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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(296) Invisíveis ou irrelevantes?

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

Enquanto no passado os humanos tinham de lutar contra a exploração, no século vinte e um a grande luta será contra a irrelevância, Yuval Harari.

 

Hikikomori, é o estado em que pessoas se tornam reclusas nas suas próprias casas, evitando qualquer contacto social (ir à escola, ao trabalho, ter qualquer interação social fora de casa, etc.) durante pelo menos seis meses.

 

O que prepara os homens para uma dominação totalitária num mundo não-totalitário é o facto da solidão […] se tornar uma experiência de todos os dias, Hannah Arendt.

 

A solidão organizada destrói a capacidade das pessoas distinguirem entre facto e ficção.

 

Nunca está um homem mais ativo do que quando nada faz, nunca está ele menos só do que quando está consigo, Cícero.

 

 

 

 

Solidão e isolamento são períodos pelos quais todos passamos uma ou outra vez na vida. Por vezes fazem parte do crescimento, como durante a adolescência quando procuramos a identidade que nos escapa. Outras, devido a alterações significativas das circunstâncias económicas e sociais da vida que trazem consigo um aumento de problemas de saúde mental, conduzem à ansiedade e depressão.

 

No início da década de 90 (século passado) o Japão começou a ser palco de um comportamento tido como estranho por parte de alguns dos seus cidadãos. O psiquiatra japonês Saito Tamaki, no seu livro de 1998, Social Withdrawal – Adolescence Without End, vai definir este comportamento  como hikikomori (derivado do verbo hiki “retirar” e de komori “estar dentro”), como o “fenómeno em que pessoas se tornam reclusas nas suas próprias casas, evitando qualquer contacto social (ir à escola, ao trabalho, ter qualquer interação social fora de casa, etc.) durante pelo menos seis meses” (1).

Um dos exemplos típicos é o de Kenji Yamase, uma hikikomori de 50 anos que vive isolada em casa com a mãe de 87 anos, que é quem trata dela. Yamase, durante 15 anos começou por trabalhar dois a três anos, mas não conseguindo encaixar-se desistia para passar dois a três anos sempre em casa, tentando depois voltar a trabalhar, falhando de novo, acabando definitivamente por regressar a casa.

Lia livros ou dormia. Sentia-ma ansiosa, mas odiava só pensar ter de enfrentar de novo a sociedade. Queria evitar voltar a ter uma outra experiência penosa, por isso, apesar de não me sentir bem em casa, sempre era melhor que trabalhar. Se me perguntar porque é que não procurei imediatamente um novo emprego, é porque eu sabia que ia de novo falhar. Sabia que por mais que tentasse, tudo iria ser o mesmo. Voltaria a ficar deprimida e incapaz de me mover”. (2)

 

Na altura, estimou-se que 232.000 japoneses sofriam dessa “desordem”, dos quais 1,2% com idades compreendidas entre os 20 e os 49 anos, cujos contactos sociais eram predominantemente feitos via internet, sendo pessoas normalmente tímidas, com estilo ambivalente de afeições, rejeitados por conhecidos e familiares, e possíveis influências de outros fatores genéticos ou biológicos que dificultassem a socialização.

Em dezembro de 2018, uma nova estatística efetuada entre os japoneses com idades entre os 40 e os 64 anos, revelou que existiam só nesse grupo de idade, 613.000 com hikikomori. Desses, 46,7% disseram viver assim há pelo menos sete anos, 34,1% vivendo ás custas dos pais.

Numa entrevista do ano passado, Saito Tamaki veio dizer que o total de hikikomori devia ser de dois milhões, podendo crescer para 10 milhões, porque muitos continuavam escondidos.

Ou seja, aquilo que inicialmente era visto como uma mania de alguns adolescentes com problemas de personalidade que não saiam dos seus quartos para jogarem vídeos e nada fazerem, transformou-se num problema cada vez maior da sociedade, porque muitos deles nunca mais se conseguem integrar. Fecham-se, ou “são forçados a fecharem-se”, como diz Kenji Yamase.

 

Inicialmente visto como um problema apenas japonês (estagnação económica verificada a partir de 1990 que impediu muitos jovens de alcançarem os seus objetivos, a vergonha sentida pelas condições em que se encontravam numa sociedade com forte pressão coletiva e sentimentos de vergonha social (3), normas sociais rígidas, grandes espectativas dos pais relativamente aos filhos, etc.), tem-se vindo progressivamente a descobrir que este comportamento está também a acontecer noutros países e culturas, não só na Ásia, mas nos EUA, Espanha, Itália, França, Alemanha, Reino Unido.(4)

Por exemplo, a última estatística de janeiro de 2019 do Office of National Statistics do Reino Unido indicava que cerca de 10% dos britânicos entre os 16 e 24 anos padeciam deste “sentimento”.

Algumas das razões poderiam até ser outras. Como diz Alan Teo, “Uma das razões porque o hikikomori é fascinante é porque não há apenas uma única explicação. São uma série de fatores juntos”. (5)

 

 

 

A solidão sempre fez parte da condição humana. De tempos a tempos todos nos sentimos sozinhos. Com experiências individuais diferenciadas e com um conceito que se tem alterado através do tempo. Recordemos os eremitas (homens e mulheres) que voluntariamente fugiram da sociedade, que não de Deus, precursores das ordens monásticas, que o faziam por religiosidade, penitência, misantropia, amor à natureza, que buscavam através de um estilo de vida austero e contemplativo a união com Deus.

Esta renúncia às preocupações e prazeres do mundo, esta devoção, está presente em várias religiões, do Ocidente ao Oriente, e ao longo de várias épocas.

Mais perto de nós, com a perca de religiosidade, a chegada da Revolução Industrial, a solidão começa a aparecer associada a sentimentos de alienação. Com a ideologia e o terror conducentes e resultantes do totalitarismo do século XX, Hannah Arendt vai apresentar-nos uma nova explicação para a solidão.

É sabido que a solidão nos impede, enquanto seres humanos, de realizar o máximo das nossas capacidades. Quando imersos na solidão, perdemos a capacidade para experienciar qualquer que seja outra coisa. Não nos permite pensar em novos começos.

Sendo a solidão o elemento fundamental para o corte com qualquer ligação humana, o totalitarismo veio criar as condições para transformar a experiência ocasional da solidão num estado permanente:

 

O que prepara os homens para uma dominação totalitária num mundo não-totalitário é o facto da solidão, uma experiência de fronteira normalmente apena sofrida em certas condições marginais como a velhice, se tornar no nosso século uma experiência de todos os dias sofrida por cada vez maior número de pessoas.

 

Arendt vai distinguir isolamento de solidão, e solidão de reclusão.

 O isolamento pode por vezes ser necessário para se criar algo. Mesmo para se ler um livro torna-se necessário um certo isolamento:

 

Isolamento e solidão não são o mesmo. Posso estar isolada – situação onde não posso agir, porque não há ninguém à vota que possa agir comigo – sem estar em solidão; e posso estar em solidão – situação em que como uma pessoa sinto-me abandonada de qualquer companhia humana – sem estar isolada.”

 

Depois de publicar As Origens do Totalitarismo, Arendt é convidada para dar aulas extraordinárias em Berkeley, na Universidade da Califórnia. Coisa que mais tarde ela percebeu não gostar. Numa carta escrita ao marido, diz:

“Não aguento estar exposta ao público cinco vezes por semana – por outras palavras, nunca sair do olhar do público.”

É que esta exposição constante aos olhos do público não lhe permitia manter a sua própria companhia consigo mesma. Não conseguia encontrar o espaço privado necessário para pensar.

Da mesma forma que necessitamos da aparecer no mundo público para termos reconhecimento, necessitamos também de reclusão privada para podermos estar sozinhos connosco próprios e pensar. E era esta falta que Arendt sentia. “O que torna a solidão tão insuportável é a perca do nosso próprio ser que só se pode realizar na reclusão …”

 

Na reclusão, a pessoa consegue fazer companhia a si própria, entabular uma conversa consigo própria. Não se perde contacto com o mundo, porquanto o mundo da experiência está sempre presente no nosso pensamento. Daí ela citar Cícero:

 

Nunca está um homem mais ativo do que quando nada faz, nunca está ele menos só do que quando está consigo”.

 

É exatamente isto que o totalitarismo destrói, a capacidade de pensarmos connosco e para nós. O totalitarismo usa o isolamento para retirar às pessoas toda a companhia humana, tornando impossível qualquer ação no mundo. Destrói a aptidão humana para as pessoas se movimentarem, agirem e pensarem. O mundo torna-se uma selvajaria, onde não é possível nem a experiência nem o pensamento.

E como na solidão se encontra comprometida a capacidade para pensar, também não se consegue manter uma conversa consigo próprio. Por isso, a solidão organizada destrói a capacidade das pessoas distinguirem entre facto e ficção.

 

 

Em tempos de Covid-19 em que o receio sobre a infeção, as percas de emprego, o tele trabalho, a maior utilização do computador, a menor interação com pessoas, a rutura social dos confinamentos, tudo isso e mais, pode, além de propiciar, tornar aceitável  os comportamentos de isolamento não-reversíveis, ou muito dificilmente reversíveis, como os do hikikomori.

Para os mais jovens, se acrescentarmos a falta de perspetiva para o futuro, o sentimento de se sentirem inúteis, incapacidade para alcançarem os seus objetivos, tudo isto e mais, temos então os ingredientes para a tempestade perfeita donde sairá a muito possível sociedade dos invisíveis do futuro.

 

Adenda 1:

No último encontro de Davos, o filósofo israelita Yuval Harari, deixou um aviso:

 

Enquanto no passado os humanos tinham de lutar contra a exploração, no século vinte e um a grande luta será contra a irrelevância […] Aqueles que falharem na luta contra a irrelevância passarão a constituir uma nova ‘classe inútil’ – não sob o ponto de vista das suas famílias e amigos, mas inúteis sob o ponto de vista do sistema político e económico. E esta classe inútil estará separada por uma distância que será cada vez maior da cada vez mais poderosa elite.”

 

Adenda 2:

No ano de 2019, o número de nascimentos nos EUA foi o mais baixo de sempre (6), 58,2 nascimentos por 1.000 mulheres entre os 15 e os 44. O total mundial é de 12,5 por 1.000. O Japão é o país com o rácio de 7,7, sendo o mais baixo de todos os países.

Também no ano e 2019, o Pew Research Center (7) veio mostrar num excelente estudo que para quase metade dos adultos americanos era mais difícil ter um encontro que há 10 anos, e que metade não estava interessada em encontrar parceiro. Isto levou o autor ensaísta americano Wealey Yang, a questionar se “a solidão epidémica nas sociedades como o Japão poderá ser o nosso futuro”, naquilo que chama de “japonisação”.

 

Adenda 3:

Na sua última novela Weather, publicada pela Knopf em 2020, a escritora americana Jenny Offill, põe a protagonista principal a perguntar à amiga para onde poderia levar o filho e o marido no caso de uma emergência climática assolar Nova Iorque em 2047. Eis a resposta dada:

Acreditas mesmo que podes protege-los? E em 2047?” E enquanto pede uma nova taça de vinho, completa “Pois tens é que te fazer rica: muito, muito rica”.

 

 

 

 

  1. Saito K., Hikikomori no hyouka shien ni kansuru gaidorain [Guideline on evaluation and support of hikikomori] Tokyo, Japan: Ministry of Health, Labor, and Welfare; 2010.

 

  1. https://www.japantimes.co.jp/life/2019/06/01/lifestyle/prison-inside-japans-hikikomori-lack-relationships-not-physical-spaces/

 

  1. Pauline Kent, “Shame as a Social Sanction in Japan: Shameful Behaviour as Perceived by the Voting Public”, https://www.jstor.org/stable/25790914?seq=1.

 

  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5573567/.

 

  1. https://www.bbc.com/future/article/20190129-the-plight-of-japans-modern-hermits.

 

  1. https://www.wsj.com/articles/u-s-birthrates-fall-to-record-low-11589947260.

 

  1. https://www.pewsocialtrends.org/2020/08/20/nearly-half-of-u-s-adults-say-dating-has-gotten-harder-for-most-people-in-the-last-10-years/.

 

 

 

(295) Natureza humana e verdade

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

Se os modernos e contemporâneos se esforçam por parecer que estão a inovar, mesmo quando estão apenas a repetir, acontece o inverso com os medievais, que se esforçam por parecer que estão a repetir, mesmo quando estão a inovar.

 

Ouvistes que foi dito: ‘não cometerás adultério.’ Mas eu digo-vos que todo aquele que olha para uma mulher com a intenção de a desejar já cometeu adultério com ela no seu coração, (Evangelho segundo Mateus, O sermão na montanha, 5:27)

 

Deus passa a ter acesso aos pensamentos pecaminosos que cada um de nós tem na privacidade do nosso ser.

 

No século XX, as pessoas tornam-se autores das suas próprias histórias, verdadeiras ou imaginárias, em que aparecem como muito bem desejam.

 

 

 

 

A Idade Média continua a ser aquela época que ainda hoje é considerada por quase todos os modernos e contemporâneos como a Idade das Trevas, um milénio perdido de retrocesso civilizacional ou de estagnação, invasões bárbaras, guerras, pestes, fomes, obscurantismo, dogmatismo.

E, no entanto “esquecemo-nos” que muito provavelmente as Invasões Bárbaras não passaram de movimentos de povos (migrações) que eram ditos bárbaros, não por não terem cultura própria mas por ela ser diferente da romana, migrações essas que nem sempre foram pacíficas.

“Esquecemo-nos” do aparecimento de instituições como a universidade, que vindas desse tempo ainda hoje perduram (Oxford, Paris, Salamanca, Coimbra …), da expansão do cristianismo (“religião dos escravos” como lhe chamou Nietzsche) que baniu a escravatura por considerar que cada homem era criado à imagem de Deus (passaram a servos da gleba…), da proteção e conservação de tesouros culturais da antiguidade, dos avanços na agricultura (variados sistemas de pousio, lavradio -relha de ferro- e irrigação), da atrelagem semifixa de animais, do moinho de vento, etc..

 

Curiosamente, é no campo da filosofia que os ataques são mais contundentes, ao ponto de se duvidar que na Idade Média pudesse ter existido verdadeira filosofia, isto porque os seus filósofos mais não teriam feito que “mastigar” referências anteriores já contidas na Filosofia Antiga, e porque, sendo religiosos, faziam assentar os seus pensamentos em pressupostos e preconceitos (o religioso e o transcendente) que impediam o filosofar no sentido radical do termo, o verdadeiro filosofar.

Na realidade, o que se passava é que a postura dos filósofos medievais perante o saber, na sua maior parte teólogos e sacerdotes, era bem diferente daquela que era própria dos filósofos antigos e dos que lhes sucederam. Imbuídos numa sociedade imersa nos Evangelhos onde a verdade que salvará o homem já fora dita, eles não tinham a pretensão de descobrir uma outra verdade, mas sim de explicar esta:

 

Mesmo quando inovavam, preocupavam-se em mostrar que estavam de acordo com a tradição. Se os modernos e contemporâneos se esforçam por parecer que estão a inovar, mesmo quando estão apenas a repetir, acontece o inverso com os medievais, que se esforçam por parecer que estão a repetir, mesmo quando estão a inovar.” (M. Inês Bolin.)

 

Deve-se ainda notar que não foram os medievais que se classificaram a si mesmos como sendo medievais (na altura, eles eram a atualidade, contemporâneos). Foram os renascentistas, com a finalidade deles se distanciarem, que cunharam a expressão médium tempus (Petrarca).

 

A tentativa de comparação de culturas, civilizações, povos, para além de ser complicada, é normalmente enviesada por critérios subjetivos, deixando intocável aquele que é afinal o problema principal, o da interpretação da existência da natureza humana.

Para alguns ela é fixa, dada para sempre pela natureza ou por Deus. Foi isto que pensaram e nos transmitiram as escolas da filosofia antiga, o platonismo, aristotelismo, estoicismo, e ainda a tradição cristã.

A ser assim, a natureza humana é algo que nos foi dado ou criado, para todo o sempre, uma essência.

Mas para outros, para as novas interpretações existencialistas, desconstrutivistas, e outras filosofias da mente, a natureza humana não passa de um conjunto complexo de comportamentos e atitudes que nos permite discutir de forma conveniente a experiência humana e que, portanto, não corresponde a nenhuma realidade externa.

A ser assim, a natureza humana é como que uma ficção ultrapassada que herdamos da tradição.

 

Há ainda uma outra via já anteriormente proposta por G W F Hegel (1770-1831), e segundo a qual a realidade da natureza humana só poderá ser compreendida se considerarmos a análise do desenvolvimento humano ao longo da história.

Segundo ele, no início da história da humanidade, as pessoas não se viam a elas próprias como indivíduos como se vêm hoje. Não havia o conceito da existência de uma esfera interior especial que nos autodefinisse. Nessa época as pessoas viam-se como pertencendo a um grupo: a família, a tribo, o estado, etc.

Aquilo que nos aparece hoje como intuitivo, como escolhas que os indivíduos têm o direito de fazer (que curso tirar, que profissão escolher, com quem viver, que religião professar, etc.), não acontecia assim noutros tempos. Ou seja, tudo isso não é considerado como absoluto, mas sim como condicionado social e historicamente.

 

Os mesopotâmios, egípcios, gregos, não tinham esses direitos. Aquilo que determinaria aquilo que seriam na vida, era o facto de terem nascido em famílias específicas ou classes. Os mais novos seguiam os desejos dos pais, os seus desejos próprios e visões não eram tidos em conta.

 

Alguns exemplos: o historiador grego Plutarco explicava que Licurgo, o legislador de Esparta, “acostumara os cidadãos a não terem o desejo de uma vida privada, nem a manifestarem qualquer conhecimento dela, devendo antes serem como abelhas, sempre ligadas à comunidade, com uma extasiada e fervente ambição de se devotarem inteiramente ao seu país”.

A Esparta de Licurgo, era uma sociedade que não reconhecia a validade de os indivíduos tomarem decisões para eles próprios. A subjetividade ou a individualidade não eram cultivadas, imperava a conformidade. Nada havia na individualidade que pudesse ser visto como possuindo valor sustentável, uma vez que tudo devia submeter-se às necessidades da sociedade ou do estado. O indivíduo não contava para nada.

 

Édipo nunca tencionara matar o pai ou casar com a mãe e, no entanto, era visto como culpado pelas ações cometidas. Isto porque as intenções próprias de cada indivíduo não eram consideradas relevantes para o processo: apenas contava a ação exterior cometida. O mesmo não acontece na sociedade atual em que os tribunais, antes de proferirem a sentença, entram em consideração com a intenção do acusado.

 

A subjetividade do indivíduo foi uma das grandes revoluções ensinadas por Sócrates. Segundo ele, nada deveria ser aceite única e exclusivamente por ser tradição. As pessoas devem ser críticas acerca de tudo, aceitando apenas aquilo que puder ser demonstrado estar de acordo com o seu raciocínio. Ou seja, devia ser o indivíduo a ter o direito de dar o seu consentimento sobre aquilo que se julgava ser verdadeiro, em vez de isso vir ditado de cima. Ideia tão radical e provocadora que o levou a ser condenado à morte na progressista Atenas.

 

Jesus Cristo vai levar mais longe esta importância da interioridade nos seres humanos. Mais importante que a ação no mundo era a disposição do indivíduo para olhar para o seu interior, e isto por  as ações praticadas no mundo serem sempre limitadas no espaço e no tempo (só se pode fazer um número finito de coisas), ao passo que na esfera interior dos nossos desejos e pensamentos o campo ser infinito.

Ou seja, temos de prestar atenção não apenas ao que fazemos, mas também ao que pensamos.

Quando Jesus diz aos seus seguidores

 

Ouvistes que foi dito: ‘não cometerás adultério.’ Mas eu digo-vos que todo aquele que olha para uma mulher com a intenção de a desejar já cometeu adultério com ela no seu coração.” (Evangelho segundo Mateus, O sermão na montanha, 5:27)

 

o conceito de moralidade vai alargar-se enormemente, ao considerar que só pelo simples facto de se desejar, poder-se já estar a cometer um crime antes de a sua ação ter sido feita.

Isto vai acabar por conduzir a uma regulamentação obsessiva sobre a pureza dos pensamentos dignos de Deus. Deus passa a ter acesso aos pensamentos pecaminosos que cada um de nós tem na privacidade do nosso ser.

 

No mundo moderno, as pessoas têm o direito de decidir sobre as suas vidas, o direito de rejeitarem e de criticarem tudo o que contradiga as suas consciências individuais. Foi o aparecimento desta ideia da verdade subjetiva, que permitiu a libertação do domínio dos costumes e da tradição, e o desenvolvimento de princípios como os da liberdade religiosa, liberdade de expressão e consciência, e dos direitos humanos individuais.

No mundo antigo predominava o sentido de família e de comunidade, onde todos conheciam o lugar e papel que lhes estava destinado, essencial para a sua sobrevivência. As pessoas identificavam-se com a sua cultura, a sua religião e a sua sociedade.

Desde que se mantivessem no lugar que lhes era atribuído, tudo correria suavemente. Se saíssem do seu lugar, a ordem quebrava-se, ameaçando com a vinda da desarmonia. Os pensadores do antigo chamavam-lhe de harmonia. Os pensadores medievais chamavam-lhe de ordem.

