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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(567) O boomerang imperial

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Os governos que desenvolvam e utilizem técnicas repressivas para controlar os territórios coloniais acabam eventualmente por aplicar domesticamente essas mesmas técnicas contra os seus próprios cidadãos.

 

Os Estados autoritários são construídos gradualmente. Nenhuma ditadura anuncia o seu plano de extinção das liberdades cívicas.

 

Durante o interregno entre os últimos suspiros de uma democracia e a ascensão de uma ditadura, a nação é manipulada.

 

 

 

 

Alexander Soljenítsin, no Arquipélago Gulag, observa que a consolidação da tirania soviética "prolongou-se por muitos anos porque era de importância primordial que fosse furtiva e despercebida". Chamou ao processo "um grandioso jogo silencioso de paciência, cujas regras eram totalmente incompreensíveis para os seus contemporâneos e cujos contornos só agora podemos apreciar ".

Já o historiador Robert Gellately, no seu livro Apoiando Hitler: Consentimento e Coerção na Alemanha Nazi, chama a atenção para o facto da utilização do terror de Estado na Alemanha nazi ter sido eficaz, não por causa da vigilância estatal omnipresente, mas por ter  fomentado uma “cultura de denúncia”.

 

Os Estados autoritários são construídos gradualmente. Nenhuma ditadura anuncia o seu plano de extinção das liberdades cívicas. Ela presta homenagem à liberdade e à justiça da boca para fora, ao mesmo tempo que desmantela as instituições e as leis que tornam a liberdade e a justiça possíveis. Os opositores do regime, incluindo os que estão dentro do próprio regime, fazem tentativas esporádicas de resistência. Erguem bloqueios temporários, mas são logo eliminados.

 

O medo fabricado gera insegurança. Faz com que uma população — muitas vezes inconscientemente — se conforme exterior e interiormente. Condiciona os cidadãos a relacionarem-se com aqueles que os rodeiam com suspeita e desconfiança. Destrói a solidariedade vital para a organização, a comunidade e a dissidência.

 

 

Premonitoriamente, Aimé Césaire, o dramaturgo e político martinicano, no Discurso sobre o Colonialismo (1950), escreveu que as ferramentas brutais do imperialismo e do colonialismo acabam sempre por regressar à pátria;

 

 

“E então, num belo dia, a burguesia é despertada por um terrível efeito boomerang: a Gestapo está a postos, as prisões enchem-se, os torturadores à volta dos cavaletes inventam, refinam, discutem.

As pessoas surpreendem-se, indignam-se. Dizem: "Que estranho! Mas não interessa — é nazismo, vai passar!" E esperam, e têm esperança; e escondem de si a verdade: que é a barbárie, a suprema barbárie, a barbárie culminante que resume todas as barbaridades do dia-a-dia; que é nazismo, sim, mas que antes de serem suas vítimas, foram seus cúmplices; Que toleraram o nazismo antes de ele lhes ser infligido, que o absolveram, fecharam-lhe os olhos, legitimaram-no, porque, até então, só tinha sido aplicado a povos não europeus; que cultivaram este nazismo, que são responsáveis ​​por ele e que, antes de engolir toda a estrutura da civilização ocidental cristã nas suas águas avermelhadas, escorre, verte e goteja por todas as fendas”.

 

É o que se conhece como “efeito boomerang imperial”, tese segundo a qual “os governos que desenvolvam e utilizem técnicas repressivas para controlar os territórios coloniais acabam eventualmente por aplicar domesticamente essas mesmas técnicas contra os seus próprios cidadãos.

 

É assim que Césaire vai explicar as origens do fascismo na Europa. Para ele, os métodos empregues por Adolf Hitler e pelo Partido Nazi na Alemanha não eram historicamente únicos quando vistos de uma perspetiva global. Em vez disso, a violência exibida era uma extensão da lógica do colonialismo europeu existente, que resultara na morte de milhões de pessoas no Sul Global durante séculos.

O Holocausto e as atrocidades nazis foram apenas categorizados como sendo "excecionais" porque foram aplicadas a europeus dentro da Europa, e não a populações colonizadas em África, na Ásia ou nas Américas. Foram as mesmas técnicas de vigilância em massa, trabalho forçado e genocídio, anteriormente aperfeiçoadas nos territórios coloniais, que regressaram à Europa.

Na atualidade, começámos por ver a utilização dos drones em territórios estrangeiros para vigilância e destruição de alvos humanos com a invocação de assim se evitarem mortes dos “nossos” militares; a blindagem e o rearmamento das forças policiais porque assim se poupava dinheiro o utilizarem-se armamentos pertencentes aos militares, mas que já não eram usados; etc.; e agora acabámos por utilizar drones para nos vigiar (por enquanto) dentro dos nossos próprios países, a polícia militarizada em ações de policiamento comuns dentro dos nossos países, e o emprego de forças militares que deveriam ser apenas usadas contra inimigos no exterior contra os seus próprios cidadãos.

 

Durante o interregno entre os últimos suspiros de uma democracia e a ascensão de uma ditadura, a nação é manipulada. Dizem-lhe que o Estado de Direito é respeitado. Dizem-lhe que o regime democrático é inviolável. Estas mentiras apaziguam aqueles que são forçados à própria escravatura.

 

“A maioria permanece em silêncio e ousa ter esperança”, escreve Soljenítsin. “Já que não são culpados, como podem prendê-los? É um erro!”

(566) Declínio e Queda

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

Estamos a cometer os mesmos erros autodestrutivos da classe política britânica que supervisionou o declínio do Império Britânico e orquestrou a loucura suicida da Primeira Guerra Mundial.

 

Culpamos os pobres pelo seu próprio empobrecimento. Acreditamos na superioridade da raça branca sobre as outras raças, sufocando a miríade de vozes, culturas e experiências que criam uma sociedade dinâmica.

 

Procuramos combater as injustiças, juntamente com a desigualdade económica e social, com hipermasculinidade, militarismo e força, o que acelera a decadência interna e nos impele para uma guerra global desastrosa.

 

 

 

 

A História publicada, escrita, relatada, filmada, não deixa por isso de ser sempre a história por nós observada, imbuída de todos os nossos conceitos e preconceitos, sempre sujeitos aos tempos e modas, importantes para a formatação dos quadros que julgamos imprescindíveis para o desenvolvimento de uma nossa sanidade que dizemos ser a normal e que queremos normalizadora.

Um desses conceitos é que a história se repete (aquele apelativo conceito de “ciclo”), só que, para que não fique tudo na mesma, há que pô-la em patamares, em crescendo ou decrescendo, mas mesmo assim concorrendo sempre para um fim único dependendo da crença. Fundamental acreditar.

 

No caso aqui exposto, Chris Hedges, num seu artigo de 29 de dezembro de 2025, “Decline and Fall”, vai socorrer-se de acontecimentos dos fins do século XIX e princípios do XX, para daí tirar ensinamentos para a atualidade.

 

Eis o artigo:

 

No início do século XX, o Império Britânico, tal como o nosso, encontrava-se em declínio terminal. Sessenta por cento dos ingleses estavam fisicamente inaptos para o serviço militar, tal como 77% dos jovens americanos. O Partido Liberal, tal como o Partido Democrático, embora reconhecesse a necessidade de reformas, pouco fez para combater as desigualdades económicas e sociais que condenavam a classe trabalhadora a viver em habitações precárias, a respirar ar poluído, a ter-lhe negado saneamento básico e cuidados de saúde, e a ser forçada a trabalhar em empregos punitivos e mal remunerados.

 

Em resposta, o governo conservador formou uma Comissão Interdepartamental sobre a Deterioração Física para examinar a “deterioração de certas classes da população”, referindo-se, naturalmente, aos pobres das cidades. O relatório ficou conhecido como o relatório sobre “a degeneração da nossa raça”. As analogias foram rapidamente traçadas, com grande precisão, com a decadência e a degeneração do final do Império Romano.

 

Rudyard Kipling, que romantizou e mitificou o Império Britânico e as suas forças armadas, no seu poema de 1902, "Os Ilhéus", alertou os britânicos de que se tinham tornado complacentes e apáticos devido à arrogância, indolência e privilégio. Estavam impreparados para sustentar o Império. Desesperavam com a perda do espírito marcial dos "filhos da cidade protegida — inexperientes, impreparados, inadequados" e clamava pelo recrutamento obrigatório. Criticou duramente as forças armadas britânicas pela sua crescente dependência de mercenários e tropas coloniais, "os homens que sabiam disparar e cavalgar", tal como os mercenários e as milícias reforçavam cada vez mais as forças americanas no estrangeiro.

 

Kipling condenou o povo britânico pela sua preocupação com as "bugigangas" e os desportos para espectadores, incluindo "os tolos de flanela no críquete ou os imbecis enlameados nas balizas", atletas que, na sua opinião, deveriam estar a combater na guerra na África do Sul. Previu, na sucessão de desastres militares britânicos durante a Guerra dos Bóeres na África do Sul, que tinha terminado recentemente, a iminente perda da hegemonia global britânica, tal como as duas décadas de fracassos militares no Médio Oriente corroeram a hegemonia dos EUA.

 

A preocupação com o declínio físico, também interpretado como declínio moral, foi o que levou o Secretário da Guerra Pete Hegseth a criticar os "generais gordos" e a ordenar que as mulheres nas forças armadas atingissem os "mais altos padrões masculinos" de aptidão física. É o que está por detrás das suas "Tarefas de Ética Guerreira", planos para melhorar a aptidão física, os padrões de apresentação pessoal e a prontidão militar.

 

Vivemos num momento histórico assustadoramente semelhante. A Grã-Bretanha, em menos de 12 anos após o lamento de Kipling, mergulhou no suicídio coletivo da Primeira Guerra Mundial, um conflito que ceifou a vida a mais de um milhão de soldados britânicos e da Commonwealth e condenou o Império Britânico.

 

H.G. Wells, que antecipou a guerra de trincheiras, os tanques e as metralhadoras, foi um dos poucos a prever o rumo que a Grã-Bretanha iria tomar. Em 1908, escreveu "A Guerra no Ar". Nele, alertou que as guerras futuras não se limitariam a nações antagónicas, mas tornar-se-iam globais. Estas guerras, tal como ocorreu na invasão italiana da Etiópia em 1935, na Guerra Civil de Espanha e na Segunda Guerra Mundial, envolveriam o bombardeamento aéreo indiscriminado de civis. Previu ainda, em "O Mundo Libertado", o lançamento de bombas atómicas.

 

Quase um terço da população da Inglaterra Eduardina vivia em extrema pobreza. A causa, como observou Seebohm Rowntree no seu estudo  sobre os bairros de lata, não era, como alegavam os conservadores, o alcoolismo, a preguiça, a falta de iniciativa ou de responsabilidade dos pobres, mas antes o facto de "os salários pagos pela mão-de-obra não qualificada em York serem insuficientes para fornecer alimentação, abrigo e vestuário adequados para sustentar uma família de tamanho moderado num estado de mera necessidade física".

 

Os Estados Unidos têm uma das mais elevadas taxas de pobreza entre as nações industrializadas ocidentais, estimada por muitos economistas num valor muito superior ao índice oficial de 10,6%. Em termos reais, cerca de 41% dos americanos são pobres ou têm baixos rendimentos, e 67% vivem de salário em salário.

