

 Os que advogam a tortura, o que pretendem é abolir esta dimensão do próximo como sujeito: ele passará a ser apenas um objeto cuja dor é neutralizada e possível de gerir num cálculo meramente utilitarista.

 

 

No livro Frankenstein, Mary Shelley permite que o criminoso conte a sua história segundo o seu ponto de vista, o que faz com que Frankenstein, aquela ‘coisa’ horrível, deformada física e mentalmente, nos apareça como sendo um indivíduo ferido e desesperado, que anseia por alguém que o acompanhe.

O que está de acordo com aquela corrente de pensamento liberal que preconiza que devemos ouvir o ponto de vista de todos, resumida na frase “Um inimigo é alguém cuja história não se ouviu".

 Com estas boas intenções possivelmente poderíamos ser levados a concluir que afinal Hitler foi nosso inimigo apenas porque não ouvimos a sua história.

 

Só que o problema se mantém: como explicar todos aqueles, e não foram poucos, que praticavam os maiores atos de bestialidade para com os inimigos e, simultaneamente exibiam verdadeiros atos de abnegação e amor para com os que lhe eram próximos?

É como se as nossas preocupações éticas se reduzissem a um grupo que nos está próximo, apesar de racionalmente compreendermos que somos todos igualmente humanos, com os mesmos medos, direitos e esperanças.

 É como se este reconhecimento racional violasse a nossa inclinação ética espontânea.

 Foi por isto que Hannah Arendt não viu nessas pessoas a personificação de um mal demoníaco, mas apenas pessoas em que o fosso entre a sua experiência privada e o horror dos seus atos era imenso.

 

 Daí que S. Zizek conclua que a história que contamos a nós próprios sobre a nossa vida, seja fundamentalmente uma mentira: “a verdade reside no exterior, naquilo que fazemos”.

 

 

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