 

É este sentido de comunidade ou de vida em sociedade que se perdeu. Este é o preço que se tem de pagar pelo aparecimento da individualidade: sentimento de isolamento e de separação da comunidade ou de outras instâncias maiores com as quais é difícil uma identificação imediata, ou ainda com estruturas que muitas vezes parecem contraditar as nossas próprias sensibilidades.

O reconhecimento da importância deste valor da subjetividade do indivíduo, vai aumentar no Renascimento e na Reforma, bem explícito por Lutero quando explica que a decisão da fé religiosa era um assunto que só dizia respeito ao indivíduo, ou do Iluminismo quando considerava que eram os indivíduos que possuíam os direitos humanos dados por Deus. No século XIX, dá-se uma aceleração na celebração da individualidade com o Romantismo, o seu culto do génio, da vida como arte, do amor livre, e da rejeição dos valores burgueses.

 

No século XX, assiste-se ao crescimento da autoindulgência e do narcisismo, segundo os quais todos nos consideramos como átomos individuais na persecução de finalidades privadas e com ideias que não tenham de respeitar nada do que à volta se possa passar. As pessoas tornam-se autores das suas próprias histórias, verdadeiras ou imaginárias, em que aparecem como muito bem desejam.

As preocupações das pessoas vão para todos os aspetos das suas vidas individuais: os seus corpos, as suas roupas, os seus gostos, a coisas que possuem. A intenção é sempre o desejo de conseguirem expressar o quão únicas são as qualidades que acreditam ter, o que as torna presa fácil dos propagandistas das modas que lhes conseguem vender produtos que os levem a acreditar nisso.

 Assim, quando esses produtos aparecem servem para demonstrar a individualidade daquela pessoa mas que quando passam a ser do agrado de outras pessoas, rapidamente passam a demonstrar o seu contrário, ou seja, que aquela pessoa está a seguir uma moda já aceite por todos.

Isso obriga-a a ter de mudar, procurar outro foco de autoidentificação. O que implica uma procura constante pela novidade, pela substituição do já visto. Esta dificuldade sentida pela perca dessa demonstração da individualidade, conduz ao desespero e é em si a demonstração mais evidente da grande importância do princípio da individualidade e da subjetividade na sociedade atual.

Não se trata de um problema que afeta só os adolescentes. É mais geral. O acreditar que apenas as coisas que nos agradem e sirvam, poderão ser rotuladas como novidade, ou seja, que só os indivíduos, enquanto indivíduos, podem ditar que a sua verdade é a verdade, revela o fenómeno de rejeição de qualquer forma de verdade objetiva. Deixa de haver verdade objetiva.

O jornalismo atual, a política atual, a educação atual, a ciência atual, reflete bem este estado de coisas, em que a verificação das fontes, da veracidade dos fatos, o método científico, deixam de ser relevantes.

Na New Yorker publicada logo após o início da interminável eleição presidencial americana, vinha um desenho humorístico inanimado em que os apoiantes de Trump apontavam várias causas para que os votos fossem considerados inadmissíveis. Uma das que levaria de imediato à rejeição do voto por fraudulento, era aquela em que o quadradinho indicativo da preferência estivesse preenchido no nome de Joe Biden.

 

Quando as pessoas passam a ter a liberdade para construírem a sua própria ficção como sendo a realidade, mesmo que essa sua ficção vá de encontro aos factos verificados objetivamente, leis estabelecidas, costumes aceites, ou princípios éticos evidentes, considerando-os como “força de bloqueio” contra a sua individualidade, a validade ou a verdade objetiva, desaparecem.

Com ela desaparecem também o sentido de qualquer responsabilidade pessoal ou de culpabilidade. Qualquer comportamento ou ação mais abjeta pode sempre ser justificado com recurso à verdade devida do indivíduo.

 

Esta relação entre natureza humana e verdade, nem sempre tem sido evidente. O que nos parece é que quando os humanos começaram a reconhecer a importância e a irredutibilidade da esfera interior do indivíduo, começou a operar-se uma mudança gradual na noção de verdade.

Recordemos Hegel quando na sua teoria da história nos dizia que cada período tinha a sua própria justificação. Neste caso, a liberdade é algo que foi emergindo lentamente ao longo do último milénio, sendo esse próprio conceito do que é, que vai desenvolvendo o ser humano.

E se Hegel estiver certo quando nos dizia que um princípio acabará necessariamente por dar lugar ao seu oposto, então este desbragado e necessário relativismo individualista acabará de algum modo por conduzir a uma nova ideia de objetividade e de verdade exterior. Aguardemos.

 

 

Entretanto:

              Desde que recentemente o Twitter e o Facebook intensificaram os seus sistemas de verificação de veracidade dos conteúdos (fact checking), milhões de utilizadores mudaram-se para outras plataformas alternativas – como a Newsmax, Parler e Rumble, onde as mentiras podem circular à vontade até desaparecerem ou passarem a ser aceites.

 

              E, já agora, este recente artigo do Yahoo (https://www.yahoo.com/lifestyle/er-nurse-some-covid-19-patients-still-think-virus-hoax-160448458.html), onde se relata que pacientes que chegam aos hospitais com covid 19, recusam-se a serem tratados por não acreditarem que o covid 19 exista, não passa de uma mentira.

 

 

 

 

 

(294) A tradição quebrada, segundo Hannah Arendt

Tempo estimado de leitura: 20 minutos.

 

Já antes lhes tinham dito: Tu não deves matar; e eles não mataram. Agora dizemos-lhes: tu matarás; e embora eles pensem que é difícil matar, eles fazem-no porque agora faz parte do código de conduta.

 

O totalitarismo apela para as necessidades emocionais mais perigosas de pessoas que vivem em completo isolamento e com medo dos outros.

 

Temos medo de ter medo. Esta é uma das principais motivações. Mas nós temos medo da liberdade.

 

O que também é peculiar da nossa época, é a intrusão maciça do crime na vida política.

 

Sabemos hoje que o maior perigo de tirania vem do executivo […] A segurança nacional cobre agora todos os tipos de crimes. Por exemplo, o presidente tem todos os direitos. Ele está acima da lei e o seu raciocínio é sempre que tudo o que ele faz, fá-lo em prol da segurança nacional.

 

A América não é um Estado-nação […] Este país não está unido nem pela herança, nem pelas memórias, nem pelo solo, nem pela língua, nem por uma origem idêntica. Não há americanos genuínos aqui, além dos índios.

 

A principal característica de qualquer acontecimento é que não foi previsto.

 

Sempre fomos alfabetizados, porque não se pode ser judeu sem ser alfabetizado.

 

 

Vai ser Hannah Arendt o primeiro filósofo a utilizar o conceito de “quebra de tradição” (e há quebra de tradição sempre que o passado deixar de ser transmitido de geração em geração) sob um ponto de vista histórico, político e moral, como uma das principais caraterísticas da passagem para a contemporaneidade.

Até agora a importância que a ideia de autoridade tem assumido nos vários tipos de governo, desde a fundação de Roma até meados do século XX, a importância da cultura e da educação baseada no conhecimento do passado, a importância da inspiração platónica de princípios de moral cristãos, tem sempre enformado as várias épocas que se têm sucedido.

Na atualidade o que se verifica é que, politicamente, desde o aparecimento do totalitarismo que a autoridade tem vindo a ser desprezada; que eticamente, os princípios da moralidade ocidental têm já falta de vigor; que culturalmente, o que é fomentado é o entretenimento instantâneo em detrimento do conhecimento do passado.

 

A tradição histórica ou política a que Arendt se refere tem que ver com a que nasceu em Roma durante a sua fundação, e sua posterior transmissão de geração em geração, onde se enaltecia a importância da figura da autoridade, no sentido de aumentar o caracter sagrado desse começo fundamental mas onde se supunha o estabelecimento de leis positivas que limitando a liberdade do cidadão também a possibilitam, e, em que por outro lado, se reconhecia a natureza instrumental da violência, ou seja, em que a violência só era reconhecida se se utilizasse como meio para alcançar fins a curto prazo, e não como um fim em si mesmo.

 

Esta tradição perdurou até meados do século XX, quando apareceu a dominação totalitária. O que distingue a dominação totalitária de outros regimes ditatoriais conhecidos?

O aparecimento do conceito de inimigos objetivos (e não inimigos suspeitos), a eliminação da possibilidade de agir (e não limitação da possibilidade de agir), os desejos de um líder (e não ordens de um ditador) e o terror ou violência como fim em si mesmo (e não violência instrumental).

Para Arendt, o total menosprezo pela ideia de autoridade e a generalização da violência entendida como puro terror que caracterizam os movimentos totalitários, constituem os verdadeiros fatores que conduziram à quebra da tradição histórica ou política.

 

Vejamos: a estabilidade das leis da Constituição que garantem a autoridade é perfeitamente dispensada pelo líder totalitário, que vê nela uma limitação à sua intervenção, à variabilidade dos seus desejos. Hitler nunca alterou a constituição de Weimar, nem nunca se incomodou em respeitá-la, o que indica claramente que o que lhe interessava não era a autoridade, mas um poder absoluto.

Se a oposição num regime ditatorial já é difícil, num regime em que o desprezo pela Constituição é total, a oposição não tem qualquer sentido, uma vez que qualquer possibilidade de agir é eliminada.

O fim da autoridade está intimamente relacionado com o aparecimento do conceito de “inimigo objetivo” segundo o qual não é preciso ser suspeito para ser considerado como inimigo. Inimigo é todo aquele que o líder defina como tal. Nenhum membro da população está assim a salvo, pois não se trata só dos adversários políticos, mas até de qualquer cidadão inocente que nem sequer tenha pensado em cometer o “crime” de se opor ao regime.

 

Mas a verdadeira essência onde o regime totalitário mais se diferencia dos regimes anteriores é na utilização de uma violência que se assume como um fim em si mesmo, ou seja, na utilização do terror quotidiano e permanente.

O seu máximo expoente é visível nos campos de concentração e de extermínio, onde os seres humanos não passam de coisas supérfluas e em que a aniquilação vinha indistintamente e sobre as mais variadas formas. Mas tal terror encontrava-se espalhado de forma efetiva a toda a sociedade, para que ninguém se pudesse sentir seguro sobre o que poderia fazer ou poderia ser.

Foi esta conjugação do fim da autoridade e de uma violência programada para o terror que, abrindo portas ao totalitarismo, provocou a rutura, a quebra de tradição na nossa história.

 

Mas como tudo isto aconteceu no século passado, e como já não vivemos num contexto de dominação totalitária, somos facilmente levados a intuir que estamos bem longe dessa realidade e da possibilidade da sua repetição.

 E, contudo, ainda hoje há uma crise de autoridade (nomeadamente à vista em domínios em que deveria ser natural, como na família e na escola) e, com o aparecimento do terrorismo (como banalização da morte), a fronteira entre a violência e o terror é muito ténue.

E como nos esquecemos da importância da política e da nossa responsabilidade sobre o seu rumo (a necessidade de pensar a política, de reencontrar a sua finalidade que é a da liberdade política apenas garantida pela autoridade de leis positivas), enaltecendo em seu lugar uma preocupação exclusiva com a vida esgotada em necessidades e satisfações “vitais”, tal pode levar-nos a uma distração sobre os verdadeiros problemas, pelo que é muito bem possível que os movimentos totalitários não façam só parte de uma realidade do passado.

 

 

A tradição moral é o conceito segundo o qual se dá a perpetuação social de princípios morais fundamentais desde o passado. Para esta perpetuação contribuem os dispositivos sociais de condutas, ou seja, a moral social. É a moral social que é o garante desta perpetuação. Há, contudo, no domínio moral, algo que ultrapassa a moral social, e que é a moral individual, aquele domínio das questões morais que os indivíduos se colocam a si próprios.

Hannah Arendt distingue entre consciência (consciousness) e consciência moral (conscience), onde a consciência moral é determinada pela moral social, prescrevendo princípios positivos relativamente à conduta humana. Por outro lado, a consciência é a que pertence ao indivíduo quando este se encontra consigo próprio.

Neste diálogo interior, a consciência não prescreve princípios positivos, normas de como se deve agir, impedindo-nos antes de agir de determinado modo. Ou seja, o diálogo silencioso do pensar permite-me não só o olhar retrospetivo sobre os meus atos, como é ainda fundamental no momento anterior à ação moral, porque, não nos dizendo especificamente o que fazer, impede-nos, contudo, de fazer certas coisas.

Ora é a esta consciência moral que os acontecimentos totalitários vão renunciar. Os dois princípios que mais perduraram ao longo da civilização ocidental e que dizem que o matar e o mentir correspondem ao mal, foram exatamente aqueles que mais contrariados foram por Hitler e Estaline.

O que permite concluir que em determinados contextos ideológicos, não é possível garantir que a tradição da força social tenha força suficiente para impedir todos os perigos políticos possíveis. Ou seja, no contexto da dominação totalitária, a ideologia substitui a força da tradição ao ponto de contrariar profundamente os seus princípios morais fundamentais.

 

Quando o The New Yorker envia Hannah Arendt a Jerusalém para relatar o julgamento de Eichmann, ela estava à espera de encontrar um “monstro”, mas para seu espanto, deparou-se com um “palhaço”.

Esperava que Eichmann e outros como ele não fossem demónios capazes de um diálogo interno, simultaneamente indiferentes às consequências que se espera de tal exercício – evitar o mal ou sentir culpa e arrependimento em face dele.

Se estes homens não evitaram o mal ou não sentiram essa culpa e arrependimento foi justamente porque eram palhaços, homens que se recusavam a ser pessoas, a pensar.

Por isso, nem sequer se questionaram sobre as ordens recebidas. Por isso, eram incapazes de assumir qualquer culpa ou arrependimento. Daí a afirmação repetida por Eichmann e muitos outros de que se tinha limitado a cumprir ordens.

Superficialidade e frases feitas, que demonstravam a sua banalidade, a sua incapacidade para pensar independentemente da ideologia que o rodeava, que aliás conferia sustentabilidade aos seus crimes.

Para Arendt, o mal totalitário era radical, não por ser cometido por uma radicalidade demoníaca, mas, pelo contrário, por ser cometido por homens que simplesmente se recusaram a ser pessoas, a pensar e a recordar, preferindo em vez disso, a banalidade própria de quem não pensa.

 

 

 

Em outubro de 1973 (dois anos antes da sua morte), Hannah Arendt vai dar uma entrevista ao escritor francês Roger Errera, onde a vemos abordar temas como totalitarismo e ditadura, a política americana, a razão de Estado e a segurança nacional, o determinismo histórico e a relação dos judeus com Israel.

Reproduzimo-la aqui na íntegra, uma vez que parte dela foi na altura censurada (tudo o que foi cortado aparece agora a itálico). A entrevista pode-se ainda ver gravada no YouTube (1) (2), titulada em francês ou espanhol.

 

A entrevista

 

Roger Errera: O seu primeiro livro, publicado em 1951, é intitulado As Origens do Totalitarismo. Neste livro, quis não apenas descrever o fenómeno, mas também explicá-lo. Daí a pergunta: o que é para si o totalitarismo?

 

Hannah Arendt: Gostaria de começar por fazer algumas distinções com as quais nem todos concordam. Em primeiro lugar, uma ditadura totalitária não é uma simples ditadura, nem uma simples tirania. Sempre que vejo um sistema totalitário, procuro analisá-lo como uma nova forma de sistema político até aí desconhecida. Para isso, procuro enumerar as suas principais características.

Entre elas, gostaria de lembrar uma que atualmente está totalmente ausente de todas as tiranias, e que é o papel dos inocentes, das vítimas inocentes. Sob Stalin, não era necessário fazer nada para se ser deportado ou executado. A dinâmica da história atribuiu um papel a essa vítima e ela devia desempenhar esse papel, independentemente do que fizesse. Anteriormente, nenhum governo matava pessoas por elas dizerem sim. Geralmente, um governo ou um tirano mataria as pessoas por elas dizerem não.

 

Um amigo meu lembrou-me que uma ideia muito semelhante foi expressa na China séculos atrás: os homens que tivessem a impertinência de aprovar não eram mais valorizados do que aqueles que desobedecessem e se opusessem. Essa é a essência do totalitarismo, o facto de haver total dominação do homem pelo homem. Nesse sentido, não há totalitarismo hoje, mesmo na Rússia, onde reina a pior tirania que jamais conhecêramos. É preciso fazer alguma coisa para se ser mandado para o exílio, ou para um campo de trabalho forçado, ou para um asilo psiquiátrico.

 

Vejamos por um momento o que é tirania. Os regimes totalitários apareceram sempre após a maioria dos países europeus estar já sob uma ditadura. Ditadura, no sentido original do conceito e da palavra não é tirania, é uma suspensão temporária das leis em caso de emergência, geralmente durante uma guerra ou uma guerra civil. A ditadura é limitada no tempo, a tirania não é

 

O totalitarismo começa pelo desprezo do que você tem. O segundo passo é a noção: "As coisas têm que mudar - não importa como”, “Tudo é melhor do que o que temos." Os governantes totalitários organizam esse tipo de sentimento de massa e, ao organizá-lo, articulá-lo e articulando-o, fazem com que as pessoas concordem de uma certa maneira.

 

Já antes lhes tinham dito: Tu não deves matar; e eles não mataram. Agora dizemos-lhes: tu matarás; e embora eles pensem que é difícil matar, eles fazem-no porque agora faz parte do código de conduta. Eles aprendem a quem matar e como matar e como faze-lo juntos.

 

Este é o ‘Gleichschaltung’, o processo de coordenação do qual se fala muito. Você não está coordenado com os poderes constituídos, mas com o seu vizinho, coordenado com a maioria. Mas, em vez de se comunicar com o outro, você agora está colado a eles. E é claro que você se sente maravilhosamente bem. O totalitarismo apela para as necessidades emocionais mais perigosas de pessoas que vivem em completo isolamento e com medo dos outros.

 

Estas são coisas muito importantes a que se deve prestar atenção. Quando escrevi o meu livro sobre Eichmann em Jerusalém, um dos meus principais objetivos era destruir a lenda da grandeza do mal, da força demoníaca, para retirar às pessoas a admiração que têm pelos grandes malfeitores como Ricardo III. Encontrei em Brecht a seguinte reflexão: “Os grandes criminosos políticos, devem ser denunciados a todo custo e, sobretudo, ridicularizados. Eles não são grandes criminosos políticos, mas homens que cometeram grandes crimes políticos, o que é algo totalmente diferente. O fracasso de Hitler não significa que ele era um tolo.” [1]

Antes de assumir o poder, toda a oposição se equivocava considerando que Hitler era um tolo. De seguida, muitos foram os livros que tentaram justificá-lo e torná-lo um grande homem. Portanto, diz Becht: “O fato de ele ter falhado não indica que Hitler fosse um tolo, e a escala dos seus empreendimentos não o torna um grande homem.” Não é nem uma coisa nem outra, ou seja, toda essa noção de grandeza não se lhe aplica.

 

“Se as classes dirigentes”, continua Brecht, “permitirem que um pequeno vigarista se torne um grande vigarista, tal não lhe dá direito a uma posição privilegiada na história. Ou seja, o facto de ele se tornar um grande vigarista e que o que ele fizer tiver consequências graves, isso não o engrandece.” E acrescenta: "De uma maneira geral e de forma abruta, pode-se dizer que a tragédia lida com os sofrimentos da humanidade de uma forma menos séria que a comédia. "

 

Esta é obviamente uma afirmação chocante, mas, ao mesmo tempo, penso que é perfeitamente correta. Se alguém quiser manter a sua integridade em tais circunstâncias, só poderá fazê-lo se se lembrar: o que quer que ele faça e mesmo que tenha matado dez milhões de pessoas, continua a ser apenas um palhaço.

 

Roger Errera: Quando publicou o seu livro sobre o julgamento de Eichmann, essa obra provocou reações muito violentas. Porquê essa reação?

 

Hannah Arendt: Parte dessa polémica aconteceu porque ataquei a burocracia. Se se ataca uma burocracia, deve-se esperar que ela se defenda, que ela o ataque, tente tornar a sua vida impossível. Este é mais ou menos um assunto político ruim. Até aí eu consigo entender.

 

Mas suponha que eles não tivessem organizado essa campanha. Apesar disso, a oposição a este livro continuaria a ser muito forte porque os judeus sentiram-se ofendidos, e com isto quero dizer pessoas que realmente respeito e posso compreender. Eles ficaram principalmente ofendidos com o que disse Brecht sobre o rir. A minha risada, nesse momento, era mais ou menos inocente. Não pensei sobre isso.

 

O que vi foi que Eichmann era um palhaço. Eichmann, por exemplo, nunca se culpou pelo que fez aos judeus. Ele culpou-se por um incidente: por ter esbofeteado o presidente da comunidade judaica em Viena durante o seu interrogatório. Deus sabe que muitas pessoas foram tratadas de forma muito pior e, no entanto, Eichmann nunca se perdoou por aquilo. Ele cedera a um impulso e pensou que era muito errado ter perdido o seu sangue-frio.

 

Roger Errera: O que é que pensa por estarmos realmente a ver aparecer toda uma literatura que, particularmente no que diz respeito ao nazismo, descreve muitas vezes de forma romantizada os seus líderes, os seus crimes, e tenta humanizá-los, tentando indiretamente justificá-los? Pensa que essas publicações têm apenas uma razão puramente comercial ou pensa que elas têm um significado mais profundo?