 

Os eugenistas britânicos do Laboratório Galton para a Eugenia Nacional — financiado por Sir Francis Galton, que cunhou o termo "eugenia" — defendiam a "eugenia positiva", o "aperfeiçoamento" da raça incentivando aqueles considerados superiores — sempre membros brancos das classes média e alta — a terem famílias numerosas. A "eugenia negativa" era defendida para limitar o número de filhos nascidos daqueles considerados "inaptos". Isto seria conseguido através da esterilização e da separação de géneros.

 

Winston Churchill, que foi secretário do Interior no governo liberal de H.H. Asquith em 1910-11, apoiou a esterilização forçada de pessoas com "deficiência mental", chamando-lhes "perigo nacional e racial" e "a fonte a partir da qual se alimenta a loucura".

 

A Casa Branca de Trump, liderada por Stephen Miller, está determinada a realizar eliminação semelhante na sociedade norte-americana. Aqueles que são dotados de características hereditárias "negativas" — geralmente baseadas na raça — são condenados como contaminantes humanos que um exército de agentes mascarados da Imigração e Alfândega está a aterrorizar, encarcerar e expurgar da sociedade.

 

Miller, em e-mails de 2019, elogia o romance de 1973 "O Acampamento dos Santos", escrito por Jean Raspail. A obra narra a história de uma flotilha de pessoas do sul da Ásia que invade a França e destrói a civilização ocidental. Os imigrantes, que a administração Trump agora persegue, são descritos como "fantasmas de cabelo encaracolado, pele morena e há muito desprezados" e "formigas fervilhantes que trabalham para o conforto do homem branco". As multidões sul-asiáticas são "pequenos mendigos grotescos das ruas de Calcutá", liderados por um "gigantesco hindu" que come fezes, conhecido como "o comedor de bosta".

 

Esta é, na sua forma mais vil, a tese da teoria da "Grande Substituição", a crença de que as raças brancas na Europa e na América do Norte estão a ser "substituídas" por "raças inferiores da Terra".

 

Donald Trump gaba-se de que será o "presidente da fertilização". Os casais americanos — ou seja, os casais brancos — vão receber incentivos da administração Trump para terem mais filhos, visando combater a queda das taxas de natalidade. Na linguagem da direita, aqueles que promovem esta versão atualizada da “eugenia positiva” são conhecidos como “pró-natalistas”. A administração Trump vai também reduzir o número de refugiados admitidos nos Estados Unidos no próximo ano para o nível simbólico dos 7.500, sendo a maioria destas vagas preenchidas por sul-africanos brancos.

 

Os aliados de Trump nas grandes empresas tecnológicas estão ocupados a criar a infraestrutura de fertilidade para conceber crianças com características hereditárias “positivas”. Sam Altman, que conseguiu um contrato militar de um ano no valor de 200 milhões de dólares da administração Trump, investiu em tecnologia que permite aos pais editar geneticamente os seus filhos antes da conceção para produzir “bebés à medida”.

 

Peter Thiel, cofundador da Palantir, que está a facilitar os esforços de deportação em massa da administração Trump, apoiou uma empresa de rastreio de embriões chamada Orchid Health. A Orchid promete ajudar os pais a conceberem crianças “saudáveis” através de testes embrionários e tecnologia de seleção. Elon Musk, um fervoroso defensor da natalidade e adepto da teoria da Grande Substituição, é alegadamente cliente da startup. O objetivo é capacitar os pais para selecionarem embriões com base no QI e escolherem "a inteligência dos seus filhos antes do nascimento", como refere o Wall Street Journal.

 

Estamos a cometer os mesmos erros autodestrutivos da classe política britânica que supervisionou o declínio do Império Britânico e orquestrou a loucura suicida da Primeira Guerra Mundial. Culpamos os pobres pelo seu próprio empobrecimento. Acreditamos na superioridade da raça branca sobre as outras raças, sufocando a miríade de vozes, culturas e experiências que criam uma sociedade dinâmica. Procuramos combater as injustiças, juntamente com a desigualdade económica e social, com hipermasculinidade, militarismo e força, o que acelera a decadência interna e nos impele para uma guerra global desastrosa, talvez, no nosso caso, com a China.

 

Wells troçava da idiotice de uma classe dominante arrogante, incapaz de analisar ou lidar com os problemas sociais que ela própria tinha criado. Criticou duramente a elite política britânica pela sua ignorância e incompetência. Tinham vulgarizado a democracia, escreveu, com o seu racismo, hipernacionalismo e discurso público simplista e repleto de clichés, alimentado por uma imprensa sensacionalista e tabloide.

 

Quando surgisse uma crise, alertou Wells, estes mandarins, bem como os nossos, incendiariam a pira funerária do império.

 

 

Recomendação minha: a leitura de uma preciosidade de 489 páginas, dada aqui na sua versão integral (pdf), da obra de B. Seebohm Rowtree publicada em 1902, Poverty, A Study Of Town Life.

 

 

(565) Uma canção é mais que uma história

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

Uma canção enche o presente enquanto espera alcançar um ouvido atento em algum futuro distante, John Berger.

 

Don’t wait too long,” cantava Frank Sinatra há sessenta anos, quando lutava contra o envelhecimento e a ideia de estar no fim da linha, de que o seu fim estava próximo, Edward Curtin.

 

Serão as canções a expressão sonora da natureza dual dos nossos anseios de Ano Novo por novidades no meio do Velho?

 

 

 

 

Uma canção, ao contrário das formas que toma, não está fixada no tempo e no espaço. Uma canção narra uma experiência passada. Enquanto é cantada, enche o presente. As histórias fazem o mesmo. Mas as canções têm uma outra dimensão, que lhes é exclusivamente própria. Uma canção enche o presente enquanto espera alcançar um ouvido atento em algum futuro distante. Ela inclina-se para a frente, cada vez para mais longe. Sem a persistência dessa esperança, as canções não existiriam. As canções inclinam-se para a frente.”

 

É a partir desta citação do saudoso John Berger, que Edward Curtin vai escrever um nostálgico artigo (“Listening to Frank Sinatra on New Year’s Eve”) que aqui reproduzo parcialmente:

 

O Ano Novo traz ao de cima o que todos sabemos: os anos vêm e vão, transformam-se, vamos ficando mais velhos; procuramos, em cada fase da vida, transformar-nos em novas pessoas – libertar-nos de alguma forma de algo, de algum fardo solitário inexprimível, daquela sensação de culpa de que o tempo nos devorará antes de nos podermos redimir. O desejo de transformação é universal. Assim como a consciência, muitas vezes ignorada, de que, tal como os anos que passam, também nós “passaremos” – para usar este eufemismo evasivo. Será que mais ninguém fracassa ou morre? Ou será que isto só acontece aos pobres e aos que não vemos, às vítimas desaparecidas da injustiça e da violência opressivas? Será que os conquistadores passam e os outros não?

 

Don’t wait too long,” (Não esperes muito tempo) cantava Frank Sinatra há sessenta anos, quando lutava contra o envelhecimento e a ideia de estar no fim da linha, de que o seu fim estava próximo. “Porque é que os momentos têm de passar com tanta pressa? Não esperes muito tempo” (Why must the moments go by with such haste? Don’t wait too long).

 

[…] Diria que Frank Sinatra, e em particular o seu magnífico álbum "September of My Years", é audição obrigatória para todos os interessados ​​em mudanças reais para o Ano Novo. Por entre a festa e o fogo de artifício, o ano velho e o novo, as resoluções e hesitações, o olhar para trás e para a frente – eis Sinatra a cantar sobre a essência mais profunda da passagem de ano: a solidão humana. E como, apesar dela, amar e conectar-se. Como abraçar a aparente contradição. Como mudar.

 

Nunca conheci Sinatra pessoalmente, mas ele foi o meu mentor neste processo, um processo que não tem fim. É um trabalho transformador. Efémero, porém, mais real do que a própria realidade. Especialmente numa época em que os meios digitais e a inteligência artificial baralharam a perceção da realidade do público.

 

Quando eu era jovem, ele ensinou-me a ser velho. Agora que sou velho, ensinou-me a ser jovem. Como? Ao ouvi-lo cantar, as palavras que brotam da sua boca provêm dos desejos do coração, da fome da alma. Penetram no âmago de todos os nossos anseios de mudança dentro da permanência. Não escreveu os versos, mas tinha um talento genial para os articular. Como disse Bob Dylan sobre Sinatra: "Desde o início que ele estava lá com a verdade das coisas na voz."

 

[…] Escutai, vós, mais velhos. “Quando o vento soprava forte no início da primavera…” (When the wind was green at the star of the spring) “Quando tinha dezassete anos…” (When I was seventeen) “Eu sei o que é ter asas nos pés…” (I know how it feels to have wings on your heels).

 

Jovens, escutai. “Quando se está sozinho, todos os filhos crescidos e, como estorninhos, a voar para longe, a solidão chega cedo, não é? A cada dia interminável” (When you’re all alone, all the children grown, and like starlings flown away, it gets lonely early, doesn’t it, every single endless day).

 

“Era uma vez…” [Once upon a time). Todos, ouçam. Liguem-se.

 

Talvez só as canções nos possam transformar. Os argumentos parecem cair em saco roto com frequência. Serão as canções a expressão sonora da natureza dual dos nossos anseios de Ano Novo por novidades no meio do Velho?

 

[…] Depois, incline-se para a frente e ouça. É um novo ano. Há esperança. Se mudarmos.

 

 

Adenda:

  1. YouTube, Frank Sinatra, September of my years

https://www.youtube.com/watch?v=oD87obuUgUk

  1. Talvez seja esta a melhor definição de hegemonia: se é chinês e está na China e sentiu qualquer vibração com esta canção do Sinatra, então as 800 bases militares americanas ultramarinas serviram para alguma coisa.

 

(564) Nós e o centro do mundo

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Quando os invasores marcianos foram derrotados pelas bactérias, segundo H G Wells.

 

Muitos dos agentes patogénicos que mais tememos não passam de meros turistas no corpo humano.

 

Os antibióticos são, na verdade, armas que as bactérias usam umas contra as outras há eras.

 

As partes mais importantes do mundo de um micróbio são os outros micróbios.

 

 

 

Conta-se que em 2008, Bruce Levin, o microbiólogo da Emory University, para explicar o conceito da hipótese da evolução por coincidência segundo a qual as bactérias, fungos e outros patogénicos causadores de doenças em humanos, são adaptações que evoluíram dos seus nichos ecológicos muitas das vezes sem ser para provocarem infeções, utilizou a expressão popular “Shit happens”, querendo com isso dizer que coisas más (segundo a perspetiva humana) podem acontecer devido a acontecimentos naturais aleatórios ou não relacionáveis, e não devido a ataques intencionais de um micróbio.  

 

 

Ed Yong, num muito interessante artigo intitulado “Coincidental killers”, começa por nos lembrar A Guerra dos Mundos (1898) de H G Wells, em que os invasores marcianos depois de nos dominarem acabam por serem mortos, não pelas nossas armas, mas pelas “nossas” humildes bactérias que temos vindo a estar expostos desde o início, mas a que os marcianos, apesar da sua superioridade tecnológica, não puderam resistir:

 

There are no bacteria in Mars […] and directly these invaders arrived, directly they drank and fed, our microscopic allies began to work their overthrow”.

