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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(479) Útil, para quem?

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

Sobre a procura do saber sem objetivo prático imediato como forma de preservar a dignidade humana.

 

Os “homens livres” são os que não têm problemas de tempo e não têm de prestar contas a ninguém, Sócrates.

 

Onde “exista a propriedade privada […] tudo se mede pelo dinheiro, Tomás Moro.

 

Não há nada inútil, nem sequer a própria inutilidade, Montaigne.

 

Onde não há humor, onde não há risos, há cólera e ódio, Ionesco.

 

 

 

O inútil

 

Publicado em 2013, L’utilità dell’inutile, é um pequeno e compacto livro, onde o pensador italiano Nuccio Ordine nos presenteia com uma erudita coleção de opiniões de reconhecidos filósofos e escritores sobre a importância da procura do saber sem objetivo prático imediato como forma de preservar a dignidade humana, tentando assim contrariar aquele conceito muito arreigado nos tempos em que vivemos de que o útil vem sempre associado a tudo o que nos ajuda a ser melhores.

 

Começa pelo Teeteto, onde Platão põe Sócrates a distinguir entre “escravos” e “homens livres”, segundo os que frequentam os tribunais e os que se dediquem exclusivamente à filosofia:

 

Aos que têm andado desde muito jovens pelos tribunais e lugares semelhantes parecem ter sido educados como escravos, se os compararmos aos homens livres, educados na filosofia e nesta classe de ocupações” (Teeteto, 172cd).

 

 

 

Os “homens livres” serão os que não têm problemas de tempo e não têm de prestar contas a ninguém, ao passo que os “escravos” estão condicionados pela clepsidra e por um amo que decide.

Pelo que os escravos, animados pelo objetivo que perseguem, “sabem como adular o seu amo com palavras e seduzi-lo com obras”, renunciando assim a toda a retidão:

 

A escravidão que sofreram desde jovens arrebatou-lhes a grandeza de alma, bem como a honestidade e a liberdade […] Entregues assim à mentira e a injúrias mútuas, tantas vezes se curvam e se torcem, que chegam à madurez sem nada são no pensamento. Eles, contudo, acreditam que se tornaram hábeis e sábios” (173a-b).

 

Também Aristóteles, na sua Metafísica, vai afirmar com clareza que a ideia do conhecimento nos seus graus mais altos não tem nada a ver com uma “ciência produtiva”, e que a cultura deve ser preservada da força corrosiva do dinheiro e do benefício:

 

“[os homens] filosofam para fugir da ignorância, claramente buscam o saber com vista ao conhecimento, e não por alguma utilidade”.

 

Sobre a inutilidade das artes, vai ser Ovídio o mais assertivo quando numa das Epistulae ex Ponto escreve:

 

Por mais que te esmeres a tentar encontrar o que posso fazer, não haverá nada mais útil que estas artes, que não têm qualquer utilidade

 

Embora considerando, talvez, como um remédio para a dor do exílio em que fora colocado, sabe que da poesia não se podia extrair nenhuma vantagem. Até pelo contrário, foram os seus versos que ocasionaram o seu infortúnio. E, à pergunta dum amigo sobre as razões porque continuava a escrever:

 

Do mesmo modo, conservo com constância, esta afeição inútil.”

 

Nuccio Ordine vai também citar escritores utópicos do século XVI, autores que mostram os efeitos e as contradições de uma sociedade europeia que perdeu os valores essenciais da vida e da solidariedade humana. Inevitavelmente Tomás Moro (Utopia, 1516), que põe os habitantes da sua ilha como detestando de tal maneira o ouro que o utilizam para fazer urinóis.

Para Moro, onde “exista a propriedade privada […] tudo se mede pelo dinheiro”, impedindo “que no estado reinem a justiça e a prosperidade”:

 

A não ser que se considere justo um Estado em que o melhor pertence aos piores e próspero um país em que um punhado de indivíduos repartam entre si todos os bens

 

Para Tommaso Campanella (A Cidade do Sol, 1623), são a propriedade privada e o afã de possuir, as causas principais da corrupção, estando convencido que “as riquezas [que fazem os homens] insolentes, soberbos, ignorantes, traidores, falsos de amor, presunçosos da sua ignorância”. Os solares viajam apenas para adquirirem novos conhecimentos.

 

Já para Francis Bacon, na sua Nova Atlântida (1617), a propriedade privada não era proscrita, os seus habitantes não comerciam “por ouro, prata ou joias, nem por sedas, nem por especiarias”, mas apenas para aumentar o conhecimento, para recolher informação sobre “invenções de todo o mundo” e para procurar “livros”.

