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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(378) O funeral do dente de Lumumba

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

Aquilo que nos aconteceu durante 80 anos de regime colonialista, as nossas feridas estão ainda tão frescas e são tão dolorosas que não as podemos afastar da nossa memória, Patrice Lumumba.

 

Lumumba, colocou-se no lado errado da história quando se viu forçado a optar pela ajuda da União Soviética em vez da ajuda americana, inglesa ou belga.

 

As normas internacionais do pensamento politicamente correto ao tempo eram diferentes das atuais, Inquérito parlamentar belga de 2001.

 

Porque razão tinha Lumumba dois apetitosos dentes de ouro?

 

 

 

 

 

Transcrevo aqui aquele que foi o notável “Discurso da Proclamação da Independência do Congo”, proferido a 30 de junho de 1960 em Léopoldville (agora Quinxassa) por Patrice Emery Lumumba, então Primeiro-ministro do Congo, perante o Rei Balduíno Primeiro da Bélgica e demais altos representantes das nações creditadas para o acontecimento:

 

 “Congoleses e Congolesas. Combatentes da Independência hoje vitoriosa. Saúdo-vos em nome do governo congolês.
A todos vós, meus amigos, que lutaram connosco sem desfalecimento, peço-vos para que façam deste 30 de junho de 1960 uma data ilustre que fique indelevelmente gravada nos vossos corações, uma data cuja significação ensinarão com orgulho aos vossos filhos, para que estes por sua vez a deem a conhecer aos seus filhos e aos seus netos, a da história da nossa luta gloriosa pela conquista da liberdade.
Porque se esta Independência do Congo é hoje proclamada em acordo com a Bélgica, país amigo que tratamos de igual para igual, nenhum Congolês digno desse nome poderá jamais esquecer que foi pela luta que ela foi conquistada, numa luta de todos os dias, numa luta ardente e idealista, numa luta onde não escamoteámos as nossas forças, nem os sofrimentos, nem o nosso sangue.
Foi uma luta de lágrimas, de fogo e de sangue à qual nos mantivemos fiéis até ao mais profundo dos nossos seres, porque foi uma luta nobre e justa, uma luta indispensável para pôr fim à humilhante escravidão que nos foi imposta pela força.
Aquilo que nos aconteceu durante 80 anos de regime colonialista, as nossas feridas estão ainda tão frescas e são tão dolorosas que não as podemos afastar da nossa memória. Nós sofremos o trabalho impiedoso e exaustivo em troca de salários miseráveis que não nos permitia dar de comer à nossa fome, nem de nos vestir ou de nos alojar decentemente, nem de educar os nossos filhos como entes queridos.
Nós sofremos ironias, insultos, agressões e pancadas infligidas de manhã, à tarde e à noite, apenas porque éramos negros. Quem se esquecerá que éramos tratados por “tu”, não por sermos considerados como amigos, mas porque o “vós” estava reservado apenas para os Brancos?
Sofremos a espoliação das nossas terras em nome de textos pretensamente legais que o único que faziam era reconhecer o direito do mais forte.
Sofremos a desigualdade de tratamento perante a lei que não era nunca a mesma conforme se tratasse de um Branco ou de um Negro: flexível e acomodatícia para uns, cruel e desumana para os outros.
Sofremos atrozmente pelas nossas opiniões políticas ou religiosas; exilados dentro da nossa própria pátria, num destino mais cruel que a própria morte.
Sofremos o vexame de vermos a existência nas nossas cidades de casas magníficas para os Brancos e de palhotas decrépitas para os negros; que um Negro não podia entrar nem nos cinemas, nem nos restaurantes, nem nas grandes lojas; que um Negro viajava sempre na parte de trás, ficando reservada a cabine de luxo para os Brancos.
Quem se esquecerá dos disparos das espingardas com que muitos dos nossos irmãos foram mortos, das jaulas para onde foram brutalmente metidos todos aqueles que não se queriam submeter à justiça de um regime de opressão e exploração?
Tudo isto, meus irmãos, nós sofremos profundamente.
Mas também vos dizemos, que tudo isso que sofremos no nosso corpo e no nosso coração durante a opressão colonialista, nós que o voto dos vossos representantes elegeu para dirigir o nosso querido país, tudo isso acabou.
A República do Congo foi proclamada e o nosso querido país está agora na mão dos seus próprios filhos.
Juntos, meus irmãos, minhas irmãs, iremos começar uma nova luta, uma luta sublime que conduzirá o nosso país à paz, à prosperidade à grandeza.
Juntos, iremos estabelecer a Justiça social e assegurar que cada um receba a justa remuneração pelo seu trabalho.
Juntos iremos mostrar ao mundo aquilo que o homem negro pode fazer quando ele trabalhar pela liberdade, fazendo do Congo o centro de irradiação para toda a África inteira. Juntos iremos assegurar que as terras da nossa pátria sejam utilizadas a favor dos seus filhos. Juntos iremos rever todas as leis do passado e fazer novas leis que sejam justas e nobres.
Juntos iremos pôr fim à opressão do pensamento livre e tudo faremos para que os cidadãos possam gozar plenamente das liberdades fundamentais previstas na declaração dos Direitos do Homem.
Juntos iremos suprimir eficazmente todo o resquício de discriminação seja ela qual for e dar a cada um o seu justo lugar que lhe assegure a sua dignidade humana, o seu trabalho e a sua devoção ao país.
Juntos iremos fazer reinar, não a paz das armas e das baionetas, mas a paz dos corações e das boas vontades.
E para que tudo isto se cumpra, caros compatriotas, estejam certos que iremos poder contar, não somente com as nossas enormes forças e com as nossas imensas riquezas, mas também com a assistência de numerosos países estrangeiros que connosco querem colaborar lealmente sem nos quererem impor uma política, seja ela qual for.
Neste domínio, a Bélgica que, compreendendo enfim o sentido da história, não tentou opor-se à nossa independência, está pronta a conceder-nos a sua ajuda e a sua amizade, pelo que já assinámos um tratado entre os nossos dois países iguais e independentes. Esta cooperação, estou seguro, será vantajosa para os dois países. Pela nossa parte, embora nos mantenhamos vigilantes, saberemos respeitar os compromissos livremente assumidos.
Assim, tanto internamente como exteriormente, o Congo novo, a nossa querida República que o meu governo vai criar, será um país rico, livre e próspero. Mas para conseguirmos alcançar sem demora estes objetivos, peço-vos a todos vocês legisladores e cidadãos congoleses, que me ajudem com todas as vossas forças.
Peço-vos a todos que esqueçam as querelas tribais que só nos esgotam e que nos fazem parecer não respeitáveis aos olhos estrangeiros. Peço à minoria parlamentar que ajude o meu governo através de uma oposição construtiva, mantendo-se estritamente dentro das vias legais e democráticas.
Peço-vos a todos que não enjeitem qualquer sacrifício por forma a garantir este empreendimento grandioso.
Peço-vos por fim que respeitem incondicionalmente a vida e os bens dos vossos concidadãos e dos estrangeiros estabelecidos no nosso país. Se a conduta desses estrangeiros não se conformar com as nossas leis, a nossa justiça prontamente os expulsará do território da República; se pelo contrário a sua conduta for boa, devem ser deixados em paz, porque eles também trabalham para a prosperidade do nosso país.
A Independência do Congo marca um passo decisivo na libertação de todo o continente africano.
Eis pois, Excelências, Senhoras e Senhores, caros compatriotas, meus irmãos de raça, meus irmãos de luta, o que eu vos quis dizer em nome do meu governo neste dia magnífico da nossa Independência completa e soberana.
O nosso governo, forte, nacional, popular será o orgulho deste povo.
Honra aos combatentes da liberdade nacional!
Viva a Independência e a Unidade Africana!
Viva o Congo independente e soberano.”



Ainda não tinham decorrido sete meses após este discurso, e já Patrice Lumumba jazia assassinado sem julgamento por mercenários catangueses a soldo de Moisés Tshombe (com o apoio tácito da Bélgica e o envolvimento do MI6 inglês) a 17 de janeiro de 1961.

O seu corpo foi inicialmente enterrado, depois desenterrado e transportado para outro local a 200 km de distância, enterrado de novo, novamente desenterrado, desmembrado, regado com ácido e os pedaços espalhados por vários locais.

O comissário da polícia belga, Gerard Soete, que supervisionou e participou na destruição do corpo por forma a “nada restar” (1), equipou os homens encarregados da missão com serrotes, ácido sulfúrico, máscaras e whisky.

Como “recordação”, Soete, guardou para si dois dentes e dois dedos. “Troféus de caça”, conforme disse num documentário em que apareceu em 1999. Contudo, na sua posse disse ter então apenas um dente.

Dente esse, que reapareceu em 2016 quando a sua filha, Godelieve, numa entrevista que deu à revista belga Humo, publicada imediatamente antes do 55º aniversário da morte de Lumumba, contava o sofrimento que o seu pai passara durante todos aqueles anos de serviços prestados à Bélgica, certamente merecedor de, pelo menos, um pedido de desculpa. Entre os vários objetos que trouxe para a entrevista, estava o dente de Lumumba, que foi mostrado e fotografado.

De imediato, Ludo de Witte, intentou uma ação para que o dente fosse restituído à família de Lumumba. A polícia belga confiscou o dente. Até que ao fim de quatro anos o tribunal deu razão a Witte.

Finalmente, numa recente “cerimónia” ocorrida em Bruxelas a 20 de junho, foi oficialmente entregue o dente de ouro de Patrice Lumumba a membros da sua família. O funeral do dente de Lumumba parece que está planeado para acontecer em Quinxassa no 62º aniversário do discurso da independência, 30 de junho.

 

Como agora a comunicação social tem voltado a falar sobre crimes de guerra e crimes contra a humanidade, pareceu-me ser interessante trazer estes dois casos (deveriam ser pelo menos três, se as instituições e as nações pudessem ser incluídas), o de Patrice Lumumba e o de Gerard Soete.

Lumumba, deveria ser julgado por, independentemente de pensar que estava a defender o seu povo, se ter colocado no lado errado da história quando se viu forçado a optar pela ajuda da União Soviética em vez da ajuda americana, inglesa ou belga. Com essa decisão atrasou o desenvolvimento do colonialismo, do neocolonialismo, e da futura globalização, convencido de que devia primeiro olhar pelo seu povo quando deveria colocar à frente o desenvolvimento das nações colonizadoras (2) que era o que lhe iria permitir que o seu povo melhorasse mais tarde as condições de vida e morte.

Gerard Soete, no máximo arriscaria uma condenação leve, porquanto, como se pode ler nas conclusões do inquérito parlamentar belga de 2001, “as normas internacionais do pensamento politicamente correto ao tempo eram diferentes das atuais”. Inquérito esse que, dentro do espírito da maior justiça e correção com que foi elaborado, não deixou, por isso mesmo, de considerar que certos membros do governo “foram moralmente responsáveis pelas circunstâncias que levaram à morte” de Lumumba. Além do mais, os troféus de caça eram uma norma instituída, vulgarizada e por todos aceite. Porque razão tinha Lumumba dois apetitosos dentes de ouro?

 

 

Nota:

 



 

(377) Aparências e realidade.

Tempo estimado de leitura: 9 minutos.

 

Quando não alcançamos os nossos objetivos, quando os nossos sonhos são inatingíveis, somos ensinados que tal não é devido à injustiça económica, social ou política, mas a falhas dentro de nós.

 

A classe dominante, por meio de gurus de autoajuda como Oprah, pregadores do “evangelho da prosperidade” e da indústria do entretenimento, privatizou a esperança.

 

O único poder que os cidadãos têm é através do coletivo, sem esse coletivo somos tosquiados como ovelhas.

 

Pode-se saber o que os oligarcas mais temem, por aquilo que eles mais procuram destruir – os sindicatos, C. Hedges.

 

 

 

 

Em 1973, a cantora francesa Dalida e Alain Delon, interpretaram uma canção de grande sucesso, “Paroles, paroles” (Palavras, palavras). Vale a pena ouvi-la. Permito-me transcrever a parte final:

Que tu es belle                                                     Como tu és bela
Paroles et paroles et paroles                                Palavras e palavras e palavras
Que tu est belle                                                   Como tu és bela
Paroles et paroles et paroles                                Palavras e palavras e palavras
Que tu es belle                                                     Como tu és bela
Paroles et paroles et paroles                                Palavras e palavras e palavras
Que tu es belle                                                     Como tu és bela
Paroles et paroles et paroles et paroles                Palavras e palavras e palavras
Et encore des paroles que tu sèmes au vent         E mais palavras que semeias ao vento

 

 

 

Parece que se está a verificar nos Estados Unidos um ressurgimento dos sindicatos, com uma vaga de novas sindicalizações que começaram após a crise de 2008 que têm vindo progressivamente a aumentar, e com a incorporação de novos quadros mais qualificados.

Várias explicações têm sido avançadas, desde os despedimentos provocados pela crise de 2008, depois pela pandemia e retração económica que se lhe seguiu, etc. Mas para a alteração e melhoria do nível qualitativo dos quadros sindicais, o fator mais importante talvez tenha sido o da dificuldade de emprego e baixos salários com que os licenciados se enfrentaram, que os tem levado a integrarem-se nos sindicatos, elevando com isso os níveis das discussões laborais para outro patamar. Ou seja, argumentos primários e missangas patronais já não os convencem facilmente.

Esta aparente importância das novas lutas sindicais é reconhecida como uma realidade que está a acontecer quando os principais órgãos de comunicação social colocam como notícias de primeira página a formação de sindicatos em algumas das grandes empresas, conglomerados, ou o que queiram chamar desde que sejam adjetivadas como grandes ou enormes, como a Amazon e a Starbucks, e quando o Presidente Biden recebe na Casa Branca a seu convite o presidente do Sindicato dos Trabalhadores do centro de distribuição de Staten Island (Nova Iorque) da Amazon, Christian Smalls, juntamente com outros trabalhadores sindicais da Starbucks e de outras empresas.

 

Só que, ao mesmo tempo, o governo Biden, recompensou a Amazon, que faz de tudo contra a sindicalização dos trabalhadores, com mais um contrato de 10 biliões de dólares para o fornecimento de ‘serviços de informática’ a prestar à Agência de Segurança Nacional (NSA).

Atente-se que este contrato com a NSA é um dos 26 contratos que a Amazon tem com o Exército e a Força Aérea dos EUA, com o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, com o Departamento de Segurança Interna, com o Departamento do Interior e com o do Censo.

Se na realidade Biden quisesse demonstrar uma posição poderosa em nome dos trabalhadores, como aliás prometera (“to make sure that federal dollars do not flow into the hands of unscrupulous employers who engage in union-busting, participate in wage theft, or violate labor law”), poderia antes ter optado por reter esses contratos federais até que a Amazon permitisse a organização sindical livre e aberta.

Uma pequena nota: após a vitória sindical em Staten Island, a Amazon, umas semanas depois, despediu meia dúzia de chefes desse centro de trabalho por não terem sabido fazer abortar o nascimento do sindicato.

 

 

Eis alguns excertos de um recente artigo mais informado de Chris Hedges sobre este assunto:

 

“[…] Pode-se saber o que os oligarcas mais temem, por aquilo que eles mais procuram destruir – os sindicatos. A Amazon, o segundo maior empregador do país depois do Walmart, despeja recursos impressionantes para bloquear a organização sindical, tal como o Walmart. De acordo com documentos do tribunal, formou uma equipe com 10 departamentos, que incluía um grupo de segurança composto por militares veteranos, para combater a organização sindical de Staten Island, com planos para destruir a atividade sindical de acordo com o que constava do seu “Manual de Resposta a Protestos” (Protest Response Playbook) e do “Manual de Atividade Laboral” (Labor Activity Playbook). As equipes antigrevistas organizavam reuniões obrigatórias exaustivas, tipo maoísta, até 20 por dia, com trabalhadores, onde os supervisores denegriam os sindicatos. Utilizaram subterfúgios tornando difícil a votação num sindicato. Colocaram cartazes antissindicais nas casas de banho. Demitiram trabalhadores suspeitos de pertencerem à organização sindical.”