 

No livro, as bactérias não evoluíram para incapacitar os alienígenas. Evoluíram para atacar humanos e outros animais. Os invasores, inesperadamente, entraram em contacto com elas e sucumbiram. O mesmo pode acontecer connosco.

Muitas das bactérias e fungos que nos afligem com doenças graves não nos estão a atacar diretamente. Em vez disso, evoluíram para prosperar em ambientes hostis ou para se defenderem de outros micróbios (da mesma forma que nós tememos e lutamos contra ursos, leões, tigres, elas têm de lutar contra vermes nemátodos, amibas predatórias e outros vírus). Acontece que essas mesmas adaptações por elas utilizadas, permitem-lhes prosperar no nosso corpo ou resistir ao nosso sistema imunitário.

Na realidade, muitos dos agentes patogénicos que mais tememos não passam de meros turistas no corpo humano. As suas verdadeiras “casas” são os oceanos, cavernas ou solos. E é aí que eles competem contra outros micróbios e outros predadores esfomeados.

A sua virulência – a sua capacidade para provocar doença – não é uma adaptação contra o hospedeiro. É um efeito colateral, como que um reflexo. O provocar a morte é uma coincidência.

 

Até ao século XIX os micróbios foram praticamente desconhecidos, e só com Louis Pasteur e Robert Koch é que se passou a admitir que afinal eles até podiam estar por detrás de doenças importantes.

Tomamos particularmente consciência da sua existência apenas quando ameaçam as nossas vidas e, durante grande parte da nossa história, essa ameaça foi substancial. Epidemias de varíola, cólera, tuberculose e peste traumatizaram a humanidade, e o medo destas doenças contaminou toda a nossa cultura, desde os nossos ritos religiosos até aos filmes de Hollywood como Contágio (2012) ou O Surto (1995).

Acontece que quando os micróbios não nos estão a matar, não damos por eles: estamos em grande parte alheados. Assim, como bons humanos que somos, construímos narrativas à volta de hospedeiros e patógenos, heróis e vilões, nós e eles.

Os que causam doenças existem para se reproduzirem às nossas custas e precisamos de novas formas de lhes resistir. E assim estudamos como eles evoluem para superar o nosso sistema imunológico ou para se espalharem mais facilmente de uma pessoa para outra. Identificamos genes que lhes permitem causar doenças e rotulamos esses genes como “fatores de virulência”. E vamo-nos colocar no centro do mundo deles. Tudo é sobre nós.

Mas um número crescente de estudos mostra que a nossa visão antropocêntrica é, por vezes, injustificada. É que as adaptações que permitem que bactérias, fungos e outros agentes patogénicos nos causem danos podem facilmente evoluir para fora do contexto de doenças humanas. Fazem parte de uma narrativa microbiana que nos afeta e pode até matar-nos, mas que não nos diz respeito. Este conceito é conhecido como a hipótese da evolução coincidente, segundo a qual pelo menos algumas doenças humanas não têm nada a ver connosco.

 

A hipótese da evolução coincidente explica algumas outras descobertas recentes sobre os micróbios. Cientistas encontraram genes de resistência a antibióticos em bactérias congeladas há 30 mil anos ou isoladas em grutas com milhões de anos (não esquecer que as bactérias habitam o planeta há milhares de milhões de ano). Podemos pensar nos antibióticos como invenções modernas, mas são, na verdade, armas que as bactérias usam umas contra as outras há eras, ou pelo menos muito antes de Alexander Fleming reparar num estranho fungo numa placa de Petri em 1928. Os genes de resistência aos antibióticos evoluíram como parte desta guerra ancestral, mas também ajudam os micróbios atuais a lidar com os medicamentos que produzimos em massa.

Daí que uma das cientistas, Casadevall, tenha inclusivamente afirmado que a virulência pode surgir por acaso, “num processo que não tem explicação, a não ser pelo facto de ter acontecido”. De acordo com esta perspetiva, não somos atores centrais nos dramas que afetam as nossas vidas. Não somos sequer figurantes. Somos apenas transeuntes, a caminhar à porta do teatro e a ser atingidos por adereços voadores.

 

Afinal, as partes mais importantes do mundo de um micróbio são os outros micróbios. Têm interagido entre si há milhares de milhões de anos antes de surgirmos. Quando entramos no fogo cruzado desta guerra ancestral, corremos o risco de nos tornarmos danos colaterais. Tal como os marcianos de Wells, também nós podemos ser abatidos apenas por coincidência.

 

 

 

(563) O que nos trazem as ondas?

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

As bruscas e drásticas alterações que vemos, cada uma delas trazendo novas formas de vida mais avançadas, resultantes de algo que se passou no mesmo local num futuro passado anterior.

 

Por volta do ano 5.000 a. C., uma onda de brutalidade em massa acompanhou o colapso da primeira cultura pan-europeia.

 

O que levou ao desaparecimento integral de uma cultura?

 

 

 

É num filme de ficção científica de 2005, “A Sound of Thunder”, que a visualização do conceito de “ondas de tempo” é mais bem conseguida, através das bruscas e drásticas alterações que vemos a cidade de Chicago passar, cada uma delas trazendo novas formas de vida mais avançadas, resultantes de algo que se passou naquele local num futuro passado anterior.

Apesar de não ter tido grande êxito, o filme tem por base o conto do mesmo nome do notável Ray Bradbury (1920-2012), que escreveu três grandes novelas e trezentas grandes histórias, entre elas Fahrenheit 451 (1953), The Martian Chronicles (1950), The Illustrated Man (1951).

É dele a frase: “As pessoas pedem-me para predizer o Futuro, quando tudo o que quero é preveni-lo”.

E a definição de ficção científica como sendo “a arte do possível”:

 

Em primeiro lugar, não escrevo ficção científica. Só escrevi um livro de ficção científica, Fahrenheit 451, baseado em factos verídicos. A ficção científica é uma representação do real. A fantasia é uma representação do irreal […]

 

E ainda este olhar sobre a realidade:

 

Ao escrever a pequena novela Fahrenheit 451, pensei que estava a descrever um mundo que poderia evoluir em quatro ou cinco décadas. Mas, há apenas algumas semanas, em Beverly Hills, numa certa noite, um casal passou por mim a passear o cão. Fiquei a olhar para eles, absolutamente estupefacto. A mulher segurava numa das mãos um pequeno rádio do tamanho de um maço de cigarros, cuja antena tremia. Dele saíam minúsculos fios de cobre que terminavam num delicado cone ligado à sua orelha direita. Ali estava ela, alheia ao homem e ao cão, ouvindo ventos distantes, sussurros e gritos de novela, sonâmbula, a ser ajudada a subir e descer calçadas por um marido que podia muito bem não estar ali. Isto não era ficção.”

 

Mas voltemos às “ondas de tempo”:

 

 

Na revista Science de 20 de novembro de 2025, aparece um muito interessante artigo de Andrew Curry, “A Headless Mystery […]” (Um Mistério Sem-Cabeça, Os arqueólogos encontram evidências de que uma onda de brutalidade em massa acompanhou o colapso da primeira cultura pan-europeia), que põe uma pergunta crucial que se prende com o desaparecimento integral de uma cultura.

 

Numa vala escavada à beira de uma povoação com mais de 7000 anos, arqueólogos trabalhando num campo de trigo eslovaco descobriram em 2017 quatro esqueletos sem cabeça. Os enterrados pertenciam a uma das primeiras comunidades agrícolas da Europa. Enterrar pessoas dentro ou perto de assentamentos não era incomum na época – mas enterrá-las sem cabeça era.

 

Ano após ano, os investigadores voltaram a encontrar cada vez mais esqueletos sem cabeça nos arredores de Vráble, uma pequena aldeia 100 quilómetros a leste de Bratislava. "Onde quer que começássemos a cavar, encontrávamos ossos. Onde quer que estivéssemos, sentados ou em pé, havia ossos", diz Katharina Fuchs, antropóloga biológica da Universidade de Kiel (KU) que escava em Vráble todos os verões desde 2021.

No verão de 2022, ela e colegas da KU e da Universidade Constantine, o Filósofo, em Nitra, recuperaram os restos mortais de 34 pessoas, empilhados uns sobre os outros, por cima de dois ou três mais fundos, num espaço do tamanho de um local de estacionamento auto. Com exceção de uma criança, nenhum deles tinha cabeça.

Todos os anos esperam encontrar o limite da sepultura, mas estão sempre a encontrar novos corpos. A camada dos esqueletos estende-se já por 45 metros de comprimento.

 

Conhecidos como pertencentes à Cultura da Cerâmica Linear (ou LBK, devido ao seu nome alemão, Linearbandkeramik), esses primeiros agricultores eram descendentes diretos dos povos que começaram a domesticar plantas e animais nas colinas da Anatólia por volta de 9.000 a.C. Pelos 5.500 a.C., tinham chegado à atual Hungria. Depois espalharam-se para oeste, mais para dentro da Europa. Os agricultores do LBK floresceram durante mais de 400 anos, acabando por ocuparem uma faixa de 1.500 quilómetros de terras férteis que se estendia até ao oeste da Bacia de Paris.

 

Então, algo correu terrivelmente mal. As valas comuns de Vráble e outras espalhadas pela Europa, mostram-nos uma onda de brutalidade por volta de 5000 a.C., quase na mesma altura em que centenas de povoações da Cultura da Cerâmica Linear (LBK) desapareceram abruptamente por todo o continente.

 Após este período, partes do continente permaneceram desertas durante séculos. Outros povoados transformaram-se pacificamente em algo diferente, com pessoas a viverem no mesmo local e a continuarem a cultivar a terra, mas a construírem casas e a decorarem as suas cerâmicas de uma forma diferente.

 "Os LBK foram os primeiros agricultores, a primeira grande cultura pan-europeia e a primeira vez que vimos estes repetidos achados de violência", afirma Christian Meyer, um osteoarqueólogo que estudou restos humanos de diversas valas comuns da LBK.

 

Estes achados em Vráble e noutros locais da LBK vêm contrariar aquela noção estabelecida que a pré-história fora mais ou menos pacífica, apenas quebrada com casos esporádicos de violência interpessoal, sem outros conflitos em grande escala ou guerras. Para além de tudo, vêm levantar uma das mais interessantes perguntas da história: “O que levou ao desaparecimento integral de uma cultura?

 

Não há forma de interpretar o que os nossos semelhantes da Cultura da Cerâmica Linear estavam a pensar quando enchiam valas com cadáveres decapitados, mas isto faz-nos pensar que possivelmente o ser humano teve desde sempre a capacidade para brutalizar outros. Inexplicável ou difícil de explicar, sim.  Mas não tão invulgar, mesmo para os "padrões" modernos.

 

 

 

 

(562) Quando as mentiras passam a ser verdades

Tempo estimado de leitura: 4 minutos

 

A repetição, muitas vezes sobrevalorizada por se acreditar na capacidade inferior das massas para a perceber e recordar, é, contudo, importante porque as convence da consistência ao longo do tempo, H. Arendt.

 

O termo “lavagem de cérebro”, apesar de carecer de qualquer fundamentação científica validada, entrou para o imaginário da nossa sociedade como um conjunto de técnicas científicas.