Perseguir o bem-estar, permitir a circulação do ouro e prata, significa também ajustar contas com as ambiguidades da técnica e com os perigos da corrupção.

 

E Montaigne, nos Ensaios (1580-1588), diz-nos: “Assim, leitor, sou eu mesmo a matéria do meu livro: não é razoável que empregues o teu tempo num assunto tão frívolo e tão vão”. Um livro inútil, portanto, que se concebe numa biblioteca construída precisamente donde antes existira um guarda-fatos, “o lugar mais inútil da casa”.

Montaigne passa o tempo, em solidão, a estudar para se divertir e não para ganhar alguma coisa: “Neste momento estudo para me distrair; nunca por ganância”. Sabe perfeitamente que a filosofia é considerada como coisa “de nula utilidade e de valor nulo”. Para concluir que “não há nada inútil, nem sequer a própria inutilidade.”

 

Immanuel Kant, vai associar a ideia de desinteresse ao juízo estético. É na Crítica da Faculdade do Juízo (1790), que liga o interesse ao prazer e à existência do objeto: dado que “todo o interesse pressupõe uma necessidade ou a produz e, como fundamento da determinação do aplauso, já não deixa que o juízo sobre o objeto seja livre”. Daí que “o gosto no belo é o único comprazimento desinteressado e livre, pois não há qualquer interesse, nem o dos sentidos nem o da razão, que arranque o aplauso”.

É com base nesta noção de desinteresse que vai formular a sua célebre definição do gosto:

 

Gosto é a faculdade de julgar um objeto ou uma representação mediante uma satisfação ou um descontento, sem interesse nenhum. O objeto de semelhante satisfação chama-se belo.”

 

Com o desenvolvimento das teorias utilitaristas, Nuccio vai discorrer sobre Théophile Gautier, cujo prefácio à sua novela Mademoiselle de Maupin, (1834), acaba por ser considerado como o manifesto da “Arte pela Arte”, reação de uma geração em revolta contra os que “têm a pretensão de ser economistas e de querer reconstruir a sociedade de cima abaixo”:

 

Não, imbecis, não, cretinos e papudos como sois, um livro não faz sopa de gelatina; uma novela não é um par de botas descosidas […] um drama não é uma via férrea, todas elas coisas essencialmente civilizadoras e que fazem com que a humanidade avance pelo caminho do progresso”.

 

Segue-se-lhe Baudelaire, que na sua crítica social à sociedade que tudo condenava “salvo o dinheiro” e onde qualquer coisa que “se assemelhe à virtude” era considerada “imensamente ridícula”, levaria a justiça dessa sociedade a “proibir a existência de cidadãos incapazes de se enriquecerem”. A corrupção tomará conta das famílias ao ponto das mulheres e filhas se converterem em vis mercadorias comerciáveis:

 

A tua esposa, Oh. Burguês! Tua casta metade, cuja honra é para ti o fundamento da poesia, ao introduzir na legalidade uma infâmia reprovável, guarda vigilante e amorosa da tua caixa forte, passará a ser o ideal perfeito da mulher mantida. A tua filha, com nubilidade infantil, sonhará desde o berço que se vende por um milhão. E tu mesmo, oh. Burguês, serás incapaz de dizer qualquer coisa; mas tal não te pesará o mínimo.”

 

Na sociedade contemporânea, Nuccio escolhe Martin Heidegger para expressar a dificuldade geral para se entender qualquer coisa que não implique o uso prático e imediato para fins técnicos:

 

O mais útil é o inútil. Mas experienciar o inútil é o mais difícil para o ser humano atual. Entende-se o “útil” como o utilizável praticamente, imediatamente, para fins técnicos, para o que consegue algum efeito com o qual eu possa fazer negócios e produzir. Deve-se ver o útil como o curativo, isto é, o que leva o ser humano a si mesmo”.

 

Eugène Ionesco, numa conferência em fevereiro de 1961, entende que para uma humanidade extraviada que perdeu o sentido da vida, a inutilidade torna-se insubstituível:

 

Olhai as pessoas que correm afanosamente pelas ruas. Não olham nem para a esquerda, nem para a direita, com rostos preocupados, olhos fixos no chão como os cães. Lançam-se para a frente, sem sequer olhar, pois percorrem maquinalmente o trajeto conhecido de antemão. Em todas as grandes cidades do mundo passa-se o mesmo. O homem moderno, universal, é o homem sem tempo, prisioneiro da necessidade, não compreende que algo possa não ser útil; não compreende tão-pouco que, no fundo, o útil possa ser um peso inútil, esgotante. Se não se compreende a utilidade do inútil, a inutilidade do útil, não se compreende a arte. E um país onde não se compreende a arte é um país de escravos ou de robôs, um país de gente sem dedicação, de gente que não ri nem sorri, um país sem espírito: onde não há humor, onde não há risos, há cólera e ódio”.