 

“[…] A Amazon, como a maioria das grandes corporações, não tem quaisquer compromissos com os direitos dos trabalhadores nem com a nação. Foge aos impostos por meio de uma série de escapadelas criadas pelos seus lobistas em Washington e aprovadas pelo Congresso. A empresa evitou cerca de 5,2 biliões de dólares em impostos federais em 2021, apesar de ter registrado lucros recordes de mais de 35 biliões de dólares. Desses lucros pagou apenas 6% no imposto de renda federal. A Amazon registou receitas de mais de 11 biliões de dólares em 2018, mas não pagou impostos federais e ainda recebeu 129 milhões de dólares de devolução de impostos. Jeff Bezos, da Amazon, o segundo homem mais rico do mundo, vale mais de 180 biliões de dólares. Ele, como Elon Musk, o homem mais rico do mundo, com património de 277 biliões de dólares, brinca com foguetões espaciais como se fossem brinquedos e está a acabar a construção do seu iate de 500 milhões de dólares, o maior do mundo.

 

Bezos é dono do Washington Post. O bilionário biocientista Patrick Soon-Shiong é dono do Los Angeles Times. Os fundos de risco e outras empresas financeiras possuem metade dos jornais diários nos Estados Unidos. A televisão está nas mãos de cerca de meia dúzia de corporações que controlam 90% do que os americanos veem. A WarnerMedia, atualmente de propriedade da AT&T, é proprietária da CNN e da Time Warner. A MSNBC é propriedade da Comcast, que é uma subsidiária da General Electric, a 11ª maior empreiteira da defesa nos EUA. A News Corp é proprietária do The Wall Street Journal e do New York Post. Os oligarcas dominantes não se importam com o que vemos e ouvimos, desde que permaneçamos fascinados pelos espetáculos triviais e emocionalmente motivantes que eles proporcionam. Nenhum desses veículos desafia os interesses de seus proprietários, acionistas ou anunciantes, que orquestram o ataque aos trabalhadores. Quanto mais poderosos os trabalhadores se tornarem, mais a comunicação social se armará contra eles.”

 

“[…] Os Estados Unidos tiveram as guerras contra os trabalhadores mais violentas do mundo industrializado, com centenas de trabalhadores assassinados por capangas de empresas e milícias, milhares de feridos e dezenas de milhares colocados na lista negra. A luta pelos sindicatos, e com eles salários decentes, benefícios e proteção ao emprego, foi paga com rios de sangue da classe trabalhadora e tremendo sofrimento. A formação de sindicatos, como no passado, acarretará uma longa e cruel guerra de classes. O aparato de segurança e vigilância, incluindo a Segurança Interna e o FBI, será implantado, juntamente com empreiteiros privados e bandidos contratados por corporações, para monitorar, infiltrar e destruir organizações sindicais.

 

Os sindicatos possibilitaram, por um tempo, um salário de classe média para trabalhadores da indústria automóvel, motoristas de autocarros, eletricistas e trabalhadores da construção civil. Mas esses ganhos foram revertidos. Se o salário mínimo tivesse acompanhado o aumento da produtividade, como apontou o New York Times, os trabalhadores estariam a ganhar pelo menos 20 dólares por hora.

 

A organização de sindicatos nascente na Amazon, Starbucks, Uber, Lyft, John Deere, Kellogg, a fábrica de metais especiais em Huntington, West Virginia, propriedade da Berkshire Hathaway; REI, Northwest Carpenters Union, Kroger, professores em Chicago, Sacramento, West Virginia, Oklahoma e Arizona; trabalhadores de fast food, centenas de enfermeiros em Worcester, Massachusetts, e os membros da International Alliance of Theatrical Stage Employees são sinais de que os trabalhadores estão a descobrir que o único poder real que têm é como coletivo, embora apenas uns míseros 9% da força de trabalho dos EUA seja sindicalizada. Mil e quatrocentos trabalhadores de uma fábrica da Kellogg's em Omaha, que fabrica os Cheez-Its, conseguiram um novo contrato com aumentos salariais de mais de 15% ao longo de três anos depois de no outono passado terem entrado em greve por quase três meses.

 

A traição da classe trabalhadora pelo Partido Democrata, especialmente durante o governo Clinton, que fez acordos comerciais que permitiram que trabalhadores explorados no México ou na China substituíssem os trabalhadores sindicalizados nos EUA. A legislação anti trabalhista foi aprovada por políticos nos dois partidos, comprados e pagos pelo poder em nome das grandes empresas. A desindustrialização e a insegurança no emprego transformaram-se na economia do faz de conta (gig), onde os trabalhadores são reduzidos a viver com salários de subsistência, sem benefícios ou segurança no emprego, e com poucos direitos.

 

Os capitalistas, como Karl Marx apontou, têm apenas dois objetivos: reduzir o custo do trabalho, o que significa empobrecer e explorar os trabalhadores, e aumentar a taxa de produção, o que geralmente ocorre por meio da automação, como os omnipresentes robôs laranja da Amazon carregando prateleiras amarelas em andares de armazém de milhões de pés quadrados. Quando os seres humanos interferem nesses dois objetivos capitalistas, eles são os sacrificados.

 

As dificuldades financeiras que afligem os trabalhadores, presos na servidão por dívidas e perseguidos por bancos, empresas dos cartões de crédito, empresas de empréstimos estudantis, serviços públicos privatizados, a economia gig, um sistema de saúde com fins lucrativos que não impediu os EUA de terem cerca de um sexto de todas as mortes relatadas por COVID-19 em todo o mundo - embora tenhamos menos de um décimo segundo da população mundial - e os empregadores que pagam salários baixos e não fornecem benefícios estão a ficar cada vez piores, especialmente com o aumento da inflação.

 

Biden, enquanto esbanja 13,6 biliões de dólares na Ucrânia e expande o orçamento militar para 754 biliões de dólares, supervisionou a extensão da perda de benefícios de desemprego, a assistência de aluguer de habitação, a tolerância para empréstimos estudantis, os cheques de emergência, a moratória sobre despejos e agora o fim da expansão do crédito de imposto infantil. Ele recusou-se a cumprir até mesmo as suas promessas de campanha mais ligeiras, como o aumentar o salário mínimo para 15 dólares por hora e o perdoar os empréstimos estudantis. O seu projeto Build Back Better foi destruído sem regresso.

 

Os trabalhadores da Amazon, como muitos trabalhadores americanos, enfrentam condições de trabalho terríveis. Eles são forçados a trabalharem por turnos obrigatórios de 12 horas. Eles são impedidos de irem à casa de banho, tendo muitas vezes de urinar em garrafas. Eles, no verão, suportam temperaturas sufocantes dentro do armazém. Eles têm de digitalizar um novo item a cada 11 segundos para atingirem a sua quota. A empresa sabe imediatamente quando eles se atrasam. Se deixarem de cumprir a quota, é demitido.

 

Will Evans, num artigo de investigação “Reveal”, do The Center for Investigative Reporting, descobriu que ‘a obsessão da empresa com a velocidade transformou os seus armazéns em fábricas de lesões’. Evans acumulou relatórios de lesões internas de 23 dos 110 ‘centros de atendimento’ da empresa em todo o país. ‘Em conjunto’, escreve ele, ‘a taxa de lesões graves nessas instalações foi mais que o dobro da média nacional do setor de armazenamento: 9,6 lesões graves por 100 trabalhadores em tempo integral em 2018, em comparação com uma média da indústria naquele ano de 4’.

Aqueles que estão lesionados, Evans descobriu, são ‘postos de lado como bens danificados ou enviados de volta para trabalhos que os prejudicam ainda mais’.

 

O que aconteceu a Parker Knight na Amazon, um veterano com deficiência que trabalhou no armazém de Troutdale, Oregon, este ano, mostra a precisão implacável do sistema da Amazon’, escreve Evans. ‘Knight teve permissão para trabalhar em turnos mais curtos depois de sofrer lesões nas costas e no tornozelo no armazém, mas o ADAPT [programa de rastreamento de software] não o poupou. Knight foi multado três vezes em maio por não cumprir sua cota. As expectativas eram precisas. Ele tinha que escolher 385 itens pequenos ou 350 itens médios a cada hora. Ao fim de uma semana, ele tinha atingido 98,45% da sua taxa esperada, mas isso não foi considerado suficientemente bom. Esse déficit de velocidade de 1,55% fez-lhe receber mais um aviso por escrito – o último antes da rescisão.’

 

O New York Times revelou no ano passado que a Amazon também tem regularmente como alvo os que foram pais recentes, os doentes que se debatem com crises médicas e outros trabalhadores vulneráveis ​​em licença.

Trabalhadores em todo o país que enfrentam problemas médicos e outras crises de vida, foram demitidos quando o software de atendimento erroneamente os marcou como faltosos, isto segundo antigos e atuais membros da equipe de recursos humanos, alguns dos quais falariam apenas anonimamente por medo de represálias’. informou o jornal. ‘As notas dos médicos desapareceram em buracos negros dos bancos de dados da Amazon. Os funcionários pugnavam até mesmo para conseguirem entrar em contacto com os gerentes do caso, percorrendo redes telefónicas automatizadas que encaminhavam as suas chamadas para funcionários sobrecarregados do back-office na Costa Rica, Índia e Las Vegas. E todo o sistema de licenças era uma manta de retalhos de programas que muitas vezes não falavam uns com os outros. Alguns trabalhadores que estavam prontos para regressar descobriram que o sistema estava com muito backup para os processar, o que resultava em semanas ou meses de perda de vencimento. Funcionários mais bem pagos, que tiveram que navegar pelos mesmos sistemas, descobriram que arranjar uma licença de rotina podia-se transformar num pântano.’

 

A história demonstrou que o único poder que os cidadãos têm é através do coletivo, sem esse coletivo somos tosquiados como ovelhas. Esta é uma verdade que a classe dominante passa muito tempo obscurecendo.

 

A classe dominante, por meio de gurus de autoajuda como Oprah, pregadores do ‘evangelho da prosperidade’ e da indústria do entretenimento, efetivamente privatizou a esperança. Eles vendem a fantasia de que a realidade nunca é um impedimento para o que desejamos. Se acreditarmos em nós mesmos, se trabalharmos duro, se entendermos que somos verdadeiramente excecionais, podemos ter o que quisermos. A privatização da esperança é perniciosa e autodestrutiva. Quando não alcançamos os nossos objetivos, quando os nossos sonhos são inatingíveis, somos ensinados que tal não é devido à injustiça económica, social ou política, mas a falhas dentro de nós. A história demonstrou que o único poder que os cidadãos têm é através do coletivo, sem esse coletivo somos tosquiados como ovelhas. Esta é uma verdade que a classe dominante passa muito tempo obscurecendo.

 

Qualquer avanço que façamos na justiça social, política e económica é imediatamente atacado pela classe dominante. A classe dominante reduz os ganhos que obtemos, que foi o que aconteceu após a ascensão dos movimentos de massa na década de 1930 e mais tarde na década de 1960. Os oligarcas procuram extinguir o que o cientista político Samuel Huntington cinicamente chamou de ‘excesso de democracia’. O sociólogo Max Weber, por isso, chamou a política de vocação. A mudança social não pode ser alcançada simplesmente pelo voto. Exige um esforço constante e incessante. É uma luta interminável por uma nova ordem política, que exige dedicação ao longo da vida, organizando-se para manter os excessos vorazes do poder sob controle e o sacrifício pessoal. Esta vigilância eterna é a chave para o sucesso.

 

Enquanto escrevo, a vasta maquinaria da Amazon está sem dúvida a planear destruir o sindicato em Staten Island. Não pode permitir que seja um exemplo de sucesso. Possui 109 ‘centros de atendimento’ que está determinada a manter não sindicalizados. Mas, se não nos acomodarmos, se nos continuarmos a organizar e a resistir, se unirmos as nossas armas com os nossos aliados sindicalizados em todo o país, seremos capazes.”

 

 

(376) Claude Eatherly Dreifus Assange

Tempo estimado de leitura: 12 minutos.

 

Quem com certas coisas não perde a cabeça, é porque não tem nada a perder, Lessing.

 

Na verdade, a sociedade não pode aceitar a realidade da minha culpa sem reconhecer ao mesmo tempo que a sua culpa é muito mais profunda, Claude Eatherly.

 

Bem-aventurada a época em que os loucos falam assim, desventurada a época em que só os loucos falam assim.

 

 Uma vez que adquirimos a capacidade para por fim ao tempo, já não há marcha atrás; poderemos ser capazes de aprender coisas novas, mas o que nunca poderemos fazer é desaprender o que aprendemos, G. Anders.

 

 

 

 

A 6 de agosto de 1945, o major aviador Claude Eatherly (1918–78) descolou de Tinian, uma ilha no Pacífico, para, com o seu avião B-29 Straight Flush sobrevoar Hiroxima, verificar as condições do tempo (a bomba teria de atingir um determinado alvo que teria de estar visível) e o nível da oposição armada inimiga presente, e mediante as condições encontradas informar por rádio o chefe da missão, o tenente coronel Paul Tibbets, indicando que podia prosseguir para o objetivo.

Tibbets, pilotando o B-29 Enola Gay, assim fez, e largou a histórica primeira bomba atómica sobre Hiroxima, matando instantaneamente mais de 92.000 pessoas (japoneses) e pulverizando a cidade. Três dias depois seguiu-se Nagasáqui e mais 40.000 mortos.

Dois anos depois, em 1947, Eatherly é dispensado pela Força Aérea (terminada a Guerra, havia que reduzir os efetivos, e no seu caso porque o comportamento deixava dúvidas - ele copiara num exame escrito). Os próximos 17 anos passa-os a entrar e a sair de prisões (por crimes estranhos, como o de assaltar uma loja de conveniência com uma pistola partida, exigir que as vítimas pusessem todo o dinheiro numa mala, e depois sair deixando a mala em cima do balcão da loja), hospitais (duas tentativas de suicídio) e do Hospital dos Veteranos em Waco, Texas, acabando em 1961 por, apesar do pedido do irmão e com a conivência do hospital para ser declarado o seu internamento definitivo como doente mental (o que implicaria que o internamento não seria voluntário e do qual não poderia sair por sua vontade) ser declarado pelo tribunal como suficientemente competente para poder gerir a sua vida.

Tentando assim sair legalmente do hospital, viu-se impedido de o fazer por a Força Aérea ter solicitado o seu internamento definitivo, o que veio invalidar a sentença do tribunal. Segundo o seu médico, ele deveria de deixar de escrever artigos contra as armas nucleares e de os enviar para publicação.

Decidiu-se então por fugir do hospital, e viveu livre durante dois meses, até que foi mandado parar por um polícia que lhe disse que tinha passado um semáforo vermelho (o que não era verdade, porquanto não era ele que estava a conduzir), sendo de novo internado no hospital.

É na sequência deste episódio que Günther Anders vai escrever ao presidente Kennedy, a seguinte carta:

 

 

De Günther Anders para o Presidente John F. Kennedy

13 de janeiro de 1961.

 

Prezado senhor Presidente,

 

O motivo porque lhe escrevo esta carta, e que simultaneamente a revelo à imprensa internacional, é o seguinte: dado o grande número de assuntos que tem tido de despachar  durante estes últimos meses, é possível que lhe possa  ter escapado um determinado caso, mais corretamente um escândalo moral que herdou ao assumir as rédeas do governo; um escândalo moral que ameaça passar para a história como o Caso Dreyfus do século XX -ou melhor, como um caso talvez ainda mais grave, pois devido à rapidez das comunicações atuais, faz com que aqueles que provocam ou mesmo que apenas toleram um escândalo como este, possam perder o seu bom nome e respeitabilidade mais rapidamente e mais profundamente do que a França perdeu o seu bom nome com o Caso Dreyfus. Estou a falar-lhe do caso de Claude Eatherly, o piloto de Hiroxima que, como naturalmente sabe, foi quem deu o sinal de «Prossigam» nas duas «missões» atómicas.

Provavelmente, perguntar-se-á que direito tenho eu, um filósofo vienense que vive longe de Waco, o local de residência de Eatherly, e longe de Hiroxima, o lugar da sua ruína, para emitir um juízo sobre este caso. Resposta: há ano e meio que mantenho correspondência com Eatherly, e tenho em meu poder um sem número de cartas que não só transmitem uma imagem completa deste homem, mas que o retratam como uma pessoa digna de respeito.

Pode também perguntar como o conheci. Resposta: não o conheço pessoalmente. Mas como desde 1945 tenho tentado dilucidar os problemas morais que a era atómica nos coloca – as minhas publicações sobre este assunto não são inteiramente desconhecidas – sigo com interesse os destinos e as manifestações das figuras principais que abriram a porta que nos conduziu a esta nova era; numa palavra: num certo dia caiu nas minhas mãos um artigo da Newsweek sobre Eatherly, artigo esse que me comoveu tanto que me decidi escrever-lhe. A minha carta e a resposta de Eatherly acabaram publicadas em todo o mundo. E foi assim que nasceu a correspondência a que acima referi.