 

Hannah Arendt: Eu penso que elas têm um significado. Elas pelo menos mostram que o que aconteceu uma vez pode acontecer novamente. A tirania é conhecida há muito tempo, há muito tempo que ela é um inimigo. No entanto, isso nunca impediu um tirano de se tornar um tirano. Isso não impediu nem Nero nem Calígula. E Nero e Calígula não impediram exemplos recentes, como a intrusão maciça do crime na política.

 

Roger Errera: Você veio para este país [os Estados Unidos] em 1941, vinda da Europa. Está cá a viver à 32 anos. Quando veio da Europa, qual era a sua impressão dominante?

 

Hannah Arendt: A minha impressão predominante é que a América não é um Estado-nação. Os europeus têm dificuldade em compreender este simples facto, que teoricamente deveriam saber. Este país não está unido nem pela herança, nem pelas memórias, nem pelo solo, nem pela língua, nem por uma origem idêntica. Não há americanos genuínos aqui, além dos índios. Todo o resto são cidadãos, e esses cidadãos estão unidos por apenas uma coisa, e isso é muito: é-se um cidadão dos Estados Unidos pela simples aceitação da Constituição.

 

A Constituição, do ponto de vista francês ou alemão, é apenas um pedaço de papel. Podemos modificá-lo. Mas aqui, é um documento sagrado. É a lembrança constante de um ato único e sagrado, o ato fundador dos Estados Unidos. A sua fundação consistiu em reunir num todo minorias étnicas e regiões totalmente díspares, sem, contudo, nivelar e fazer desaparecer essas diferenças.

 

Tudo isso é muito difícil de para um estrangeiro. Podemos dizer, portanto, que neste sistema político, é a lei que reina e não os homens. Até que ponto isso é verdade e precisa de ser verdade para o bem do país, quase disse da nação, para o bem de todos os Estados Unidos da América, para a república, para falar a verdade…

 

Roger Errera: Na última década, os Estados Unidos passaram por uma onda de violência política marcada pelo assassinato do presidente, do irmão, a Guerra do Vietnam, o caso Watergate. Por que é que os Estados Unidos podem superar crises que na Europa teriam resultado em mudanças de regime e até mesmo em distúrbios internos muito graves?

 

Hannah Arendt: O caso Watergate expôs uma das crises constitucionais mais profundas que a América já conheceu. Essa crise constitucional representa pela primeira vez nos Estados Unidos um conflito aberto entre o legislativo e o executivo. Neste caso, é a própria Constituição que é parcialmente responsável.

 

Os fundadores não acreditavam que a tirania pudesse surgir do executivo, porque não viam nela outra coisa que não fosse a simples execução do que o legislador havia decidido, de várias formas. Sabemos hoje que o maior perigo de tirania vem do executivo.

 

Mas se interpretarmos à letra o espírito da Constituição, o que é que os Pais Fundadores pensaram? Eles pensaram que se tinham conseguido livrar do governo da maioria, e é por isso que seria um grande erro pensar que o que temos é uma democracia. Um erro que muitos americanos compartilham. O que temos aqui é um sistema republicano. Os fundadores estavam preocupados acima de tudo em preservar os direitos das minorias porque acreditavam que num corpo político saudável deveria haver uma pluralidade de opiniões.

 

O que os franceses chamam de União Sagrada era exatamente o que não era necessário para eles. Já seria uma espécie de tirania, e o tirano poderia muito bem ser a maioria. Portanto, todo o sistema político está organizado de forma que mesmo após a vitória da maioria, ainda haja uma oposição. Essa oposição é necessária porque representa as opiniões legítimas de uma ou várias minorias.

 

A segurança nacional é um novo conceito no vocabulário americano. Isso é realmente, se posso interpretar um pouco, a tradução de razão de Estado. Esta noção de razão de Estado nunca desempenhou qualquer papel na América. É uma nova importação.

 

A segurança nacional cobre agora todos os tipos de crimes. Por exemplo, o presidente tem todos os direitos. Ele está acima da lei. O rei não pode estar errado, ou seja, ele é como um monarca numa república. Ele está acima da lei e seu raciocínio é sempre que tudo o que ele faz, fá-lo em prol da segurança nacional.

 

Roger Errera: Porque pensa que essas implicações modernas de razão de Estado, "intrusão do crime na esfera política" como lhe chama, são específicas de nosso tempo? Isso é específico do nosso tempo?

 

Hannah Arendt: É peculiar ao nosso tempo, é o que realmente penso. Assim como o comércio apátrida é caraterístico do nosso tempo e se perpetua de diferentes maneiras, em diferentes gêneros e em diferentes cores. Mas se chegarmos a estas questões gerais, o que também é peculiar da nossa época, é a intrusão maciça do crime na vida política. Estou a falar de algo que vai muito além daqueles crimes que sempre tentamos justificar como razão de Estado a pretexto de serem exceções à regra. Aqui, ao contrário, somos repentinamente confrontados com um estilo de ação política que em si é criminoso.

 

Isso não é uma exceção à regra. Eles não dizem: "Estamos numa tal emergência que temos que nos sentar todos a uma mesa, incluindo o próprio presidente." Aqui, as escutas fazem parte do processo político normal. Eles também não dizem: "Nós invadimos o consultório de um psiquiatra excecionalmente e nunca o voltaremos a fazer”, absolutamente não. Pelo contrário, afirmam que tal arrombamento é absolutamente legítimo.

 

Esta questão de segurança nacional origina-se diretamente da noção de razão de estado. Essa noção de segurança nacional invocada é importada diretamente da Europa Central. Claro, os alemães, os franceses e os italianos reconhecem isso como sendo totalmente justificado, porque sempre viveram sob essa regra. Mas foi precisamente a herança europeia que a Revolução Americana pretendeu quebrar.

 

Roger Errera: No seu ensaio sobre os Documentos do Pentágono [2], descreve a psicologia do que chama de "especialistas em solução de problemas", que eram à época conselheiros do governo dos Estados Unidos. E diz: "Os especialistas da solução de problemas têm sido definidos como homens muito seguros de si próprios e que raramente parecem duvidar da sua capacidade de se imporem. Não se contentavam em fazer gala da sua inteligência, mas ao mesmo tempo orgulhavam-se do seu racionalismo, do seu amor pela teoria, pelo universo puramente intelectual, fazendo com que rejeitassem todo o sentimentalismo até um ponto bastante assustador. "

 

Hannah Arendt: Posso interrompê-lo aí? Eu acho que é o suficiente. Eu tenho um exemplo muito bom. Nos documentos do Pentágono, há um exemplo muito bom dessa mentalidade científica difusa. Você conhece a teoria do dominó, que foi a teoria oficial durante a Guerra Fria, de 1950 a 1969, logo após os documentos do Pentágono.

 

A “teoria do dominó” é um bom exemplo do tipo de mentalidade científica que esmaga todas as outras ideias.

 

A verdade é que entre os intelectuais muito sofisticados que escreveram os documentos do Pentágono, poucos acreditavam nessa teoria do dominó. Nos altos cargos do governo havia apenas duas ou três pessoas que realmente acreditavam nisso, W. Rostow e, não sei, o general Taylor, e eles não estavam exatamente entre os mais inteligentes. Na verdade, eles nem mesmo acreditaram, mas todas as suas ações seguiram essa teoria.

 

Eles não estavam a agir com base em mentiras ou porque se queriam mostrar perante os seus superiores, mas porque isso lhes dava uma estrutura na qual poderiam trabalhar. Eles adotaram essa estrutura sabendo que ela estava em desacordo com os acontecimentos e análises que lhes provavam todas as manhãs que esse ponto de vista era muito simplesmente falso. Adotaram-no porque não tinham outra estrutura.

 

    As pessoas adotam essas teorias para se desembaraçarem da contingência e do imprevisível. O bom e velho Hegel disse certa vez que toda contemplação filosófica apenas servia para eliminar o acidental. Um facto deve ser atestado por testemunhas oculares que não são as melhores testemunhas; nenhum facto é incontestável. Mas não há dúvida que dois mais dois são quatro. E as teorias produzidas no Pentágono eram todas muito mais plausíveis do que o que realmente estava a acontecer.

 

Roger Errera: O nosso século parece-me dominado por uma persistência de formas de pensar baseadas no determinismo histórico.

 

Hannah Arendt: Existem boas razões para essa crença na necessidade histórica.

 

    A principal característica de qualquer acontecimento é que não foi previsto.

 

Nós não conhecemos o futuro. Todos agem tendo em vista o futuro e ninguém sabe o que está a fazer porque o futuro faz-se. A ação é realizada por nós e não por mim. Só quando ajo sozinho, se eu fosse o único, posso prever o que acontecerá como resultado de minhas ações. Portanto, parece que o que realmente aconteceu estava inteiramente no reino da contingência e, de facto, a contingência é um dos maiores fatores da história. Ninguém sabe o que vai acontecer só porque há tantas coisas que dependem de uma enorme quantidade de fatores variáveis ​​- ou seja, ao acaso.

 

Por outro lado, se olharmos para a história em retrospetiva, podemos dizer que a história faz sentido.

A história judaica, por exemplo, teve de facto seus altos e baixos, inimizades e amizades, como qualquer história de todos os povos. A ideia de que existe uma história unilinear está obviamente errada. Mas se você olhar depois da experiência de Auschwitz, parece que toda a história - ou pelo menos a história desde a Idade Média - não teve outro propósito além de Auschwitz ...

 

Como foi isso possível? Este é o verdadeiro problema de qualquer filosofia da história. Como é possível que depois do acontecimento pareça sempre que as coisas não poderiam ter-se passado de outra forma? Todas as variáveis d​​desaparecem, e a realidade tem um impacto tão poderoso que não vale a pena preocuparmo-nos em considerar uma variedade infinita de possibilidades.

 

Roger Errera: Mas se os nossos contemporâneos conservam esse apego a formas de pensar deterministas, apesar dos desmentidos da história, isso acontece porque eles têm medo da liberdade, porque têm medo do imprevisto?

 

Hannah Arendt: Sim, claro, mas eles não o dizem. Se o dissessem, poderíamos abrir imediatamente o debate. Se ao menos dissessem: "temos medo", por exemplo. “Temos medo de ter medo.” Esta é uma das principais motivações. Mas nós temos medo da liberdade.

 

Roger Errera: Consegue imaginar um ministro na Europa, vendo a sua política à beira do fracasso, encomendar a uma equipa de especialistas externos à administração a realização de um estudo com o objetivo de saber as decisões ...

 

Hannah Arendt: Exteriores à administração, não. Eles vêm de todos os lados, e também de ...

 

Roger Errera: É isso, mas também com pessoas de fora da administração. Então, consegue imaginar um ministro europeu na mesma situação, encomendando um estudo para descobrir como isso aconteceu?

 

Hannah Arendt: Claro que não.

 

Roger Errera: Porquê?

 

Hannah Arendt: Por causa da razão de Estado. Ele começaria imediatamente a encobrir os seus erros. A atitude de McNamara foi diferente. Citei no início do meu ensaio sobre os documentos do Pentágono uma de suas palavras: "Não é uma visão muito bonita ver a primeira das superpotências matar ou ferir milhares de não combatentes todas as semanas. Como chegámos a isso?” [3] Esta é uma atitude americana e mostra que a situação ainda era sã porque ainda havia um McNamara que queria aprender com ela.

 

Roger Errera: Você acha que atualmente os dirigentes americanos que enfrentam outras situações hoje ainda querem saber?

 

Hannah Arendt: Não. Eu acho que não sobrou nenhum. Não sei. Não, não, não, retiro o que disse. Acredito, se não me engano, que McNamara estava na lista dos inimigos de Nixon, li hoje no New York Times. Julgo que isso é correto. Só isto serve para mostrar que toda essa atitude já não existe na vida política americana ao mais alto nível. Essas pessoas, ao dizerem delas próprias “por que não conseguimos criar uma imagem de nós mesmos?”, e passam a acreditar na imagem que criaram. Poder-se-á dizer que não passava de imagem. Só que agora eles querem que todos acreditem na sua imagem e que ninguém olhe para além dela. Pelo que entramos assim num universo político completamente diferente.

 

Roger Errera: E assim depois do que o senador Fullbright chamou de "arrogância do poder", depois do que se poderia chamar de arrogância do conhecimento, entrou-se num terceiro estágio que seria simplesmente o da arrogância.

 

Hannah Arendt: Sim. Não sei se isso é simplesmente arrogância. Talvez seja a vontade de dominar. Até agora, isso não teve sucesso. Hoje ainda me posso sentar a esta mesa e falar livremente consigo, pelo que eles ainda não me dominaram e não estou com medo. Posso estar errada. Sinto-me perfeitamente livre neste país. Alguém, Morgenthau, acredito, chamou a toda o ciclo de Nixon de "revolução fracassada". Não sabemos ainda se ela abortou, ele pode ter dito isso prematuramente, mas podemos certamente dizer uma coisa: ela não foi coroada de sucesso.

 

Roger Errera: Mas o que ameaça nosso tempo é a ideia de que os objetivos da política são ilimitados. O liberalismo, no entanto, repousa, creio eu, na ideia de que a política tem objetivos limitados. Não é a chegada ao poder de homens, de movimentos, que se propõem objetivos ilimitados, a maior ameaça em nosso tempo?

 

Hannah Arendt: Espero não o chocar se disser que não tenho a certeza de ser liberal. Verdadeiramente eu não tenho nenhum credo neste assunto. Não professo uma filosofia política que pudesse resumir com um termo em "ismo".

 

Roger Errera: Certamente, mas de qualquer forma é dentro dos fundamentos do pensamento liberal, com recurso à antiguidade, que se situa a sua reflexão filosófica.

 

Hannah Arendt: Você diria que Montesquieu é um liberal? Diria que todos por quem tenho consideração e que têm um pouco de valor ... Eu, eu sirvo-me onde posso. Eu agarro o que posso e o que me é conveniente. Uma das grandes vantagens do nosso tempo é o que disse René Char: “A nossa herança não está garantida por nenhum testamento."

 

Roger Errera: “precedido de qualquer testamento. "

Hannah Arendt: “Não é precedida por qualquer testamento."[4] Isso quer dizer que somos completamente livres para usar as experiências e pensamentos do passado como quisermos.

 

Roger Errera: Mas essa liberdade extrema não corre o risco de assustar muitos de nossos contemporâneos que prefeririam encontrar uma teoria pronta, uma ideologia, pronta a ser aplicada?

 

Hannah Arendt: Claro. Sem dúvida.

 

Roger Errera: Essa liberdade que define, não corre o risco de ser a liberdade de poucos, daqueles que terão a força para inventar novas formas de pensar?

 

Hannah Arendt: Não. Não. Baseia-se apenas na crença de que todo ser humano, como ser pensante, pode pensar tão bem quanto eu e pode formar o seu próprio julgamento, se quiser. O que não sei é como fazer nascer esse desejo nele. Não sou uma propa ...

 

A única coisa que verdadeiramente nos pode ajudar é refletir verdadeiramente. Refletir significa sempre pensar criticamente. E pensar criticamente significa que todo pensamento saiba que existem regras rígidas e convicções gerais. Tudo o que se passa no pensamento está sujeito a um exame crítico. Isto é, não existe pensamento perigoso, pela simples razão de que pensar é em si um trabalho muito perigoso. Mas não pensar é ainda mais perigoso. Não estou a negar o facto que refletir é perigoso, mas não refletir é ainda mais perigoso.

 

Roger Errera: Voltemos a esta observação de René Char: “A nossa herança não é precedida por nenhum testamento.” O que pensa que seja o legado do século 20?

 

Hannah Arendt: Ainda estamos aqui. Você é jovem, eu sou mais velha, mas ainda aqui estamos os dois para lhes deixar alguma coisa.

 

Roger Errera: Exatamente, o que vamos deixar para o século XXI? Já se passaram três quartos de século.

 

Hannah Arendt: Não sei. Tenho certeza de que haverá arte moderna, que está um tanto estagnada agora. Mas depois da grande criatividade dos primeiros quarenta anos deste século, especialmente na França, é natural que haja um certo esgotamento. Este século XX provavelmente será um dos grandes séculos da História, mas não da política.

 

Roger Errera: Tratou várias vezes nos seus trabalhos a história moderna dos judeus e o antissemitismo. No final de um de seus livros diz que o nascimento do movimento sionista nos fins do século XIX foi a única resposta política que os judeus encontraram ao antissemitismo. [5] Em que é que a existência do estado de Israel mudou o contexto político e psicológico em que os judeus vivem no mundo?

 

Hannah Arendt: Acho que isso mudou tudo. Hoje o povo judeu está verdadeiramente unido no apoio a Israel. [6] Eles sentem que têm um Estado, uma representação política, assim como os irlandeses, os ingleses ou os franceses. Eles não apenas têm uma pátria, mas também um Estado-nação, e toda a sua atitude relativamente aos árabes depende em grande parte de uma identificação que os judeus da Europa central sempre fizeram de forma instintiva e irrefletida. O Estado deve ser necessariamente um estado-nação.

 

As relações entre a diáspora e Israel, ou o que antes era a Palestina, mudaram porque Israel não é mais simplesmente um refúgio para judeus polacos. Na época, um sionista era um homem que tentava obter dinheiro dos judeus ricos para os pobres judeus polacos. Mas hoje Israel é o representante do povo judeu em todo o mundo. Que isso nos agrade ou não, é outra questão. Isso não significa que o judaísmo da diáspora tenha sempre que concordar com o governo israelita. Não é uma questão de governo, é uma questão de Estado. Enquanto esse Estado existir, ele obviamente será o que nos representa aos olhos do mundo.

 

Roger Errera: Precisamente, um autor francês, Georges Friedmann escreveu, há dez anos, um livro intitulado Fim do povo judeu? [7] onde concluiu que no futuro haveria de um lado um novo Estado, a nação israelita, e do outro lado, nos países da diáspora, judeus que se assimilariam e perderiam pouco a pouco as suas características próprias.

 

Hannah Arendt: Essa hipótese parece muito plausível e acredito que é totalmente errada. Nos tempos antigos, quando o Estado judeu ainda existia, já havia uma grande diáspora judaica. Ao longo dos séculos, através de tantas formas diferentes de governo e Estado, os judeus, o único povo antigo que sobreviveu ao longo dos milênios, nunca foram assimilados.

 

Se os judeus pudessem ter sido assimilados, já o teriam sido há muito tempo. Houve uma ocasião durante o período espanhol, houve outra durante o período romano, e mais evidentemente nos séculos XVIII e XIX. Um povo, uma comunidade, não se suicida. M. Friedmann engana-se porque não compreende que o sentimento dos intelectuais que podem realmente mudar de nacionalidade e absorver outra cultura, não corresponde ao sentimento do povo como um todo, e particularmente não ao de um povo que foi criado por leis que conhecemos.

 O "talento" - por assim dizer - de pelo menos uma certa parte do povo judeu é um problema histórico, um problema de primeira ordem para os historiadores. Posso arriscar uma explicação especulativa: somos o único povo, o único povo europeu, que sobreviveu desde a Antiguidade e praticamente intacto.

 Isso significa que conservámos a nossa identidade, e que somos os únicos que nunca conhecemos o analfabetismo. Sempre fomos alfabetizados porque não se pode ser judeu sem ser alfabetizado. As mulheres eram menos alfabetizadas do que os homens, mas mesmo elas eram muito mais alfabetizadas do que suas contrapartes noutros lugares. Não apenas a elite sabia ler, mas todo o judeu tinha que ler - o povo inteiro, em todas as classes e em todos os níveis de talento e inteligência.

 

Roger Errera: O que significa para os judeus a assimilação na sociedade americana?

 

Hannah Arendt: No sentido de assimilar os judeus ao seu ambiente, não há assimilação à cultura. Você poderia, por favor, dizer me como os judeus deveriam de ser aqui? Aos ingleses, aos irlandeses, aos alemães, aos franceses, a qualquer um que viesse?

 

Roger Errera: Quando dizemos que os judeus americanos são muito americanizados, não só americanos, mas americanizados, a que nos referimos?

 

Hannah Arendt: Pensamos no estilo de vida. Todos esses judeus são excelentes cidadãos americanos. Isso tem que ver com a sua vida pública, não a vida privada, não a vida social. A vida privada e social é mais judaica hoje do que nunca. Assim, um grande número de jovens aprende hebraico, embora os seus pais o tenham esquecido durante muito tempo.

 

Mas o essencial, é Israel. Somos a favor ou contra Israel? Considere, por exemplo, os judeus alemães de minha própria geração que imigraram para os Estados Unidos. Em muito pouco tempo, eles tornaram-se judeus muito nacionalistas, muito mais nacionalistas do que eu jamais fui, apesar do facto de eu mesmo ser sionista, e eles não eram. Eu nunca disse "sou alemã", sempre disse "sou judia". Mas agora,a que é que eles se assimilam? À comunidade judaica. Como estavam acostumados à assimilação, eles integraram-se à comunidade judaica da América. Com o fervor dos novos convertidos, tornaram-se ultranacionalistas e pró-israelitas.

 

Roger Errera: Ao longo da história, o que garantiu a sobrevivência do povo judeu foi principalmente uma ligação de natureza religiosa. Estamos numa época em que todas as religiões passam por uma crise e o vínculo religioso tende a enfraquecer. Nessas condições, o que, na contemporaneidade, une o povo judeu?