 

O nosso problema é que as pessoas são obedientes quando as prisões estão cheias de pequenos ladrões enquanto os grandes ladrões comandam o país, H. Zinn.

 

 

 

Não é por acaso que nos EUA (não só) a chamada e assumida Direita Cristã tem vindo a impor que o criacionismo, ou o “desígnio inteligente” faça parte dos programas escolares, a ser ensinado em pé de igualdade científica com o evolucionismo. Ela sabe que o descrédito das disciplinas racionais, pilares do Iluminismo, é fundamental para destruir a indagação intelectual honesta e desapaixonada. A partir daí, os factos passam a poder ser intermutáveis com as opiniões.

O conhecimento da realidade não necessita já de ter por base a colheita elaborada de factos e evidências. Só por si, a ideologia é a verdade. Os factos que se interponham no caminho da ideologia podem ser mudados. As mentiras passam a ser verdades.

 

Mais abrangente, Hannah Arendt, explica-nos nas Origens do Totalitarismo, o comportamento de aceitação das massas:

 

Aquilo que convence as massas não são os factos, nem mesmo os inventados, mas apenas a consistência do sistema de que eles presumidamente fazem parte. A repetição, muitas vezes sobrevalorizada por se acreditar na capacidade inferior das massas para a perceber e recordar, é, contudo, importante porque as convence da consistência ao longo do tempo.”

 

 

É a 24 de setembro de 1950 que o Miami News publica um artigo do jornalista americano Edward Hunter em que pela primeira vez aparece o termo “lavagem de cérebro” (brain washing), que apesar de carecer de qualquer fundamentação científica validada, vai entrar para o imaginário da nossa sociedade como o conjunto de técnicas psicológicas que manipulam ações ou pensamentos contra a vontade, o desejo ou o conhecimento de uma pessoa, reduzindo-lhe a capacidade de pensar criticamente ou de forma independente, permitindo a introdução de novos pensamentos e ideias indesejáveis ​​na sua mente.

Segundo Hunter, combinando a teoria Pavloviana com a tecnologia moderna, os psicólogos chineses e russos conseguiram desenvolver técnicas poderosas de manipulação do cérebro das pessoas. Hunter cunhou o termo após entrevistar ex-prisioneiros chineses que foram submetidos a um processo de "reeducação”, bem como às técnicas de interrogatório que o KGB utilizava durante as purgas para extrair confissões de prisioneiros inocentes e, a partir daí, conseguiram variações - controlo da mente, alteração da mente, modificação do comportamento e outras.

Um ano depois, Hunter publica a sua obra base, Brain-Washing in Red China: The calculated Destruction of Men’s Minds, (Internet Archive, pdf), como alerta para o que entendia ser um vasto sistema maoísta de "reeducação" ideológica. A nova terminologia encontrou o seu caminho de aceitação maioritária na nossa sociedade como provam o mais vendido romance O Candidato da Manchúria e os filmes com o mesmo nome de 1962 (de John Franenheimer, com Frank Sinatra) e de 2004 (de Jonathan Demme, com Denzel Washington e Meryl Streep).

Talvez seja importante notar que Hunter fez parte de várias organizações de propaganda da CIA, e durante uma sua deposição perante o Comité de Atividades Antiamericanas da Câmara dos Representantes dos EUA, afirmou que os EUA e a NATO perderam a Guerra Fria devido à vantagem dos comunistas na propaganda e na manipulação psicológica, e que o Ocidente perdera a Guerra da Coreia por não estar disposto a usar a sua vantagem em bombas atómicas. Não via qualquer diferença entre os vários países comunistas e advertiu que tanto a Jugoslávia como a China estavam tão empenhadas na dominação mundial comunista quanto a União Soviética.

 

Estava criado o ambiente social e político para que a partir do início da década de 1950, a Agência Central de Inteligência (CIA) e o Departamento de Defesa dos EUA realizassem pesquisas secretas, incluindo o Projeto MKUltra, para o desenvolvimento de procedimentos e identificação de drogas que pudessem ser usadas para alterarem o comportamento humano. Estas experiências incluíram "desde a terapia de eletrochoques, hipnose, privação sensorial, isolamento, abuso verbal e sexual  a altas doses de LSD e outras formas de tortura, tendo como base experiências em humanos anteriormente efetuadas pelos nazis.

À frente do projeto (que incluía mais de 30 instituições e universidades envolvidas no programa de experimentação de drogas em cidadãos "de todos os níveis sociais, altos e baixos, nativos americanos e estrangeiros" sem o seu conhecimento, e em ainda mais de mil militares voluntários e empregados da CIA, e outros fora dos EUA nos black sites), Sidney Gottlieb e a sua equipa conseguiram "destruir a mente existente" de um ser humano utilizando técnicas de tortura; no entanto, o conseguir a reprogramação, em termos de encontrar "uma forma de inserir uma nova mente neste vazio resultante", não foi alcançada.

Em 1979, John D. Marks escrevia no seu livro "The Search for the Manchurian Candidate" que, até ao encerramento efetivo do programa MKUltra em 1963, os investigadores da agência não tinham encontrado uma forma fiável de fazer uma lavagem cerebral a outra pessoa, uma vez que todas as experiências terminaram sempre em amnésia ou catatonia, tornando impossível qualquer utilização operacional.

 

Mas algo se aproveitou: um relatório bipartidário do Comité de Serviços Armados do Senado, divulgado parcialmente em dezembro de 2008 e na íntegra em abril de 2009, relatou que os instrutores militares dos EUA que estiveram em Guantánamo em dezembro de 2002, basearam um curso de interrogatório num gráfico copiado de um estudo da Força Aérea de 1957 sobre técnicas de lavagem cerebral "comunistas chinesas" utilizadas para obter falsas confissões de prisioneiros de guerra americanos durante a Guerra da Coreia. O relatório mostrou ainda como a autorização do Secretário da Defesa, em 2002, para a utilização destas técnicas agressivas em Guantánamo, levou à sua utilização no Afeganistão e no Iraque, incluindo em Abu Ghraib.

 

 

E tão bem foram estas operações realizadas (servindo apenas para criar a tal “perceção da realidade”), que hoje acabamos a viver num mundo desejado estranhamente obediente. Eis o que Howard Zinn conclui:

 

Sempre que dizemos que o problema é a desobediência civil, estamos a dizer que o nosso problema é a desobediência civil. Esse não é o nosso problema… O nosso problema é a obediência civil. O nosso problema é o número de pessoas em todo o mundo que obedeceram às ordens dos líderes dos seus governos e foram para a guerra, e milhões foram mortos por causa dessa obediência. E o nosso problema é aquela cena em ‘Nada de Novo na Frente Ocidental’, onde os alunos marcham obedientemente em fila para a guerra. O nosso problema é que as pessoas são obedientes em todo o mundo, apesar da pobreza, da fome, da estupidez, da guerra e da crueldade. O nosso problema é que as pessoas são obedientes quando as prisões estão cheias de pequenos ladrões enquanto os grandes ladrões comandam o país. Esse é o nosso problema.”

 

 

(561) O desvelar das tendências militaristas atuais

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

O direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer, Tucídides.

 

Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão, não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo.

            

Diversos altos funcionários presos por crimes de guerra, retomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês.

 

Na Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.

 

A revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz.

 

 

 

Quando apenas um mês depois de ter sido eleita como a 104ª primeira-ministra do Japão (21 de outubro de 2025), Sanae Takaichi, presidente do Partido Liberal Democrático (PLD), logo no seu primeiro discurso no parlamento ter afirmado que o Japão poderia envolver-se militarmente num conflito entre a China e Taiwan (“an attack on Taiwan could trigger the deployment of her country’s self-defence forces if the conflict posed an existential threat to Japan”), alterando radicalmente toda a política externa seguida até então pelo Japão, tal não fez mais que confirmar as tendências militaristas presentes não só no Japão mas que se têm vindo a apoderar das nossas sociedades.        

Uma das várias explicações para a emergência destas tendências, tem que ver com o que se passou na Segunda Guerra, particularmente com a forma como o pós-guerra que se lhe seguiu foi resolvido.

 

Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão, não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo. Washington debateu se deveria destituir o imperador, figura central do projeto imperial, mas, seguindo o conselho da antropóloga Ruth Benedict, optou por manter o imperador e outros símbolos do militarismo. Isto incluía o Santuário Yasukuni, dedicado aos mortos de guerra, fundado em 1869 e que ainda hoje alberga os restos mortais de mais de mil criminosos de guerra condenados.

 

Diversos altos funcionários presos por crimes de guerra, mas nunca julgados, retomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês. Entre eles estavam Yoshida Shigeru, diplomata de alto nível durante a guerra e primeiro-ministro do Japão durante a maior parte do período entre 1946 e 1954; Nobusuke Kishi, burocrata no nordeste da China durante a ocupação, ministro no gabinete de guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1957 a 1960; Shigemitsu Mamoru, ministro dos Negócios Estrangeiros no gabinete de guerra, julgado como criminoso de guerra de Classe A pelo seu papel na Coreia e preso, e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros na década de 1950; Okazaki Katsuo, diplomata durante os anos da guerra e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros de 1952 a 1954; Ikeda Hayato, funcionário do Ministério das Finanças durante os anos da guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1960 a 1964; e Sato Eisaku, funcionário do Ministério dos Transportes durante os anos da guerra e mais tarde primeiro-ministro de 1964 a 1972. Neste caso, todos eles fizeram parte da chamada "máfia manchu" que liderou a ocupação na China, manteve-se no poder.

 

Para que conste, Nobusuke Kishi foi o avô de Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão de 2006 a 2007 e novamente de 2012 a 2020. Muitas vezes é omitido o facto de Kishi ter sido o arquiteto da ocupação japonesa do nordeste da China e responsável pelo regime de trabalho forçado na China e na Coreia. Após a guerra, Kishi foi brevemente preso em Sugamo como suspeito de ser um criminoso de guerra de Classe A, sendo libertado sem julgamento em 1948. Esperou alguns anos antes de regressar à política com um objetivo fundamental: rever a Constituição de 1947 para remover o Artigo 9, que impunha restrições à militarização no Japão.

 

Em 1952, os EUA reabilitaram formalmente muitos oficiais japoneses que serviram durante a guerra, abrindo caminho para que homens como Kishi entrassem na política ativa e pavimentando o terreno para a formação do Partido Liberal Democrático (PLD) em 1955. Este partido é atualmente liderado por Sanae Takaichi, que nasceu em 1961 e que é a atual primeira-ministra do Japão.

 

Desde que entrou na política, Takaichi tem sido uma figura de destaque na direita chauvinista do Japão, tendo emergido por intermédio do seu mentor, Shinzo Abe. Tal como o avô de Abe, Kishi, Takaichi deseja rever a Constituição japonesa para que o Japão possa reconstruir as suas forças armadas. Em diversas ocasiões, demonstrou reverência pelo período anterior a 1945: visitou o Santuário Yasukuni, defende a conduta do Japão durante a guerra, questiona a natureza coerciva do sistema das "mulheres de conforto" e apoia a ideia de "restauração do orgulho" no passado imperialista. Afirmou que deseja que os manuais japoneses deixem de ser "autodepreciativos" e questionou a veracidade dos crimes de guerra cometidos em Nanquim. As opiniões de Takaichi, que nasceu após a guerra, ilustram que a ocupação americana não só falhou em erradicar a essência do fascismo da sociedade japonesa, como também lhe permitiu florescer.