Mas o verdadeiro motivo desta carta é a notícia que hoje, 13 de janeiro, chega vinda de Waco (Texas), segundo a qual um informe forense declara que Eatherly é considerado como doente mental.

Falando o mais claramente possível: este veredicto não se ajusta à realidade dos factos. E não duvido nem por um momento que também o senhor presidente, após dar uma vista de olhos nos extratos das cartas de Eatherly que aqui junto como apêndice, considerará estranho o diagnóstico dos médicos forenses.

A um homem como este só se pode qualificá-lo como «anormal» se, como se costuma fazer nestes tempos de conformismo, se identificar 'comportamento normal' como 'comportamento médio'; certamente, se por conduta «anormal» se entende aquela conduta que não se ajusta à norma, então a inflexibilidade e a permanente vigilância da consciência de Eatherly tem de considerar-se algo «anormal». Mas, se assim o fizermos, deveríamos também incluir as obras de santo Agostinho ou de Kierkegaard (só para mencionar dois homens espiritualmente muito distintos de Eatherly) nas prateleiras da secção de psiquiatria da nossa biblioteca, em vez de as colocar na secção de teologia ou de filosofia moral.  

Pode-se objetar que Eatherly, através de seu comportamento estranho (os seus repetidos assaltos simulados e outras coisas similares) na verdade provaram a sua anormalidade (no sentido médico do termo). Naturalmente, enquanto tais, estes atos são indiscutíveis, mas quando se os interpreta, adquirem outro sentido, ou melhor dito, adquirem sentido.

Qualquer médico sensato o sabe: não é normal atuar com normalidade durante ou depois de uma situação anormal. Não é normal que alguém, depois de sofrer um choque terrível, se comporte como se nada se tivesse passado. Assim sendo, desde um ponto de vista médico é ainda menos normal que uma pessoa continue a comportar-se de uma forma «normal» quando o espoletar desse choque exceder tudo aquilo que uma pessoa é capaz de imaginar, assimilar e lamentar – e este é o caso de que falamos, pois Eatherly deixou atrás de si centenas de milhar de mortos e uma cidade arrasada. Reagindo de forma «anormal», ele reagiu da forma adequada. Para nomear aqueles casos em que se produz uma reação inadequada por defeito, a psicologia académica tem um termo técnico, o conceito de «agnosia» (cegueira da alma), cujo exemplo paradigmático é o das declarações célebres e infames do seu predecessor, o presidente Truman que, por ocasião do seu aniversário aos 75 anos, ao lhe ser perguntado se ao longo da sua vida tinha existido qualquer coisa que lhe tivesse causado  dor ou arrependimento, respondeu que sim, que lamentava profundamente não se ter casado antes. Hiroxima nem lhe veio à mente; aparentemente esse acontecimento fora muito grande para entrar numa mente tão pequena. Ou, nas palavras de Lessing: «Quem com certas coisas não perde a cabeça, é porque não tem nada a perder».

Por outro lado, considerar fenómenos isolados de Eatherly como «ações criminosas», em vez de interpretá-las como reações, é muito pouco científico e impróprio da profissão médica. Isto é o mesmo que nós, frente a um homem espancado até a morte, nos limitássemos a constatar a extraordinária altura dos seus gritos e os interpretássemos como prova da sua anormalidade, passando por alto a anormalidade da situação em si.

Infelizmente, existem muitas razões para pensar que os médicos de Eatherly tenham considerado as suas reações de forma isolada, desligando-as das ações às quais eram resposta: efetivamente (veja-se a Newsweek de 25 de maio de 1959), estes médicos falaram de «complexo de culpa», tratando assim de fazerem crer, inclusivamente a quem tivesse algum conhecimento de psicologia, que, na realidade, Eatherly tinha um sentimento de culpabilidade injustificado e absurdo, algo que só se podia entender como uma doença. Vulgarizando vergonhosamente um termo psicanalítico, tiveram até o atrevimento de dizer que padecia de um «complexo de Édipo», como se por detrás do seu comportamento houvesse um desejo de incesto, e não a imagem inapagável de centenas de milhar de mortos. Permita-me, senhor presidente, que à margem lhe diga que este uso absurdo e inapropriado de linguagem científica, cuja autêntica finalidade é de ataviar de cientificidade o que não passam de meias verdades, tem vindo há vários anos a prejudicar o prestígio dos Estados Unidos perante os intelectuais do mundo inteiro.

Se Eatherly cometeu aparentes atos ilícitos, transgrediu a lei, fê-lo por um motivo muito plausível. Enquanto tentava desesperadamente assumir os efeitos de uma ação em que tinha ficado incorporado como mais uma peça entre os milhares de peças desenhadas para cumprirem perfeitamente a sua função; enquanto que, em virtude da inutilidade do seu intento, conseguia compreender que o que ali tinha acontecido excedia a capacidade de todo o ser humano para se responsabilizar pelos seus atos; enquanto chegava à conclusão que era dever de todos intentar conceber a enormidade  do sucedido e a horrível facilidade técnica com que tal monstruosidade tinha podido acontecer, com o fim de que algo assim não voltasse jamais a acontecer; enquanto que nele amadurecia lentamente a determinação de consagrar a sua vida a esta causa; enquanto tudo isto ocorria no seu interior, Eatherly era celebrado como um herói nacional, e nem uma só revista deixou de oferecer este patriótico must: a formosa fotografia do dito rapaz do Texas. Para Eatherly, esta fama era-lhe simplesmente insuportável. E os seus atos ilícitos têm de ser vistos como o resultado desta insofrível incongruência entre culpa e glamour. Como a sua participação na missão de Hiroxima não era reconhecida como um crime, teve de arquitetar e fazer uso de outros métodos para conseguir eu lhe dessem o castigo. Existe também um direito ao castigo – expressão introduzida por Hegel – e se há algo que carateriza a quem não é um criminoso, é precisamente a insistência no seu direito a ser castigado. Foi exatamente isto que fez Heatherly: com os seus aparentes atos ilícitos, procurou que se lhe desse o castigo que não se lhe queria conceder.

Naturalmente, não é uma casualidade que lhe negassem o castigo e que o seu permanente arrependimento – que só podia resultar ineficaz, uma vez que diante aqueles factos todo o arrependimento é impotente – se apresentasse publicamente como um arrependimento injustificado, pois reconhecer que um arrependimento é justificado equivale a considerar como provado o crime que o provoca. Por outras palavras: o seu arrependimento seria uma acusação, uma acusação contra a missão de Hiroxima e contra quem tinham sido os seus verdadeiros artífices, cuja absoluta falta de imaginação os tinha inclusivamente levado a crer que eram capazes de se responsabilizarem pelo sucedido. Ou para dizer com as palavras do doente mental: «Na verdade, a sociedade não pode aceitar a realidade da minha culpa sem reconhecer ao mesmo tempo que a sua culpa é muito mais profunda». (Carta sem data que Eatherly me escreveu entre 10 e 15 de agosto de 1959). Perante uma frase como esta, só se pode exclamar: Bem-aventurada a época em que os loucos falam assim, desventurada a época em que só os loucos falam assim.

Provavelmente, ao lerem esta carta alguns leitores menearão a cabeça, perguntando-se: «Mas, porquê ele? Porquê ele arrepender-se quando apenas se limitou a dar o sinal que podiam prosseguir; ele, que não se inteirou da descoberta da divisão do átomo a não ser depois de fazer o que fez; ele, cuja única coisa que fez foi cumprir ordens e que foi só um instrumento?»

Senhor presidente, esta é uma objeção que eu nunca poderia aceitar. Não quero aqui entrar na ambiguidade, e isto exprimindo-me eufemisticamente, que se incorre quando se dão ordens a alguém para fazer algo sem lhe permitir que nada saiba sobre o efeito da ação ordenada. Limitar-me-ei a falar sobre o “não saber” como desculpa de um crime. Eu sou judeu, perdi muitos amigos nas câmaras de gás de Hitler. Com estas palavras, «Limitei-me a cumprir ordens», os funcionários do extermínio intentaram lavar as mãos; estas palavras parecem-se demasiado com aquelas que pronunciou Eichmann e que ainda circulam na imprensa internacional: «Na verdade, eu não fui senão uma pequena peça na engrenagem, limitando-me a cumprir as instruções e as ordens do Reich. Não sou um criminoso nem um assassino em série» (Life, 9 de janeiro de 1961).

Não, Eatherly não é o irmão gémeo de Eichmann, mas ainda bem para nosso consolo, ele é justamente o seu polo oposto. Não é o homem que pretende desculpar a sua inconsciência apelando para a engrenagem de que foi parte, mas antes é um homem que reconhece que esta máquina representa uma terrível ameaça para a consciência. E deste modo aponta certeiramente para o que hoje constitui o nosso principal problema moral, alertando-nos para um risco fundamental: quando apelamos para a engrenagem da que acreditamos ser meramente uma peça inconsciente e consideramos totalmente justificada a frase: «Nós só fizemos o que os outros faziam», cancelamos a liberdade da decisão moral e a liberdade da consciência, convertemos a palavra «livre» da expressão «o mundo livre» no termo mais vazio e hipócrita. Temo que não tenhamos sabido evitar este risco. A grandeza de Eatherly consiste precisamente em ter a valentia de dar a volta ao argumento, e assim se ter subtraído à perversão moral dominante. Eatherly proclama: aquilo em que eu só participei é também algo que eu fiz; o objeto da minha responsabilidade não são apenas os meus atos individuais, mas sim todos «os atos em que participei»: a pergunta da nossa consciência não é apenas: «O que devemos de fazer?», mas também: «Em que e até que ponto é que devemos participar ou não participar?» Ou melhor: Eatherly sente-se inclusivamente mais responsável dos atos que realizou com outros que com os seus próprios atos enquanto indivíduo, pois as consequências destes últimos, comparados com os efeitos catastróficos dos primeiros, acabam por serem totalmente insignificantes. Comportar-se de forma irrepreensível na vida privada não é grande coisa, pois nesta esfera o costume costuma substituir a consciência. É para se enfrentar com o terror subtil da participação que se requer uma autêntica autonomia moral e um verdadeiro valor cívico; e quando este enfrentamento, como acontece no caso de Eatherly, consiste num questionamento da acumulação de armas nucleares por parte de um país, o círculo infernal da mera participação rompe-se, a ação converte-se verdadeiramente em ação individual no sentido clássico do termo. Eatherly foi constantemente celebrado como herói. Mas o seu feito não foi que, após a sua célebre missão, Hiroxima não exista, mas antes o ter ousado gritar «Nunca mais Hiroxima» depois de fazer o que fez.

Normalmente, a engrenagem desculpa a todos – incluindo os que a dirigem e aos seus proprietários – de toda a responsabilidade, de modo que no final ninguém assuma qualquer responsabilidade, e o único que fica é a terra carbonizada das vítimas e a radiante boa consciência dos néscios. Quando Eatherly se responsabiliza por aquilo em que participou, faz justamente o contrário: intenta manter viva a consciência na época em que a engrenagem prevalece sobre o indivíduo; e é isto que não se lhe consente, pois, a consciência implica sempre crítica, e, portanto, é sempre inconformista.

Não, isto não se lhe consente. Da informação que tenho sobre o que aconteceu em Waco, parece-me indubitável que as Forças Aéreas como as autoridades do Veterans Administration Hospital, fizeram todo o possível para que os médicos retivessem indefinidamente Eatherly no centro hospitalar. Infelizmente, não conheço em profundidade o Direito norte-americano. Por isso não sei e que lei se podem basear as forças Aéreas para disporem de um civil (Eatherly foi afastado do serviço em 1947) nem em que disposições jurídicas se baseiam para atrasar as audiências a pedido dos médicos, nem que cláusula permite que um cidadão considerado oficialmente como um «doente voluntário» possa ficar detido contra a sua vontade, sendo preso após abandonar o hospital por vontade própria, voltando a ser internado. Como digo, como leigo no respeitante à Federal Law e ao Direito público do Estado do Texas, todas estas medidas, cuja correção não ponho em dúvida, excedem o meu conhecimento, e não creio que seja pertinente continuar a aborrecê-lo com o meu desconhecimento destes temas.

Sem dúvida, que pelo tom desta carta, o senhor presidente, terá dado conta que não é minha intenção solicitar o indulto de Eatherly. A concessão de indulto, mas também o simples facto de o solicitar, equivaleriam a reconhecer implicitamente a culpa da pessoa para quem se solicita o indulto. Ora bem, o facto que Eatherly tenha a consciência e valor suficientes para se sentir culpado de um crime urdido por outros, não pode considerar-se como algo punível, mas antes um comportamento digno de respeito e de gratidão. E, segundo o meu entendimento, para aqueles que se sentem orgulhosos de ser norte-americanos seria não só lamentável, mesmo vergonhoso, que Eatherly seja considerado como um estorvo ou uma vergonha no seu país; e que, pelo contrário, justamente ali onde o ódio para com a sua pessoa fosse mais compreensível, em Hiroxima e Nagasaki, seja alguém respeitado e inclusivamente querido. Sei que é assim tanto pelo que as próprias vítimas dizem – uma vez que falei com algumas delas sobre a sorte dos pilotos de Hiroxima, e que consideram Eatherly como mais uma vítima daquela catástrofe -, como pelas demonstrações de afeto que ele próprio tem recebido daquele país e que me deu a conhecer. «Esta carta – escreveu em 29 de julho de 1959 um grupo de trinta raparigas de Hiroxima contaminadas pela radioatividade – foi escrita para lhe expressar a nossa mais profunda simpatia e para lhe assegurar que não sentimos nenhum ódio para consigo. Tal como nós, você é mais outra vítima de Hiroxima». Sem dúvida, estas palavras só nos podem deixar mudos a todos os que por um instante tenham nascido iguais, pois saem da boca dessas pessoas que nos permitem sentir orgulhosos de pertencer ao género humano.

 

  1. Poderia o senhor presidente considerar a possibilidade de organizar um grupo de psiquiatras para voltarem a examinar a saúde mental de Eatherly, por forma a que a sorte dependesse do diagnóstico dessa nova comissão? Essa comissão deveria utilizar os mesmos critérios para a sua formação que os seguidos para idênticas comissões das Nações Unidas, ou seja: deveria ter um caráter internacional e os seus membros deveriam de ser científicos de renome de vários países, por exemplo um sueco, um indiano, um polaco e um japonês. Se o senhor presidente der satisfação a este meu pedido, não haveria dúvida que a sua iniciativa confirmaria claramente a respeitabilidade e a estatura moral dos Estados Unidos. Por outro lado, um passo como este no início do seu mandato, poderia ser interpretado como uma declaração de princípios do seu governo, e inspiraria em todos os países do mundo uma absoluta confiança sobre os passos que pudesse vir a tomar enquanto estivesse no poder.
  2. Poderia imaginar perfeitamente, uma vez que o senhor presidente passa por ser um homem moderno e sem preconceitos, vê-lo um dia numa qualquer ocasião que viesse a falar com Eatherly. Mas não como primus inter pares, mas de igual para igual, pois, com efeito, a enorme responsabilidade que agora tem – e que o desenvolvimento da física nuclear converteu praticamente na responsabilidade sobre o «Ser ou não ser» da humanidade – esta responsabilidade, esta carga, não é muito distinta da que Eatherly suporta desde há quinze anos, pois durante todos este tempo ele não a esqueceu nem um só momento. E mesmo no caso de o homem Eatherly, seu possível interlocutor fosse um pobre diabo (que não o é), se visse a ser condenado por realizar inconsciente e involuntariamente aquela ação e a arrastar durante toda a sua vida esta carga, tal convertê-lo-ia numa figura trágica, num símbolo de hoje, num homem da mesma condição que o senhor presidente, e não só enquanto nascido igual.

 

Atenciosamente,

Günther Anders

 

 

Finalmente, no início de 1962, Eatherly é solto. Viverá até 1978, casado, com duas filhas, sem problemas de maior e regressando no fim da vida ao hospital em Waco para morrer de cancro.