 

Mas, contudo, o herói por excelência da inutilidade é o mítico don Quijote. Todas as suas empresas são inspiradas pela gratuidade, pela única necessidade de servir com entusiasmo os seus ideais. Herói do inútil e do gratuito:

 

Pero no es merecedora la depravada edad nuestra de gozar tanto bien como el que gozaron las edades donde los andantes caballeros tomaron a su cargo y echaron sobre sus espaldas la defensa de los reinos, el amparo de las doncellas, el socorro de los huérfanos y pupilos, el castigo de los soberbios y el premio de los humildes.”

 

 

O útil

 

Noticiado pela Bloomberg, num artigo de Spencer Soper de 28 de junho de 2021: “Despedido por um bot na Amazon: Tu contra a máquina”:

 

Stephen Normandin passou quase quatro anos em Phoenix entregando encomendas como camionista contratado pela Amazon.com Inc. Até que um dia, recebeu um email automático. Os algoritmos que o seguiam decidiram que ele não estava a fazer corretamente o seu trabalho.”

 

Os camionistas estão a serem despedidos por algoritmos, via email, mesmo quando não fazem nada de errado.

Numa das maiores empresas da indústria de jogos, a Xsolla, 150 empregados foram despedidos por email, conforme relata Andy Brown a 9 de agosto de 2021 no NME. O email dizia o seguinte:

 

“You received this email because my big data team analyzed your activities in Jira, Confluence, Gmail, chats, documents, dashboards and tagged you as unengaged and unproductive employees. In other words, you were not always present at the workplace when you worked remotely.”

E acrescentava:

“Muitos de vocês podem estar chocados, mas acredito que a Xsolla não é para vocês”, e terminava, após uma listagem dos empregados despedidos, “Se quiserem manter-se em contacto, por favor escrevam uma longa carta com todas as vossas observações, injustiças e gratidão.”

 

E uma das utilidades da IA continua a aperfeiçoar-se, como nos dá conta esta notícia do Business Insider (BI) de 25 de abril de 2024, relata Grace Kay:

 

“A Tesla, demitiu mais de 10% de sua força de trabalho na noite de domingo.

 Alguns empregados da fábrica só perceberam que foram despedidos quando os seus cartões de identificação deixaram de funcionar.

Os empregados da fábrica de Nevada esperaram duas horas para entrar devido à verificação dos cartões de identificação.

 

A Tesla disse aos empregados na noite de domingo que estava a despedir mais de 10% da sua força de trabalho, mas alguns trabalhadores só perceberam que tinham sido despedidos quando compareceram nas instalações da empresa e foram impedidos de entrar pelos cartões de identificação terem sido cancelados.

Os empregados da Tesla que foram despedidos foram avisados por e-mails pessoais na noite de domingo, tendo o seu acesso aos sistemas da Tesla sido de imediato cancelado. O e-mail que Elon Musk enviou para toda a empresa anunciando os cortes foi entregue pouco antes da meia-noite (horário do Pacífico) de domingo, de acordo com um carimbo de data/hora no memorando visto pelo BI.

 

Fizemos uma revisão completa da organização e tomamos a difícil decisão de reduzir o nosso número de funcionários globalmente. Infelizmente, como resultado, a sua posição foi eliminada por esta reestruturação”.

 

Os trabalhadores da Tesla não são os primeiros a descobrir que foram despedidos sem cerimónia quando tentavam aceder ao seu antigo local de trabalho. Também alguns ex-empregados da Google disseram à BI que souberam que tinham sido despedidos quando não se conseguiram identificar no escritório.”

 

 

A inutilidade do inútil

 

 

 

Notas:

Sobre Kant, os juízos sobre o gosto, o sublime e a antinomia do gosto, sugiro o blog de 18 de janeiro de 2023, “Os mediadores na Arte ou a Arte como mediadora”.

 

Sobre a utilização da IA pelos poderes, sugiro o blog e 18 de julho de 2018, “A desculpa da inteligência Artificial”.

 

 

 

 

 

 

 

(478) As narrativas

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Se perdermos o debate intelectual, nunca mais no Ocidente conseguiremos utilizar qualquer exército, Alex Karp, CEO da Palantir.

 

Poder é controlar o que acontece, mas o verdadeiro poder é controlar o que as pessoas pensam sobre o que acontece.

 

Quem controla a narrativa controla o mundo.