 

Hannah Arendt: Acho que você se engana um pouco. Quando você diz "religião", obviamente quer dizer a religião cristã, que é um credo, uma crença, uma fé. Esse não é absolutamente o caso da religião judaica. Ela é uma religião nacional em que religião e nação coincidem. Você sabe que os judeus, por exemplo, não reconhecem o batismo dos judeus convertidos ao cristianismo? Tudo acontece como se esse ato não existisse.

 

De acordo com a lei judaica, um judeu é sempre um judeu. Sempre que alguém nasce de mãe judia, a procura da paternidade é proibida, ele é judeu. O conceito de religião é completamente diferente. É muito mais um modo de vida do que uma religião no sentido particular e específico da religião cristã. Tive uma educação judaica e lembro-me que quando tinha cerca de 14 anos revoltei-me contra o nosso professor e quis chocá-lo. Levantei-me e disse: “Não acredito em Deus." Ele respondeu-me: “Ninguém te o está perguntando. "

 

Notas

 

[1] Bertolt Brecht, “Bemerkungen” em Der aufhaltsame Aufstieg des Arturo Ui, cf. Brecht, Werke (GroBe kommentierte Berliner und Frankfurter Ausgabe), v. 24, pp. 315-319.

 

[2] Hannah Arendt, "Lying in Politics: Reflections on the Pentagon Papers", The New York Review of Books (18 de novembro de 1971), pp. 30-39; Para a edição francesa, cf. nota 6 em “Entrevistando Hannah Arendt”; Edição alemã: “Die Luge in der Politik: Uberlegungen zu den PentagonPapieren”, Die neue Rundschou (v. 83, no. 2 [1972]), pp. 185-213.

 

[3] A citação de Robert S. McNamara que Arendt tomou como slogan em "Lying in Politics" diz: [" A imagem da maior superpotência do mundo matando ou ferindo gravemente mil não-combatentes por semana, enquanto tentava submeter uma pequena nação atrasada em uma questão cujos méritos são calorosamente contestados, não é bonita. "]

 

[4] René Char: “A nossa herança não é precedida por qualquer testamento.” O aforismo é retirado de "René Char, Feuillets d´Hypnos ", no. 62 ver R. Char, Oeuvres completes (Paris: Gallimard, 1983), p. 190; cf. Hannah Arendt no seu “Prefácio” para Between Past and Future: Eight Exercices in Polirical Thought, (New York: Viking), 1968.

 

[5] Hannah Arendt, The Origins of Totalitarianism, nova edição com prefácios adicionados (San Diego etc.: A Harvest I HBJ Book, 1979), p. 120

 

[6] Esta declaração e as seguintes devem ser lidas no contexto dos acontecimentos do dia. Em 6 de outubro de 1973, o Egito e a Síria atacaram Israel, dando início à Guerra de Outubro [Guerra do Yom Kippur].

 

[7] Georges Friedmann, Fin du peuple juif? (Paris: Gallimard, 1965).

 

 

 

 

 

  1. https://www.youtube.com/watch?v=3OFKx3yqJvw
  2. https://www.youtube.com/watch?v=AScblSGKAC8

 

 

(293) Escapatórias sem escape

Tempo estimado de leitura: 10 minutos.

 

Colonizar o espaço: a velha aspiração de deixar para trás todas as preocupações de se viver na Terra. Como se a Terra fosse a culpada.

 

Apenas uma das várias expedições lançadas a partir de uma colónia interestelar conseguirá alcançar o destino e sobreviver, Rpbert Hanson.

 

Só o fornecimento de água para os seis inquilinos da Estação Espacial Internacional custa cerca de 2 biliões de dólares por ano.

 

Não há nenhuma razão firme para supor que as pressões evolutivas empurrem sempre em direções desejáveis.

 

Singleton é a ordem mundial segundo a qual existe apenas uma única agência de tomada de decisão ao nível mais elevado, Nick Bostrom.

 

 

 

 

 

Foi recentemente notícia nos principais meios de comunicação a descoberta de moléculas de água na Lua. Seguiram-se vários artigos entusiasmados com a excitação provocada por tal descoberta, dadas as enormes possibilidades que entendiam abrirem-se para a colonização do espaço.

 Resumidamente, a descoberta de moléculas de água nas areias da Lua, permitiria, após a sua extração, o estabelecimento de colónias humanas sem a necessidade do custo e do transporte regular de enormes quantidades de água em naves cisternas a partir da Terra (só o fornecimento de água para os seis habitantes da Estação Espacial Internacional custa cerca de 2 biliões de dólares por ano), e poderia permitir mais tarde,  ao separar e acumular os átomos de oxigénio e hidrogénio, o abastecimento de combustível das naves no seu regresso à Terra.

 

Independentemente das considerações sobre as enormes dificuldades que tais processos acarretariam (alguns mesmo ainda sem resposta tecnológica) e dos custos exorbitantes, continua-se a insistir em glorificar e romantizar a “conquista do espaço” e a “colonização das novas fronteiras”, como fazendo parte da realização de um desígnio humano, uma ambição desde sempre ansiada da humanidade.

É neste sentido que nos são apresentados programas de exploração e conquista como os de Elon Musk do Space X, e Jeff Bezos. Musk pretende estabelecer uma colónia permanente em Marte (1), e a partir daí colonizar todo o espaço. Bezos prefere a colonização em gigantescas ilhas rotativas navegando no espaço.

Em qualquer dos casos, trata-se aparentemente de dar corpo à velha aspiração de se deixar para trás todas as preocupações de se viver na Terra. Como se a Terra fosse a culpada.

 

Na realidade, trata-se de um expediente perfeitamente idealizado e legalizado há séculos, para alguns poucos fazerem fortunas à custa dos muitos outros, através de fabulosos contratos feitos com os governos, que são pagos pelos estados, ou seja, pelos impostos dos do costume. Os grandes negócios privados que o público sustenta e sem os quais nos dizem que não haveria progresso.

Todos aqueles conhecimentos, tecnologias, e recursos gastos na corrida ao espaço, foram sempre suportados pelos governos: A NASA é uma empresa pública; A Estação Espacial Internacional, que custou cerca de 150 biliões de dólares, foi paga pelos impostos dos contribuintes dos EUA, Rússia, Europa, Canadá e Japão.

 

Embora se possa entender a euforia das primeiras “conquistas” espaciais, que tiveram muito mais que ver com a tentativa de resolução de problemas militares (2ª Guerra, V1 e V2 nazis) e de prestígio político (demonstração de conhecimentos e poderio inerente aos sistemas político-económicos em presença, URSS x EUA), os tempos das pandemias e das alterações climáticas têm vindo a obrigar a uma melhor ponderação na crença sobre o verdadeiro valor da conquista e até mesmo o da exploração como está a ser feita.

Segundo o astrofísico e Astrónomo Real, Lord Rees:

 

Nenhuma das centenas de pessoas que têm circulado à volta da Terra na Estação Espacial Internacional produziu qualquer trabalho de valor verdadeiramente científico que fosse suficiente para justificar, nem mesmo uma ínfima fração do dinheiro gasto no Shuttle e na Estação Espacial”.

 

Para ele, as sondas espaciais que nos enviam imagens e dados científicos de Marte, Júpiter, e do espaço interestelar, têm feito muito mais para transformar a nossa visão sobre o Universo do que o envio de astraunautas.

 

Nos últimos 40 a 50 anos, têm sido publicados milhares de artigos científicos sobre esta problemática das viagens espaciais, quase sempre na ótica da validação das suas possibilidades de realização, e onde a colonização interestelar aparece como um dos modelos a ser considerado.

Sabendo-se da limitação imposta pela velocidade da luz nas deslocações a efetuar, as viagens para os considerados ‘oásis’ a colonizar ficarão dependentes das tecnologias e preferências das civilizações que as efetuarem.

Na sua grande maioria, esses estudos incidem sobre o comportamento dos “colonizadores”, o tempo que acabarão por permanecer nesses oásis, as explorações que serão feitas a partir daí pelos seus descendentes, quantas e com que periodicidade serão feitas, que alterações físicas e comportamentais serão esperadas, etc.

 

Um dos artigos sobre os desafios da colonização espacial que tem normalmente sido negligenciado, é o de  Robert Hanson (1939-2014), "Burning the Cosmic Commons: Evolutionary Strategies for Interestellar Colonization", de 1998, (http://hanson.gmu.edu/filluniv.pdf).

 Nesse estudo, Hanson, utilizando modelos matemáticos, vai demonstrar, entre outros, que as colónias interestelares só lançam novas expedições quando as suas capacidades de crescer começarem a diminuir, que os colonizadores são muito relutantes relativamente a futuros investimentos em pesquisa, que apenas uma das várias expedições lançadas a partir de uma colónia interestelar conseguirá alcançar o destino e sobreviver, etc..

 

 

Mas para além destes estudos que se ocupam sobre a viabilização tecnológica e/ou humana do empreendimento, há um artigo que me parece ser da maior importância para os tempos em que vivemos, tendo em conta o comportamento que as várias organizações e entidades mundiais revelaram durante as recentes pandemias e alterações climáticas, porquanto aborda o problema do modelo de governação da humanidade em tempos de exploração e colonização do espaço.

 

Trata-se de um pequeno estudo de Nick Bostrom (2), publicado em 2005 na revista Linguistic and Philosophical Investigations, Vol. 5, No. 2 (2006): pp. 48-54, da Faculdade de Filosofia da Universidade de Oxford, intitulado “What is a Singleton?”, onde, apropriando-se deste conceito matemático, vai formular e analisar possíveis cenários que acabam por convergir na inexorabilidade da criação de uma ordem mundial na qual apenas existirá uma única agência de tomada de decisão ao nível mais elevado.

Eis a reprodução integral do artigo:

 

 

 “ 1. Definição

 

                Na teoria dos conjuntos, um ‘singleton’ é um conjunto contendo apenas um membro. Vou, contudo, utilizá-lo unicamente como noção, pelo que o termo apenas se referirá a uma ordem mundial na qual existe uma única agência de tomada de decisão ao nível mais elevado. [1] Entre os seus poderes estariam (1) a capacidade para prevenir quaisquer ameaças (internas ou externas) à sua própria existência e supremacia e (2) a capacidade de exercer controle efetivo sobre as principais características do seu domínio (onde se inclui a tributação e a distribuição territorial).

 

               Vários ‘singletons’ poderiam coexistir no universo se estivessem suficientemente afastados para não se verificar qualquer influência causal entre eles. Contudo, um governo mundial terrestre não poderia contar como único se existissem colónias espaciais independentes ou civilizações alienígenas que estivessem ao alcance da Terra.

 

  1. Exemplos e elaboração

 

Uma república mundial democrática pode ser uma espécie de ‘singleton’, o mesmo acontecendo para uma ditadura mundial. Uma máquina superinteligente amigável poderia ser outro tipo de ‘singleton’, supondo que fosse suficientemente poderosa para que nenhuma outra entidade pudesse ameaçar a sua existência ou frustrar os seus planos. Outro exemplo seria o de uma “força transcendente” que alcançasse o domínio mundial.[2]

 

Um ‘singleton’ também se pode formar por meio de uma evolução convergente, por ex. se todos os indivíduos ou culturas suficientemente avançadas passassem fundamentalmente a aceitar os mesmos valores ou objetivos. Esses valores comuns, em combinação com todos os indivíduos e culturas que os abraçam, formariam então uma “agência” no sentido amplo aqui pretendido, e constituiria um ‘singleton’.

 

Também se pode imaginar um ‘singleton’ surgido a partir da disseminação universal de um único código moral autoimposto. O código pode especificar que os agentes devam dar tratamento preferencial a outros agentes que sigam o código. Se tal código for aceite por um número suficiente de agentes, e se o monitorar e garantir a conformidade for suficientemente viável para a sua aceitação, pode ser do interesse dos agentes que ainda não adotaram o código fazê-lo. Isso pode levar à adoção universal do código. Se o código for suficientemente prescritivo para resultar num comportamento efetivamente orientado e coordenado a metas ao nível da sociedade mundial, ele constituirá um ‘singleton’.

 

Um ‘singleton’ não precisa ser monolítico. Ele poderá conter em si uma enorme variedade de agentes independentes, cada um perseguindo os seus próprios objetivos díspares, como é o caso num estado democrático liberal. Os objetivos e ações do ‘singleton’ poderiam ser decididos pelos seus habitantes ou representantes eleitos.

 

Um ‘singleton’ que seja uma máquina superinteligente pode adotar um modus operandi que tornaria a sua presença virtualmente indetetável no dia-a-dia de seus habitantes. Ele poderia atuar apenas como um reforço subtil de certas condições básicas que poderiam servir, por exemplo, para garantir a segurança ou para administrar algumas outras tarefas governamentais mínimas. Esse ‘singleton’ superinteligente também poderá usar algoritmos evolucionários e outros meios para aumentar a diversidade interna, se isso promover a sua capacidade para alcançar os seus objetivos. Ao considerar as características de um ‘singleton’, seria um erro supor que ele possuiria necessariamente os atributos comumente associados às grandes burocracias humanas - rigidez, falta de imaginação, ineficiência, tendência para a macrogestão e expandir seus próprios poderes, etc. Isso poderia ser verdade para alguns ‘singletons’ possíveis, mas poderia não ser verdade para outros.

 

O conceito de um ‘singleton’ é, portanto, muito mais amplo e abstrato do que o conceito de um governo mundial. Um governo mundial (no sentido comum da palavra) é apenas um tipo de ‘singleton’ entre muitos.

 

No entanto, todos os ‘singletons’ possíveis compartilham uma propriedade essencial: a capacidade de resolver problemas de coordenação global. As espécies inteligentes que desenvolvem a capacidade de resolver problemas de coordenação global, como as indicadas na próxima seção, podem, a longo prazo, desenvolver-se ao longo de trajetórias muito diferentes das espécies que não possuem essa capacidade. Isso é o que torna útil ter um conceito unificador para um conjunto tão diverso de estruturas.

 

  1. Vantagens de um ‘singleton’

 

Os ‘singletons’ podem ser bons, maus ou neutros. Uma razão para favorecer o desenvolvimento de um ‘singleton’ (do tipo bom) é que ele resolveria certos problemas fundamentais de coordenação que podem ser insolúveis num mundo que contém um grande número de agências independentes ao nível superior. Problemas de coordenação deste tipo, que podem ser de particular importância para o futuro da humanidade, incluem:

 

    . Evitar corridas armamentistas perigosas que poderiam causar enorme destruição ou mesmo extinção por meio de armas poderosas, incluindo armas futuras baseadas em nanotecnologia. [3] As corridas armamentistas custam caro mesmo quando não emanam da guerra.

    . Evitar uma futura corrida de colonização espacial que consumiria bens cósmicos. Robin Hanson desenvolveu um modelo que prevê que isso aconteceria na ausência de um ‘singleton’. [4]

    . Evitar resultados caracterizados por extrema desigualdade, como cenários onde um único estado (ou grupo de elite, ou um indivíduo) obtém uma vantagem tecnológica decisiva (com superinteligência ou nanotecnologia molecular avançada) e usa isso para prejudicar o resto da humanidade ou para se apropriar de enormes quantidades de recursos. (Tal cenário pode acontecer num indivíduo ou grupo privilegiado formando um ‘singleton’. Mas um ‘singleton’ criado por antecipação poderia ter conduzido a uma distribuição mais justa de benefícios.)

    . Evitar caminhos evolutivos indesejáveis ​​que levam a resultados radicalmente distópicos. Um ‘singleton’ poderia fazer isso remodelando deliberadamente a função de bem-estar para a população. (Não há nenhuma razão firme para supor que as pressões evolutivas sempre empurrem em direções desejáveis. Há uma análise minha mais detalhada deste tipo de cenário num outro artigo. [5])

 

  1. Desvantagens de um ‘singleton’

 

O maior risco na criação de um ‘singleton’ é o de ele acabar por ser um mau ‘singleton’. Unidades mais pequenas de tomada de decisão, como os estados, também se podem tornar maus. Mas se um ‘singleton’ for mau, então toda uma civilização inteira é má. É pôr todos os ovos numa cesta.

Além disso, numa ordem mundial menos coordenada, existem alguns processos que limitam o caráter destrutivo de certos tipos de falhas. Por exemplo, se um estado estagnar ou instituir um sistema econômico ruinoso, tal pode ser superado pela sua competição com outros estados. Outros estados podem invadir ou intervir. Parte de sua população pode emigrar. As tecnologias e o progresso científico desenvolvidos noutros estados podem eventualmente decair para um estado de estagnação. A existência de outras sociedades mais prósperas pode servir de modelo e inspiração para reformar ou revolucionar um mau estado. Esses mecanismos de proteção não funcionariam num ‘singleton’ mau. (Para reduzir este risco, um ‘singleton’ bom pode manter deliberadamente uma ecologia interna de diferentes sociedades e de diversidade regional.)

 

Alguns tipos de ‘singleton’ incorreriam num custo substancial devido à ineficiência resultante do aumento de camadas adicionais de burocracia. A magnitude desse custo, e se ele seria maior ou menor do que os ganhos da coordenação, depende da natureza do ‘singleton’, da sua estrutura e tecnologia de governo, e da gravidade dos problemas de coordenação que só podem ser resolvidos por um ‘singleton’.

 

Algumas formas de criar um ‘singleton’ também podem incorrer em custos e riscos, especialmente se uma nação ou algum grupo de agências tentar criá-lo à força num mundo multipolar onde as agências opostas têm poderes significativos. (Da mesma forma, também existem situações em que tentar evitar a criação de um ‘singleton’ pode ser caro e arriscado.)

 

  1. A hipótese ‘singleton’

 

A hipótese ‘singleton’ é que a vida inteligente originada na Terra (eventualmente) formará um ‘singleton’. É uma questão aberta saber se a hipótese do ‘singleton’ é verdadeira. A minha opinião é que é mais provável que seja verdade.

Historicamente, temos visto uma tendência abrangente para o aparecimento de níveis mais elevados de organização social, desde grupos de caçadores-coletores a chefias, cidades-estado, estados-nação e agora organizações multinacionais, alianças regionais, várias estruturas de governança internacional e outros aspetos da globalização. [6] A extrapolação dessa tendência aponta para a criação de um ‘singleton’.

 

Algumas tecnologias previstas podem facilitar a criação de um ‘singleton’, como vigilância avançada (incluindo a deteção de mentiras), tecnologias de controle da mente, tecnologias de comunicação e inteligência artificial. Outras tecnologias podem reduzir a probabilidade da criação de um ‘singleton’. Por exemplo, o maior uso da criptografia, especialmente à medida que grandes partes de nossas vidas e a economia migram para o ciberespaço, pode tornar mais difícil a formação de certos tipos de ‘singleton’ (‘singlestons’ que se apoiam num forte controle centralizado).

 

Um ‘singleton’ é um resultado plausível de muitos cenários em que uma única agência obtém uma liderança decisiva por meio de um avanço tecnológico em inteligência artificial ou nanotecnologia molecular. [7] Uma agência que tivesse obtido essa liderança poderia usar essa sua superioridade tecnológica para impedir que outras agências o alcançassem, especialmente nas áreas tecnológicas essenciais para sua segurança.

Pode-se desenvolver gradualmente um amplo apoio para a criação de um ‘singleton’, se um ‘singleton’ for de facto necessário para resolver os problemas de coordenação indicados na seção 3 e se a relevância desses problemas aumentar com o tempo. Um evento catastrófico que destacasse os perigos do fracasso em resolver os problemas de coordenação global, como uma guerra travada com armas de destruição em massa, poderia acelerar esse desenvolvimento. Até agora, os dois esforços mais ambiciosos para instituir formas limitadas de governo mundial, a Liga das Nações e as Nações Unidas, surgiram diretamente das experiências traumáticas de duas guerras mundiais. (Por outro lado, se os custos e riscos de criar um ‘singleton’ superam os benefícios, então é possível que a resistência iluminada reduza as hipóteses de formação de um.)

Uma vez formado, um futuro ‘singleton’ pode ser perpetuamente estável. Isso pode acontecer se a vigilância, o controle da mente e outras tecnologias de segurança se desenvolverem por forma a permitirem que um ‘singleton’ previna com eficácia o aparecimento de desafios internos.

 

Referências

 

Bostrom, N. (2005). The Future of Human Evolution. Death and Anti-Death. C. Tandy, Ria University Press.

Drexler, K. E. (1985). Engines of Creation: The Coming Era of Nanotechnology. Londres, Forth Estate.

Gubrud, M. (2000). Nanotechnology and International Security. Fifth Foresight Conference on Molecular Nanotechnology.

Hanson, R. (1998). "Burning the Cosmic Commons: Evolutionary Strategies for Interestellar Colonization." Disponível em http://hanson.gmu.edu/filluniv.pdf.

Wright, R. (1999). Nonzero: The Logic of Human Destiny. Nova York, Pantheon Books.

 

Notas

[1] This note is a write-up up of some informal remarks that I published in 2002.

[2] A “transcending upload” refers to a biological mind that has been uploaded to a computer and then enhanced to such a degree that it has become superintelligent.