Nesse verão, Anders transcreve na Monthly Review, (1) NY, toda a sua correspondência com Eatherly, a que acrescenta um epílogo em que destaco:

 

“[…] É possível que, quando se publiquem estas linhas, a situação tenha voltado a alterar-se. Nenhum intento de compreender a nossa época goza do privilégio dos jornalistas e apresentadores de televisão, que podem permitir-se ao luxo de sincronizar as suas palavras com os factos que estão a informar; diferentemente deles, nós outros não temos outro remédio que ir a reboque da atualidade, e somos disso conscientes. Mas tal não nos deve inquietar, pois não é a nossa tarefa o apresentar os últimos sucessos, mas sim interpretar uma situação permanente. Isto evita-nos o ter que ir a reboque desses sucessos, evidentemente só no melhor e nos casos menos prováveis, porquanto o único que permanece na nossa situação sempre cambiante é a constante ameaça de que nada seja permanente, e o facto de que todas as nossas advertências chegam sempre tarde.

[…] Porque de agora em diante – se ainda tivermos tempo – estamos condenados, e continuaremos estando, a viver numa situação cuja natureza é já imutável; estamos condenados a viver na «última época», uma época que só pode pôr-se fim a si mesma, e que continuará a ser a última ainda que logremos atrasar dia a dia o «fim dos tempos» […] Este rasgo distintivo da nossa época jamais desaparecerá, pois uma vez que adquirimos a capacidade para por fim ao tempo, já não há marcha atrás; poderemos ser capazes de aprender coisas novas, mas o que nunca poderemos fazer é desaprender o que aprendemos”.

 

 

 

(375) Prometeu realizado

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

Guns don’t kill people – people kill people, mote da NRA (National Rifle Association).

 

A teoria aparece como uma construção, um meio auxiliar para compensar a falta de dados, Chris Anderson.

 

Qualquer tentativa para nos pôr a atuar racionalmente tem de ter em consideração todos os preconceitos porque somos constituídos, Daniel Kahneman.

 

Nós somos Utópicos Invertidos: ao passo que os Utópicos normais são incapazes de produzir o que não conseguem visualizar, nós já não conseguimos visualizar o que estamos a produzir, Günther Anders.

 

 

 

 

Já aqui falámos várias vezes sobre “mito”, nomeadamente no artigo de 24 de fevereiro de 2019, “As razões que a razão desconhece”, que iniciámos tentando explicar que perante uma realidade difícil de perceber e dominar, os primeiros homens viram-se na necessidade de “construírem um racional” que lhes permitisse simultaneamente entendê-la e protegerem-se a si próprios e às suas comunidades. Surgiu assim uma das estruturas compreensivas face-a-face com a realidade, uma primeira forma do humano se confrontar com a realidade, a que posteriormente se veio chamar de “mito”.

Independentemente das várias explicações e compreensão que possam acompanhar o mito, é importante perceber que ele funciona sempre através daquilo que chamamos ser pensamento por correlação.

Exemplificando: Se durante a noite em que uma mulher grávida está para dar à luz, um lobo uivar e logo de seguida ela tiver uma criança saudável, então forma-se o mito de que sempre que um lobo uivar na noite em que uma mulher grávida estiver para dar à luz, tal é bom para a criança. Ou seja, apesar de não haver qualquer ligação entre as duas ocorrências, conclui-se pela sua relação.

A partir do momento em que a humanidade encontrou um método (a escrita) para transmitir, de geração em geração, séries de observações feitas, passando a ser possível classificá-las e coordená-las para daí tirar conclusões e induções, então a chamada “filosofia natural” (ciência) vai começar a substituir a mitologia. O mito é substituído pela hipótese, pela teoria científica. Causas e consequências, lógica. Um pensamento racional, com que temos vivido os últimos 2.700 anos, e que começa a ser atacado por desnecessário e por obstruir o “progresso”.

 

 Em 2008, Chris Anderson, escreveu um artigo muito interessante, “The end of theory: the data deluge makes the scientific method obsolete” (O fim da teoria: o dilúvio dos ‘data’ torna obsoleto o método científico), que começa com uma citação do matemático George E. P. Box: “Todos os modelos estão errados, há é alguns que são úteis”.

 Para Anderson, a teoria aparece como uma construção, um meio auxiliar para compensar a falta de dados. Se dispusermos de dados suficientes, a teoria passa a ser supérflua. Em vez da criação de modelos de teorias hipotéticas, podemos passar diretamente à análise matemática sem o estabelecimento de hipóteses sobre o que poderão significar, deixando para depois o estabelecimento do contexto.

 Podemos lançar números para as maiores constelações de computadores existentes e deixar que sejam os algoritmos estatísticos a encontrar os padrões que a ciência não consegue. A correlação passa a substituir a causalidade. O “é assim” substitui o “porque”.

Transcrevendo Anderson:


Empresas como a Google, que cresceram numa época de massas de dados enormemente grandes, hoje em dia não têm que decidir-se por modelos errados. Aliás, não têm mesmo que decidir-se em geral por nenhum modelo […] Quem pode dizer porque é que os homens fazem o que fazem? Fazem-no simplesmente, e podemos constatá-lo e medi-lo com uma exatidão sem precedentes. Se dispusermos de suficiente data, os números falam por si mesmos.”

A Google não sabe porque é que uma página é melhor do que outra: é suficiente que as estatísticas que lhe chegam dos enlaces, lhe digam que é melhor. Não é necessária qualquer análise semântica ou causal. É por isto que a Google pode traduzir linguagens sem as ‘conhecer’, e é por isso que pode adicionar anúncios a conteúdos sem conhecer nem os anúncios nem os conteúdos.

Daniel Kahneman, um notável psicólogo e economista, Prémio Nobel de Economia em 2002, apresentava nas suas masterclasses que deu entre 2007 e 2008, “A  short course of thinking about thinking”, uma enorme quantidade de dados de exemplos da vida, desde influências nas decisões judiciais até às dos negócios, para nos levar a concluir que não sabemos quem somos ou como somos, não sabemos o que na realidade estamos a fazer e porque o estamos a fazer.

 Kahneman queria com isto demonstrar que nós não somos criaturas racionais, sendo antes instintivas, pelo que nos avisava que qualquer tentativa para nos pôr a atuar racionalmente tinha de ter em consideração todos os preconceitos porque somos constituídos, caso contrário, o falhanço seria inevitável.

Parece que ao fim de milhares de anos, o pensamento de correlação base do mito, menosprezado e menorizado, tenha conseguido permanecer, acabando mesmo por ressuscitar. Ou seja, o mito pode encerrar verdades escondidas, não reveladas.

 

 

Prometeu, que etimologicamente parece querer significar “aquele que vê antes”, que é “clarividente”, e o seu irmão Epimeteu, que ao contrário era “aquele que vê depois”, foram os titãs encarregados de criarem os mortais, os seres vivos, quer animais quer humanos.

Prometeu ficaria encarregue de supervisionar as criações do irmão. Este fez os animais e concedeu-lhes dons como força, coragem, velocidade, presas, garras, asas e agilidade. Quando chegou a vez dos humanos, criados a partir do barro, encontrou-se sem mais qualidades para distribuir.

Tinham olhos para ver, mas não tiravam proveito do que viam; tinham ouvidos, mas não compreendiam os sons; como vultos em um sonho, ao longo dos dias, andavam sem propósito em total confusão. E viviam no fundo do solo, em cavernas escuras, como bandos de formigas”, Ésquilo, Prometeu Agrilhoado, século V a. C.

Assim que Prometeu viu o que o irmão tinha feito, apiedou-se dos humanos, pelo que resolveu roubar o fogo aos deuses dando-o aos homens para assim estes ficarem em vantagem face aos animais.

Quando Zeus, o deus dos deuses, descobriu o que Prometeu fizera, jurou vingar-se:

 

Filho de Jápeto, que ultrapassou a todos em astúcia, está feliz por me ter enganado. Mas o seu presente será uma grande praga para a humanidade. Em troca do fogo, darei aos homens um mal que vai seduzi-los, e que eles acolherão com alegria, sem saber que abraçam a sua própria destruição”, Hesíodo, Trabalhos e Dias, século VIII a. C.

 

Resolve ainda castigá-lo: mandou Hefesto, deus da metalurgia, acorrentá-lo no cimo do Monte Cáucaso. Onde todos os dias pela manhã aparecia uma águia para lhe comer o fígado, que regenerava durante a noite para voltar a ser comido no dia seguinte.

Mas antes de ser castigado, Prometeu avisou o irmão para que tivesse cuidado e não aceitasse nenhum presente de Zeus. Mas Zeus encarrega a lindíssima Pandora (“um mal belo”, Hesíodo, Teogonia) de o seduzir, dando-lhe como presente de casamento uma caixa, a ainda hoje conhecida como “caixa de Pandora”, que continha todas as desgraças que assolariam a humanidade.

 

Na sua interpretação clássica, o fogo significa a possibilidade de

transformação da natureza e o conhecimento. O fogo como tecnologia, um marco na história da humanidade que permitiu a possibilidade de criar e habitar estruturas artificiais, um salto na evolução e adaptação humana. E o fogo como conhecimento que podia ser usado tanto para o bem como para o mal.

Neste sentido, Prometeu representa um salvador da humanidade, mas que, contudo, devido ao seu temperamento transgressor foi cruelmente punido, “o castigo da hybris por ultrapassar os limites da justa medida”, uma advertência para se ser obediente aos poderosos.

Se o associarmos ao irmão, pode representar o símbolo da ambiguidade ou da dualidade entre aquele que prevê ou que age com sensatez e discernimento, e aquele que não reflete antes de tomar atitudes.

 

Não admira que perante a importância de tal mito a grande maioria dos pensadores, escritores e artistas tenham deixado a sua interpretação. De Sócrates e Platão, de Bacon a Nietzsche, Goethe, Kafka e Mary Shelley (que no seu Frankenstein colocou como subtítulo O Prometeu Moderno), de Ibsen a Sartre (As moscas), na música erudita, ópera, ballet e ainda no cinema, com o Prometheus (2012) de Ridley Scott, a que se lhe seguiu a continuação Alien: Covenant (2017), todos tentam comunicar-nos a sua visão.

 

 

GüntherAnders (nascido Günther Stern,1902-1992), filósofo judeu alemão, primeiro marido de Hannah Arendt, aluno de Edmund Husserl e de Martin Heidegger, primo de Walter Benjamin, publicou em 1956 o ensaio “Da Vergonha Prometeica” como parte da sua obra A Obsolescência dos Seres humanos 1: Sobre a Alma na Idade da Segunda Revolução Industrial.

A ideia para esse ensaio já o vinha acompanhando desde 1930, quando na “The Pathology of Freedom: An Essay on Non-Identification” expressava que os seres humanos tinham nascido inacabados, como seres que para se sentirem à vontade no mundo necessitavam de se refazerem com a ajuda de artifícios.

É que, contrariamente aos outros animais, os humanos foram deixados nus, sem defesas e sem abrigo, o que fez com que eles só se pudessem desenvolver no mundo se, com a ajuda de artifícios, se transformassem noutros seres. Tinham de se “retirar”, de se afastar dessa sua falta de poder inicial e dessa sua exposição às contingências do mundo. Retiraram-se para abrigos, para a utilização de vestuário, para o endurecimento das mãos ou para a utilização de ferramentas e de instrumentos, ou para o ludibriar a natureza através de plantações. Só pela utilização desses artifícios puderam encontrar o espaço que lhes permitisse emergir neste mundo e conseguir moldá-lo.

É o mito de Prometeu que permite estabelecer a ligação entre a humanidade e a tecnologia, ao tornar visível a “invisibilidade” do seu efeito formativo, apresentando o humano não como um utilizador de artefactos, mas como um ser tecnológico, um ser que existe não só devido à sua relação com a tecnologia, mas que também tem sido continuadamente reformado por essa relação.

Qualquer inovação tecnológica tem consequências e efeitos imprevisíveis, indo ao mesmo tempo reconfigurando os parâmetros da existência humana.

Acontece que, quanto mais a tecnologia avança, mais impressionados e embaraçados vamos ficando por termos nascido como nascemos, obsoletos, sem utilização. Sentimos que não estamos à altura da perfeição dos nossos produtos.

Por comparação com a alta qualidade dos objetos feitos pelo homem e pela sua infinitude (o aparecimento de produtos fabricados em série constituem uma reincarnação industrial), o homem surge como uma falha que nos envergonha:

 

“[…] Os humanos sentem-se indignados não por terem sido feitos por outros (Deus, deuses ou natureza), mas por não terem mesmo sido feitos e por isso serem inferiores a todas as coisas por eles fabricadas.”

 

É “a vergonha de termos nascido em vez de termos sido feitos”.

 

Esta vergonha, este mal-estar, resulta da artificialidade da natureza dos seres humanos que tem vindo a aumentar ao longo da história, na medida em que os humanos se vão tornando em produtos dos seus próprios produtos. E o que acontece atualmente é que os humanos já não conseguem acompanhar as necessidades que os seus próprios produtos lhes impõe.

Algo que já Anders notara nas “Teses para a Idade Atómica”, quando diz que “nós somos Utópicos Invertidos: ao passo que os Utópicos normais são incapazes de produzir o que não conseguem visualizar, nós não conseguimos agora visualizar o que estamos a produzir”.

 

Como humanos nascemos estranhos a um mundo que apenas conseguimos habitar por nos termos retirado para estruturas artificiais. Estamos assim obrigados a viver dentro de um mundo que não é o nosso, dentro de um mundo que, apesar de estar produzido e ser mantido em movimento por nós com o nosso trabalho cotidiano, não está construído para nós. Dentro de um mundo para o qual nós fomos pensados, utilizados, mas cujas normas, aspirações, linguagem e gosto não são os nossos, não nos são permitidos.

 

Num mundo em que a tecnologia se tem vindo a impor como neutral, uma vez que podendo tanto ser usada para o bem como para o mal dependendo de quem a usa (recordemos o mote da NRA, Associação Nacional de Espingardas, “Guns don’t kill people – people kill people”), se tende a esquecer o que Hesíodo pôs na boca de Zeus:

 

“Em troca do fogo, darei aos homens um mal que vai seduzi-los, e que eles acolherão com alegria, sem saber que abraçam a sua própria destruição”

 

Prometeu evoluiu. Já não é apenas “o que vê antes”, mas “o que vê de longe”. Passou a Palantir. Cumpriu-se a profecia de Zeus.

                       

 

Adenda: Consultar artigo de 30 de agosto de 2017, “Aquele que vê de longe”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/2017/08/

 

 

(374) “Se sente que está a ser manipulado, é porque está mesmo!”

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

Se não se lembra de alguma vez ter visto uma tão intensa campanha de meios de comunicação à volta de uma guerra, é porque não viu mesmo.

 

Se se está a sentir um pouco como Keanu Reeves no início do Matrix logo antes do véu ser arrancado, recomendo seguir o coelho branco e ver o quão profunda é a toca do coelho.

 

Se lhe está começar a parecer que estamos todos a ser manipulados em grande escala para pensar, agir e votar de uma maneira que beneficie uma vasta estrutura de poder que nos governa enquanto ela esconde a sua verdadeira natureza, eu diria que vale a pena seguir a pista.

 

 

 

 

 

Raras são as vezes que se consegue escrever algo que exprima num só trabalho aquilo que somos, quanto mais incluir nesse escrito tudo aquilo que de mais importante produzimos. Caitlin Johnstone, jornalista australiana, estando no presente com o conhecimento do passado e olhos postos no futuro, fê-lo num dos seus últimos artigos, o de 11 de abril de 2022, que intitulou “If It Feels Like You’re Being Manipulated, It’s Because You Are” (Se você sente que está a ser manipulado, é porque está mesmo).

Reproduzo-o aqui, com as ligações por ela sugeridas (para o que basta clicar sobre as mesmas).

 

 

Se tem o pressentimento de que os que nos governam estão a trabalhar para controlar a sua perceção sobre a guerra na Ucrânia, é mais seguro confiar nesse sentimento.

 

Se sente que existe um esforço conjunto das instituições governamentais e dos meios de comunicação mais poderosos do mundo ocidental para manipular a sua compreensão sobre o que está a acontecer com esta guerra, é porque é exatamente isso que está a acontecer.

 

Se não se lembra de alguma vez ter visto uma tão intensa campanha de meios de comunicação à volta de uma guerra, é porque não viu mesmo.

 

Se tiver a nítida impressão de que esta pode ser a guerra mais agressivamente dirigida à perceção e com o uso mais intensivo de operações psicológicas na história da humanidade, é porque é.

 

Se parece que as plataformas de Silicon Valley estão a controlar o conteúdo que as pessoas veem para lhes dar uma perspetiva sobre essa guerra que é extremamente tendenciosa a favor da narrativa dos EUA, é porque esse é realmente o caso.