 

 

Segundo o extenso artigo sobre “Os crimes de guerra do Japão”, antes e durante a Segunda Guerra Mundial, o Império do Japão cometeu inúmeros crimes de guerra e crimes contra a humanidade em diversas nações da Ásia-Pacífico, nomeadamente durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Guerra do Pacífico. Estes crimes ocorreram durante o reinado do Imperador Hirohito.

O Exército Imperial Japonês (IJA) e a Marinha Imperial Japonesa (IJN) foram responsáveis ​​por crimes de guerra entre 1927 e 1945, que levaram a 19 milhões a 30 milhões de mortes, desde assassinatos em massa, terrorismo, limpeza étnica, genocídio, escravatura sexual, massacres, experimentação em humanos, tortura, fome e trabalho forçado.

 

A liderança política e militar japonesa tinha conhecimento dos crimes das suas forças armadas, mas continuou a permiti-los e até a apoiá-los, com a maioria das tropas japonesas estacionadas na Ásia a participar ou a apoiar os assassinatos.

Embora não seja claro se o Imperador Hirohito foi informado da extensão total desses crimes, o irmão mais novo do Imperador, o Príncipe Mikasa, serviu como oficial no Exército Imperial Japonês estacionado na China, escreveu nas suas memórias que os oficiais utilizavam prisioneiros de guerra chineses para o treino com baioneta, a fim de fortalecer a determinação dos soldados japoneses. Além disso, observou que os prisioneiros de guerra eram asfixiados e fuzilados em grande número.

O Serviço Aéreo do Exército Imperial Japonês participou em ataques químicos e biológicos contra civis durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Segunda Guerra Mundial, violando acordos internacionais que o Japão tinha assinado, incluindo as Convenções de Haia, que proibiam o uso de "veneno ou armas envenenadas" nas guerras.

 

Após a Guerra, foram emitidos inúmeros pedidos de desculpas pelos crimes de guerra por parte de altos funcionários do governo japonês. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão reconheceu o papel do país em causar "tremendos danos e sofrimento" antes e durante a Segunda Guerra Mundial, particularmente o massacre e violação de civis em Nanquim pelo Exército Imperial Japonês.

No entanto, a questão continua a estar pronta a ser reaberta, com alguns membros do governo japonês, incluindo os ex-primeiros-ministros Junichiro Koizumi e Shinzō Abe, a terem prestado homenagem no Santuário Yasukuni, que honra todos os mortos de guerra japoneses, incluindo criminosos de guerra de Classe A condenados.

Segundo Shinzö Abe, o Japão aceitou o Tribunal de Tóquio e os seus julgamentos como condição para acabar a guerra, mas as suas sentenças não têm qualquer relação com as leis do Japão: assim, os condenados em crimes de guerra não são criminosos segundo a lei japonesa.

Além disso, alguns manuais de história japoneses fornecem apenas breves referências aos crimes de guerra, e certos membros do Partido Liberal Democrático negaram algumas das atrocidades, como o envolvimento do governo no rapto de mulheres para servirem como "mulheres de conforto", um eufemismo para escravas sexuais.

 

Quanto a assassinatos em massa, o historiador britânico Mark Felton afirma que foram mortas até 30 milhões de pessoas, a maioria civis:

 

Os japoneses assassinaram 30 milhões de civis enquanto "libertavam" do domínio colonial aquilo a que chamavam a Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental. Cerca de 23 milhões destas pessoas eram de etnia chinesa. É um crime que, em números absolutos, é muito maior do que o Holocausto nazi. Na Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.”

 

Quanto a experimentação em humanos e guerra biológica, unidades militares especiais japonesas realizaram experiências em civis e prisioneiros de guerra na China. O objetivo da experimentação era desenvolver armas biológicas que pudessem ser utilizadas para a guerra. Agentes biológicos e gases desenvolvidos a partir destas experiências foram utilizados contra o Exército Chinês e a população civil. Isto incluiu a Unidade 731 sob o comando de Shirō Ishii. As vítimas foram submetidas a experiências que incluíram, entre outras, vivissecção, amputações sem anestesia, testes de armas biológicas, transfusões de sangue de cavalo e injeção de sangue animal nos seus cadáveres. A anestesia não era utilizada porque se acreditava que os anestésicos afetariam adversamente os resultados das experiências:

 

Para determinar o tratamento da hipotermia, os prisioneiros eram levados para o exterior com um tempo gelado e deixados com os braços expostos, sendo periodicamente encharcados com água até congelarem completamente. O braço era posteriormente amputado; o médico repetia o processo na parte superior do braço da vítima até ao ombro. Depois de ambos os braços serem amputados, os médicos passavam para as pernas até que restassem apenas a cabeça e o tronco. A vítima era então utilizada para experiências com peste e agentes patogénicos”.

 

Do artigo referido, consta uma listagem que pode ser consultada respeitante a definições dos crimes de guerra japoneses, a lei internacional e a japonesa, o militarismo, nacionalismo , imperialismo e racismo japonês, armas de destruição massiva, tortura de prisioneiros de guerra, os julgamentos de Tóquio, lista dos maiores crimes e massacres, dos crimes de guerra, e outros.

 

 

É no blog de 27 de setembro de 2017, “Os ovos da serpente”, que podem ler:

“[…] Ainda antes do fim da II Guerra já centenas de milhar de prisioneiros dos exércitos nazis capturados e para os quais não havia campos de internamento em quantidade suficiente, foram colocados nos navios de carga que regressavam vazios aos EUA depois de terem descarregado todo o material na Europa. E por lá ficaram.

 É sempre bom recordar que em 1939 os nazis contavam com mais de duzentos mil seguidores e simpatizantes nos EUA, que a revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz, e que entre os seus admiradores se encontravam o magnate automobilístico Henry Ford e o aviador Charles Lindbergh.

E que na Grã-Bretanha, a abdicação em 1936 do rei Eduardo VIII, Duque de Windsor, ficou certamente mais a dever-se às suas simpatias para com Hitler e o regime nazi do que com o facto de se pretender casar com uma divorciada americana. Eram notórias as simpatias da classe alta e dos aristocratas britânicos para com o regime nazi, o que talvez tenha levado Hitler a cometer o erro estratégico de acreditar que a implantação do seu regime na Grã-Bretanha seria relativamente fácil, não se preocupando muito em dificultar a retirada do exército britânico de Dunquerque.

 Na destruição e na confusão que se seguiu após o fim da II Guerra, a necessidade de se manter a funcionar um mínimo de administração pública nos países derrotados, e até na dificuldade de separar nazis de não nazis fez com que, intencionalmente ou não, muitos deles passassem despercebidos. Vamos acreditar que foram essas as razões e que não foi intencional.

Na realidade, os aliados que ocuparam a República Federal da Alemanha (Estados Unidos, Reino Unido e França) condenaram apenas 6650 ex-nazis, o que só por si era uma pequena parte do total dos membros do partido. E, as elites alemãs da época fizeram o resto.

Um recente estudo denominado “Projeto Rosemburg” apresentado publicamente por Heiko Maas, atual ministro da Justiça alemão, vem confirmar que em 1957, 77% dos funcionários com cargos de responsabilidade no Ministério da Justiça alemão (ou seja, três em cada quatro) eram antigos membros do partido nazi. O que não deixa de ser até curioso, porquanto essa percentagem em 1957 era mais alta do que durante o Terceiro Reich (http://www.dn.pt/mundo/interior/sistema-de-justica-alemao-do-pos-guerra-estava-dominado-por-ex-nazis-5434041.html) […]”.

E por lá estão.

 

E no blog de 1 de fevereiro de 2023, “Crimes de guerra e guerra sem crimes”,  poderão ler sobre o Tribunal de Nuremberga e o Tribunal de Tóquio::

 

“[..]A primeira sessão, sob a presidência do representante soviético, Gen. I.T. Nikitchenko, realizou-se a 18 de outubro de 1945, em Berlim. Foram acusados 24 ex-líderes nazis ​​por perpetuarem crimes de guerra, e ainda vários grupos (como a Gestapo, a polícia secreta nazi) acusados ​​por terem carácter criminoso. A partir de 20 de novembro de 1945, todas as sessões do tribunal passaram a ser realizadas no Palácio da Justiça em Nuremberga.

Após 216 sessões, a 1 de outubro de 1946, foi proferido o veredicto de 22 dos 24 réus originais (Robert Ley cometeu suicídio enquanto estava na prisão, e as condições físicas e mentais de Gustav Krupp von Bohlen und Halbach impediram que ele fosse julgado). Três dos réus foram absolvidos: Hjalmar Schacht, Franz von Papen e Hans Fritzsche. Quatro foram condenados a penas de prisão que variaram de 10 a 20 anos: Karl Dönitz, Baldur von Schirach, Albert Speer e Konstantin von Neurath. Três foram condenados à prisão perpétua: Rudolf Hess, Walther Funk e Erich Raeder. Doze dos réus foram condenados à morte por enforcamento. Dez deles - Hans Frank, Wilhelm Frick, Julius Streicher, Alfred Rosenberg, Ernst Kaltenbrunner, Joachim von Ribbentrop, Fritz Sauckel, Alfred Jodl, Wilhelm Keitel e Arthur Seyss-Inquart - foram enforcados a 16 de outubro de 1946. Martin Bormann foi julgado e condenado à morte à revelia, e Hermann Göring suicidou-se antes de poder ser executado.

 

Para além deste tribunal, foram ainda constituídos logo de seguida, entre dezembro de 1946 e abril de 1949, outros 12 subsequentes tribunais militares para julgar crimes de guerra cometidos por chefias do partido nazi, médicos, industriais, juízes, ministros e outros elementos de organizações nazis. Dos 3.887 casos, 3.400 foram abandonados, tendo sido presentes a tribunal 489, com 1.672 acusados, dos quais 1.416 foram condenados (200 foram executados, 279 condenados a prisão perpétua – embora em 1950 quase todos acabassem por serem soltos ao abrigo de uma amnistia).

 

Particular interesse tem também o caso do tribunal para julgar os crimes dos nazis japoneses (Tribunal de Tóquio) instaurado pelo General Douglas MacArthur, onde, devido ao encobrimento feito pelo próprio governo americano, os principais responsáveis pelos crimes horrendos da Unidade 731 (experiências com armas biológicas e químicas em humanos) não foram presentes à justiça, e onde devido aos então recentes bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui se invocou que os pilotos japoneses não podiam ser punidos por bombardearem cidades dado os pilotos americanos terem feito o mesmo […]”  

 

Na História da Guerra do Peloponeso, começada a escrever já lá vão 2.400 anos (431 a. C.), Tucídides pôs os poderosos Atenienses a explicar aos derrotados e impotentes melitanos, a razão para o genocídio que se lhe seguiu:

 

 “o direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer”, (capítulo XVII, Décimo sexto Ano da Guerra, A Conferência Melitana, O Destino de Melos).

 

(560) A apropriação do ciclo do caranguejo

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Estes ciclos biológicos há muito que são do conhecimento e prática dos nossos mandantes como forma de conservar o poder.

 

É preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma, C. Malaparte.