[3] (Gubrud 2000)

[4] Hanson 1998)

[5] (Bostrom 2005)

[6] (Wright 1999)

[7] (Drexler 1985)”

 

 

(1) É sua intenção transportar colonizadores para Marte “inicialmente a 200.000 dólares por pessoa, podendo posteriormente ser feito a metade do preço. A nave transportará 100 a 200 pessoas de cada vez, estimando que a população de Marte seja de 1 milhão de habitantes ao fim de 40 a 100 anos”, segundo relata Marcia Smith, “Musk shares technical details of his dream for Mars colonization”, Space Policy Online, 27 September 2016.

(2) Nick Bostrom (1973- ), é um filósofo sueco (https://en.wikipedia.org/wiki/Nick_Bostrom) conhecido pelas suas teorias do transumanismo (que reconhece e antecipa alterações radicais na natureza dos humanos como resultado da aplicação de várias ciências e tecnologias), da superinteligência (teoria segundo a qual é possível que uma Inteligência Artificial se torne superinteligente ultrapassando e dominando a espécie humana) e da teoria da simulação (segundo a qual toda a realidade, incluindo a Terra e todo o resto do Universo, pode ser uma simulação artificial, uma simulação de computador).

 

 

(292) A Consolação do Dólar

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

Em ciência, um paradigma substitui outro paradigma; em filosofia e nas ciências humanas, não há substituição, tudo é integrado, nada é esquecido, J. Cerqueira Gonçalves.

 

Toda a espécie humana é igualmente nobre, dado que descende de uma única e mesma origem, Severino Boécio.

 

Não há prazer que não implique dor.

 

O conhecimento está reservado para os conhecedores, de acordo com as suas capacidades cognitivas.

 

 

A humanidade, ao longo do percurso que tem vindo a percorrer, tem passado por aquilo que parecem ser algumas alterações, quer elas sejam físicas, psicológicas, comportamentais, ou outras, alterações essas que tiveram origem nas sociedades que foram construindo (e que por sua vez também as foram modificando) na tentativa de conseguirem perdurar o mais tempo possível. Indivíduos, sociedades, culturas, nações, civilizações.

Estabelecer diferenciações entre elas, torna-se por vezes difícil, especialmente quando delas fazemos parte, pela curta duração de uma vida, ou pelo tempo transcorrido entre o observador e o que se pretende observar.

Por exemplo, um habitante que fizesse parte da Alemanha durante o período nazi, teria dificuldade em não acreditar nos valores de superioridade instilados por essa sociedade, sociedade que se julgava vir a durar mais de mil anos no comando do mundo.

 

 

Uma sociedade só aparece após um processo mais ou menos elaborado em que se vão selecionando os modos mais eficazes para se resolverem problemas que lhes sejam postos, problemas reais da vida prática e emocional com que aquele conjunto humano se depara, ou seja: uma sociedade não aparece de um momento para o outro a partir do nada.

É por isso que aquela ideia vulgarizada de que quando as sociedades são substituídas por outras desaparecem na totalidade, não corresponde à realidade. Os seus resquícios farão sempre parte do acervo da humanidade, sempre prontos a serem utilizados quando necessários.

Como dizia Joaquim Cerqueira Gonçalves:

 

 “Em ciência, um paradigma substitui outro paradigma; em filosofia e nas ciências humanas, não há substituição, tudo é integrado, nada é esquecido.

 

Os mitos, formas não racionais de encarar os problemas que se punham às sociedades de então, entretanto dadas como desaparecidas, ao fim de todo este tempo não desapareceram. Eles constituem como que um refúgio a que nos acolhemos quando tudo for irracional, quando a racionalidade não conseguir resolver os problemas das sociedades. (1)

 

Nestas mudanças, vamos dizer civilizacionais, que se verificam ao longo do tempo, existem sempre momentos charneira de maior ou menor duração, em que uma forma de viver (comportamentos, visão do mundo, valores, etc.) vai dando lugar a outra, pelo que convém estarmos atentos para nos conseguirmos adaptar, resistir ou desistir conforme os casos, sob o risco de sermos marginalizados (postos na prateleira, desempregados, eliminados, etc.).

A sociedade a que pertencemos tem ultimamente vindo a desenvolver um processo de transformação mais acelerado, com várias consequências a nível individual e social. Contudo, contrariamente ao que nos querem fazer crer, as principais alterações não se têm verificado devido à utilização das novas tecnologias, computadores, inteligência artificial.

As grandes alterações estão a dar-se ao nível dos valores, e os valores não são veiculados pela tecnologia.

 

Ao longo dos últimos dois mil anos, os valores da nossa sociedade têm sido valores cristãos. O afastamento desses valores, a tentativa da sua substituição por outros completamente diferentes, talvez se possa melhor aperceber se conseguirmos encontrar um meio credível, qualificado e representativo de comparação, que torne evidente esse afastamento.

 

Severino Boécio (c. 475-524), foi considerado como um dos grandes filósofos, “o maior dos filósofos entre eles” (noster summus philosophus). Para além disso, ficou também conhecido devido às traduções (para latim) de algumas obras de Aristóteles e de Porfírio, sem as quais não teríamos tido conhecimento da lógica clássica.

Devido a uma intriga palaciana (na altura Roma era governada pelo ostrogodo Teodorico, que convidou em 520 Boécio para um cargo importante na sua administração, que o parece ter desempenhado por forma a travar a corrupção instalada, o que lhe criou inimigos que conseguiram convencer Teodorico que Boécio conspirava contra ele), foi preso, julgado por traição e condenado à morte.

Enquanto aguardava a execução, vai escrever cinco cadernos, A Consolação da Filosofia, que se tornaram uma das obras mais lidas em toda a Europa ao longo de mil anos.

 

A “consolação” (consolatio), era um género literário em voga nas classes altas, sendo como que lamentações, últimos escritos antes de morrerem ou após grande desgosto. Estados de alma. Purificações.

 

A forma desta obra aparece como um diálogo entre o Prisioneiro (Boécio) e a Filosofia (personificada por uma respeitável mulher de idade avançada) que lhe aparece na cela.

 

Boécio começa por nos dizer no Livro I que por ter querido ser justo nas suas decisões, acabou por ser caluniado e preso, enfrentando uma morte injusta. O seu único consolo é o que encontra na Filosofia.

Então a Filosofia começa por lhe mostrar que a felicidade não consiste nos bens mutáveis e perecíveis que dependem da Fortuna, mas sim num bem perene a ser encontrado.

Explica-lhe depois em que é que a felicidade não consiste, para lhe demonstrar em que é que consiste a verdadeira felicidade: na posse do Sumo Bem, ser perfeitíssimo e origem dos demais seres.

Passa a equacionar o problema do Destino como resultante da Providência, acabando por se debruçar sobre o problema da articulação entre Providência e livre arbítrio.

 

Interessa aqui sobremaneira o Livro III, aquele em que a Filosofia vai ajudar Boécio na sua procura da felicidade, desvendando as inconsistências e insuficiências dos bens aparentes.

Apesar de ser rico, Boécio admite que lhe faltava algo, pelo que a Filosofia lhe faz ver que tal significava que não era autossuficiente. E isso acontecia porque a riqueza não garantia a autossuficiência, pois esse património podia ser arrebatado, pelo que aqueles que o têm tornam-se dependentes da ajuda alheia para o conservarem. A riqueza pode diminuir a necessidade, mas nunca a elimina: logo, não garante a felicidade.

Também as honras são um engano. Frequentemente dispensadas a quem as não merece, não tornam os contemplados dignos de reverência e honra. Tornam até mais visível o desmerecimento.

Quanto ao poder, por ser efémero e ter a propensão para atrair a discórdia, é também uma ilusão da verdadeira felicidade.

A glória, tal como a fama, é enganosa, pois, na maioria das vezes, a multidão não atribui a glória a quem verdadeiramente a merece. E é também efémera.

A nobreza é outra ilusão. O prestígio da nobreza é oco e fútil, pois não resulta do mérito próprio, mas do mérito dos antepassados. A Filosofia declara, ainda, que toda a espécie humana é igualmente nobre, dado que descende de uma única e mesma origem, de um só e mesmo pai.

Quanto ao prazer, o seu desejo implica ansiedade. Por isso, os que a ele se abandonam sofrem depois, arrependendo-se, mais não seja porque a satisfação desenfreada dos prazeres comporta riscos físicos reais. Para mais, tal critério de felicidade não é especificamente humano. Nem mesmo uma esposa e filhos podem assegurar a felicidade, já que constituem por si mesmos, fontes de cuidados. Comparando-o a uma abelha, conclui que não há prazer que não implique dor:

 

“Isto tem toda a luxúria:

espicaça com agulhões os que dela gozam,

semelhante à alada abelha

que mal acaba de derramar o delicioso mel

foge e fere com picada demasiado pungente

os corações que tocou.”

 

Nem mesmo a beleza merece que lhe seja devotada uma vida, ela é frágil e muito rapidamente se desvanece por qualquer acidente ou doença. E se o nosso olhar fosse mais penetrante, cedo descobriríamos a nossa própria fealdade.

 

Após concluir que todos esses bens não conduziam à felicidade, eis o resumo das opções de vida que a Filosofia coloca perante o Prisioneiro:

 

Tencionas esforçar-te para amealhar riquezas? Terás de as subtrair a quem a tem. Queres brilhar com honrarias? Suplicarás a quem tem o poder de as outorgar e tu, que desejas ultrapassar os outros homens, tornar-te-ás vil ao rebaixares-te a uma situação de pedinte. Desejas o poder? Sujeitar-te-ás a expor-te aos perigos próprios dos que estão sujeitos às intrigas. Procuras eventualmente a glória? Renuncias a estar tranquilo, arrastando-te por tribulações de todo o tipo. Levas uma vida de prazeres? Mas quem não há-de desprezar o escravo da mais vil e frágil das coisas, o corpo? Ora os que têm em grande conta os bens do corpo em que se apoiam essa pobre e frágil propriedade! Porventura sereis capazes de superar os elefantes em peso, os touros em força, porventura ultrapassareis os tigres em agilidade?

 

Os valores que na nossa sociedade atual estão a tentar fazer prevalecer são, na maior parte dos casos, completamente diferentes: individualismo exacerbado, sentido quase inexistente de comunidade, rejeição da existência do bem comum, exibição ostentadora da riqueza como símbolo de sucesso merecido devido a qualquer dom superior concedido ou inato, etc.

Se bem que a comparação não possa ser estabelecida na sua totalidade, ela é suficientemente clara para nos apercebermos das diferenças sobre os valores que os nossos mandantes, donos, influenciadores, querem para as suas vidas.

Não se trata de valores que querem para a vida, mas sim de valores que querem para as suas vidas. Como já lapidarmente Margaret Thatcher tão bem definira sobre o que para ela eram os tempos de hoje:

 

"Não existe essa coisa de sociedade, o que há são indivíduos."

- no such thing as society [...] There are individual

 

 

Menos conhecida que Thatcher, diz-nos Lokas Cruz, medicado SNS a trabalhar em campos de refugiados:

 

Criminalizar quem faz a travessia é a punição. Na Europa em 2020, culpabilizamos quem é refugiado e esta é a maneira como o fazemos.

Esta também é uma mensagem que é intencionalmente passada para que mais pessoas não venham, para que passem a mensagem e a ideia de que as condições são tão más que ninguém queira vir. Há pessoas a suicidar-se no campo diariamente. Se as sujeitarmos a condições que as façam preferir morrer nas bombas da Síria, pelos talibã no Afeganistão ou na travessia, se as desumanizarmos ao ponto de quererem morrer, certamente que os contactos que têm na Turquia ou nos países de origem serão persuadidos a não vir – é uma tática consciente e política.”(2)

 

 

 

Não está ainda claro que os valores “antigos” venham a ser derrotados, ou que os “novos” valores venham a constituir os valores da sociedade futura. Nem por quanto tempo.

 

Regressando a Boécio, numa discussão entre o Prisioneiro e a Filosofia, um dos problemas levantado pelo Prisioneiro foi este:

Como apenas pode ser conhecido o que é certo e fixo, então a contingência dos acontecimentos futuros é, pela sua natureza própria, incerta e não fixada. A ser assim, a afirmação que Deus está sempre certo na predição que faz de acontecimentos futuros, assenta num conhecimento que é falso.

Ao que a Filosofia respondeu:

 

Tudo o que é conhecido é adquirido não de acordo com o seu poder, mas de acordo com a capacidade daqueles que efetivamente conhecem”.

 

Ou seja, o conhecimento está reservado para os conhecedores, de acordo com as suas capacidades cognitivas. Nada de novo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(291) Outras formas de ver

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Os principais meios de comunicação social têm-se vindo a afastar cada vez mais da missão de informar o público, aproximando-se cada vez mais da missão de dizer-lhes o que devem pensar e o que devem fazer, Diana Johnstone.

 

A grande importância dada ao jornalismo de investigação no caso Watergate, não permitiu ver aquela que é a mais relevante questão: a do aparecimento de um modelo de jornalismo com base em fontes governamentais não identificadas,

 

A suspensão da convertibilidade do dólar em ouro aconteceu como resultado direto do enorme défice dos EUA devido ao custo da Guerra do Vietname.

 

Sempre que os EUA e a OTAN querem intervir, há sempre uma “crise humanitária” e uma “responsabilidade de proteger”.

 

 

 

 

Aos 86 anos de idade, a jornalista americana Diana Johnstone, há muito a viver na Europa, publicou recentemente (2020) um livro, Circle in the Darkness, Memoir of a WorldWatcher, no qual resume a sua visão sobre muitos dos acontecimentos que assistiu ao longo dos seus 55 anos de jornalismo.

O gosto pela convivência com todas as pessoas, a tentativa de as conhecer e ajudar, fez com que durante o período importante da Guerra do Vietname criasse vários grupos e campanhas com o objetivo de explicar o que se estava a passar e o porquê  da necessidade de se oporem à guerra.

É sua opinião que a criação desses grupos com implantação comunitária, e que passaram despercebidos à comunicação social, muito contribuíram para a educação de estudantes e professores na sua tomada de posição sobre a guerra.

 

Sobre o escândalo de Watergate, entende que a importância dada ao jornalismo de investigação no caso, não permitiu ver aquela que é a mais relevante questão: a do aparecimento de um modelo de jornalismo com base em fontes governamentais não identificadas.

Segundo ela, o escândalo Watergate serviu bem, intencionalmente ou não, para desviar a atenção para a mortandade que se estava a passar no Sudeste asiático:

 

Ver-nos livres de Nixon foi um golpe brilhante que de uma assentada uniu gerações, despedaçadas por atitudes opostas para com a guerra […] Watergate permitiu lavar os pecados nacionais. Preparou a América para ‘renascer de novo’ primeiro através do inocente Gerald Ford e depois pelo bom cristão Jimmy Carter, o campeão dos direitos humanos”.

“As ondas levantadas pelo Watergate foram uma distração para as ações de maior significado empreendidas pela administração Nixon, particularmente o abanão da economia mundial de agosto de 1971 quando decidiu suspender (ou seja, acabar) a convertibilidade do dólar em ouro. Tal aconteceu como resultado direto do enorme défice dos EUA devido ao custo da Guerra do Vietname.”

 

Quanto à esquerda nos EUA, o seu testemunho:

 

Meio século depois, o movimento americano contra a guerra desapareceu como força política influente sem deixar rasto. Há agora mais críticos de guerra inteligentes do que então, mas na sua grande maioria encontram-se confinados ao mundo virtual da net, sem qualquer impacto num sistema político que está totalmente integrado num complexo industrial militar que assenta em conflitos intermináveis.”

 

Como profissional na Associate Press e na Agence France Press, Jonhstone apercebeu-se melhor sobre como as notícias e as histórias eram selecionadas de acordo com as preferências da ordem instituída, e de como a comunicação social promovia a leaders de opinião certas pessoas entre os grupos que promoviam ou lideravam protestos. Casos de Daniel Cohn Bendit e do filósofo Bernard Henri Levy.

 

Aborda também alguns dos acontecimentos que se verificaram como o assassinato o primeiro ministro sueco Olaf Palm, e como a partir daí a Suécia se foi mostrando subserviente aos EUA; as causas e as consequências do assassinato de Aldo Moro, na Itália, por militantes da extrema esquerda; o assassinato do moderado palestiniano Issa Sartawi, numa conferência do Partido Socialista; a tentativa de assassinato do Papa João Paulo II por um militante turco e a campanha de propaganda que se seguiu com a intenção de o ligar à Bulgária e à União Soviética.

 

Quando a União Soviética colapsa, os EUA ficam livres para atuarem como quiserem. Johnstone resume esse momento com duas observações: “Mikhail Gorbachev era um negociador ingénuo, continuadamente ludibriado pelos americanos”, e “A total rendição do ‘comunismo real’ existente no Leste contribuiu para a derrota da Esquerda Ocidental”.

 

A dissolução da União Soviética marca também o início da dominação mundial das políticas económicas neoliberais. A formação da União Europeia em 1992 implicou o aparecimento, imposição e obrigações que favoreciam os bancos privados e outras instituições, ao mesmo tempo que restringiam ou impediam a intervenção do estado para a solução de problemas.

 

Com o desaparecimento do Pacto de Varsóvia em 1991, a OTAN (mais conhecida por NATO) ficava sem finalidade para existir, pelo que rapidamente encontrou uma nova finalidade, na demonização da Jugoslávia (único estado que continuava socialista) e da Sérvia. Aparece então o termo “imperialismo humanitário”, que serviu de justificação para a promoção do “Exército de Libertação do Kosovo” e para o bombardeamento da Sérvia durante 78 dias. A Jugoslávia acabou.

 

Após o “imperialismo humanitário” aparece o conceito de “Direito de Proteger” (Right to Protect, R2P) como justificação para violar a soberania nacional, que começou a ser utilizado pela OTAN na sua campanha contra a Líbia com vista à remoção de Gadhafi.

 Mais tarde, volta a ser utilizado na intervenção na Síria, incluindo no patrocínio e formação de exércitos de terroristas. Sempre que os EUA e a OTAN querem intervir, há sempre uma “crise humanitária” e “responsabilidade de proteger”.

 

Sobre o movimento dos “Coletes Amarelos” em França, Jonhstone explica como ele se formou e cresceu, agregando imensas pessoas vulgares independentemente das suas opções partidárias. Comprando-o com o movimento estudantil de maio de 1968, diz-nos que os Coletes Amarelos têm muito maior apoio:

 

Sociologicamente esta revolta é o oposto de maio de 68, Em vez de estudantes privilegiados que imaginavam a revolução de uma classe de operários não existente num tempo de prosperidade, [os coletes amarelos] são de facto a classe trabalhadora em tempos difíceis.”

 

Sobre a forma como os Coletes Amarelos têm sido atacados pela polícia (imensos feridos e até algumas mortes), escreve:

 

Curiosamente, toda esta dura e pesada repressão tem falhado totalmente quando se trata de prevenir que os membros mascarados do “Bloque Negro” ateiam fogos, partam montras, ataquem a polícia … A polícia nada fez para evitar que desconhecidos invadissem o andar térreo do Arco do Triunfo para partirem a estátua de Marianne …. Vale a pena notar que quase todos os seriamente aleijados eram manifestantes pacíficos dos Coletes Amarelos, ao passo que os Bloque Negro escapavam sem serem tocados. Pode ser que os Bloque Negro acreditassem que estavam a atacar o sistema. Quaisquer que fossem as suas intenções, eles fizeram o papel de auxiliares do governo à repressão.”

 

Johnstone, aponta muitos exemplos ao longo dos últimos 50 anos de como frequentemente os instigadores foram agentes do governo ou da polícia. Segundo ela, a violência e o vandalismo são nocivos para as causas progressistas, mesmo quando delas resultem publicidade e atenção dos media.

Segundo ela, os esforços dos grandes meios de comunicação social têm vindo a concentrarem-se no controle dos pensamentos e raivas das pessoas:

 

Os principais meios de comunicação social têm-se vindo a afastar cada vez mais da missão de informar o público, aproximando-se cada vez mais em dizer-lhes o que devem pensar e o que devem fazer.”

 

E finaliza com um desejo e um aviso, para que todas as diferentes forças trabalhem juntas em favor da paz, mesmo que não concordem em todos os pontos que possam definir “políticas identitárias”. E, não nos devemos distrair dos objetivos centrais que são a guerra e a desigualdade social. E avisa que quando a Esquerda se focaliza na franja à direita, o poder instituído fica não só contente, como até encoraja e promove a distração.

 

 

 

 

 

 

 

(290) “Arte, Verdade e Política”

 Tempo estimado de leitura: 15 minutos.

 

Não há distinções rígidas entre o que é real e o que é irreal, nem entre o que é verdadeiro e o que é falso. Uma coisa não é necessariamente verdadeira ou falsa; pode ser verdadeira e falsa, Harold Pinter.

 

A verdade tem apenas que ver com a forma como os Estados Unidos entendem ser o seu papel no mundo e como optam por levá-lo a cabo.

 

A maioria dos políticos, segundo as evidências de que dispomos, não está interessada na verdade, mas apenas no poder e na manutenção desse poder.

 

O que nos rodeia é um enorme tapete de mentiras, do qual nos alimentamos.

 

Gente inocente, na verdade, sempre sofre.

 

Às vezes um escritor tem mesmo que quebrar o espelho - pois é do outro lado desse espelho que a verdade nos encara.