 

Se parece uma coincidência suspeita que o Russiagate tenha fabricado o consentimento maioritário para todas as agendas obscuras que estamos a ver crescer agora, como a guerra fria contra Moscovo, a censura na internet,  e o de ser constantemente enganado pelos meios de comunicação de massa para um bem maior, é porque é mesmo uma coincidência muito suspeita.

 

Se lhe parece um pouco hipócrita que o império nos esteja a atacar todo o dia com narrativas sobre crimes de guerra russos enquanto esse mesmo império está a prender um jornalista por expor os seus crimes de guerra, é porque é mesmo totalmente hipócrita.

 

Se lhe parece algo de errado o facto de estarmos prestes a ver um juiz aprovar a extradição de Julian Assange para os Estados Unidos por praticar jornalismo enquanto esses mesmos Estados Unidos continuam a divulgar narrativas sobre a necessidade de proteger a liberdade e a democracia da Ucrânia, é porque deverá estar mesmo errado.

 

Se está a começar a ter a sensação incómoda de que a visão consensual do mundo dominante é uma construção fabricada pelos poderosos, para os poderosos, e tudo o que você aprendeu sobre a sua nação, o seu governo e o seu mundo é uma mentira, essa é mesmo definitivamente uma possibilidade que vale a pena considerar.

 

Se lhe está começar a parecer que estamos todos a ser manipulados em grande escala para pensar, agir e votar de uma maneira que beneficie uma vasta estrutura de poder que nos governa enquanto ela esconde a sua verdadeira natureza, eu diria que vale a pena seguir a pista.

 

Se tem uma insidiosa suspeita de que as mentiras possam ser ainda mais profundas do que isso, até mesmo relativamente às deceções sobre quem fundamentalmente você é e sobre o que essa vida é realmente, essa suspeita provavelmente vale a pena explorar.

 

Se se está a sentir um pouco como Keanu Reeves no início do Matrix logo antes do véu ser arrancado, recomendo seguir o coelho branco e ver o quão profunda é a toca do coelho.

 

Se já lhe ocorreu que a humanidade precisa acordar da matriz da ilusão antes que os nossos governantes sociopatas nos levem à extinção por meio da catástrofe ambiental ou de um apocalipse nuclear, então as suas notas coincidem com as minhas.

 

Se acredita que é possível que essas crises existenciais a que nos estamos a aproximar rapidamente possam ser o catalisador que precisamos para arrancar coletivamente a venda dos nossos olhos e começar a mover-nos sobre esta terra de uma maneira baseada na verdade e criar um mundo saudável, então estamos na mesma página.

 

Se há algo que lhe sussurra que existe uma boa oportunidade de conseguirmos, apesar das grandes probabilidades contra que parecemos enfrentar, vou contar-lhe um segredo: eu também ouço.

(373) Os pobres que não se veem

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

“Empreende, empreende”, é o que dizem. Reinventa-te. Estou farta desse discurso. Para a merda com a resiliência. No fim, culpam-te a ti por não te darem trabalho, Marisol Galdón.

 

Nos últimos dois anos, criou-se um novo bilionário a cada 30 horas e um milhão de pessoas empurradas para a extrema pobreza a cada 33 horas, relatório da Oxfam.

 

No sistema de dominação atual, o poder estabilizador já não é repressor, mas antes sedutor, cativante, e muito pouco visível. A repressão visível foi substituída pela motivação, pela iniciativa, pelo projeto.

 

O empresário de si próprio é amo e escravo à vez. Continuamos amos do escravo e escravos do amo, mas não somos homens livres, o que deveria ter acontecido.

 

 

 

 

Marisol Galdón, 59 anos, natural de Barcelona, foi uma presença regular e muito popular na televisão nos anos noventa e os primeiros dois mil (com os programas Plastic e Peligrosamente juntas, e outros), escritora e atriz na série Sentimos las moléstias, encontra-se na situação de desempregada, pelo que em setembro de 2021 resolveu colocar um vídeo no Twitter focando o seu vasto currículo, pedindo trabalho.

A 8 de maio de 2022 deu uma entrevista ao El País, da qual retiro alguns excertos:

 

MG: “[…] A ruína chegou com a crise de 2008, em que baixaram brutalmente os vencimentos, e, sobretudo, com a pandemia. Parou tudo. Tive de vender a minha casa, pagar as dívidas. Até que chegou o momento em que não tive outra saída que gravar e por no ar o tal vídeo.

 

P: Custou-te muito publicá-lo?

 

MG: Muitíssimo. É muito duro sair do armário da pobreza, ainda para mais numa época e numa profissão onde abunda a pose e a impostura. Ficarias doida com a quantidade de colegas que estão tão lixados como eu e só mostram o seu lado ideal.

 

P: Mas também há pessoas que passam bastante pior …

 

MG: Claro, eu não estou numa guerra na Ucrânia fechada num sótão nem me mutilaram o clitóris nem passo fome. Mas necessito de trabalhar e ninguém me contrata. E depois vem essa ditadura da autoajuda e do autoemprego. “Empreende, empreende”, é o que dizem. “Empreende, empreende”, é o que dizem. Reinventa-te. Eu escrevo livros, tenho um blog, acabo de rodar uma curta, invento mil coisas, mas de isso não vivo. Estou farta desse discurso. Para a merda com a resiliência. No fim, culpam-te a ti por não te darem trabalho.

 

P: Como é ser pobre quando antes se vivia confortavelmente?

 

MG: Muito uro. Modestamente, eu tive tudo. Vais-te empobrecendo, vais ter que ir deixando de fazer coisas. Parecerá frívolo, mas é uma derrota intima, por exemplo, ter de deixar de usar cremes bons por marcas brancas do super, e mesmo assim racionando-a. E o pedir aos amigos …. É tudo não, não, não. […]

 

P: No vídeo, oferece-se como jornalista, DJ, apresentadora de eventos, guionista. Está em dia em todos esses campos?

 

MG: Sou muito boa a fazer tudo isso. Já o fiz, e agora com a minha idade, fá-lo-ia muito melhor. Tenho experiência, pose, aprumo. Mas não me querem. Esse é o drama. […]

 

P: Chegou mesmo a pensar em suicidar-se?

 

MG: Sim, sem dramas, até porque a vida pertence a cada um e ninguém se importa que o faças. Desde pequena que nos ensinam coisas maravilhosas como a bondade e quando entras no mundo vês que tudo isso são patranhas, que tudo é mentira. E se fores boa pessoa, passas mal. […] Então, e este mundo não está interessado em mim, dizes como Fernán Gómez: “Vão todos à merda”. […]

 

P: E as rugas?

 

MG: Porque o patriarcado nos vendeu que para um homem maduro, é igual que tenha rugas, barriga, brancas, e que o importante é a sua sabedoria e a sua experiência. E que as mulheres podemos ser sábias, mas que passada certa idade mal nos veem. Esse é o problema em que nos meteram e caímos que nem idiotas. Como permitimos que nos magoem assim?

 

P: Sente-se culpada por não encontrar trabalho?

 

MG: A culpa a única coisa que faz é pôr-nos veneno e ter-nos controlados. Mas sim. Quando és autocrítica, o primeiro que fazes é culpabilizar-te. Penso sempre que terei feito qualquer coisa mal, em que fiz merda. Mas isso é perverso. Este mundo não me merece. Têm uma tipa como eu, superválida, que pode fazer mil coisas num montão de frentes, e não lhes interessa. Essa é a realidade.”

 

 

No último relatório apresentado pela Oxfam, lê-se que nos últimos dois anos, devido ao escalar dos preços da energia e das matérias primas por causa da pandemia e da invasão da Ucrânia, as fortunas dos bilionários ligados a esses ramos cresceram 453 biliões de dólares.

Aponta para a criação nos últimos dois anos (março 2020 a março 2022) de um novo bilionário a cada 30 horas. Ao mesmo tempo, mais de 260 milhões de pessoas foram empurradas para a extrema pobreza (viver com menos de um dólar e noventa por dia), o que dá uma média de um milhão de pessoas por cada 33 horas.

As dez pessoas mais ricas do mundo, mais que duplicaram a sua fortuna, passando de 700 biliões de dólares para 1,5 triliões de dólares, ou seja, ficam com uma riqueza superior ao que têm os 40% do escalão mais baixo da humanidade que são 3,1 biliões de pessoas.

Eis o que diz Abb Maxman, o presidente da Oxfam America:

 

Não é um acidente que estejamos a assistir a estes espantosos níveis de desigualdade quer nos EUA quer no resto do mundo. É por intenção deliberada. Durante décadas, os ultra ricos e as corporações, utilizaram o seu poder económico para pressionarem aqueles que estão no poder para escreverem as regras para que eles pudessem fugir aos impostos, pagarem salários de pobreza e eximirem-se às suas responsabilidades. Ao mesmo tempo, as famílias trabalhadoras têm sentido a faca da insegurança económica e a perca de esperança no futuro”.

 

 

O poder estabilizador da anterior sociedade industrial era repressivo e visível. Mas os trabalhadores industriais explorados de forma brutal sabiam então perfeitamente quem eram os seus opressores. Sabiam perfeitamente contra quem tinham de resistir.

No sistema de dominação atual, o poder estabilizador já não é repressor, mas antes sedutor, cativante, e muito pouco visível. A repressão visível foi substituída pela motivação, pela iniciativa, pelo projeto.


Uma das formas de sedução é a utilizada pelas Googles, Microsofts, Face Books, Intels, e outras similares, que fazem parte dum conjunto de grandes empresas onde se contratam e trabalham os hackers e programadores modernos, para que continuem a praticar os seus passatempos num ambiente legal e informal, sem restrições de maior, tudo isto em espaços arquitetonicamente envolventes que nos comunicam sensações de bem-estar e liberdade e onde todos nós gostaríamos de trabalhar.

 Podem continuar a ir para o emprego como se estivessem em casa, não há normas sociais de trajo e comportamento. Ténis, havaianas, skates, jeans, fato completo ou meio fato, camisa ou t-shirt, calções e sapatos, e tudo o mais que a imaginação à venda ditar, tudo serve para a realização dessa espécie de utopia proto socialista em que se pretende anular a oposição entre a atividade comercial alienada, mas pela qual se ganha dinheiro, e o passatempo privado que se leva a cabo por prazer.

A finalidade é fazer com que o trabalho apareça transformado em passatempo, levando assim que se passem longas horas no local de trabalho, sábados e domingos, à frente do computador: é que quando alguém é pago para desenvolver e finalizar o seu passatempo, fica exposto por ele próprio a uma maior pressão do que se estivesse a trabalhar segundo a ‘boa velha ética de trabalho protestante’.


Uma outra forma de sedução passa por converter o trabalhador oprimido em empresário, empreendedor, empregador de si próprio. O que se pretende é que cada um seja um trabalhador que se explore a si mesmo na sua própria empresa. Cada um é ao mesmo tempo explorador e explorado, amo e escravo. Assim, quando alguém fracassar, culpa-se a si próprio e não à sociedade. Se a pessoa fracassar no seu projeto, aparece (assume-se a si própria) como culpada. Contra quem protestar? Contra si próprio? A luta de classes passa a ser uma luta interna consigo mesmo.


Neste sistema os novos empreendedores trabalhadores nem sequer se dão conta da sujeição em que se encontram, e isto porque acreditam que são livres por trabalharem em algo que é “seu”. Assim, esta ‘exploração com liberdade’ não origina qualquer efeito de resistência, o que torna estável o sistema neoliberal.

É por isso que hoje, após um programa violento de restrições impostas pelos Credores (aqueles que sendo ‘científicos’ nos dizem para termos fé no sistema), assistimos a um grande conformismo e consenso, originando depressões, fadiga crónica, ineficácia, aumento no número de suicídios. A violência é empregue contra si mesmo, em vez de se a utilizar para mudar a sociedade.

Ou seja, em vez da agressão dirigida contra o exterior, que poderia ter como resultado uma forte contestação, fica-se pela autoagressão.


É um mundo que se quer de autoempregados isolados, separados, depressivos, que se dedicam com euforia ao trabalho até à exaustão, até à fadiga crónica. É por isso que não há hoje uma multidão cooperante, interligada, capaz de se converter numa massa protestante e globalmente revolucionária. Não vale a pena esperar que tal multidão de pessoas algumas vez esteja disposta a alterar ou instaurar seja qualquer novo tipo de sociedade.


O neoliberalismo é adepto, conduz à despolitização radical da economia. A necessidade de acabar ou reduzir ao mínimo a segurança social, a escola pública, os serviços de saúde públicos, as atividades culturais públicas, etc., (tudo em nome da “sustentabilidade” e da “liberdade”) são exemplos de como se pretende que a economia funcione: como simples manifestação do estado de coisas objetivo.

Ou seja, a aceitação pela sociedade que a economia, o capital, os mecanismos e instrumentos de mercado são neutros implica que não exista qualquer debate público sobre decisões a longo prazo para a sociedade, que não exista qualquer forma de limitação radical da liberdade do capital, nem qualquer subordinação do processo de produção ao controle social. O velho sonho de que “À política o que é da política, à economia o que é da economia”. Não é por acaso que apareceu a imagem do exteriormente higiénico Pilatos. Muitos outros depois dele lavam sempre as mãos.

Na sua alegoria sobre o amo e o escravo, Hegel pretendeu demonstrar como o progresso histórico para a liberdade se tornava possível através do jogo dialético entre o amo e o escravo: só com a libertação do escravo é que o amo se sentiria também libertado. A história só chegaria ao fim quando fossemos na realidade livres de fato, quando não fossemos nem amos nem escravos, nem escravos do amo, nem amos do escravo.

O que acontece hoje é que nos encontramos numa fase histórica em que o amo e o escravo formam uma unidade. O escravo não trabalha para o amo, mas explora-se voluntariamente a si mesmo. Como empresário de si próprio é amo e escravo à vez. Continuamos amos do escravo e escravos do amo, mas não somos homens livres, o que deveria ter acontecido.


Na sua Política, Aristóteles escreve:

Em consequência, algumas pessoas supõem que é uma função da administração doméstica o aumentar a propriedade e vivem continuamente com a ideia que é um dever salvaguardar as suas posses monetárias ou aumentá-las para um patamar ilimitado. A causa desta atitude da mente reside no fato de os seus interesses se concentrarem apenas na vida, e não na vida boa”.

 

Traduzido para a atualidade, tal significará que o capitalismo de hoje, com a sua compulsão para a acumulação e para o crescimento, absolutiza a mera vida. O seu fim não é a “vida boa”. Perdida esta teleologia da vida boa, o processo do capital e da produção acelera-se até ao infinito, perdendo a sua direção, a sua finalidade. Estamos nisto. Estaremos nisso.

 

 

 

(372) Quais são os desejos que importam?

Tempo estimado de leitura: 12 minutos.

 

Se um homem lhe oferecer democracia e outro lhe oferecer um saco de grãos, em que fase da fome se prefere o grão ao voto?

 

Eu nunca ouvi falar de uma guerra que procedesse de salões de dança.

 

Qualquer pessoa encontrada a defender uma guerra preventiva devia ser condenada a duas horas por dia com esses monstros engenhosos.

 

As escolas estão lá para ensinar o patriotismo; os jornais, para provocarem a excitação; e os políticos para serem reeleitos.

 

Há, é claro, várias razões para odiar os comunistas […] nós os odiamos porque eles não permitem a liberdade; isso sentimos tão fortemente que decidimos imitá-los.

 

 

 

 

 A noção de que vivemos num mundo de sombras projetadas ou entrevistas de uma realidade exterior que se mantém eterna e imutável, deve-se a Platão. Em algures exterior reside um círculo perfeito; todos os outros círculos que conseguimos ver não são mais que simples e pálidas cópias desse único Círculo, poeiras e cinza dessa unidade etérea.

Talvez tenham sido os matemáticos os primeiros a lidarem com esta noção de uma verdade imutável existente desde o princípio dos tempos quando nos seus estudos provavam para sempre que os números primos eram infinitos ou que a raiz quadrada de dois era um número irracional. Verdades incontestáveis.

Acontece que com o passar dos tempos esses cálculos tidos como irrefutáveis começaram a parecer mais como argumentos que assentavam em axiomas autoevidentes que, embora aparentemente verdadeiros, se baseavam em pouco mais do que o consenso tido entre os matemáticos.

Quando Bertrand Russell descobriu que os axiomas da geometria de Euclides, como “duas retas paralelas não se intercetam”, não passavam de presunções, e que o mesmo se passava com o sistema de números que se baseava em verdades autoevidentes, propõe-se a dedicar a sua vida a tentar resolver a incerteza existente nas matemáticas.