 

A Polícia de Cincinnati afirma que até ao final deste ano, 90% de todas as ocorrências serão primeiro atendidas por um drone.

 

Não nos vamos espantar quando virmos os novos drones para ambientes interiores a percorrer as nossas casas.

 

 

 

Em 1935, o médico, geógrafo e cientista social brasileiro Josué de Castro, publica O Ciclo do Caranguejo, onde descreve a vida de extrema pobreza de famílias que vivem num mangue da cidade do Recife, em que não tendo mais nada para comer que caranguejos aí apanhados que lhes provocam diarreia que acaba servindo para alimentar outros caranguejos que por sua vez vão servir para alimentar as famílias, num ciclo de interdependência que constitui o ecossistema do mangue.

Estes ciclos biológicos há muito que são do conhecimento e pratica dos nossos mandantes como forma de conservar o poder. Veja-se, por exemplo, o que se passa na educação, nos serviços de saúde, nas polícias, etc.: não se dão condições aos serviços para funcionarem, incentiva-se a insatisfação, propõe-se então a solução desejada, deixam de mostrar as manifestações de insatisfação, o sistema continua a funcionar.

Como variante, Estes ciclos biológicos há muito que são do conhecimento e pratica dos nossos mandantes como forma de conservar o poder.. Por exemplo, convencem-nos que é uma poupança económica dotar as forças de polícia com armamento do exército, e nós acreditamos, esquecendo que a utilização de novos armamentos e proteções implica sempre a adoção das táticas que lhes vêm associadas.

 

A Skydio é uma empresa americana fundada em 2014 que em poucos anos passou de uma relativa obscuridade para a maior fabricante de drones nos EUA. Os seus drones quadricópteros com IA, povoam hoje os céus das cidades americanas.

De acordo com uma pesquisa efetuada por Nate Bear, nos últimos 18 meses quase todas as grandes cidades americanas assinaram contratos com a Skydio, incluindo Boston, Chicago, Filadélfia, San Diego, Cleveland e Jacksonville. Atualmente, a empresa tem contratos com mais de 800 agências de segurança em todo o país.

Os seus drones têm estado a ser utilizados pelos departamentos de polícia municipais e outros organismos (como Universidades), para recolherem informações em protestos, ajuntamentos e outros.

 Em Atlanta, a empresa fez uma parceria com a Fundação da Polícia para instalar uma estação permanente de drones dentro do Centro de Formação de Segurança Pública de Atlanta. Detroit, gastou recentemente quase 300 mil dólares na aquisição de catorze drones, de acordo com um relatório de compras da cidade. A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA também comprou trinta e três drones capazes de rastrearem e perseguirem automaticamente um alvo.

Um porta-voz da polícia de Nova Iorque, que foi uma das primeiras a adotar os drones Skydio, declarou recentemente a um site de notícias que o Departamento de Polícia de Nova Iorque (NYPD) realizou mais de 20.000 voos em menos de um ano com 41 drones, o que significa que os drones são lançados pela cidade 55 vezes por dia.

 

O sistema de IA por detrás destes drones é alimentado por chips da Nvidia que permitem a sua operação sem um operador humano. Possuem câmaras de imagem térmica e podem operar em locais onde o GPS não funciona. Também reconstroem edifícios e outras infraestruturas em 3D e podem voar a mais de 48 quilómetros por hora.

 

 

Antes de março deste ano, as regras da FAA determinavam que os drones só podiam ser utilizados pelas forças de segurança dos EUA se o operador mantivesse o drone à vista. Também não podiam ser usados ​​sobre ruas movimentadas da cidade.

Mas, uma isenção da FAA emitida nesse mês, veio permitir que a polícia e as agências de segurança operassem drones para além da linha de visão e sobre grandes multidões. Sem a necessidade de ver o drone, e com os drones livres para sobrevoarem as ruas da cidade, a polícia está cada vez mais a enviar drones em vez de polícias para atender ocorrências e para fins de investigação mais abrangentes. Cincinnati, por exemplo, afirma que até ao final deste ano, 90% de todas as ocorrências serão atendidas primeiro por um drone.

Esta ampla cobertura é possível devido à plataforma de acoplamento da Skydio. Estas plataformas estão posicionadas em locais estratégicos da cidade, permitindo que os drones sejam carregados, lançados e aterrem remotamente a muitos quilómetros de distância das sedes da polícia. Após o lançamento, todas as informações recolhidas durante os voos são guardadas num cartão SD interno e enviadas automaticamente para um software específico configurado para uso policial.

 Este software é desenvolvido pela Axon, um dos principais financiadores da Skydio, e permite, segundo um comunicado de imprensa da Axon, "o envio automático de fotografias e vídeos captados por drones para um sistema digital de gestão de provas".

 

Acontece que a Skydio é também um grande fornecedor do Departamento de Defesa, tendo assinado recentemente um contrato para fornecer drones de reconhecimento ao Exército dos EUA. Como fornecedor significativo tanto para as forças militares como para as forças de segurança civis, isto tem levantado algumas velhas questões (sempre atuais) sobre quais são ou serão as informações partilhadas entre os militares dos EUA e as agências de segurança interna através do sistema de gestão de provas digitais da Skydio-Axon.

Se nos lembrarmos que os conflitos são sempre os grandes laboratórios para o desenvolvimento das novas tecnologias de vigilância, onde elas são testadas, e se verificarmos que neste caso da Skydio ela captou centenas de milhões de dólares de capitalistas de risco israelo-americanos bem como de fundos de capital de risco com amplos investimentos em Israel, incluindo a empresa de Marc Andreessen, a Andreessen Horowitz, e que as Forças de Defesa de Israel (IDF) têm intensivamente usado os seus drones, não nos iremos espantar quando para o próximo ano virmos novos  drones para ambientes interiores a percorrer as casas das cidades americanas (e não só).

Tudo, evidentemente, a Bem da Nação.

 

 

 

(559) Que fazer com os pobres que não querem deixar de ser pobres?

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Cuidar dos necessitados é responsabilidade da igreja e dos serviços de caridade, e não do Estado.

 

A imagem do pobre como submisso, bendito, sentado à porta da paróquia, mantem-se até ao século XIV.

 

A pobreza começa a aparecer como um ‘problema’ de ordem pública.

 

Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para com Deus e a Natureza, Josiah Child.

 

O egoísmo de um indivíduo isolado não conduzirá fatalmente ao caos, podendo até estabilizar um sistema de vários indivíduos.

 

Os pobres devem simplesmente deixar de ser pobres ou morrer.

 

 

 

 

O princípio em que assenta o sistema político-económico dos EUA (e evidentemente não só), nação cristã orientada por princípios cristãos, com impostos baixos e sem assistência social, é que cuidar dos necessitados é responsabilidade da igreja e dos serviços de caridade, e não do Estado.

Foi, apesar de tudo, o que sobrou da Idade Média cristã que tinha em pé de igualdade ricos, poderosos e pobres. Embora respeitando os ricos, elogiava os pobres por estarem mais próximos do reino do Céu. A ética medieval, não só tolerava a mendicidade como ainda a glorificava, o que é bem patente na existência das ordens mendicantes (grupos de monges dedicados profissionalmente a serem pobres).

Os pobres (mendigos, doentes, órfãos e rameiras) eram considerados livres de qualquer responsabilidade social, servindo para que os demais pudessem exercer a virtude da caridade.

Esta imagem da época em que o pobre é apresentado como submisso, bendito, sentado à porta da paróquia, vai ser totalmente abalada pela peste negra do século XIV. Dois terços da população desaparecem, escasseia a mão-de-obra sobretudo nas cidades, dá-se a fuga dos campos e da submissão feudal, os súbditos transformam-se em pessoas que se deslocam.

A imagem é agora a do sobrevivente que vai de um lado para o outro, como lhe aprouver, trabalhando onde puder, descobrindo o valor dos seus braços.

A pobreza começa a aparecer como um ‘problema’ de ordem pública: os mandantes preocupavam-se não por eles serem pobres, mas por se poderem movimentar livremente, o que significava poderem reunir-se, pressionarem, revoltarem-se.

A pobreza passa a ser tema de assunto em livros e discussões. Surge o Tratado do socorro dos pobres de Luís Vives com a sua proposta de criação de ‘casas de Caridade’ para os acolher, ou seja, para os fixar, imobilizar e controlar.

Introduz dois conceitos que se vão revelar importantes: o da responsabilidade social da república para com os pobres, e o da obrigatoriedade do trabalho para todos os acolhidos nas casas de Caridade.

Ao mesmo tempo, os humanistas e os reformadores protestantes proclamam que o homem, ao ser dono do seu destino, passava a ser o único responsável por determinar como viria a ser a sua vida.

O pobre, ao ser pobre porque queria, porque não tinha vontade suficiente, só demonstrava ou a sua fraqueza interior, ou então que tal era o desejo de Deus para que a sua vida fosse de sofrimento.

O conteúdo da ideia da caridade até então predominante encontrava-se esvaziado.

 

Em 1601, Isabel I vai publicar a primeira das Leis dos Pobres, Poors Law, criando ao mesmo tempo as casas de trabalho, workhouse. Todo o pobre que fosse fisicamente útil teria de se acolher obrigatoriamente na workhouse da paróquia em que estivesse registado. Ali, eram obrigados a trabalhar a troco de um salário de subsistência.

Por toda a Europa surgiram idênticos lugares de trabalho, onde a troco de um salário mínimo se mantinham vivos os trabalhadores. Esta prática de estabelecimentos estatais de trabalho foram o embrião do aparecimento das grandes empresas privadas.

 

 Os séculos XVII e XVIII prosseguem nesta procura incessante do método para controlar a sociedade, agora já sem ser através do chicote ou das amputações. Algumas pérolas destas ‘preocupações’:

 “A fome domesticará os animais mais ferozes, ensinará aos mais perversos a decência, a obediência e a sujeição. No geral, só a fome poderá levar a ajoelhar (os pobres) e a obrigá-los a trabalhar”, Joseph Townsed, na Dissertation on the Poor Laws.

 “Se se lhes fizer a vida impossível, o número de mendigos reduzir-se-á: um método ainda mais rápido é pela utilização de arsénico, que seria até uma forma mais suave se fosse permitido”, Thomas Carlyle.

 “Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para com Deus e a Natureza’’, segundo o bem-intencionado Josiah Child.

 

No século XX, o matemático John F. Nash (interpretado por Russell Crowe no filme Mentes Brilhantes), vai concluir, aplicando a ‘teoria dos jogos’, que qualquer ser humano convertido num jogador isolado do resto do mundo, ganharia sempre que se comportasse de uma forma totalmente egoísta, não se coibindo de trair toda a confiança em si depositada e a palavra dada.

Segundo Nash, num mundo de pessoas isoladas, egoístas e racionais, era perfeitamente possível criar um sistema que desse satisfação a todos os jogadores, utilizando apenas como único incentivo a ambição pessoal de cada um.

A conclusão mais geral que se retira do seu trabalho é que o egoísmo de um indivíduo isolado não conduzirá fatalmente ao caos, podendo até estabilizar um sistema de vários indivíduos. Este é o conhecido e famoso ‘equilíbrio de Nash’ (1950).