 

 

 

 

Os prémios Nobel valem o que valem, são o que são. Frutos da época, instituídos em 1895, começaram a ser atribuídos pela primeira vez em 1901. E se bem que em quatro das suas categorias não se tenham verificado grandes objeções (física, química, medicina e economia), já em duas outras (paz e literatura), essa tal quase unanimidade não se verifica.

Recorde-se só em tempos mais recentes algumas das polémicas que envolveram a atribuição dos Nobel da paz a Henry Kissinger e a Aung San Suu Kyi, e os de literatura, não atribuídos em 2018 devido ao escândalo sexual – e não só - revelado no seio dos “juízes”, o de 2019 atribuído a Peter Handke (pelas suas posições de branqueamento dos genocídios na guerra da Bósnia), o de 2016 a Bob Dylan (que nem um agradecimento esboçou, enviando apenas Patti Smith à cerimónia de entrega, o que não o coibiu de ficar com o prémio pecuniário), e o deste ano de 2020 à pouco conhecida e tranquila Louise Gluck pela “sua voz eminentemente poética que juntamente com uma beleza austera torna universal a existência individual”.

 

As polémicas que envolvem a atribuição destes prémios são passíveis de várias leituras, desde as críticas ao próprio prémio em si até às provenientes das caraterísticas pessoais ou políticas das personalidades escolhidas. Parece ser, contudo, mais interessante focar a atenção sobre as escolhas que foram sendo feitas para tentar aquilatar do que elas possam refletir sobre o seu significado relativamente à sociedade em que vivemos.

O exemplo mais revelante foi o da atribuição do Nobel em 2005 a Harold Pinter e ao seu discurso de aceitação que intitulou “Arte, Verdade e Política”. (1)

Quando o sistema de poder vigente permite uma exposição como a feita por Pinter, tal poderá significar que o sistema estava distraído, ou que acreditava ser tão intocável a ponto de permitir alguns devaneios artísticos, ou que considerava a arte como faits divers e utilizava-a não apenas para “chocar os burgueses” mas para “espantar” toda a gente, ou que o controle estava a ser tão efetivo que ninguém já se importaria com as escolhas que lhes vêm sendo impostas (pois elas são momentâneas, passam, e seguem-se rapidamente outras coisas novas de igual sem importância).

Em resumo: será que tal discurso poderia ser feito (autorizado) nos dias de hoje?

 

Em 1964, Jean-Paul Sartre recusou aceitar o Nobel de literatura. Em 2005, Pinter terminou o seu discurso dizendo que a definição da verdade era uma obrigação que recaía sobre todos nós e que “se tal determinação não estiver incorporada na nossa visão política, não teremos esperança para restaurar o que está quase perdido para nós - a dignidade do homem.”

 

 

“Arte, verdade e política”.

 

Eis o discurso completo de Harold Pinter a quando da aceitação do Prémio Nobel de Literatura, 1905:

 

“Em 1958, escrevi o seguinte:

Não há distinções rígidas entre o que é real e o que é irreal, nem entre o que é verdadeiro e o que é falso. Uma coisa não é necessariamente verdadeira ou falsa; pode ser verdadeira e falsa.’

Acredito que essas afirmações ainda fazem sentido e que ainda se aplicam à exploração da realidade através da arte. Portanto, como escritor, defendo-as, mas como cidadão não posso. Como cidadão, devo perguntar: O que é verdade? O que é falso?

 No drama, a verdade é para sempre ilusória. Nunca a encontra, mas a sua procura é compulsiva. É a sua procura o que claramente impulsiona o esforço. A procura é a tarefa. Muitas vezes no escuro tropeça-se na verdade, colidindo com ela, ou apenas vislumbrando uma imagem ou uma forma que parece corresponder à verdade, muitas das vezes sem se perceber que se o fez.

Mas a verdade real é que na arte dramática nunca se encontra uma verdade. Há muitas. Essas verdades desafiam-se umas às outras, recuam umas das outras, refletem-se umas às outras, ignoram-se, provocam-se umas às outras, estão cegas umas para as outras. Às vezes sente-se que num dado momento se conseguiu ter nas mãos a verdade, mas então ela escapa-se por entre os dedos e perde-se.

 

Têm-me muitas vezes perguntado como é que as minhas peças acontecem. Não sei dizer. Nem sequer posso resumir as minhas peças, só posso dizer que foi isso que aconteceu. Isso é o que elas disseram. Isso foi o que fizeram.

 A maioria das peças é concebida a partir de uma linha, uma palavra ou uma imagem. Essa palavra dada, é geralmente logo seguida por uma imagem. Dou-vos dois exemplos de duas linhas que surgiram do nada na minha cabeça, seguidas por uma imagem.

As peças são The Homecoming e Old Times. A primeira linha de The Homecoming é “O que é que você fez com a tesoura?” A primeira linha de Old Times é “Escuro”.

Em qualquer dos casos não tive qualquer outra informação.

 

No primeiro caso, alguém estava obviamente à procura de uma tesoura, perguntando sobre o seu paradeiro a alguém que suspeitava que provavelmente a tivesse roubado. Mas, de alguma forma, eu sabia que a pessoa a quem me dirigia não se importava minimamente quer com a tesoura, quer para a pergunta que lhe fizera.

Em “Dark”, começo com a descrição do cabelo de alguém, o cabelo de uma mulher, e isso era a resposta a uma pergunta. Em qualquer dos casos, vi-me brigado a prosseguir com o assunto. Isso aconteceu visualmente, num desvanecimento muito lento, da sombra para a luz.

 

Começo sempre uma peça chamando aos personagens A, B e C.

Na peça que se chamou “The Homecoming”, vi um homem entrar numa sala deserta e fazer uma pergunta a um jovem que se encontrava sentado num sofá feio, lendo um jornal de desporto. Por qualquer razão, suspeitei que A era o pai e que B era o filho, tudo isto sem ter provas. No entanto, tudo isso foi confirmado pouco tempo depois, quando B (mais tarde chamado de Lenny) disse a A (mais tarde chamado de Max):

Pai, importa-se se eu mudar de assunto? Eu quero perguntar-lhe uma coisa. O prato que comemos ao jantar, como se chamava? Como é que o chama? Por que não compra um cão? Você é um cozinheiro de cachorros. Verdade. O pai julga que está cozinhando para muitos cachorros.”

Portanto, uma vez que B chama A de 'pai', parecia-me razoável supor que eles fossem pai e filho. E também parecia claro que o cozinheiro e os seus cozinhados não eram muito apreciados. Isso significava que não havia mãe? Não sabia. Mas, como eu me disse a mim mesmo na época, o início nunca conhece o fim.

 'Dark.' Uma grande janela. Céu noturno. Um homem, A (mais tarde chamado de Deeley) e uma mulher, B (mais tarde chamada de Kate), sentados a beberem.   “Gordo ou magro?” pergunta o homem. Mas de quem estão eles falando? Vejo então de pé à janela, uma mulher, C (mais tarde chamada de Anna), a uma outra luz, de costas para eles, com cabelos escuros.

 

É um momento estranho, o de criar personagens que até aquele momento não tinham existência. O que se segue é intermitente, incerto, até alucinatório, embora às vezes possa ser uma avalanche incontrolável.

A situação do autor é estranha. Num sentido, ele não é bem-vindo pelos personagens. Os personagens resistem-lhe, não são fáceis de conviver, são impossíveis de definir. Não se lhes pode dar ordens. Até certo ponto joga-se um jogo sem fim com eles, do gato e rato, do cão cego, do esconde-esconde. Mas finalmente acaba por se descobrir que se tem pessoas de carne e osso nas nossas mãos, pessoas com vontade e sensibilidade individual próprias, feitas de partes componentes que se é incapaz de mudar, manipular ou distorcer.

Portanto, a linguagem na arte continua a ser uma transação altamente ambígua, uma areia movediça, um trampolim, uma piscina congelada que perante o autor pode ceder a qualquer momento.

 

Mas, como disse, a busca pela verdade nunca pode parar. Não pode ser deixada para depois, não pode ser adiada. Tem de ser enfrentada, ali mesmo, no local.

O teatro político apresenta um conjunto de problemas totalmente diferente. Deve ser evitado a todo custo o sermão. A objetividade é essencial. Os personagens devem ter autorização para respirarem o seu próprio ar. O autor não pode confiná-los e restringi-los para satisfazer o seu próprio gosto, disposição ou preconceito. Ele deve estar preparado para abordá-los por uma variedade de ângulos, de uma gama completa e desinibida de perspetivas, apanhá-los ocasionalmente de surpresa, mas dar-lhes a liberdade para seguirem o caminho que quiserem. Isso nem sempre funciona.

Já a sátira política, não segue nenhum desses preceitos, na verdade faz exatamente o contrário, é essa a sua função própria.

 

Na minha peça “The Birthday Party”, penso que permito que toda uma gama de opções se desenrole numa densa floresta de possibilidades antes de finalmente se concentrar num ato de subjugação.

Mountain Language”, finge não ter esse tipo de opções. Mantem-se brutal, curta e feia. Mas na peça, os soldados divertem-se um pouco com isso. Às vezes, esquecemos que os torturadores se aborrecem facilmente. Eles precisam de um pouco de riso para manter o ânimo. Isso foi confirmado, é claro, pelos eventos em Abu Ghraib, em Bagdad. “Mountain Language” dura apenas 20 minutos, mas poderia prosseguir hora após hora, repetindo indefinidamente o mesmo padrão indefinidamente, hora após hora.

Por outro lado, já em “Ashes to Ashes”, tudo parece estar a acontecer debaixo de água. Uma mulher a afogar-se, a mão acima das ondas, descaindo para fora de vista, tentando chamar a atenção dos outros, mas não encontrando ninguém, nem acima nem debaixo de água, encontrando apenas sombras, reflexos, flutuando; a mulher, uma figura perdida numa paisagem em que se afoga, uma mulher incapaz de escapar da desgraça que parecia pertencer apenas a outros.

Mas como eles morreram, ela também deve morrer.

 

A linguagem política, como a usada pelos políticos, não se aventura em nenhum destes territórios uma vez que a maioria dos políticos, segundo as evidências de que dispomos, não está interessada na verdade, mas apenas no poder e na manutenção desse poder. Para manter esse poder é essencial que as pessoas se mantenham na ignorância, que vivam na ignorância da verdade, até mesmo da verdade das suas próprias vidas. O que nos rodeia, portanto, é um enorme tapete de mentiras, do qual nos alimentamos.

 

Como todo mundo aqui sabe, a justificação para a invasão do Iraque foi que Saddam Hussein possuía um conjunto altamente perigoso de armas de destruição em massa, algumas das quais poderiam ser disparadas em 45 minutos, causando uma devastação terrível. Foi-nos assegurado que isso era verdade. Isso não era verdade.

Fomos informados de que o Iraque tinha relações com a Al Qaeda e compartilhava a responsabilidade pela atrocidade em Nova York a 11 de setembro de 2001. Tínhamos a certeza de que isso era verdade. Isso não era verdade. Disseram-nos que o Iraque ameaçava a segurança do mundo. Garantiram-nos que era verdade. Não era verdade.

A verdade é algo totalmente diferente. A verdade tem a ver com a forma como os Estados Unidos entendem ser o seu papel no mundo e como optam por levá-lo a cabo.

 

Mas antes de voltar ao presente, gostaria de olhar para o passado recente, ou seja, para a política externa dos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Eu creio que é obrigatório sujeitarmos esse período a algum tipo de escrutínio, mesmo que limitado, e que neste caso será todo o tempo que me é permitido aqui.

Todos sabem o que aconteceu na União Soviética e em toda a Europa Oriental durante o período pós-guerra: a brutalidade sistemática, as atrocidades generalizadas, a supressão implacável do pensamento independente. Tudo isso foi já totalmente documentado e verificado.

 Mas o que interessa aqui mostrar é que os crimes cometidos pelos EUA no mesmo período, foram só superficialmente registrados, e muito menos documentados, muito menos reconhecidos, e ainda muito menos reconhecidos como crimes.

Eu acredito que isso deve ser abordado porque a verdade tem uma influência considerável na posição do mundo. Embora limitados, até certo ponto, pela existência da União Soviética, as ações dos Estados Unidos em todo o mundo deixaram claro que eles concluíram que tinham carta branca para fazerem o que quisessem.

A invasão direta de um estado soberano nunca foi de facto o método preferido da América. No geral, preferiu sempre o método que descreveu como 'conflito de baixa intensidade'. Conflito de baixa intensidade, significa que milhares de pessoas morrem, mas mais lentamente do que se se lançasse sobre elas uma bomba. Significa que infecta o coração do país, que faz crescer um tumor maligno e fica a ver a gangrena florescer.

Quando a população for subjugada - ou espancada até a morte - é o mesmo – bem como os amigos, então os militares e as grandes corporações, sentam-se confortavelmente no poder, e a América aparece nas televisões a dizer que a democracia prevaleceu. Isso foi o lugar-comum na política externa dos Estados Unidos nos anos a que me refiro.

A tragédia da Nicarágua foi um desses casos altamente significativo. Decidi apresentá-lo aqui como um exemplo da visão dos Estados Unidos sobre o seu papel no mundo, tanto naquela época quanto agora.

Estive presente numa reunião na embaixada dos Estados Unidos em Londres no final dos anos 1980.

O Congresso dos Estados Unidos estava prestes a decidir se devia dar mais dinheiro aos Contras na sua campanha contra o estado de Nicarágua. Fui membro de uma delegação que falava em nome da Nicarágua, em que o membro mais importante dessa delegação era o padre John Metcalf. O representante da parte americana era Raymond Seitz (então o número dois da Embaixada, mais tarde promovido a embaixador). O Padre Metcalf disse:

 

 'Senhor, eu sou responsável por uma paróquia no norte da Nicarágua. Os meus paroquianos construíram uma escola, um centro de saúde, um centro cultural. Vivemos em paz. Há alguns meses, uma força dos Contra, atacou a paróquia. Destruíram tudo: a escola, o posto de saúde, o centro cultural. Violaram enfermeiras e professores, massacraram médicos da maneira mais brutal. Comportaram-se como selvagens. Por favor, exija que o governo dos Estados Unidos retire o apoio a essa chocante atividade terrorista.”

Raymond Seitz tinha uma muito boa reputação como sendo um homem racional, responsável e altamente sofisticado. Era muito respeitado nos círculos diplomáticos. Ele ouviu, fez uma pausa e então falou com alguma gravidade.

'Padre', disse ele, 'deixe-me dizer-lhe uma coisa. Na guerra, pessoas inocentes sempre sofrem. ' Houve um silêncio gelado. Nós encarámo-lo. Ele nem pestanejou.

Gente inocente, na verdade, sempre sofre.

Por fim, alguém disse:

'Mas neste caso “gente inocente” foi vítima de uma atrocidade horrível subsidiada pelo seu governo, uma entre muitas. Se o Congresso permitir dar aos Contras mais dinheiro, mais atrocidades desse tipo acontecerão. Não é este o caso? Portanto, não é o seu governo culpado de apoiar atos de assassinato e destruição de cidadãos de um estado soberano? '

 

Seitz manteve-se imperturbável. "Não concordo que os factos apresentados apoiem ​​as suas afirmações", disse ele.

 Quando estávamos a sair da embaixada, um assessor dos Estados Unidos disse-me que gostava das minhas peças de teatro. Nem respondi.

Devo lembrar que, na época, o presidente Reagan fez a seguinte declaração: 'Os Contras são o equivalente moral dos nossos Pais Fundadores'.

Os Estados Unidos apoiaram a brutal ditadura de Somoza na Nicarágua por mais de 40 anos. O povo nicaraguense, liderado pelos sandinistas, derrubou esse regime em 1979, numa revolução popular de tirar o fôlego.

 Os sandinistas não eram perfeitos. Eles possuíam a sua parte de arrogância e a sua filosofia política continha uma série de elementos contraditórios. Mas eles eram inteligentes, racionais e civilizados. Eles propuseram-se a estabelecer uma sociedade estável, decente e pluralista. A pena de morte foi abolida. Centenas de milhares de camponeses atingidos pela pobreza foram resgatados dessa vida de mortos. Mais de 100.000 famílias receberam títulos de terra. Duas mil escolas foram construídas. Uma campanha de alfabetização bastante notável reduziu o analfabetismo para menos de um sétimo. A educação gratuita foi estabelecida, bem como um serviço de saúde gratuito. A mortalidade infantil foi reduzida em um terço. A poliomielite foi erradicada.

Os Estados Unidos denunciaram essas conquistas como sendo uma subversão marxista / leninista. Na opinião do governo dos Estados Unidos, tratava-se de um exemplo perigoso que estava a ser dado. Se a Nicarágua pudesse estabelecer normas básicas de justiça social e econômica, se pudesse elevar os padrões de saúde e educação e alcançar a unidade social e o respeito próprio nacional, os países vizinhos fariam as mesmas perguntas e fariam as mesmas coisas. Naturalmente, houve na época uma forte resistência ao status quo em El Salvador.

Falei anteriormente sobre 'o tapete de mentiras' que nos cerca. O presidente Reagan descrevia a Nicarágua como uma "masmorra totalitária". No geral, a comunicação social e o governo britânico consideraram isso como um comentário preciso e justo. Mas de fato não havia registo de esquadrões da morte sob o governo sandinista. Não houve registo de tortura. Não houve registo de brutalidade militar sistemática ou oficial. Nenhum padre foi assassinado na Nicarágua. Na verdade, havia três padres no governo, dois jesuítas e um missionário Maryknoll.

As masmorras totalitárias ficavam na verdade ao lado, em El Salvador e na Guatemala. Os Estados Unidos derrubaram o governo democraticamente eleito da Guatemala em 1954, estimando-se que mais de 200.000 pessoas tenham sido vítimas das sucessivas ditaduras militares.

Seis dos mais ilustres jesuítas do mundo foram cruelmente assassinados na Universidade Centro-americana de San Salvador em 1989 por um batalhão do regimento Alcatl treinado em Fort Benning, Geórgia, EUA. Aquele homem extremamente corajoso, o arcebispo Romero, foi assassinado enquanto rezava a missa. Estima-se que 75.000 pessoas morreram.

Por que foram mortas? Foram mortas porque acreditavam que uma vida melhor era possível e deveria ser alcançada. Essa crença fê-los imediatamente ser qualificou como comunistas. Eles morreram porque ousaram questionar o status quo, o patamar sem fim de pobreza, doença, degradação e opressão, único direito adquirido de nascença.

 Os Estados Unidos finalmente derrubaram o governo sandinista. Demorou alguns anos e uma resistência considerável, mas a perseguição econômica implacável e 30.000 mortos finalmente minou o espírito do povo da Nicarágua. Eles estavam exaustos e atingidos pela pobreza mais uma vez. Os casinos voltaram para o país. Saúde e educação gratuitas acabaram. Os grandes negócios voltaram a toda a força. A 'democracia' prevaleceu.

 

Mas essa 'política' não se restringia apenas à América Central. Foi realizada em todo o mundo. Sem fim à vista. E é como se nunca tivesse acontecido.

 Os Estados Unidos após o fim da Segunda Guerra Mundial apoiaram e, em muitos casos, organizaram no mundo, todas as ditaduras militares de direita. Refiro-me à Indonésia, Grécia, Uruguai, Brasil, Paraguai, Haiti, Turquia, Filipinas, Guatemala, El Salvador e, claro, Chile. O horror que os Estados Unidos infligiram ao Chile em 1973 nunca pode ser eliminado e nunca pode ser perdoado.

Centenas de milhares de mortes ocorreram nesses países. Elas aconteceram? E são em todos os casos atribuíveis à política externa dos Estados Unidos? A resposta é sim, elas aconteceram e são atribuíveis à política externa americana. Mas você nunca saberia.

Isso nunca aconteceu. Nunca aconteceu nada. Mesmo enquanto estava a acontecer, não estava a acontecer. Não importa. Não tinha interesse. Os crimes dos Estados Unidos foram sistemáticos, constantes, cruéis, implacáveis, mas muito poucas pessoas falaram sobre eles. Tem de se atribuir isso à América. Ela conseguiu manipular clinicamente o exercício do seu poder em todo o mundo, mascarando-se como uma força para o bem universal. É um ato de hipnotismo brilhante, até espirituoso e altamente bem-sucedido.

Digo-vos que os Estados Unidos são, sem dúvida, o maior espetáculo em cena. Pode ser brutal, indiferente, desdenhoso e implacável, mas também é muito inteligente. Como vendedor, está por conta própria e sua mercadoria mais vendável é o amor próprio. É um vencedor. Ouvimos todos os presidentes americanos a dizerem na televisão as palavras 'o povo americano', como na frase, 'Eu digo ao povo americano que está na hora de rezar e defender os direitos do povo americano e peço ao povo americano para confiar na ação que o seu presidente está prestes a realizar em nome do povo americano.

 É um estratagema brilhante. A linguagem é realmente empregada para manter o pensamento sob controle. As palavras "o povo americano" fornecem uma almofada verdadeiramente voluptuosa de segurança. Não se precisa pensar. Tem-se apenas de deitar na almofada. A almofada pode estar a sufocar a sua inteligência e as suas faculdades críticas, mas ela é muito confortável. Isso não se aplica, é claro, aos 40 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza e aos 2 milhões de homens e mulheres presos no vasto gulag de prisões, que se estende por todos os Estados Unidos.