É assim que nos seus Principia Mathematica (1910-13), Bertrand Russell e Alfred North Whitehead, uns densos três volumes que levaram três anos a escrever e foram publicados às expensas deles, se propuseram a provar racionalmente que 1 + 1 = 2, esperando provavelmente que tal proposição viesse a ser “ocasionalmente útil”.

Os ‘estragos’ provocados no edifício das matemáticas conduziram ao aparecimento do princípio da inconsistência e da incompletude.

 

Mas Russel não foi só matemático. Também foi filósofo, lógico, historiador, crítico social e ativista político. Em 1950 vai ganhar o Nobel da Literatura, que lhe é atribuído como “reconhecimento dos seus variados e significativos escritos nos quais se destacou como campeão dos ideais humanitários e liberdade de pensamento”.

No seu discurso de aceitação (palestra), a 11 de dezembro de 1950 em Estocolmo, subordinado ao título “Que desejos são politicamente importantes”, começa por dizer:

 

“Escolhi este assunto para a minha palestra esta noite porque acho que a maior parte das discussões atuais sobre política e teoria política levam em pouca conta a psicologia. Factos económicos, estatísticas populacionais, organização constitucional e outros, são minuciosamente apresentados. Não se tem dificuldade em se saber quantos sul-coreanos e quantos norte-coreanos existiam quando a Guerra da Coreia começou. Se procurarem nos livros certos, pode-se saber qual era a renda média per capita deles e quais eram os tamanhos dos seus respetivos exércitos. Mas se se quiser saber que tipo de pessoa é um coreano, e se existe alguma diferença apreciável entre um norte-coreano e um sul-coreano; se se desejar saber o que é que eles, respetivamente, querem da vida, quais são os seus descontentamentos, quais são as suas esperanças e quais os seus medos; numa palavra, o que é que, como eles dizem, «faz com que eles funcionem», procurar-se-á em vão nos livros de referência. E por isso não se pode dizer se os sul-coreanos estão entusiasmados com a ONU, ou se preferem a união com seus primos do Norte. Nem se pode adivinhar se eles estão dispostos a abrir mão da reforma agrária pelo privilégio de votar em algum político de quem nunca ouviram falar. É a negligência por tais questões por parte dos homens eminentes que se sentam em capitais remotas, que tão frequentemente causa deceção. Para que a política se torne científica, e para que o acontecimento não surpreenda constantemente, é imperativo que o nosso pensamento político penetre mais profundamente nas fontes da ação humana. Qual é a influência da fome sobre os slogans? Como é que a sua eficácia flutua com o número de calorias da nossa dieta? Se um homem lhe oferecer democracia e outro lhe oferecer um saco de grãos, em que fase da fome se prefere o grão ao voto? Tais questões são muito pouco consideradas. Mas vamos, por enquanto, esquecer os coreanos e considerar a raça humana.”

 

Concentra-se depois nos vários desejos dos seres humanos, dissecando-os um a um. Eis alguns excertos:

 

“A ganância – o desejo de possuir o máximo possível de bens, ou o título de bens – é um motivo que, suponho, tem a sua origem numa combinação de medo com desejo de necessidades […] Mas seja qual for a psicanálise da ganância, ninguém pode negar que ela é um dos grandes motivos – especialmente entre os mais poderosos, pois, como disse antes, é um dos motivos infinitos. Por mais que você possa possuir, sempre desejará possuir mais; a saciedade é um sonho que sempre lhe escapará.”

 

“[…] Um dos problemas da vaidade é que ela cresce com aquilo de que se alimenta. Quanto mais se é conhecido, mais se vai querer ser conhecido. O assassino condenado que tem permissão para ver o relato de seu julgamento na imprensa fica indignado se encontra um jornal que o noticiou de forma inadequada. E quanto mais descobrir sobre si mesmo noutros jornais, mais indignado ficará com aquele cujas reportagens são escassas. Políticos e literatos estão no mesmo caso. E quanto mais famosos eles se tornam, mais difícil é para a agência de recortes da imprensa satisfazê-los. Dificilmente é possível exagerar a influência da vaidade em toda a extensão da vida humana, desde a criança de três anos até ao poderoso que todo o mundo estremece só de ver a cara. A humanidade cometeu até mesmo a impiedade de atribuir desejos semelhantes à Divindade, ao imaginarem-na ávida por elogios continuados.”

 

Sobre o apego ao poder:

 

“A procura do conhecimento é, penso eu, principalmente acionada pelo apego ao poder. Bem como todos os avanços na técnica científica. Por mais que você possa possuir, sempre desejará possuir mais; a saciedade é um sonho que sempre lhe escapará. Seria um completo erro condenar completamente o amor ao poder como motivo. O ser-se levado por esse motivo a praticar ações que são úteis ou ações que são nefastas, depende do sistema social e das nossas capacidades. Se as nossas capacidades são teóricas ou técnicas, contribuiremos para o conhecimento ou técnica e, via de regra, a nossa atividade será útil. Se formos um político, podemos ser movidos pelo apego ao poder, mas via de regra esse motivo se unirá ao desejo de ver realizado algum estado de coisas que, por alguma razão, preferimos ao status quo. Um grande general pode, como Alcibíades, ser bastante indiferente quanto ao lado em que luta, mas a maioria dos generais preferiu lutar pelo seu próprio país e, portanto, teve outros motivos além do apego ao poder. O político pode mudar de lado com tanta frequência que se encontra sempre na maioria, mas a maioria dos políticos prefere um partido ao outro e subordina o seu apego ao poder a essa preferência. O apego ao poder tão puro quanto possível pode ser visto em vários tipos diferentes de homens. Um tipo é o soldado da fortuna, de que Napoleão é o exemplo supremo. Napoleão não tinha, creio eu, nenhuma preferência ideológica pela França sobre a Córsega, mas se se tivesse tornado imperador da Córsega não teria sido um homem tão grande como se tornou fingindo ser francês. Tais homens, porém, não são exemplos puros, pois também obtêm imensa satisfação da vaidade. O tipo mais puro é o da eminência parda – o poder por trás do trono que nunca aparece em público, e apenas se abraça com o pensamento secreto: “Quão pouco estes bonecos sabem quem está a puxar as cordas”. O Barão Holstein, que controlou a política externa do Império Alemão de 1890 a 1906, ilustra esse tipo com perfeição. Ele morava numa favela; nunca apareceu na sociedade; evitou encontrar o imperador, exceto numa única ocasião em que a imposição do imperador não pode ser ignorada; ele recusou todos os convites para funções na corte, alegando que não possuía trajes de corte. Ele tinha conquistado segredos que lhe permitiram chantagear o chanceler e muitos dos íntimos do Kaiser. Ele usou o poder da chantagem, não para adquirir riqueza, fama ou qualquer outra vantagem óbvia, mas apenas para obrigar a adoção da política externa que preferia. No Oriente, personagens semelhantes não eram muito incomuns entre os eunucos.”

 

Chama à liça outros motivos que embora num certo sentido sejam menos fundamentais, têm, contudo, uma considerável importância:

 

“O primeiro deles é o amor pela emoção. Os seres humanos mostram a sua superioridade sobre os brutos pela sua capacidade de tédio, embora algumas vezes eu tenha pensado, ao examinar os macacos no zoológico, que eles, talvez, tenham os rudimentos dessa emoção cansativa. Seja como for, a experiência mostra que escapar do tédio é um dos desejos realmente poderosos de quase todos os seres humanos. Quando os homens brancos contatam pela primeira vez com alguma raça intocada de selvagens, oferecem-lhes todos os tipos de benefícios, desde a luz do evangelho até à torta de abóbora. Estes, no entanto, por mais que nos arrependamos, a maioria dos selvagens recebe-os com indiferença. O que eles realmente valorizam entre os presentes que lhes trazemos é a bebida inebriante que lhes permite, pela primeira vez nas suas vidas, ter a ilusão por alguns breves momentos de que é melhor estar vivo do que morto. Os índios, quando ainda não tinham sido afetados pelos homens brancos, fumavam os seus cachimbos, não calmamente como nós, mas orgiasticamente, inalando tão profundamente que desmaiavam. E quando a excitação pela nicotina falhava, um orador patriótico incitava-os a atacarem uma tribo vizinha, o que lhes daria todo o prazer que nós (segundo o nosso temperamento) tiramos de uma corrida de cavalos ou de uma eleição geral. O prazer do jogo consiste quase inteiramente na excitação. Monsieur Huc descreve os comerciantes chineses na Grande Muralha no inverno, jogando até perder todo o seu dinheiro, depois perdendo todas as suas mercadorias e, finalmente, jogando fora as suas roupas e saindo nus para morrerem de frio. Com os homens civilizados, como com as tribos primitivas dos índios, é, penso eu, principalmente o amor à excitação que faz a população aplaudir quando a guerra rebenta; a emoção é exatamente a mesma de um jogo de futebol, embora os resultados às vezes sejam um pouco mais sérios.”

 

E continua:

 

“Eu costumava, quando era mais jovem, gozar as minhas férias caminhando. Eu percorria vinte e cinco milhas por dia e, quando a noite chegava, não precisava de nada para me afastar do tédio, já que o prazer de estar sentado era suficiente. Mas a vida moderna não pode ser conduzida com base nesses princípios fisicamente extenuantes. Grande parte do trabalho é sedentário, e a maioria dos trabalhos manuais exercita apenas alguns músculos especializados. Quando multidões se reúnem em Trafalgar Square para aplaudir o eco de um anúncio de que o governo decidiu mandá-los matar, eles não o fariam se todos tivessem caminhado vinte e cinco milhas naquele dia. Essa cura para a belicosidade é, no entanto, impraticável, e para que a raça humana sobreviva – algo que talvez seja indesejável – outros meios devem ser encontrados para garantir uma saída inocente para a energia física não utilizada que produz o amor pela excitação. Este é um assunto que tem sido muito pouco considerado, tanto pelos moralistas quanto pelos reformadores sociais. Os reformadores sociais são da opinião de que têm coisas mais sérias para considerar. Os moralistas, por outro lado, ficam imensamente impressionados com a seriedade de todas as saídas possíveis permitidas do amor pela excitação; no entanto, nas suas mentes, a seriedade é a do Pecado. Salões de dança, cinemas, esta era do jazz, são todos, se podemos acreditar nos nossos ouvidos, portas de entrada para o inferno, e estaríamos melhor se ficássemos sentados em casa a contemplar os nossos pecados. Acho-me incapaz de estar inteiramente de acordo com os homens sérios que proferem estas advertências. O diabo tem muitas formas, algumas destinadas a enganar os jovens, outras destinadas a enganar os velhos e os sérios. Se é o diabo que tenta os jovens a divertirem-se, não é, talvez, o mesmo personagem que convence os velhos a condenarem essa diversão? E a condenação não é talvez apenas uma forma de excitação própria da velhice? E não é, talvez, uma droga que – como o ópio – deve ser tomada em doses cada vez mais fortes para produzir o efeito desejado? Não se deve temer que, começando pela maldade do cinema, sejamos levados passo a passo a condenar o partido político oposto, asiáticos e, em suma, todos, exceto os companheiros de nosso clube? E é exatamente dessas condenações, quando generalizadas, que as guerras procedem. Eu nunca ouvi falar de uma guerra que procedesse de salões de dança.”

 

E preconiza:

 

“Acho que toda a cidade grande deveria conter quedas de água artificiais que as pessoas pudessem descer em canoas muito frágeis, e deveriam conter piscinas cheias de tubarões mecânicos. Qualquer pessoa encontrada a defender uma guerra preventiva devia ser condenada a duas horas por dia com esses monstros engenhosos. Mais a sério, o esforço deve ser feito para fornecer saídas construtivas para o amor pela excitação. Nada no mundo é mais emocionante do que um momento de descoberta ou invenção repentina, e muito mais pessoas são capazes de experimentar esses momentos do que às vezes se pensa.”

 

Sobre o ódio:

 

[…] É normal odiar o que tememos, e acontece com frequência, embora nem sempre, que tenhamos medo do que odiamos. Acho que pode ser tomado como regra entre os homens primitivos que eles tanto temem quanto odeiam o que não é familiar. Eles têm o seu próprio rebanho, originalmente muito pequeno. E dentro de um rebanho, todos são amigos, a menos que haja algum motivo especial de inimizade. Outros rebanhos são inimigos potenciais ou reais; um único membro de um deles que se perder por acidente será morto. Um rebanho alienígena como um todo será evitado ou combatido de acordo com as circunstâncias. É esse mecanismo primitivo que ainda controla a nossa reação instintiva às nações estrangeiras. A pessoa completamente não viajada verá todos os estrangeiros como o selvagem considera um membro de outro rebanho. Mas o homem que viajou, ou que estudou política internacional, terá descoberto que, para que o seu rebanho prospere, ele deve, até certo ponto, fundir-se com outros rebanhos. Se você é inglês e alguém lhe diz: «Os franceses são seus irmãos», o seu primeiro sentimento instintivo será: «Parvoíce. Eles encolhem os ombros e falam francês. E até me dizem que comem rãs.» Se ele lhe explicar que talvez tenhamos de lutar contra os russos, que, nesse caso, será desejável defender a linha do Reno, e que, para defender a linha do Reno, a ajuda dos franceses é essencial, você começará a ver o que ele quer dizer quando diz que os franceses são seus irmãos. Mas se algum companheiro de viagem dissesse que os russos também são seus irmãos, ele não seria capaz de persuadi-lo, a menos que pudesse mostrar que estamos em perigo por causa dos marcianos. Amamos aqueles que odeiam os nossos inimigos e, se não tivéssemos inimigos, haveria muito poucas pessoas a quem deveríamos amar.

Tudo isso, no entanto, só é verdade enquanto estivermos preocupados apenas com atitudes em relação a outros seres humanos. Você pode considerar o solo como seu inimigo porque ele produz com relutância uma subsistência mesquinha. Você pode considerar a Mãe Natureza em geral como sua inimiga e encarar a vida humana como uma luta para obter o melhor da Mãe Natureza. Se os homens encarassem a vida dessa maneira, a cooperação de toda a raça humana se tornaria fácil. E os homens poderiam facilmente ser levados a ver a vida dessa maneira se escolas, jornais e políticos se dedicassem a esse fim. Mas as escolas estão lá para ensinar o patriotismo; os jornais, para provocarem a excitação; e os políticos para serem reeleitos. Nenhum dos três pode, portanto, fazer alguma coisa para salvar a raça humana do suicídio recíproco.”

 

 

Sobre o medo:

 

“Existem duas maneiras de lidar com o medo: uma é diminuir o perigo externo e a outra é cultivar a resistência estoica [..] Se pudesse ser estabelecido um sistema internacional que eliminasse o medo da guerra, a melhoria na mentalidade cotidiana das pessoas comuns seria enorme e muito rápida. O medo, atualmente, ofusca o mundo. A bomba atômica e a bomba bacteriana, manejadas pelo perverso comunista ou perverso capitalista, conforme o caso, fazem Washington e o Kremlin tremerem, e empurram os homens mais adiante na estrada em direção ao abismo. Para que as coisas melhorem, o primeiro e essencial passo é encontrar uma maneira de diminuir o medo. O mundo atual está obcecado pelo conflito de ideologias rivais, e uma das causas aparentes do conflito é o desejo pela vitória de nossa própria ideologia e a derrota da outra. Não acho que o motivo fundamental aqui tenha muito a ver com ideologias. Acho que as ideologias são apenas uma forma de agrupar as pessoas, e que as paixões envolvidas são apenas aquelas que sempre surgem entre grupos rivais. Há, é claro, várias razões para odiar os comunistas. Em primeiro lugar, acreditamos que eles desejam tirar a nossa propriedade. Mas os ladrões também, e embora desaprovemos os ladrões, a nossa atitude em relação a eles é muito diferente de nossa atitude em relação aos comunistas – principalmente porque eles não inspiram o mesmo grau de medo. Em segundo lugar, odiamos os comunistas porque são irreligiosos. Mas os chineses são irreligiosos desde o século XI, e só começamos a odiá-los quando deram origem a Chiang Kai-shek. Em terceiro lugar, odiamos os comunistas porque eles não acreditam na democracia, mas não consideramos isso motivo para odiar Franco. Em quarto lugar, nós os odiamos porque eles não permitem a liberdade; isso sentimos tão fortemente que decidimos imitá-los. É óbvio que nada disso é o verdadeiro fundamento do nosso ódio. Nós odiamo-los porque os tememos e eles nos ameaçam. Se os russos ainda aderissem à religião ortodoxa grega, se tivessem instituído um governo parlamentar e se tivessem uma imprensa completamente livre que diariamente nos vituperasse, então – desde que ainda tivessem forças armadas tão poderosas quanto agora – ainda deveríamos odiar se eles nos dessem motivos para considerá-los hostis. Existe, é claro, o odium theologicum, e pode ser causa de inimizade. Mas acho que isso é um desdobramento do sentimento de manada: o homem que tem uma teologia diferente sente-se estranho, e tudo o que é estranho deve ser perigoso. As ideologias, de facto, são um dos métodos pelos quais os rebanhos são criados, e a psicologia é praticamente a mesma, independentemente de como o rebanho possa ter sido gerado.”