 Ficou assim demonstrado que é possível, e até desejável, a existência de uma sociedade de indivíduos racionais e isolados, uma sociedade de indivíduos livres, mas controlados e regulados pelo seu próprio egoísmo, sem leis nem polícias.

 

 No século XXI, em princípios de novembro de 2025, uma americana branca (Nikalie Monroe) vai fazer no TikTok uma experiência social em que, fingindo ser uma mãe desesperada por uma lata de leite em pó para o seu bebé com fome, liga para 42 igrejas nos Estados Unidos, documentando quais as respostas que foi obtendo, quais as igrejas que foram prestáveis ​​e quais as que não foram. A grande maioria dos locais de culto que contactou recusou-se a ajudar.

Um dos poucos locais de culto a oferecer-se imediatamente para a ajudar foi uma mesquita na Carolina do Norte, que não só concordou em ajudá-la imediatamente, como também lhe perguntou qual o tipo específico de fórmula infantil de que necessitaria.

Quando a jornalista internacional australiana Caitlin Jonhstone publicou um post no X sobre o assunto, diz ela que recebeuuma enxurrada de mensagens a dizer que não se deve esperar que a igreja simplesmente distribua esmolas aos necessitados, afirmando que qualquer pessoa que não consiga alimentar o seu próprio filho deve arranjar um emprego e alimentá-lo por conta própria”.

E que “Não acham que os pobres devam receber comida do governo. Não acham que os pobres devam receber comida da igreja. Se os pobres infringirem a lei para obter alimentos, querem que sejam presos durante anos. Acham mesmo que os pobres devem simplesmente deixar de ser pobres ou morrer.

 

Definitivamente, o conteúdo da ideia de caridade deixou de existir.

 

(558) Os ‘ismos’ de então e os de agora

Tempo estimado de leitura: 10 minutos.

 

As referências à década de 1930 multiplicam-se. No entanto, as sociedades ocidentais já não se parecem com o que eram então.

 

A eliminação do desemprego numa questão de meses por Hitler selou o destino do liberalismo.

 

Um povo pode controlar as suas fronteiras […], contudo, o nazismo, com os seus soldados posicionados do Atlântico ao Volga para escravizar ou exterminar outros povos, era algo completamente diferente.

 

Graças a Trump, o planeta inteiro está a tornar-se antissemita.

 

 

 

 

No seu interessante ensaio de 19 de outubro de 2025 (“Hitlerismo, Trumpismo, Netanyahuismo, Le Penismo, Macronismo), Emmanuel Todd propõe-se comparar os vários "ismos" de tempos passados ​​com os de agora. Do seu prefácio em que nos vai situar o tema, comecei por retirar:

 

“As referências à década de 1930 multiplicam-se. A degeneração da democracia americana parece remeter-nos para a da República de Weimar, na Alemanha. Trump, através do seu prazer com a violência e a mentira, através do seu exercício do mal, remete-nos irresistivelmente para Hitler. Na Europa, a ascensão de movimentos categorizados como de extrema-direita obriga-nos a olhar para trás, para a nossa história.

No entanto, as sociedades ocidentais já não se parecem com o que eram na década de 1930. Envelheceram, tornaram-se consumistas e orientadas para o serviço, as mulheres emanciparam-se e o desenvolvimento pessoal substituiu a fidelidade partidária. Como é que isto se compara com as sociedades dos anos 30: jovens, frugais, industriais, da classe trabalhadora, dominadas por homens, filiadas em partidos? Foi esta distância sócio histórica que me levou a considerar, a princípio, até agora, inválido o paralelo entre a "extrema-direita" do presente e a do passado. Mas as doutrinas políticas existem, hoje como ontem, e não podemos simplesmente postular a impossibilidade, por exemplo, de um nazismo dos idosos, de um franquismo consumista, de um fascismo das mulheres emancipadas ou de um LGBTismo da Cruz de Fogo […]”

 

Para explicação desta sua tese, começa por nos elucidar sobre a dimensão real do racismo e da xenofobia:

 

“A rejeição de um "outro" definido como externo à comunidade nacional, com graus de intensidade variáveis, é comum ao Hitlerismo, ao Trumpismo e ao Le Penismo. No caso do Hitlerismo e do Trumpismo, é a noção de racismo, explícita ou implícita, que é comum. Os nazis consideravam os judeus uma raça no sentido biológico. Os negros, esses alvos mal disfarçados do Partido Republicano trucidado, são também definidos biologicamente. O Le Penismo, por outro lado, só pode ser associado ao conceito de xenofobia. Os árabes e os muçulmanos são definidos pela sua cultura. Uma das características da obsessão francesa pela imigração continua a ser a sua fixação no Islão e a sua incapacidade de chegar aos negros, cuja chegada em massa é, no entanto, o novo elemento no processo migratório. A taxa de casamentos mistos entre mulheres negras é muito elevada em França, mas continua a ser insignificante nos Estados Unidos.

 

Uma característica comum dos "populismos" ocidentais é, naturalmente, a rejeição da imigração: o Reform UK, o Sverigedemokraterna (Democratas Suecos), a AfD, Viktor Orban na Hungria, o Lei e Justiça na Polónia, Giorgia Meloni em Itália, tal como Trump ou Le Pen, passam o teste deste denominador comum. Basta isso para os definir como extrema-direita, da mesma forma que o nazismo e o fascismo eram extrema-direita? Acho que não. Existe uma diferença crucial entre o populismo atual e a extrema-direita hitleriana ou mussoliniana: o nazismo e o fascismo eram expansionistas, com o objetivo de projetar o poder do povo alemão (ariano) ou italiano (romano) para o exterior. Eram agressivos, nacionalistas e conquistadores. Apoiavam-se em partidos de massas. É difícil imaginar os populistas de hoje a organizar desfiles ao estilo de Nuremberga. As festas com salame e vinho da Marinha Real são certamente antimuçulmanas, mas ainda menos impressionantes do que as cerimónias de guerra de Hitler. De Nuremberga a Hénin-Beaumont? Sério?

O único populismo ocidental que passaria hoje a 100% o teste expansionista seria o de Netanyahu. Assentamentos na Cisjordânia, genocídio em Gaza: estabelecer uma ligação entre o Hitlerismo e o Netanyahuismo é inevitável.

 

A xenofobia francesa, britânica, sueca, finlandesa, polaca, húngara e italiana, ao contrário do nazismo e do fascismo, é defensiva. Não estamos a lidar com povos que querem conquistar, mas sim com povos que querem permanecer senhores das suas próprias casas. É por isso que a dimensão cultural prevalece hoje na Europa sobre a noção racial e por isso só podemos falar aqui de xenofobia. Esta xenofobia é conservadora, enquanto o racismo de Hitler foi revolucionário porque perturbou a ordem social. A noção de nacionalismo não se aplica, portanto, ao populismo europeu atual, nem a noção de extrema-direita, ou então teríamos de introduzir oxímoros como "nacionalismo moderado" e "extrema-direita moderada". Prefiro falar de conservadorismo popular.

 

Pessoalmente a favor da imigração controlada, devo admitir a legitimidade desta xenofobia porque aceito o axioma de que um grupo humano portador de uma cultura, consciente de existir como comunidade, em suma, como povo, tem o direito de querer continuar a existir. Em termos concretos: um povo pode controlar as suas fronteiras. O nazismo, com os seus soldados posicionados do Atlântico ao Volga para escravizar ou exterminar outros povos, era algo completamente diferente.

 

O Trumpismo representa uma forma mista, pois combina um elemento central defensivo e anti-imigração com um forte potencial de agressão ao mundo exterior. Não é expansionismo no sentido estrito do termo. É a anterior expansão do aparelho militar americano e o papel do dólar na predação imperial que tornaram possíveis os atos violentos de Trump contra outros povos e nações: a Venezuela, o Irão, nós, os povos subjugados da Europa Ocidental e, claro, os árabes, com os palestinianos como principal alvo. A integração gradual de Israel no Império, iniciada em 1967, significa que, em 2025, será quase impossível distinguir o Trumpismo do Netanyahuismo. Mas Trump, para além das suas palhaçadas dignas de um Prémio Nobel, é de facto o principal culpado pelo genocídio em Gaza, através do seu antigo incentivo à violência israelita: este simples facto coloca o Trumpismo ao lado do Hitlerismo. Trump continua no comando: acelerações e travões americanos regulam a agressão genocida de Netanyahu. Tenho sorte: enquanto escrevo, Trump, assustado com a reação dos países árabes ao ataque israelita ao Qatar, e em particular com a aliança estratégica entre a Arábia Saudita e o Paquistão, está a recuar. Ordena a Netanyahu que peça desculpa pelo bombardeamento do Qatar, e Netanyahu obedece. Trump impõe um acordo com o Hamas a Israel, e Netanyahu assina. O que vem a seguir? Trump é um pervertido, impossível dizer.

 

O conceito de Trumpo-Netanyahuismo, algo feio, admito, permite-nos identificar a questão judaica como uma semelhança entre a crise americana dos anos 2000-2025 e a crise alemã dos anos 1920-1945.

 

Na minha opinião, a postura radical pró-Israel do Trumpismo mascara um antissemitismo visceral e cruel: a identificação de todos os judeus com o Netanyahuismo, um fenómeno histórico verdadeiramente monstruoso e um cancro na história judaica, servirá apenas para renovar a conceção nazi de um povo judeu monstruoso. Falo aqui do antissemitismo 2.0.

 

[…] Graças a Trump, o planeta inteiro está a tornar-se antissemita. Os judeus americanos, cuja maioria rejeita a linha de Netanyahu, estão mais sábios e justos. Mas os judeus hostis a Netanyahu, académicos ou não, já são suspeitos pelas autoridades de serem antissemitas. A perversidade reina. O trumpismo reina.

]…} Na verdade, o mero regresso da obsessão judaica ao coração do Ocidente valida a hipótese de uma continuidade ameaçadora entre o passado e o presente.

 

Protestantismo e nazismo zombies, protestantismo zero e trumpismo.

 

A crise económica de 1929 foi um fator determinante bem conhecido na hitlerização da Alemanha. Seis milhões de desempregados fizeram com que a sociedade alemã escapasse a qualquer recuo ideológico. A eliminação do desemprego por Hitler numa questão de meses selou o destino do liberalismo.

 

O contexto religioso da ascensão do nazismo, igualmente importante, é menos familiar: entre 1870 e 1930, a fé protestante desapareceu na Alemanha, primeiro entre a classe operária, depois entre as classes média e alta. As regiões católicas resistiram. Em 1932 e 1933, o mapa eleitoral nazi espelhava o do luteranismo com uma precisão fascinante. O protestantismo não acreditava na igualdade dos homens. Havia os eleitos, designados como tal pelo Senhor ainda antes do seu nascimento, e os condenados. Uma vez desaparecida a crença metafísica protestante, o que ficou foi a histeria provocada pelo medo do vazio deixado pelo seu conteúdo desigual, com judeus, eslavos e tantos outros como condenados. Nos Estados Unidos, o protestantismo de origem calvinista tinha como alvo os negros. O povo calvinista, fixado na Bíblia, identificava-se com os hebreus, o que limitava o antissemitismo americano na década de 1930 e protegia os judeus. Ora, protegia-os até ao recente surgimento da fixação evangélica no Estado de Israel.