Os Estados Unidos já não se preocupam com estes conflitos de baixa intensidade. Não vêm qualquer sentido em serem reticentes ou mesmo tortuosos. Colocam as suas cartas na mesa sem medo ou favor. Simplesmente não dão a mínima importância às Nações Unidas, ao direito internacional ou à dissidência crítica, considerando-os impotentes e irrelevantes. E têm também preso por uma trela, o seu próprio cordeirinho balindo atrás de si, a patética e desanimada Grã-Bretanha.

 O que aconteceu com a nossa sensibilidade moral? Alguma vez tivemos alguma? O que significam essas palavras? Será que se referem a um termo muito raramente empregado hoje em dia - consciência? Uma consciência que tem que ver não apenas com os nossos próprios atos, mas também com a responsabilidade que compartilhamos para com os atos dos outros? Estará tudo morto?

Veja-se a Baía de Guantánamo. Centenas de pessoas detidas sem acusação há mais de três anos, sem representação legal ou sem o devido processo legal, tecnicamente detidas para sempre. Esta estrutura totalmente ilegítima é mantida em desafio à Convenção de Genebra. Tudo isto não é apenas tolerado, mas consentido pela chamada “comunidade internacional”.

Este ultraje criminoso está sendo cometido por um país, que se declara 'o líder do mundo livre'.

Pensamos nós sobre os habitantes da Baía de Guantánamo? O que é que a comunicação social diz sobre eles? Eles raramente são referidos - um pequeno item na página seis. Eles foram atirados para uma terra de ninguém da qual, de facto, podem nunca mais regressar. Atualmente, muitos estão em greve de fome, sendo alimentados à força, incluindo residentes britânicos. Alimentação forçada sem sutilezas. Sem sedativo ou anestésico. Apenas um tubo enfiado no nariz e na garganta. Você vomita sangue. Isso é tortura.

 O que é que disse o Ministro do Exterior britânico sobre isto? Nada. O que disse o primeiro-ministro britânico sobre isto? Nada. Por que não? Porque os Estados Unidos disseram: criticar a nossa conduta na Baía de Guantánamo constitui um ato hostil. Vocês ou estão connosco ou contra nós. Por isso Blair cala-se.

 A invasão do Iraque foi um ato de banditismo, um ato flagrante de terrorismo de estado, demonstrando absoluto desprezo pelo conceito de direito internacional. A invasão foi uma ação militar arbitrária inspirada por uma série de mentiras e mentiras e manipulação grosseira da comunicação social e, portanto, do público; um ato destinado a consolidar o controle militar e econômico americano sobre o Médio Oriente, disfarçado, em último recurso como libertação, após todas as outras justificações terem falhado. Uma afirmação formidável de poderio militar, responsável pela morte e mutilação de milhares e milhares de pessoas inocentes.

Trouxemos tortura, bombas em cacho, urânio empobrecido, inúmeros atos de assassinato aleatório, miséria, degradação e morte para o povo iraquiano e chamámo-lo "trazer liberdade e democracia ao Médio Oriente”.

Quantas pessoas se têm que matar antes de tal ser descrito como sendo um assassínio em massa e uma guerra de criminosa? Cem mil? Mais do que suficiente, pensaria eu. Portanto, é justo que Bush e Blair sejam denunciados perante o Tribunal Penal Internacional de Justiça.

Mas Bush foi inteligente. Ele não ratificou o Tribunal Penal Internacional de Justiça. Portanto, se algum soldado americano ou político se encontrar no banco dos réus, Bush avisou que enviará os fuzileiros navais. Mas Tony Blair ratificou o Tribunal e, portanto, está disponível para ser processado. Podemos deixar o endereço do Tribunal se eles estiverem interessados. É o número 10, Downing Street, Londres.

A morte, neste contexto, é irrelevante. Tanto Bush quanto Blair colocam a morte bem longe, em segundo plano. Pelo menos 100.000 iraquianos foram mortos por bombas e mísseis americanos antes do início da guerra no Iraque. Essas pessoas não têm qualquer importância. As suas mortes não existem. Eles são apenas alvos. Nem mesmo contam para o registo de mortos. 'Não fazemos contagem de corpos', disse o general americano Tommy Frank.

 No início da invasão, foi publicada na primeira página de jornais britânicos uma fotografia de Tony Blair beijando a face de um garotinho iraquiano. “Uma criança agradecida”, dizia a legenda. Poucos dias depois, apareceu uma história e uma fotografia, numa página interior, de outro menino de quatro anos sem braços. A sua família foi morta por um míssil. Ele foi o único sobrevivente. – ‘Quando terei os meus braços de volta?’ perguntou. A história foi retirada. Bem, Tony Blair não o segurava nos braços, nem o corpo de qualquer outra criança mutilada, nem o corpo de qualquer cadáver ensanguentado. O sangue é sujo. Suja a camisa e a gravata quando estiver a fazer um discurso sincero na televisão.

Os 2.000 americanos mortos são um embaraço. Eles são transportados para casa durante a noite. Os funerais são discretos, fora das vistas. Os mutilados apodrecem nas suas camas, alguns para o resto de suas vidas. Assim, os mortos e os mutilados apodrecem, em diferentes tipos de sepulturas.

 

Eis o extrato de um poema de Pablo Neruda, 'Algumas coisas que explico’:

 

E numa manhã tudo isso estava a arder,

numa manhã as fogueiras

escaparam da terra

devorando seres humanos

 e a partir deles em chamas,

 pólvora de daí em diante,

e daí em diante sangue.

 Bandidos com aviões e mouros,

 bandidos com anéis no dedo e duquesas,

 bandidos com frades negros distribuindo bênçãos

 vieram pelo céu para matar crianças

 e o sangue de crianças corria pelas ruas

 sem barulho, como sangue de crianças.

Chacais que os chacais desprezariam

 pedras que o cardo seco morderia e cuspiria,

víboras que as víboras abominariam.

Face a face contigo, eu vi o sangue

da torre da Espanha como uma maré

para te afogar numa onda

de orgulho e facas.

Generais

traiçoeiros:

vejam a minha casa morta,

olhem para a Espanha destruída:

de cada casa que o metal em chamas flui

em vez de flores

de cada lugar da Espanha

a Espanha emerge

 e de cada criança morta um rifle com olhos

e de todo crime nascem balas

 que um dia encontrarão

 o alvo de seus corações.

E tu perguntarás: por que é que o seu poema

 não fala de sonhos e folhas

 e dos grandes vulcões da sua terra natal.

Venha ver o sangue nas ruas.

Venha ver

O sangue nas ruas.

Venha ver o sangue

nas ruas!

 

Deixem-me tornar bem claro que, ao citar o poema de Neruda, não estou de forma alguma a comparar a Espanha republicana ao Iraque de Saddam Hussein. Cito Neruda porque em nenhum sítio de poesia contemporânea li uma descrição visceral tão poderosa do bombardeamento de civis.

Disse anteriormente que os Estados Unidos são agora totalmente francos, colocando as cartas na mesa. É esse o caso. A sua política oficial declarada é agora definida como de 'domínio de espectro total'. Este não é o meu termo, é o deles. 'Domínio de espectro total' significa controle de terra, mar, ar e espaço e todos os recursos associados.

 Os Estados Unidos detêm agora 702 instalações militares em todo o mundo espalhadas por 132 países, com a honrosa exceção da Suécia, é claro. Não se sabe bem como o conseguiram, mas eles estão lá.

Os Estados Unidos possuem 8.000 ogivas nucleares ativas e operacionais. Duas mil estão em alerta rápido, prontas para serem lançadas com aviso de 15 minutos. E estão desenvolvendo novos sistemas nucleares, conhecidos como bunker busters.

Os britânicos, sempre cooperantes, pretendem substituir o seu próprio míssil nuclear, o Trident. Quem, pergunto-me eu, tentam eles atingir? Osama bin Laden? Vocês? Eu? Zés Ninguém? China? Paris? Quem sabe?

O que sabemos é que essa insanidade infantil - a posse e   ameaça de utilização de armas nucleares - está no cerne da atual filosofia política americana. Devemos lembrar-nos que os Estados Unidos mantêm bases militares permanentes e não dão sinais de as abandonar.

 Muitos milhares, senão milhões, de pessoas nos próprios Estados Unidos estão comprovadamente enojados, envergonhados e irritados com as ações de seu governo, mas como as coisas estão, não constituem uma força política coerente - ainda. Mas a ansiedade, a incerteza e o medo que podemos ver ir diariamente crescendo nos Estados Unidos, provavelmente não diminuirão.

 

Sei que o presidente Bush tem muitos redatores de discursos extremamente competentes, mas gostaria de voluntariar-me para o trabalho. Proponho o seguinte breve discurso que ele pode fazer à nação pela televisão. Eu vejo-o sério, cabelo cuidadosamente penteado, vencedor, sincero, muitas vezes cativante, às vezes com um sorriso irônico, curiosamente atraente, um homem macho.

 'Deus é bom. Deus é grande. Deus é bom. O meu Deus é bom. O Deus de Bin Laden é ruim. O seu Deus é mau. O Deus de Saddam era mau, exceto que ele não tinha nenhum. Ele era um bárbaro. Nós não somos bárbaros. Não cortamos a cabeça das pessoas. Acreditamos na liberdade. Deus também. Eu não sou um bárbaro. Eu sou o líder democraticamente eleito de uma democracia que ama a liberdade. Somos uma sociedade compassiva. Nós aplicamos eletrocussão compassiva e injeção letal compassiva. Somos uma grande nação. Eu não sou um ditador. Ele é. Eu não sou um bárbaro. Ele é. E ele é. Todos eles são. Eu possuo autoridade moral. Vêm este punho? Esta é minha autoridade moral. E não se esqueçam disso.’

 

A vida de um escritor é uma atividade altamente vulnerável, quase sem apoio. Não temos que chorar por causa disso. O escritor faz a sua escolha e fica preso a ela. Mas a verdade é que está exposto a todos os ventos, alguns deles realmente gelados. Está entregue a si próprio, está sozinho, num limbo. Não encontra refúgio nem abrigo, nenhuma proteção, a menos que minta, e neste caso, é claro, construiu a sua própria proteção e, pode-se então dizer que se tornou um político.

 

Já me referi à morte várias vezes esta noite. Vou citar agora um poema de minha autoria chamado "Morte".

 

Onde foi encontrado o cadáver?

Quem encontrou o cadáver?

Estava o cadáver morto quando foi encontrado?

 Como foi encontrado o cadáver?

Quem era o cadáver?

Quem era o pai, a filha, o irmão,

ou o tio, a irmã, a mãe ou o filho

do corpo morto e abandonado?

O corpo estava morto quando foi abandonado?

O corpo foi abandonado?

 Por quem foi abandonado?

O cadáver estava nu ou vestido para uma viagem?

 O que o fez declarar que o cadáver estava morto?

Você declarou o cadáver morto?

O quão bem você conhecia o cadáver?

 Como sabia que o cadáver estava morto?

Você lavou o cadáver?

Você fechou-lhe os dois olhos?

 Você enterrou o corpo?

 Você deixou-o abandonado?

 Você beijou o cadáver?

 

Quando nos olhamos ao espelho, pensamos que a imagem que temos diante de nós é precisa. Mas basta movermo-nos um milímetro e a imagem muda. Na verdade, estamos a olhar para uma gama infinita de reflexos. Às vezes um escritor tem mesmo que quebrar o espelho - pois é do outro lado desse espelho que a verdade nos encara.

Acredito que, apesar das enormes probabilidades que existem, a determinação intelectual inabalável, inabalável e feroz como cidadãos, de definir a verdade real das nossas vidas e das nossas sociedades é uma obrigação crucial que recai sobre todos nós. Na verdade, é obrigatória. Se tal determinação não estiver incorporada na nossa visão política, não teremos esperança para restaurar o que está quase perdido para nós - a dignidade do homem.”

 

 

 

 

  • file:///C:/Users/HELDER~1/AppData/Local/Temp/ArtTruthandPolitics.pdf

 

(289) A candeia de Díógenes

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Deus voltou-se de costas e começou a chorar.

 

A única forma para se evitar o comunismo é seguir a China.

 

É possível um outro fim do mundo.

 

Somos conduzidos pelos menores de entre nós – pelos menos inteligentes, pelos menos nobres, pelos menos visionários, Terence McKenna.

 

 

 

 

Em pleno dia de sol de verão na Grécia Antiga, Diógenes foi encontrado por Sócrates a caminhar por uma das ruas mais movimentadas da cidade, com uma candeia acesa na mão, como se estivesse a iluminar o caminho. Sócrates não resistiu a perguntar-lhe o que andava a fazer. Ao que Diógenes lhe respondeu:

 

Ando à procura de um homem honesto.”

 

 

Num recente artigo (1), Slavoj Zizek, conta-nos uma anedota que corria nos tempos da guerra fria, passada entre Richard Nixon dos EUA, Leonid Brezhnev da URSS e Eric Honecker da RDA, quando resolveram interrogar Deus para saberem qual seria o futuro reservado para os seus respetivos países.

Eis o que Deus disse a Nixon: “No ano 2050, os EUA serão comunistas.” Nixon voltou-se de costas e começou a chorar. Para Brezhnev, Deus disse: “No ano 2050, a União Soviética será uma província da China.” Brezhnev voltou-se de costas e começou a chorar. E finalmente Honecker perguntou: “E o que acontecerá à minha amada RDA?” Deus voltou-se de costas e começou a chorar.

 Zizek vai transportar esta anedota para a atualidade, agora com novos personagens, desta vez com Putin, o presidente chinês Xi Jinping e Donald Trump. Eis a resposta de Deus para Putin: “A Rússia estará controlada pela China”. Putin voltou-se de costas e chorou. Para Xi, Deus disse: “A China continental será dominada por Taiwan”. Xi voltou-se de costas e chorou. E quando Trump faz a mesma pergunta sobre os EUA, Deus voltou-se de costas e chorou.

 

Com esta forma ligeira e divertida, Zizek pretende chamar-nos a atenção para o facto de as sociedades consideradas como as mais desenvolvidas da nossa época, serem muito idênticas no que se refere ao tipo e aos métodos de desenvolvimento que prosseguem. Todas elas seguem sistemas económicos capitalistas, cada vez mais assentes na vigilância e direção eletrónica consentida ou não dos seus cidadãos, numa construção totalitária devidamente articulada, em maior ou menor grau, entre empresas privadas e estado. 

E segundo ele, quem vai à frente nesta integração programada, é, sem dúvida, a China (exemplos comezinhos são os dados recentes vindos da China onde devido a meia dúzia de casos de Covid testaram uma cidade de 9 milhões de habitantes em cinco dias, e a distribuição gratuita da vacina a todos os habitante, o que lhe possibilitará prover às necessidades objetivas de cada um dos cidadãos de melhor forma que outro estado garanta).

 

A quem queira evitar o reaparecimento do comunismo, recomenda que se deve seguir o exemplo da China:

 

“A única forma para se evitar o comunismo será seguir a China.”

 

Talvez preocupado com esta sua conclusão, Zizek sugere-nos uma alternativa:

 

“É possível um outro fim do mundo.”

 

De certa forma, esta sua análise política tem apenas que ver com os aspetos gerais de uma possível evolução da sociedade humana, mesmo quando propõe a possibilidade de um outro mundo (recordemos que também findável) em que essa alternativa aparece escamoteada.

 

Para se tentar perceber melhor em que assenta esta análise macropolítica da evolução da sociedade humana, devemos de ter em conta a interação e interdependência entre o comportamento humano, o meio e a sociedade. Embora seja difícil de separar esta interdependência, pode-se considerar que alterar a sociedade significa alterar o comportamento humano, mas também que alterar o comportamento humano significa alterar a sociedade.

Pelo que se torna fundamental começar por tentar definir a sociedade em que, por acaso ou por desígnio vivemos, ao nível de comportamento individual: que valores fazem parte dele? Que valores incentivamos os mais novos a seguirem?

 

Vivemos numa sociedade em que não somos incentivados, nem somos valorizados por sermos melhores pessoas, melhores pais, melhores colegas, melhores amigos, melhores ouvintes, melhores cuidadores. Antes pelo contrário, somos valorizados por sermos famosos, por sermos influentes, por aumentarmos os negócios, por sermos promovidos, por esmagarmos a concorrência, por sermos poderosos.

Ter “sucesso” significa ter muitos empregados, muitas pessoas subservientes, muitos consumidores, muitos seguidores, muitas pessoas que nos ouçam e vejam e que julguem que somos importantes. É a isto a que a maior parte das pessoas dedica a sua vida, especialmente os que pretendem deter alguma influência.

Tudo à nossa volta, desde as universidades aos filmes e espetáculos, nos encaminha para esses valores associados ao “sucesso”: conquista e domínio.

Não é, pois, de admirar que a sociedade não priorize os assuntos sociais, a saúde, a compaixão, a solidariedade, o bem-estar mínimo. Não é, pois, de admirar que haja um choque entre aquilo que se ensina em casa e o que se passa lá fora, no “mundo real”. E que quando se “escolha” quem nos vai representar, representantes do “mundo real”, estes não se preocupem com valores que não sejam os do seu mundo.

Daí que as pessoas que escolhemos sejam aquelas que representam o tão ansiado “sucesso”.  

Daí Terence McKernna (1946-2000), o filósofo místico etnobotânico poeta ativista ensaísta cultista do conhecimento do desconhecido, ter notado que:

 

Somos conduzidos pelos menores de entre nós – pelos menos inteligentes, pelos menos nobres, pelos menos visionários. Somo conduzidos pelos menores de entre nós e nós não ripostamos contra os valores desumanizantes que nos são impingidos como valores de referência.” (2)

 

 

 

Relembro a “Brevíssima Síntese da História Contemporânea” de Galeano:

 

“Há já uns séculos que os súbditos se disfarçaram de cidadãos e que as monarquias se preferem chamar repúblicas.

As ditaduras locais, que se dizem democracias, abrem as portas à entrada avassaladora do mercado universal. Neste mundo, reino dos livres, somos todos um só. Mas somos um ou somos nenhum? Compradores ou comprados? Vendedores ou vendidos? Espiões ou espiados?

Vivemos presos entre garras invisíveis, atraiçoados pelas máquinas que simulam obediência e mentem, com cibernética impunidade, ao serviço dos seus patrões.

As máquinas mandam nas casas, nas fábricas, nos escritórios, nos seus escritórios, nas plantações agrícolas, nas minas e nas ruas das cidades, onde nós peões somos incómodos que perturbam o trânsito. E as máquinas mandam também nas guerras, onde matam tanto ou mais que os guerreiros fardados.”

(Consultar blog de 15 de novembro de 2017, “Dos indignos e dos indignados, segundo Galeano” https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/137-dos-indignos-e-dos-indignados-36830).

 

 

  1. https://www.rt.com/op-ed/502825-china-communism-covid-follow/.
  2. Numa conferência subordinada ao título, “A Cultura não é o nosso amigo”, McKernna vai dizer:

O que é a civilização, é 6 biliões de pessoas tentando fazerem-se felizes empoleirando-se nos ombros umas das outras e esmurrando-se umas às outras nos dentes. Não é uma situação agradável.

E, contudo, podemos recostar-nos e olharmos para este planeta e ver que temos o dinheiro, o poder, o entendimento médico, o conhecimento científico, o amor e a comunidade capazes para criarmos um paraíso humano. Mas somos conduzidos pelos menores de entre nós – pelos menos inteligentes, pelos menos nobres, pelos menos visionários. Somo conduzidos pelos menores de entre nós e nós não ripostamos contra os valores desumanizantes que nos são impingidos como valores de referência.

Eis a questão: a cultura não é nossa amiga. A cultura é para a conveniência de outras pessoas e para a conveniência de várias instituições, igrejas, empresas, esquemas de coleta de impostos, isto é o que temos. Não é nossa amiga. Ela insulta-nos. Ela torna-nos impotentes. Usa-nos e abusa-nos. Nenhum de nós é bem tratado pela cultura.”

 

 

 

 

(288) O “verão vermelho” de 1919

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

A “conquista do Oeste” fez com que a população da Califórnia declinasse em mais de 80% entre 1846 e 1873, onde aconteceram mais de 16.000 assassinatos, 370 massacres e linchamentos indiscriminados de latinos.

 

Os grupos de vigilantes armados não se imaginavam como sendo antidemocráticos. Aliás, julgavam até que estavam a melhorar a democracia recém-instalada.

 

Ao passo que nos países da Europa só o estado possuía o monopólio do uso legítimo da força física, nos EUA, pelo menos durante os primeiros 150 anos, o estado apenas aspirava a possuir tal monopólio.

 

Bring Back The Death Penalty, Bring Back Our Police! Donald Trump, 1989.

 

 

 

 

Verão vermelho” foi o termo cunhado pelo escritor James Weldon Johnson (1871-1938) para descrever o período transcorrido entre os meses de abril e outubro de 1919, durante o qual se abateu enorme violência contra os negros americanos. “Vermelho” pelo sangue dos negros que foi derramado nesses meses.

Na realidade, essa enorme violência começara já em julho de 1917 em St. Louis, com o massacre público de negros levado a efeito com toda a impunidade por vigilantes brancos armados, seguido do incêndio de casas e assassinato de famílias que tentavam escapar às chamas, só terminando em 1923, com a destruição da cidade predominantemente negra de Rosewood, na Florida.