 

Finalmente, para resumir a discussão:

 

“A política preocupa-se mais com rebanhos do que com indivíduos, e as paixões que são importantes na política são, portanto, aquelas em que os vários membros de um determinado rebanho podem sentir-se semelhantes. O amplo mecanismo instintivo sobre o qual os edifícios políticos devem ser construídos é de cooperação dentro do rebanho e hostilidade em relação a outros rebanhos. A cooperação dentro do rebanho nunca é perfeita. Há membros que não se conformam, que são, no sentido etimológico, «egrégios», isto é, fora do rebanho. Esses membros são aqueles que caíram abaixo ou subiram acima do nível ordinário. São eles: idiotas, criminosos, profetas e descobridores. Um rebanho sábio aprenderá a tolerar a excentricidade daqueles que se elevam acima da média e a tratar com um mínimo de ferocidade aqueles que estão abaixo dela.

 

No que diz respeito às relações com outros rebanhos, a técnica moderna produziu um conflito entre o interesse próprio e o instinto. Antigamente, quando duas tribos iam à guerra, uma delas exterminava a outra e anexava o seu território. Do ponto de vista do vencedor, toda a operação foi totalmente satisfatória. A matança não era nada cara, e a excitação era agradável. Não é de admirar que, em tais circunstâncias, a guerra persistisse. Infelizmente, ainda temos as emoções apropriadas para essa guerra primitiva, enquanto as operações reais da guerra mudaram completamente. Matar um inimigo numa guerra moderna é uma operação muito cara. Se você considerar quantos alemães foram mortos no final da guerra e quanto os vencedores estão a paga de imposto de renda, você pode, por uma soma em divisão longa, descobrir o custo de um alemão morto, e você o achará considerável. No Oriente, é verdade, os inimigos dos alemães conseguiram as antigas vantagens de expulsar a população derrotada e ocupar as suas terras. Os vencedores ocidentais, no entanto, não obtiveram tais vantagens. É óbvio que a guerra moderna não é um bom negócio do ponto de vista financeiro. Embora tenhamos vencido as duas guerras mundiais, agora seríamos muito mais ricos se elas não tivessem ocorrido. Se os homens fossem movidos pelo interesse próprio, o que eles não são – exceto no caso de alguns santos – toda a raça humana cooperaria. Não haveria mais guerras, exércitos, marinhas, bombas atómicas. Não haveria exércitos de propagandistas empregados em envenenar as mentes da Nação A contra a Nação B, e reciprocamente da Nação B contra a Nação A. Não haveria exércitos de oficiais nas fronteiras para impedir a entrada de livros e ideias estrangeiras, por mais excelentes que fossem. Não haveria barreiras alfandegárias para garantir a existência de muitas pequenas empresas onde uma grande empresa seria mais económica. Tudo isso aconteceria muito rapidamente se os homens desejassem a sua própria felicidade com tanto ardor quanto desejavam a miséria de seus vizinhos. Mas, você vai dizer-me, para que servem esses sonhos utópicos? Os moralistas cuidarão para que não nos tornemos totalmente egoístas, e até que o façamos o milénio será impossível.”

 

E termina:

 

“E entre aquelas ocasiões em que as pessoas ficam abaixo do interesse próprio estão a maioria das ocasiões em que estão convencidas de que estão a agir por motivos idealistas. Muito do que passa como idealismo é ódio disfarçado ou amor disfarçado pelo poder. Quando você vê grandes massas de homens influenciadas pelo que parecem ser motivos nobres, é melhor olhar abaixo da superfície e perguntar-se o que torna esses motivos eficazes. É em parte porque é tão fácil ser enganado por uma fachada de nobreza que vale a pena fazer uma investigação psicológica, como o tenho tentado […]”

 

 

 

Estávamos em 1950 …

 

(371) Por quem dobram os sinos?

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Se antes as guerras acabavam com o rei derrotado a abraçar o seu primo vencedor, na Segunda Guerra enforcaram-se os derrotados. Alguns.

 

Diante comportamentos intoleráveis há que ter a coragem de mudar as regras e as leis, Umberto Eco.

 

Reconhecer o intolerável quer dizer que em Nuremberga todos deviam de ser condenados à forca.

 

Todos lavam as mãos: existem leis, deixemos que os tribunais julguem esta canalha.

 

 

 

Sob o ponto de vista estritamente legal ou de costumes internacionais, o processo de Nuremberga foi uma arbitrariedade. Se até aí as guerras acabavam com o rei derrotado a abraçar o seu primo vencedor, nesta enforcaram-se os derrotados. Alguns.

E esta alteração das regras aconteceu porque os vencedores consideraram que nessa guerra aconteceram coisas que iam para além do tolerável. Mas a consideração deste intolerável era feita de acordo com os valores dos vencedores ou com os valores dos derrotados?

Como ganhámos, e como entre os vossos valores estava a celebração da força, aplicamos a força: enforcámo-los. Mas, ‘vocês também cometeram atrocidades!’, dizem os derrotados. Pois sim, isso é o que dizem vocês que foram derrotados, mas nós que ganhámos, somos nós que vos enforcamos! “E assumimos a responsabilidade!”

Este raciocínio de Nuremberga é impecável: diante comportamentos intoleráveis há que ter a coragem de mudar as regras e as leis. É assim que segundo as novas regras um tribunal na Holanda pode julgar as condutas de alguém que está na Sérvia ou na Bósnia.

Foi em finais de 1982 que se celebrou em Paris um congresso sobre o tema da intervenção: Com que direito e com que critérios de prudência se pode intervir em assuntos de outro país quando se considera que nele algo de intolerável acontece para a comunidade internacional? Quem me pede para intervir? Uma parte dos cidadãos? Em que medida é representativa do país, em que medida é que uma intervenção não encobre debaixo dos propósitos mais nobres uma ingerência, uma vontade imperialista? Intervém-se quando o que sucede noutro país vai contra os nossos princípios éticos? Mas os nossos princípios são os princípios deles? Intervém-se porque um país há milhares de anos pratica o canibalismo ritual, o que para nós é um horror, mas que para eles é um ritual religioso? Não foi assim que o homem branco carregou o seu virtuoso fardo e submeteu povos de civilizações mais antigas, embora diferentes da nossa?

 

A única resposta que parece ser aceitável é que uma intervenção é como uma revolução: não há uma lei prévia que nos diga que se a deve fazer, e mais, faz-se contra as leis e os costumes.

A intervenção internacional noutro país só é justificada mediante algo que nos pareça intolerável. Há que assumir a responsabilidade e decidir que é intolerável e depois atuar, dispostos a pagar o preço do erro.

O que se passou com o nazismo e o Holocausto levou a um novo umbral de intolerabilidade. Muitos genocídios existiram, ao longo dos séculos, e sempre os fomos tolerando. Éramos fracos, éramos bárbaros, não sabíamos o que se passava a dez léguas do nosso povoado.

Mas este foi sancionado (e realizado) em termos ditos “científicos”, com petição explícita de consenso, incluso filosófico, e venderam-nos como modelo planetário a implantar. Golpeou não só a nossa consciência moral, pôs em jogo a nossa filosofia e a nossa ciência, a nossa cultura, as nossas crenças no bem e no mal. Quis anulá-las. Era uma chamada a que não se podia deixar de responder.

É com respeito a esse intolerável que resulta purulenta a sórdida contabilidade dos negacionistas que começam por calcular se os números de mortos foram na verdade seis milhões, ou terão sido cinco, quatro, três, dois, um, como se tratasse de uma mera transação. E se não tivessem sido gaseados e tivessem antes morrido porque se tivessem posto nas câmaras sem demasiado cuidado? E se só tivessem morrido por alergia às tatuagens?

Reconhecer o intolerável quer dizer que em Nuremberga todos deviam de ser condenados à forca, mesmo que só uma pessoa tivesse sido morta e pela simples omissão de socorro. O intolerável não é só o genocídio, mas a sua teorização. E esta implica e responsabiliza também aos peões da matança. Ante o intolerável caem as distinções sobre as intenções, a boa fé, o erro: existe só responsabilidade objetiva. Mas a única coisa que fazia era empurrar as pessoas para dentro da câmara de gás porque me mandavam, na realidade até pensava que os estava a mandar desinfetar.

Não me interessa, sinto muito, mas aqui estamos numa epifania do intolerável, onde não valem as leis antigas com as suas circunstâncias atenuantes: pelo que te condenaremos também à forca.

Para adotar esta regra de conduta (que também vale para o futuro intolerável, que nos obriga a decidir todos os dias onde está o intolerável), uma sociedade deve de estar preparada para tomar muitas decisões, mesmo as duras, e de ser solidária em assumir todas as responsabilidades.

Mas verificamos que ainda estamos muito longe dessa decisão. Quer jovens quer velhos. Todos lavam as mãos: existem leis, deixemos que os tribunais julguem esta canalha.

Naturalmente hoje poderíamos dizer que, depois da sentença de Roma (1), esta capacidade solidária de definir o intolerável está ainda mais longe. Mas também antes estava demasiado longe. E é isto que nos consome. Descobrir-nos (mas sem nos confessarmos) corresponsáveis.

E depois não nos perguntemos por quem os sinos dobram.

 

 

Foi isto o que escreveu Umberto Eco no La Republica, “Non chiediamoci per chi suona la campana”, após a sentença quase libratória do tribunal militar de Roma do nazi Erik Priebke.

 

  • O Massacre de Ardeatine foi o assassinato de 335 civis e presos políticos italianos feito em Roma a 24 de março de 1944 por tropas da Alemanha nazi, chefiadas pelos oficiais das SS, EriK Priebke e Karl Hass. Após a guerra, em 1946, Priebke escapou de um campo inglês de prisioneiros na Itália, fugindo primeiro para o Tirol, regressando depois a Roma, onde com papéis falsos fornecidos pelo Vaticano conseguiu emigrar para a Argentina. Em 1994 conta num programa de televisão da ABC do jornalista Sam Donaldson como tinha feito o massacre. Extraditado para Itália, o tribunal de Roma em 1996 considera-o “não culpado” porque “tinha obedecido a ordens”. Talvez devido à onda de protestos que se lhe seguiu, é de novo preso e julgado, desta vez condenado a 15 anos de prisão, reduzidos devido à idade para 10 anos de “prisão domiciliária” em casa do seu advogado, Paolo Giachini. Morreu com 100 anos de causas naturais em 2013. Apesar de proibido pelo Vaticano, o funeral religioso efetuou-se pela Sociedade do Santo Pio X na cidade de Albano Laziale, oficiado pelo ex-capelão das SS, D. Florian Abrahamowicz: “Priebke era um meu amigo, um Cristão e um soldado leal”.

 

Adenda:

Sugiro a leitura do blog de 26 de dezembro de 2018, “O barro dos artistas”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/195-o-barro-dos-artistas-51486), onde consta a frase de Steiner, “Como é possível ler-se Rilke à noite, ouvir-se Schubert de manhã e torturar ao meio-dia?”

(370) “O narcisismo das pequenas diferenças”

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

Certamente aquele que tem o poder para vos fazer acreditar em coisas absurdas, tem o poder para vos levar a cometer injustiças, Voltaire.

 

Um dos paradigmas base da nossa civilização ocidental é o da existência de um paraíso terrestre.

 

“Mas tu és circuncisado, acrescentou o quacker? Não tenho a honra de sê-lo, digo eu. Bem, amigo, continua o quacker, tu és um cristão sem ser circuncisado, e eu sou um cristão sem ser batizado,'” Voltaire.

 

Se vocês acreditam que são cidadãos do mundo, são cidadãos de nenhuma parte. Não sabem o que cidadania quer dizer, Theresa May.

 

 

 

 

 

A ideia de que o desenvolvimento das sociedades reproduz o desenvolvimento do indivíduo é muito apelativa, embora dificilmente demonstrável. Na sua versão mais simples, recordemos a “evidência” tida que as civilizações, tal como os indivíduos, nascem, crescem, desenvolvem-se, atingem um apogeu, declinam e acabam por desaparecer.

 A um nível mais erudito, eis o que, por exemplo, nos diz Freud no Totem e Tabu:

 

O primeiro resultado do que estabelecemos é muito digno de nota. Se o animal totémico é o pai, então, as duas principais proibições do totemismo, as duas prescrições-tabu que constituem o seu cerne – a saber: não matar e não utilizar nenhuma mulher que pertence ao totem para fins sexuais – coincidem com os dois crimes de Édipo, que matou o seu pai e tomou por mulher a sua mãe; e com os dois desejos originários da criança, cujo recalcamento insuficiente ou cujo renascer constitui, talvez, o núcleo de todas as psiconeuroses. Se esta analogia for mais do que uma brincadeira desorientadora do acaso, ela deverá permitir-nos lançar luz sobre a origem do totemismo em tempos imemoriais. Por outras palavras, deverá permitir-nos tornar plausível o fato de o sistema totémico ter resultado das condições do complexo de Édipo …”

 

Freud sabe que está a entrar num campo pouco científico quando estabelece o paralelismo entre as perspetivas ontogenética (relativa ao desenvolvimento do indivíduo) e filogenética (relativa ao desenvolvimento da espécie). Daí, o seu “Se esta analogia for mais que uma brincadeira desorientadora do acaso […]”.

 

Mas a tentação é muito forte. Friedrich Engels, após a morte de Karl Marx (1883) propõe-se passar o resto da pouca vida que lhe sobrou (1895) a organizar e a publicar as notas e os inéditos de Marx.

Logo em 1884 publica A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, a que se seguiram em 1885 e 1894 o segundo e terceiro volumes de O Capital.

A Origem talvez tenha sido a obra que mais contribuiu para a aceitação e expansão do imaginário marxista, ao abordar o aparecimento da propriedade, do patriarcado, da monogamia e do materialismo, bem como a progressão ascendente (evolução) da própria sociedade a partir de um estado selvagem inicial, sua passagem para a barbárie e finalmente para a civilização.

E a ideia do comunismo primitivo segundo a qual nas primeiras sociedades a propriedade privada era desconhecida, a alimentação era repartida por todos conforme as suas necessidades e em que todos eram cuidados, e que encontra acolhimento e respaldo na imagem Edénica que se tinha da humanidade, segundo a qual a modernidade foi corrompendo a bondade natural.

 

É bom lembrar que um dos paradigmas base da nossa civilização ocidental é o da existência de um paraíso terrestre (1) como jardim plantado por Deus no Éden, único lugar na Terra onde toda a felicidade era possível. Mas, atenção, ele é também o lugar de onde a natureza humana foi expulsa para sempre.

Pelo que ao longo dos tempos se tem assistido, por um lado às tentativas de um regresso ao Éden contidas nos sonhos revolucionários dirigidos contra os guardiões que lhe impedem o acesso, e por outro lado condicionando ao falhanço todas as tentativas de alcançar a felicidade terrestre.

Em qualquer dos casos, estamos perante a assunção de que o paraíso é um paraíso perdido, e que a natureza humana contém em si qualquer coisa de defeituoso. Pelo que o paraíso terrestre nos aparece sempre como um passado perdido, ou como um futuro a chegar.

 

Atualmente, vários economistas, antropólogos, põem em dúvida não só a existência desse comunismo primitivo como o do aparecimento da propriedade privada. Infelizmente, muitos dos seus argumentos caem exatamente no mesmo processo de não cientificidade que imputam aos marxistas (e não só) ao basearem-se no que se passa com as culturas de povos primitivos atuais (os Aché do Paraguai, os Hiwi da Venezuela, os Kung do Calaári, os Agta das Filipinas, os Deg Hit do Alasca, os Mbuti da África Central, os Ute do Colorado e outros) para presumirem que o povo primitivo primigénio se comportaria de igual modo. Isso é também acreditar (ter fé) não só que a progressão histórica existe, como que ela se produziria exatamente da mesma maneira.