 

Na França católica (particularmente na Bacia de Paris e na costa do Mediterrâneo), o colapso da fé e da prática religiosa a partir de 1730 transformou a igualdade de oportunidades de acesso ao paraíso (obtida pelo batismo, que lava o pecado original) em igualdade entre os cidadãos e na emancipação dos judeus. A ideia republicana do homem universal substituiu a do cristão católico universal (katholikos significa universal em grego). Este foi um programa muito diferente do nazismo, mas representou, muito antes do nazismo, a primeira substituição massiva de uma religião por uma ideologia. Na França revolucionária, assim como na Alemanha nazi, contudo, o potencial de orientação social e moral proporcionado pela religião sobreviveu à crença: os indivíduos permaneceram membros da sua nação e da sua classe, mantendo uma ética de trabalho e um sentido de obrigação para com os membros do seu grupo. A capacidade de ação coletiva era forte, talvez dez vezes superior. É o que chamo de estágio zombie da religião. O nazismo correspondeu a este estádio zombie, daí, infelizmente, a sua eficácia económica e militar.

 

Poderia complementar esta explicação religiosa da ideologia com uma explicação da própria religião, influenciada pelas estruturas familiares subjacentes, que eram desiguais na Alemanha e igualitárias na Bacia de Paris. Mas aqui podemos contentar-nos com uma continuidade do protestantismo ao nazismo e do catolicismo à Revolução Francesa.

 

Encontramos o protestantismo no Trumpismo. Encontramos então a desigualdade associada à negrofobia. No entanto, já não estamos no estágio zombie da religião, mas sim no seu estágio zero. A moral comum desapareceu. A eficiência social desapareceu. O indivíduo flutua, particularmente nesta América de estrutura familiar nuclear absoluta, individualista e sem regras de herança bem definidas. Devemos, portanto, esperar algo diferente da ideologia trumpista: a desigualdade habitual, mas menos estabilidade no delírio, oscilações brutais que não têm origem fundamentalmente no cérebro de um presidente vulgar e cruel, mas na própria sociedade. Felizmente para nós, a capacidade de ação coletiva, económica e militar é bastante reduzida.

 

No caso do Trumpismo, devemos notar o aparecimento de formas niilistas pseudo-religiosas que incluem uma reinterpretação obscena da Bíblia, como a glorificação dos ricos. Significativamente mais fraco do que o nazismo em termos de racismo, o Trumpismo vai mais além na sua imoralidade económica.

 

O nazismo era simples e explicitamente anticristão. O Trumpismo diz-se religioso, mas à maneira de um culto satânico, através da inversão de valores. O mal é o bem, a injustiça é a justiça. Hitler era apenas o Führer, o guia do povo alemão para o seu martírio; Trump não é Satanás, mas suspeito que, para os seus fãs satanistas, o seu boné vermelho é o do Anticristo.

 

No caso do Le Penismo, não existe uma herança protestante desigual. Este é o verdadeiro mistério do Rali Nacional: xenófobo, nasceu em território católico. Pior ainda, os seus primeiros redutos, na costa mediterrânica e na bacia de Paris, foram os da Revolução: igualitários em termos de vida familiar e descristianizados desde o século XVIII. Então? O Rali Nacional é desigual? Igualitário? Um mistério para nós, o Rali Nacional é provavelmente também um mistério para si próprio. A sua rejeição do outro decorre de um igualitarismo perverso que exige a rápida assimilação dos imigrantes, em vez de os perceber como fundamentalmente diferentes. Acima de tudo, o RN, fortemente determinado pela sua rejeição dos imigrantes e até dos seus filhos, é constantemente recordado da tradição igualitária francesa, pois os seus eleitores odeiam os ultrarricos, os poderosos, em suma, as nossas elites estúpidas, e não apenas os imigrantes. É por isso que a união da direita luta para ter sucesso em França. De uma forma ou de outra, a união dos oligarcas e do povo (branco) contra os estrangeiros não representa problemas nos Estados Unidos, no Reino Unido ou na Escandinávia, onde as forças populares conservadoras e as forças da direita clássica concordam facilmente. Em França, a coligação dos ricos e dos pobres contra os estrangeiros é ilusória.

 

No entanto, não devemos subestimar a potencial violência de uma forma universalista de xenofobia. Ela pode facilmente transformar-se em racismo. Se um homem acredita a priori que todos os homens são iguais em toda a parte e se vê confrontado com homens com costumes diferentes, pode muito bem concluir que não são homens.

 

A RN é o produto do catolicismo zero, tal como a Revolução foi o produto do catolicismo zombie. É por isso que ela não dará origem a nenhum projeto coletivo. Deixarei um exame detalhado da RN e da sua relação com o futuro para um texto futuro […] que dedicarei inteiramente à lógica e à dinâmica internas do caos francês.

 

Psiquiatria das classes médias altas.

 

Chego agora a uma diferença crucial, que deveria ser óbvia para todos e apontada pelos comentadores políticos que nos remetem constantemente para 1930 com o seu vocabulário. Compreender a dimensão religiosa, ou pós-religiosa, do Hitlerismo, do Trumpismo ou do Le Penismo pressupõe um conhecimento histórico que não se pode esperar dos comentadores políticos na televisão. Por outro lado, podemos esperar que sejam capazes de situar socialmente as ideologias do passado e do presente, que agrupam implacavelmente sob o termo "extrema-direita". A diferença entre o passado e o presente é aqui muito clara.

 

O nazismo e os movimentos de extrema-direita do período pré-guerra encontraram o seu epicentro social nas classes médias, particularmente nas classes médias altas, que se sentiam ameaçadas pelos movimentos operário, social-democrata e comunista. Estas classes médias estavam febris, ocupadas em prender as suas mulheres e perseguir os homossexuais. Hoje, pelo contrário, os chamados movimentos de extrema-direita encontram o seu epicentro nos círculos da classe operária, particularmente num mundo operário empobrecido, abalado ou destruído pela globalização económica e ameaçado pela imigração. As classes médias atuais, amplamente definidas pelo ensino superior, são menos ou mesmo ligeiramente afetadas pela "extrema-direita". As classes médias altas, que combinam o ensino superior e os rendimentos elevados, são particularmente imunes.

 

É por isso que prefiro falar de conservadorismo popular em vez de extrema-direita. As suas raízes no grupo dominado explicam a natureza defensiva do conservadorismo popular. Os seus eleitores não conseguem imaginar conquistar a Europa ou o mundo se encararem as suas próprias vidas como uma questão de sobrevivência.

 

O verdadeiro erro intelectual seria ficar por aí. Continuemos a avançar, invertendo até o problema da associação entre ideologia e classe. Comparamos as ideologias do presente com as do passado; agora, comparemos as classes do presente com as do passado.

 

Algumas classes médias europeias entre guerras enlouqueceram. A classe operária era mais sensata. Mas será que as classes médias de hoje, particularmente as classes médias altas, são sensatas? São pacíficas? Quais são os seus sonhos?

 

São loucas. A construção de uma Europa pós-nacional é um projeto delirante, considerando a diversidade do continente. Levou à expansão da União Europeia, remendada e instável, para o antigo espaço soviético. A UE é agora russofóbica e belicista, com a sua agressividade renovada pela derrota económica às mãos da Rússia. A UE está a tentar arrastar os britânicos, franceses, alemães e muitos outros povos para uma guerra a sério. Mas que guerra estranha seria, em que as elites ocidentais adotariam o sonho de Hitler de destruir a Rússia!

 

A comparação por classe social permite-nos, pois, um grande avanço intelectual. O Europeísmo, e, portanto, o Macronismo, inscrevem-se, pela sua agressividade externa, ao lado do nacionalismo, ao lado da extrema-direita pré-guerra. Se a isto acrescentarmos as violações cada vez mais massivas e sistemáticas da liberdade de informação e do sufrágio popular no seio da UE, aproximamo-nos ainda mais da noção de extrema-direita. Fundada como uma associação de democracias liberais, a Europa está a transformar-se num espaço de extrema-direita. Sim, a comparação com a década de 1930 é útil, até indispensável.

 

No grandioso projeto europeísta, encontramos uma dimensão psicopatológica já observável no hitlerismo: a paranoia. A paranoia europeísta centra-se na Rússia. A paranoia nazi fez da ameaça judaica uma prioridade, sem, contudo, descurar o bolchevismo russo (conhecido como judaico-bolchevismo).

 

Hoje, como ontem, podemos, pois, analisar a psicopatologia das classes dominantes europeias. A bizarra sequência de acontecimentos que começou com a eleição de Trump, com o desejo instável do presidente de dialogar com Putin, permitiu-nos acompanhar em tempo real a perda de contacto dos nossos próprios líderes com a realidade. Resumamos o nosso processo delirante. Começou por volta de 2014, antes, durante e depois do Maidan, o golpe de Estado que desintegrou a Ucrânia, controlado remotamente por estrategas americanos e alemães.

 

[…] A transição dos governos europeus para uma realidade paralela começa em 202:

- “Tiremos da nossa derrota a ideia de que podemos finalmente impor a nossa vontade e instalar as nossas tropas na Ucrânia, para anexar o que resta dela à UE. Mas como não pensar em Hitler fechado no seu bunker em 1945, a dar ordens a exércitos que já não existem?”

 

Hoje, na Europa, lidamos com loucos, ou melhor, com uma loucura coletiva que se apoderou em massa de indivíduos das classes sociais dominantes. Só em França, milhares de jornalistas, políticos, académicos, líderes empresariais e altos funcionários públicos participam na alucinação coletiva de uma Rússia que desejaria conquistar a Europa (paranoia). Nenhum indivíduo pode ser responsabilizado pessoalmente. Estamos a lidar com uma dinâmica psicológica coletiva.

 

Estou convencido que a diminuição do indivíduo nascido do estado zero da religião explica o aparecimento destes cardumes de peixes russofóbicos.

 

Como expliquei em Les Luttes de classes en France au XXIème siècle, o desaparecimento das crenças coletivas – crenças religiosas e, mais tarde, crenças ideológicas do Estado religioso zombie – levou ao colapso do superego humano. Ao contrário dos ativistas pela libertação do ego, não defino o superego como única ou principalmente repressivo. O superego, enquanto ideal do ego, ancora valores morais e sociais positivos na pessoa. As noções de honra, coragem, justiça e honestidade encontram a sua origem e força no superego. Se ele enfraquece, elas enfraquecem. Se ele desaparece, elas desaparecem. No final, portanto, a humanidade não foi libertada pelo fim da religião e das ideologias, mas sim diminuída. São homens e mulheres altamente educados, moral e intelectualmente atrofiados pela ausência de religião, que são, em massa, portadores da patologia russofóbica.

 

Os antissemitas nazis tinham uma constituição psicológica completamente diferente. A morte de Deus, para citar Nietzsche, lançou-os certamente em busca de um Führer, mas não careciam de superego e permaneciam capazes de ação coletiva. A trágica atuação do exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial é disso testemunha. Quem ousaria hoje imaginar as nossas classes médias altas a correr para a morte, à frente dos seus povos, em direção a Kiev e Kharkov? A nossa guerra na Ucrânia é uma brincadeira, um produto da emancipação do eu, fruto do desenvolvimento pessoal. Só ucranianos e russos morrerão.

 

A não ser que...

 

As trocas termonucleares podem prescindir de heróis.

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