Ao longo desses sete anos, vigilantes brancos assassinaram milhares de negros em 26 cidades, incluindo Chicago, Houston e Washington. Em 1921, cidadãos brancos de Tulsa destruíram a comunidade negra mais rica da América, a chamada “Wall Street Negra”, incendiando mais de mil casas, igrejas, escolas e hospitais.

 

Durante esses períodos de violência, os grupos de vigilantes cooperavam muitas vezes com as autoridades. Outras vezes ignoravam-nas, invadindo cadeias, deitando paredes abaixo para retirarem negros que estavam presos, para em seguida os matarem, alguns de maneiras horrorosas.

O aparecimento destes grupos de vigilantes armados que acreditavam que a lei não estava a proteger os seus interesses, e por isso repetidamente se apropriavam da lei, tomando-a nas suas próprias mãos em nome da supremacia branca, é um facto inquestionável e verificável a quando da deslocação e massacre dos índios nativos americanos, a quando dos horrores infligidos pelos donos dos escravos aos negros, das ondas de linchamentos que se seguiram à Reconstrução, do derramamento de sangue do Verão Vermelho por volta da Primeira Guerra, dos assassinatos conduzidos pela Ku Klux Klan e outras organizações extremistas, etc..

 

A América aparece, assim, desde o início como um lugar de violência e de racismo institucional: o governo dos EUA e os seus exércitos constituíram sempre a força que esteve na base da perseguição e desalojamento dos índios americanos; a escravatura foi apenas considerada ilegal em 1865; desde cedo se assistiu à cooperação  das forças policiais com a Ku Klux Klan; ainda hoje a polícia continua a matar um número desproporcionado de negros americanos (1).

Sobre essa cooperação entre as forças extremistas e as forças policiais, será interessante ver-se a série da HBO, Watchmen, sobre a preparação e massacre de Tulsa, em 1921 (2), bem como alguns recentes documentários sobre as matanças durante o Verão Vermelho, em Elaine, Arkansas (3) e Knoxville, Tennessee (4).

Embora esses grupos de vigilantes não fossem os únicos responsáveis por esses rimes racistas, eles cooperaram sempre avidamente com as instituições do estado em todas as ações racistas. E estavam prontos por si próprios para imporem a supremacia branca, sempre que as forças policiais tratavam as pessoas com igualdade perante a lei.

 

O professor da CUNY (City University of New York), Michael Pfeifer, no seu livro The Roots of Rough Justice, vai tentar explicar o aparecimento da violência destes movimentos libertários de vigilantes que pretendiam impor as suas próprias leis, procurando os seus fundamentos na Revolução Americana e na subsequente falta de um estado centralizado forte.

Estes grupos de vigilantes não se imaginavam como sendo antidemocráticos. Aliás, eles julgavam que estavam a melhorar a democracia recém-instalada, inclusivamente praticando, em alguns casos, procedimentos democráticos como a adoção de leis gerais e a eleição dos seus chefes, com tribunais onde procediam a julgamentos votando as punições a serem atribuídas: a forca ou serem queimados vivos. Ou seja, constituíam como que um estado paralelo com exército paralelo.

 

Ao passo que nos países da Europa apenas o estado possuía o monopólio do uso legítimo da força física, nos EUA, pelo menos durante os primeiros 150 anos, o estado apenas aspirava a possuir tal monopólio. Prevalecia a justiça de fronteira dos grupos de vigilantes.

Antes e pouco depois da Revolução Americana, assistimos, inclusivamente, até à condenação de brancos por esses grupos, mas aos poucos o número de vítimas negras foi aumentando. Os donos de escravos, as patrulhas de escravos e grupos de vigilantes formados arbitrariamente, dispensavam qualquer laivo de justiça.

Mesmo após a abolição da escravatura, essa “tradição cultural”, tal como a do “Juiz Lynch”, foi-se mantendo: a matança dos índios nativos pelo Exército e a violência extrajudicial dos fazendeiros, fez com que a população da Califórnia declinasse em mais de 80% entre 1846 e 1873, onde aconteceram mais de 16.000 assassinatos e 370 massacres (5). Esta “conquista do Oeste” conta ainda também com o linchamento indiscriminado de latinos.

 

Outro dos fatores diferenciadores relativamente aos países da Europa, foi a da utilização indiscriminada do uso de armas por parte destes grupos de vigilantes, que teve que ver, em parte, com a Guerra Civil: a enorme produção de armas de fogo fez baixar o seu preço, pelo que cada vez maior número de cidadãos as possuía e utilizava sem qualquer restrição.

Há incidentes inacreditáveis, como o acontecido em Nova Iorque em 1863, a quando da Semana do Alistamento (o Governo necessitava de mais soldados para a Guerra Civil), em que grupos armados desencadearam ações violentas contra os negros, contra o Partido Republicano e contra os muito ricos, com receio de virem a ficar inundados de negros e sem trabalho (6), e como aquele acontecido em Nova Orleães em 1866, quando o partido republicano entendeu estender alguns direitos cívicos a negros (7).

Nessa época, várias foram as leis publicadas sobre o controle de armas, só que todas elas eram dirigidas à limitação do seu uso a minorias raciais (negros, índios, latinos) (8), e facilitando, por outro lado, o seu uso por milícias organizadas.

 

Aliás, ainda hoje, estudiosos da Constituição, justificam que o direito ao porte de arma garantido na Segunda Emenda, tem aplicação para o caso de milícias do estado, e não, segundo defende a NRA (National Rifle Association) para que qualquer indivíduo tenha o direito de usar armas.

Por extensão, esta interpretação da NRA acolhe a “doutrina do castelo” (o direito de usar força armada para defender a sua própria casa) e as leis sobre o direito ao uso da força para defesa própria.

Não é de estranhar que todos os grupos extremistas se julguem hoje em dia como estando ao abrigo da segunda Emenda com o direito constitucional a usarem armas quando muito bem entenderem, até contra o governo federal.

Não é também de admirar que possa vir a ser o próprio governo federal um seu admirador e suporte. Já se viu antes.

 

 

O Caso de “Os Cinco do Central Park”

 

No Central Park de Nova Iorque, a 20 de abril de 1989, foi encontrada uma mulher branca quase morta, após ter sido espancada e violada. A polícia, ao fim de alguns dias de interrogatório agressivo, acusou Antron McCray, Kevin Richardson, Raymond Santana, Korey Wise e Yusef Salaam, por terem cometido o crime. Os cinco cumpriram sentenças completas de 6 a 13 anos, antes de outro homem, um violador em série, Matias Reyes, ter vindo mais tarde a confessar o crime, o que veio a ser comprovado por provas de DNA (9).

Nesse ano de 1989, Donald Trump publicou anúncios de página inteira (Bring Back The Death Penalty, Bring Back our Police!) no New York Times e em três outros jornais locais, em que pedia para que a Cidade de Nova Iorque reinstalasse a pena de morte face à brutal violação levada a cabo pelo gang. Segundo ele, a cidade era “governada pela lei das ruas” e “assaltantes e assassinos … deviam ser forçados a sofrer e, quando matassem, deviam pagar e serem executados pelos seus crimes.” (10) e (11)

 

 

 

 

 

1. https://www.washingtonpost.com/gdpr-consent/?next_url=https%3a%2f%2fwww.washingtonpost.com%2fgraphics%2finvestigations%2fpolice-shootings-database%2f. 2. https://americanhistory.si.edu/blog/watchmen.

3. https://www.amazon.com/Elaine-Massacre-Red-Summer-1919/dp/B0817JQHDB.

4. https://eu.knoxnews.com/story/news/local/2019/08/30/red-summer-documentary-knoxville-race-riot-1919-airs-saturday-maurice-mays-bertie-lindsey/2164189001/.

5. https://www.amazon.com/American-Genocide-California-Catastrophe-1846-1873-ebook/dp/B01EUYN5IU.

6. http://historydetectives.nyhistory.org/2018/07/new-york-city-draft-riots/.

7. https://www.wwno.org/post/absolute-massacre-1866-riot-mechanics-institute.

8. https://newrepublic.com/article/112322/gun-control-racist.

9. https://www.topic.com/automatic-for-the-people.

10. https://eu.usatoday.com/story/news/politics/2019/06/19/what-trump-has-said-central-park-five/1501321001/.

11. https://www.nytimes.com/2019/06/18/nyregion/central-park-five-trump.html.

 

 

(287) “A raça diz-nos sempre quem somos”

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

A desumanização como a tendência para ver os outros como sendo decididamente menos humanos.

 

Os comportamentos de desumanização não se encontram só em extremistas, mas também em grande parte dos que têm posições políticas moderadas.

 

O nazismo via-se como sendo a revolução total que criaria uma nova imagem do que era ser humano, um novo conceito de humanidade.

 

Só os humanos, mas nem todos os humanos, possuem uma “raça-alma” que lhes permita desenvolver uma identidade coletiva, Alfred Rosenberg.

 

A raça diz-nos sempre quem somos, Alfred Rosenberg.

 

 

 

 

 

Estávamos em 1938 quando foi publicado na Alemanha o pequeno livro infantil com gravuras coloridas, Der Giftpilz, de Julius Streicher. A tradução inglesa do livro chamou-se The Poisonous Mushroom (1), e encontra-se à venda desde maio de 2020 na Wook, Portugal, editado pela Walden Group. Este era o livro recomendado pelo regime nazi que as mães deveriam ler aos seus filhos, e também utilizado nas escolas primárias, para lhes ensinar o que era um judeu.

Segue-se a tradução do primeiro capítulo, intitulado “Cogumelos venenosos”:

 

Tal como muitas vezes se torna difícil distinguir um cogumelo venenoso de um cogumelo comestível, também, de igual modo, se torna muito difícil reconhecer-se um judeu como sendo um vigarista e um criminoso.

Uma mãe e o seu filho estavam a apanhar cogumelos numa floresta da Alemanha. O miúdo encontrou alguns cogumelos venenosos. A mãe explicou-lhe que havia cogumelos bons e cogumelos venenosos e, durante o caminho para casa, disse-lhe:

Olha, Franz, as pessoas neste mundo são como os cogumelos da floresta. Há bons cogumelos e boas pessoas. Há cogumelos venenosos, maus, assim como há pessoas más. E temos de ter muito cuidado e estar precavidos contra as pessoas más da mesma forma como fazemos com os cogumelos venenosos. Percebes?

Sim, mãe, replicou Franz. Percebo que se conviver com pessoas más posso arranjar sarilhos, tal como acontece se comer cogumelos venenosos. Posso até morrer!

E a mãe continuou: E tu sabes quem são essas más pessoas, esses cogumelos venenosos da humanidade?

Franz bateu com orgulho no seu peito: Claro que sei, mãe! São os judeus! O nosso professor já nos disse isso várias vezes.

A mãe louvou o filho pela sua inteligência, e passou a explicar-lhe as várias espécies existentes de judeus venenosos: os vendedores ambulantes judeus, os negociantes de carne judeus, os talhantes judeus, os médicos judeus, os judeus batizados, e por aí fora. Por mais que eles se disfarcem, ou por mais amigos que pareçam ou tentem ser, afirmando mil vezes as suas boas intenções, não devemos acreditar. Judeus são o que eles são, e judeus permanecerão. Para o nosso povo eles são veneno.

Como os cogumelos venenosos! Diz Franz.

Sim, meu filho! Tal como apenas um cogumelo pode matar uma família inteira, também um só judeu pode destruir uma vila inteira, uma cidade, todo o nosso povo.

Franz compreendeu.

Diz-me, mãe, todos os que não são judeus sabem que os judeus são tão perigosos quanto um cogumelo venenoso?

A mãe abana a cabeça.

Infelizmente não, meu filho. Há milhões de não judeus que não conhecem ainda os judeus. Por isso temos de os esclarecer e avisá-los contra os judeus. Os nossos jovens têm de ser alertados. Os nossos rapazes e raparigas têm de aprender a reconhecer os judeus. Têm de aprender que os judeus são os cogumelos mais venenosos que existem. Tal como os cogumelos venenosos crescem em qualquer parte, também os judeus aparecem em qualquer país. Tal como os cogumelos venenosos originam as mais terríveis calamidades, os judeus são também a causa da miséria e aflição, das doenças e morte.”

 

Seguem-se vários capítulos com títulos elucidativos: Como identificar um judeu, Como é que os judeus chegaram à Alemanha, Como é que os judeus se deixaram batizar, Como os nossos camponeses foram corridos das suas terras,  Como é que os judeus aldrabam nas trocas comerciais, A visita de Inge a um médico judeu, Como os judeus tratam os seus empregados domésticos, Como os judeus torturam os animais, O que disse Cristo sobre os judeus, Há judeus decentes?, Sem se resolver a questão dos judeus não há salvação para a humanidade.

 

 

A definição de desumanização como a tendência para ver os outros como sendo decididamente menos humanos, é abertamente assumida neste pequeno livro. Só com a convicção de que homens, mulheres e crianças judias não faziam parte da humanidade, não eram seres humanos, é que se pode entender como é que os nazis os enviaram para os campos de concentração e extermínio.

Embora o caso nazi seja aquele que mais ressalta, este problema da desumanização é mais vasto, vem de longa data e continua a existir nas nossas sociedades. Basta referir a opressão dos índios e dos escravos negros nas Américas, dos asiáticos nos EUA durante a construção das vias férreas e o seu “internamento” compulsivo na Segunda Guerra, dos africanos durante o colonialismo, dos vários genocídios cometidos, do tratamento dado aos imigrantes e refugiados, dos preconceitos gerais para com os ciganos, dos preconceitos dos nórdicos para com os povos do Sul da Europa (aplaudidos por algumas gentes dos povos do Sul da Europa), dos citadinos para com os camponeses, etc.

Ou seja, os comportamentos de desumanização não se encontram só em extremistas, mas até em grande parte dos que têm posições políticas moderadas.

 

Estudos de psicologia (2) mostram que quando somos chamados a elencar diferentes qualidades de grupos, há uma tendência para, mesmo que subtilmente, se negarem a grupos exteriores a posse de qualidades humanas como civilidade, racionalidade e refinamento. E quanto à perceção de emoções que acontecem quando as pessoas interagem com outros grupos sociais (3), há a tendência para ver nos grupos exteriores, manifestações menores de emoções humanas complexas, como as de orgulho, admiração e culpa.

 

O caso da ideologia nazi tem ainda outra componente, porquanto, para além da desumanização para com judeus e outros grupos, assenta naquilo que entendia ser o privilégio de se ser alemão.

O nazismo via-se como sendo a revolução total que criaria uma nova imagem do que era ser humano, um novo conceito de humanidade.

 

Uma das formas para alcançar essa finalidade, era através de uma enorme e contínua campanha de propaganda diária conducente à desumanização massiva de outros grupos de pessoas. Essa desumanização, que implicava a desconsideração do outro, passava pela assunção do conceito de raça, de raça superior e de raças inferiores.

O corpo teórico avulso que pretendia sustentar essas intenções, ia desde a explicação antropológica e biológica do conceito de raça, até à sua explicação metafísica.

No primeiro caso, sobressaía Richard Walther Darré, teórico do “Blut und Boden” (Sangue e solo), com as suas tentativas de ligar a aparência exterior das pessoas a caraterísticas comportamentais (uma recuperação da antiga frenologia), adepto da restauração da pureza do sangue nórdico através da eugenia.

No segundo caso, temos Alfred Rosenberg, e a sua obra de 1930, Der Mythus des 20. Jahrhunderts (O Mito do Século XX). Segundo ele, foram os conceitos universais de humanidade e os valores universais, que conduziram as pessoas a não conseguirem entender a realidade. Por isso os seus inimigos são o judaísmo, o catolicismo, o liberalismo, o marxismo, o humanismo, o pacifismo e o materialismo.

Os universalistas, os que propõem valores universais, sugerem que há apenas uma certa maneira de viver, e com isso ameaçam a identidade de todas as outras pessoas (daí a crítica à cultura moderna). As pessoas, ao adaptarem-se à cultura ocidental, perdem a sua identidade particular. São as ideias da “identidade em perigo” e a invocação do “Lembrem-se quem são”, que vão servir de propaganda à ideologia nazi para a solução do problema da identidade, condensada na frase-conceito:

 

A raça diz-nos sempre quem somos”.

 

Seria este acordar para a raça que nos iria permitir alcançar a “perfeição pelo autodesenvolvimento”. O mito do sangue permite alcançar a consciência de si próprio, criando um “novo tipo humano”, um “tipo racial”:

 

Presente e passado começam a serem vistos segundo uma nova luz, que nos ilumina, comprometendo-nos para com uma nova missão para o futuro. As ações da história e o futuro, não mais significam lutas de classe ou guerra entre os dogmas da Igreja, sendo antes o conflito entre sangue e sangue, raça e raça, povo e povo. E isto significa combate entre valores espirituais”.

 

A imagem nazi da humanidade é, pois, caracterizada pelos conceitos de “raça” e “luta”, sendo o conceito “raça” o ponto de apoio da antropologia política do nazismo. Mas não a raça entendida apenas sob o ponto de vista biológico.

Para Rosenberg, a raça era aquilo que essencialmente distinguia os humanos do mundo animal, em que raça significava a “raça-alma” que constituía a profunda unidade espiritual de grupos humanos, e que, portanto, não podia ser encontrada na natureza.

O mundo humano era moldado pela atividade da “raça-alma” que ligava natureza e espírito, biologia e história. Daí a “história racial” ser simultaneamente história natural e mística espiritual. Só os humanos, mas nem todos os humanos, possuem uma “raça-alma” que lhes permite desenvolver uma identidade coletiva.

Ou seja, a caraterística definitória da essência da humanidade era a capacidade para desenvolver uma identidade coletiva que era restrita apenas a certos grupos de pessoas. Pelo que as caraterísticas naturais não eram suficientes para se ser considerado completamente humano: faltava-lhes a dimensão metafísica.

É por esta “metafísica de raça” que a cultura é vista como a manifestação dessa propriedade essencial (“raça-alma”) que separa os humanos dos animais e dos meros humanos animais. Humanos são apenas aqueles que têm um sentimento de comunidade que transcende o instinto de auto preservação.

Segundo Hitler, existiam raças que não eram capazes de serem seres humanos no sentido mais completo. Estavam neste caso os judeus, porque não possuíam esta “disposição idealística”, sendo apenas movidos por instintos de auto preservação, continuando basicamente a serem animais.

E Rosenberg completa:

 

O relacionamento dos judeus com o mundo é unicamente feito pelo instinto, sendo sempre guiados pelo egoísmo, e interesses materiais superficiais e libidinosos […] não passam de animais humanos”.

 

Exatamente por isso os judeus nunca se fixam num lugar, andam sempre a vaguear de um sítio para outro, sem pátria, e sempre dependentes de sociedades hospedeiras que chupam até ao fim. “Parasitas”. São uma ameaça permanente para as comunidades particulares de “raça nórdica”, para todas as formas culturais de vida humana.

Constituem, pois, uma ameaça à humanidade, pelo que vamos ter “de encarar uma decisão final sobre o problema”.

Eis o que Rosenberg disse a 18 de novembro de 1941 numa conferência de imprensa:

 

São cerca de seis milhões de judeus que ainda se encontram a viver no Leste, e esta questão só pode ser resolvida com a exterminação biológica de toda a judiaria na Europa. A Questão Judia só estará resolvida para a Alemanha quando o último judeu tiver abandonado o território alemão, e para a Europa quando nem um só judeu permanecer no continente europeu até aos Urais […] E para se alcançar isto é necessário mandá-los para além dos Urais ou então teremos de os erradicar”.

 

Foi assim que os nazis justificaram a violência contra os judeus como autodefesa. Estavam a defender o futuro da humanidade do ataque dos sub-humanos.

 

Acrescente-se uma pequena reminiscência da previsão do futuro perdido no passado, de um discurso feito em 1940 por Richard Darré, transcrito a 9 de maio de 1940 na Life magazine:

 

Com a guerra relâmpago … antes do outono … seremos os donos absolutos de dois continentes … será criada uma nova aristocracia de senhores e donos alemães [com] escravos agregados, esses escravos serão sua propriedade e serão constituídos por nacionais não-alemães, sem direito a terras … estamos atualmente a pensar numa forma moderna da escravatura medieval que deveremos introduzir porque necessitamos urgentemente de acabar o nosso grande desígnio. A estes escravos não lhes serão negados os benefícios de uma literacia; a educação superior ficará no futuro apenas reservada para a população alemã da Europa …”

 

 

Há quem defenda que a desumanização não conduz necessariamente à exterminação de pessoas, apresentando o argumento que se pode conviver com não humanos como os animais de estimação e tratá-los bem (o tal problema dos escravos bem tratados). A realidade é que não há nenhuma exterminação de pessoas sem elas terem primeiro sido desumanizadas.

 

Aviso ainda aos que se acreditam politicamente moderados: devido ao atual conceito de “cidadania”, oriundo do Iluminismo e da Revolução Francesa, ter um alcance e aplicação universalista, talvez se perceba agora melhor a verdadeira razão encoberta que se encontra por detrás da campanha para a sua eliminação das escolas.

 

 

 

1.https://www.mtholyoke.edu/courses/rschwart/hist151/Nazi/poisonousmushroom.pdf.

  1. https://journals.sagepub.com/doi/10.1207/s15327957pspr1003_4.
  2. https://psycnet.apa.org/record/2008-07784-026.

 

 

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