Se presumirmos que as sociedades passaram de pequenas a grandes, ou de igualitárias a despóticas, de um passado angelical a um presente ganancioso, então faz sentido acreditar que elas também tenham transitado de uma harmonia sem propriedade para a competição egoísta. Mesmo que os factos do comunismo primitivo estejam errados, a história parece certa, na medida em que está de acordo (até agora) com as crenças induzidas, ou difundidas, ou naturais, sobre o percurso da história humana.

Contudo, qualquer destas crenças são (podem ser) mutuamente exclusivas, pelo que o seguimento de uma ou outra torna impeditivo o prosseguimento dos seus valores nas sociedades presente e futuras. Daí que a discussão à volta destas bandeiras tenha originado zangas, conflitos, lutas, guerras. Continua a originar. E se o ataque ao marxismo tenha vindo a ficar para trás, assiste-se hoje ao aumento de ataques aos valores religiosos mormente cristãos. (2)

 

Quando da sua estadia em Inglaterra entre 1726 e 1729, Voltaire escreveu vinte e quatro ensaios em forma de cartas sobre as suas vivências na Grã-Bretanha, primeiramente publicadas em Londres (1733) e em inglês, com o título Letters Concerning the English Nation (ou Philosophocal Letters on the English), ainda antes de serem publicadas em francês, em Rouen e Paris em 1734 (Lettres philosophiques sur les Anglais).

As primeiras cartas que se referem a várias das conversas tidas sobre religião, vão dar o tom cordial em que os encontros e as discussões ocorreram. Quando visita um Quaker numa casa de campo nos arredores de Londres, descreve-nos a cena da apresentação inicial: o francês, que faz uma reverência e acena com o chapéu de modo respeitoso, fica totalmente confuso com o Quaker que vestido com simplicidade se recusa a inclinar-se, e que se dirige ao visitante francês com o familiar "tu":

Ele não se descobriu quando eu apareci, e veio na minha direção sem inclinar o corpo uma única vez; mas parecia haver mais polidez no ar aberto e humano do seu semblante do que no costume de pôr uma perna atrás da outra e tirar o chapéu da cabeça, que é feito para cobri-la. E diz-me com ar de amigo: ‘Percebo que tu és estrangeiro’…”

O francês reconhece que tenha tido, ao princípio, dificuldade em desaprender os modos sociais franceses:

 “Continuei a fazer algumas cerimónias muito fora de época, não sendo fácil desvencilhar-me de hábitos aos quais estamos acostumados há muito tempo.”

Depois de comerem juntos, começam a discutir sobre religião. O visitante católico explica ao seu anfitrião quacker que para ser considerado um verdadeiro cristão ele precisaria de ser batizado, ao que o quacker objeta que o batismo é uma cerimónia herdada do judaísmo e que o próprio Cristo nunca batizou os seus seguidores: “Não somos de opinião que o espargir água sobre a cabeça de uma criança faça dela um cristão”.

O narrador francês, que havia começado por declarar a sua razoabilidade, acha que não tem resposta a dar sobre esse ponto de doutrina, mas também não pode admitir que perdeu o argumento: “Tive o juízo suficiente para o não o contestar, pois não há possibilidade de convencer um entusiasta”, declara pomposamente, antes de mudar rapidamente de assunto.

Sugere que diferentes tradições cristãs escolhem entre diferentes partes da Bíblia, e que a superioridade de uma forma deísta de crença transcende as cerimónias particulares de qualquer seita:

 “Mas tu és circuncisado, acrescentou o quacker? Não tenho a honra de sê-lo, digo eu. Bem, amigo, continua o quacker, tu és um cristão sem ser circuncisado, e eu sou um cristão sem ser batizado.'”

“E não têm padres?” “Não, não, amigo (replica o quacker) para nossa grande felicidade”.

 

Ao longo de todos estes ensaios, Voltaire vai-nos dando uma lição objetiva sobre a diferença cultural, demonstrando como essas diferenças podem ser superadas por uma compreensão tolerante. Aconselho a leitura da carta XI, “Sur l’insertion de la petite vérole”, tão atual sobre a vacinação.

Consideram os entendidos que esta obra, escrita para a elite europeia, constitui o primeiro clássico cosmopolita do Iluminismo. Apesar do termo ter como origem o grego Diógenes quando há dois mil e quinhentos anos o usou, kosmou polites, um cidadão do mundo, posteriormente quase que desapareceu, voltando a emergir no século XVI na língua francesa, passando no século XVIII a ser referida conotada aos homens e mulheres educados desse período que experienciavam um sentimento de companheirismo para com uma humanidade alargada.

Sentimento bem expresso por Voltaire numa missiva de 1742 dirigida a César de Missy, residente em Londres:

Não sei se o país que é o vosso é o inimigo deste que por sorte do nascimento se tornou o meu, mas sei bem que os espíritos que pensam como vós são do meu país, e são os meus verdadeiros amigos”.

Hoje, ser cosmopolita pouco mais quer dizer que ser alguém que tenha viajado bastante. Não é de admirar que a Primeira Ministra inglesa Theresa May, ao dirigir-se ao seu partido em 2016, tenha dito que:

Se vocês acreditam que são cidadãos do mundo, são cidadãos de nenhuma parte. Não sabem o que cidadania quer dizer.”

 

O próprio Voltaire se encarrega de lhe responder na Collection des lettres sur les miracles:

 

Há pessoas que outrora vos tenham dito: ‘Vocês acreditam em coisas incompreensíveis, contraditórias e impossíveis, porque nós vos ordenámos; ou seja, cometeram coisas injustas porque nós vos ordenámos para as praticarem. Nada pode ser mais convincente. Certamente aquele que tem o poder para vos fazer acreditar em coisas absurdas, tem o poder para vos levar a cometer injustiças. Se não usarem a inteligência com que Deus dotou os vossos espíritos para resistirem à ordem que vos leve a creditarem em impossibilidades, vocês não serão capazes de usar o senso de injustiça que Deus plantou nos vossos corações para resistirem às ordens do diabo. Uma vez que uma simples faculdade da vossa alma seja tiranizada, todas as outras faculdades seguirão pelo mesmo caminho. E tem sido isso a causa de todos os crimes de religião que têm inundado a terra.”

 

Como diz Cristina Cordeiro da faculdade de Letras de Coimbra:

 

O diálogo inter-religioso só pode existir entre mulheres e homens de boa-fé e de boa vontade, mas também conhecedores da história da sua própria crença e da dos outros, dito de outra maneira, capazes de relativizar, senão o Absoluto, pelo menos o valor das suas expressões e manifestações […] E não esqueçamos … o pomo de discórdia que constitui o que Freud denomina, em Malaise dans la Culture, ‘O narcisismo das pequenas diferenças’, de onde surgiram as terríveis guerras de religião no século XVI.”

 

 

Notas

1: Blog de 17 de março de 2021, “Pecado no Paraíso”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/311-pecado-no-paraiso-90452).

2:  Blog de 28 de junho de 2015, “Cristianismo como resistência à barbárie”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/cristianismo-como-barreira-a-barbarie-2202).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(369) Intolerância

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Os fundamentos teóricos do Mein Kampf podem refutar-se com uma série de argumentos bastante simples, mas se as ideias que propunha sobreviveram e sobreviverão a qualquer objeção, é porque se apoiam numa intolerância selvagem, impermeável a qualquer crítica, Umberto Eco.

 

Os intelectuais não se podem bater contra a intolerância selvagem, porque, ante a pura animalidade sem pensamento, o pensamento encontra-se desarmado, Umberto Eco.

 

O fundamentalismo, integrismo e racismo, partem de uma base comum que é a intolerância.

 

A maior intolerância é a dos pobres, que são as primeiras vítimas da diferença.

 

 

 

 

 

Como foi possível que países considerados como sendo culturalmente dos mais desenvolvidos, com reconhecidas figuras de relevo mundial nos vários campos da intelectualidade, das Humanidades à Ciência, permitissem (e em alguns casos até encorajassem) o seu envolvimento com a barbárie mais que animalesca que foi o Holocausto programado e sistemático dos judeus e a consequente (por inscrita na mesma raiz) destruição de outras populações, ou segmentos de população, consideradas como sub-humanas?

 

Em termos históricos o “fundamentalismo” é um princípio hermenêutico vinculado à interpretação de um livro sagrado. O fundamentalismo ocidental moderno nasce em ambientes protestantes dos Estados Unidos no século XIX, caraterizando-se pela decisão de interpretar literalmente as Escrituras, sobretudo no que dizia respeito às noções de cosmologia que pareciam por em dúvida a ciência da época.

Este fundamentalismo estrito que tem por base que a verdade resulta da interpretação da Bíblia, só poderia originar-se no protestantismo, porquanto, como para o catolicismo apenas a autoridade da Igreja é que é o garante da interpretação, faz deste fundamentalismo católico, um “tradicionalismo”.

 

Significa isto que o fundamentalismo é necessariamente intolerante? Sim, no plano hermenêutico, e não necessariamente no plano político. Pode-se perfeitamente imaginar uma seita fundamentalista que acredita que os seus próprios eleitos têm direito a correta interpretação da Bíblia, sem com isso obrigar os demais ou a compartir as suas crenças, ou a lutar para criar uma sociedade política com base nelas.

 

Já por “integrismo” se entende a posição religiosa e política pelo qual os princípios religiosos devem converter-se em modelo da vida política e fonte das leis do Estado. E curiosamente, se o fundamentalismo e o tradicionalismo são, por princípio, conservadores, já o integrismo pode ser progressista e revolucionário. Há movimentos católicos integristas que não são fundamentalistas, que lutam por uma sociedade inspirada nos princípios religiosos, sem com isso imporem uma interpretação literal das Escrituras.

Todos estes vários matizes que nos aparecem podem levar-nos a fazer crer do seu relacionamento com o elemento religioso. Mas foi nos Estados Unidos que, sem qualquer motivação religiosa, apareceu o politicamente correto, para promover tolerância e reconhecimento de qualquer diferença, fosse religiosa, racial, sexual. Rapidamente se transformou numa nova forma de fundamentalismo ao espartilhar de uma forma quase ritual a linguagem do dia-a-dia. É assim que, sem retirar qualquer discriminação efetiva ao assunto ou agente, se pode agora falar dele sem pudor. Por exemplo, pode-se falar sobre cegos bastando chamar-lhes de “invisuais”. Mas quem não seguir estas regras de correção política, será discriminado!

E o mesmo se passa com os matizes do racismo: ao passo que o racismo nazi era totalitário e se pretendia científico, embora não havendo nada fundamentalista na doutrina da raça, o racismo vulgar não tem essas mesmas pretensas raízes culturais do racismo nazi. Na realidade não têm qualquer raiz cultural, mas continua a ser racismo.

 

Não é difícil concluir-se que fundamentalismo, integrismo e racismo, partem de uma base comum que é a intolerância. Acontece que existem formas de intolerância que não são racistas, como a intolerância para com os hereges e a intolerância das ditaduras para com os seus opositores. É isto que faz com que a intolerância seja algo muito mais profundo que está na raiz de todos estes fenómenos.

Fundamentalismo, integrismo, racismo pseudocientífico, são posições teóricas que pressupõem uma doutrina. A intolerância aparece antes de qualquer doutrina, o que faz com que a intolerância tenha raízes biológicas, que se manifesta pela territorialidade nos animais e por reações emotivas, a maior parte das vezes superficiais, entre nós: não suportamos os que nos são diferentes, ou por causa da cor da pele, ou porque falam outra língua que não entendemos, ou porque comem rãs, cães, macacos, porco, alho, ou porque fazem tatuagens …

 

A intolerância pelo diferente ou pelo desconhecido é natural na criança, bem como o instinto de se apoderar de tudo o que deseja. Tem assim de aos poucos ser educado na tolerância, bem como no relativo à propriedade alheia. Como consequência, vamos ser expostos ao longo de toda a vida, na vida quotidiana, à diferença para com o outro.

Mas há uma outra intolerância mais profunda, mais difusa, que se crê preexistente: a intolerância selvagem. O exemplo mais vulgar, o da caça ás bruxas.

Como diz Umberto Eco, a doutrina da caça ás bruxas, embora já referida na antiguidade clássica, só aparece na idade moderna. O Malleus Maleficarum é escrito pouco antes do descobrimento da América, sendo contemporâneo do humanismo florentino; La Démonomanie des sorciers é de um homem do Renascimento que escreve depois de Copérnico, Jean Bodin. Esta doutrina só se conseguiu impor porque já antes existia um receio popular para com as bruxas. Sem essas crenças populares não se poderia ter difundido uma doutrina da bruxaria e uma prática sistemática da perseguição.

O antissemitismo pseudocientífico surge no decorrer do século XIX e só se converte em antropologia totalitária e prática industrial de genocídio no século XX. Mas ele não poderia nascer se já há séculos não tivesse existido, vindo desde os padres da Igreja, com a polémica anti-judia e um antissemitismo instalado entre o povo em lugares onde existiam guetos.

As teorias anti-jacobinas da conspiração judia do início do século XIX não criaram o antissemitismo popular, explorara apenas o ódio para com os diferentes que já existia antes.

A intolerância mais perigosa é precisamente aquela que surge na ausência de qualquer doutrina, como resultado de pulsões elementares. Daí que não possa ser criticada ou contida com argumentos racionais.

Os fundamentos teóricos do Mein Kampf podem refutar-se com uma série de argumentos bastante simples, mas se as ideias que propunha sobreviveram e sobreviverão a qualquer objeção, é porque se apoiam numa intolerância selvagem, impermeável a qualquer crítica.

A intolerância selvagem baseia-se num curto-circuito categórico que acaba por ser um campo para qualquer teoria racista futura: alguns ciganos são ladrões (é verdade), portanto, todos os ciganos são ladrões.

Este curto-circuito é uma tentação para todos nós: em Roma roubaram-me a carteira no aeroporto. Logo dizemos aos nossos conhecidos, Atenção às carteiras nos aeroportos italianos. Cambada de ladrões.

Eco, vai tirar duas conclusões:

 

A maior intolerância é a dos pobres, que são as primeiras vítimas da diferença. Não há racismo entre os ricos. Quando muito, os ricos produziram as doutrinas do racismo, mas os pobres produzem a sua prática, que é muito mais perigosa. (Dito popular português: “não há pior fascista que o criado do fascista”).

 

Os intelectuais não se podem bater contra a intolerância selvagem, porque, ante a pura animalidade sem pensamento, o pensamento encontra-se desarmado. Mas, quando se batem contra a intolerância doutrinal, é demasiado tarde, porque quando a intolerância se faz doutrina já é demasiado tarde para a combater, e os que deveriam tê-lo feito convertem-se nas suas primeiras vítimas.

 

 

E é exatamente por não termos conseguido responder aquela interrogação inicial (Como foi possível …?) que não conseguimos erradicar os seus efeitos, cada vez hoje mais ás vistas. Pode até dar-se o caso de não se ter querido responder ou de apesar de se terem obtido respostas parciais não se tenha querido erradicar os seus efeitos, pelo menos na totalidade. Lembremos que na época havia que lutar contra o comunismo internacional e contra o imperialismo capitalista (se não fosse isso seria contra outras coisas), pelo que alguns daqueles génios deveriam ser aproveitados. Como foram.

Pode mesmo dar-se o caso de esta humanidade não ter capacidade para responder à pergunta formulada, e assim sendo, teremos de ir vivendo com o que temos: autocracias e/ou fascismos.

 

Os seres e as sociedades humanas até poderiam ser entidades com alguma graça se não estivessem sempre prontos para matarem os outros. Eis o que Marcel Proust diz no parágrafo final do Em busca do tempo perdido:

 

“[…] se tais forças me fossem concedidas pelo tempo suficiente para realizar a minha obra, não deixaria acima de tudo de descrever nela os homens, ainda que tal os fizesse parecerem-se com uns seres monstruosos, uns seres que ocupam um lugar tão considerável comparado com o tão restrito lugar que lhes está reservado no espaço, um lugar de facto desmedidamente prolongado […]”

 

 

Sugestões de leitura:

              Sugiro a leitura do blog de 30 de novembro de 2016, “ A captura da democracia pelas falsas notícias institucionalizadas …”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/a-captura-da-democracia-pelas-falsas-24001)

 

e do blog de 18 de novembro de 2015, “A cartilha do fundamentalismo”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/a-cartilha-do-fundamentalismo-8885).

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