 

 

 

 

Parece que o crescente movimento iniciado por estudantes americanos nas suas universidades contra o massacre (des)apoiado pelos EUA em Gaza, tem vindo a preocupar cada vez mais os donos da estrutura global de poder flexivelmente centralizada em Washington, uma vez que os meios de que normalmente se servem para o controlar – propaganda dos meios de comunicação de massa, manipulação algorítmica de Silicon Valley, think tanks patrocinados pela oligarquia, e cultura dominante fabricada em Hollywood e New York -, têm-se até agora mostrado inadequados para conseguirem dissuadir o público de apoiarem os protestos.

 

Para conseguirmos entrever o que os nossos mandantes verdadeiramente pensam, a simples leitura, audição, visualização, dos meios normais de comunicação de massa não é suficiente, e isto porque os próprios arautos e trovadores desses nossos mandantes quando perante um público de pessoas normais se refugiam em cassetes de discursos conscientes.

Pelo que a outra hipótese é ficarmos atentos às conferências e entrevistas que alguns deles dão em locais escolhidos, selecionados, não pertencentes aos grandes meios de comunicação, porque é aí, quando se sentem rodeados pelos que consideram seus iguais, os que pensam como eles, que falam muito mais livremente. Dizem então as verdades que nos querem esconder, evidentemente por não estarmos preparados para as entender. Um velho conceito bem testado.

 

Por exemplo: ouça-se o que o CEO da Palantir, Alex Karp, disse num discurso na Ash Carter Exchange sobre lnovação e Segurança Nacional (8 de maio de 2024) relativamente aos atuais protestos estudantis nas universidades americanas a favor dos palestinos e do cessar fogo em Gaza, em que afirmou que se aqueles que estão do lado dos manifestantes vencerem o debate, o Ocidente perderá a capacidade de vir a travar quaisquer guerras.

 

Para quem não saiba, a Palantir é uma empresa de tecnologia de vigilância e mineração de dados apoiada pela CIA, com ligações íntimas com o cartel de inteligência dos EUA e de Israel, e com um papel crucial tanto na extensa rede de vigilância americana como na israelita. Karp, é um bilionário que faz parte do Comité Diretivo do Grupo Bilderberg e participa regularmente no Fórum Económico Mundial e noutras plataformas de gestão do império.

Eis o que disse Karp:

 

Nós temos a tendência de pensar que estas coisas que estão a acontecer, especialmente nos campos universitários, são como um espetáculo secundário – mas não, elas são o espetáculo”. E seguiu alertando: “Porque se perdermos o debate intelectual, nunca mais no Ocidente conseguiremos utilizar qualquer exército.”

 

Para Karp, é, pois, muito importante que este movimento de protesto e o espírito em que ele se baseia seja esmagado, porquanto a própria existência da máquina de guerra do império depende disso. Esta é uma admissão realmente extraordinária de alguém que faz parte do âmago da estrutura do poder.

 

Outro exemplo: ouçamos também uma conversa (“Israel losing the PR war”, 3 de maio de 2024) entre o Senador Mitt Romney e o Secretário de Estado Antony Blinken no Instituto McCain:

Depois de lamentar a falta de sucesso de Israel na condução das relações públicas (RP) relativamente ao ataque a Gaza, Romney vai candidamente dizer que foi “por isso que houve um apoio tão esmagador para que fechássemos o TikTok ou outras entidades dessa natureza” — com o “nós” estava a referir-se a ele próprio e aos seus colegas legisladores no Capitólio.

 

Como evoluiu essa narrativa, sim, é uma ótima questão”, responde Blinken, fazendo notar que no início da sua carreira em Washington todos obtinham informações a partir da televisão e de jornais físicos como The New York Times, The Wall Street Journal e The Washington Post.

Agora, é claro, estamos a receber informações intravenosas com novos impulsos, entradas a cada milissegundo”, continuou Blinken. “E, claro, a forma como isso apareceu nas redes sociais dominou a narrativa. E agora temos um ambiente de ecossistema de mídia social em que o contexto, a história, os factos se perdem e a emoção, o impacto das imagens domina. E não podemos – não podemos deixar de considerar isso, mas acho que também tem um efeito muito, muito desafiador na narrativa.”

 

Repararam como Blinken utilizou a palavra “narrativa” três vezes? É assim que os gestores de impérios conversam entre si, porque é assim que pensam sobre tudo.

 

Isto ocorre porque os gestores de impérios estão sempre conscientes de algo que os seres humanos normais não têm: que o verdadeiro poder vem da manipulação das histórias — narrativas — que as pessoas contam a si mesmas sobre a sua realidade.

Eles entendem que os humanos são animais contadores de histórias, cujas vidas interiores são tipicamente dominadas por narrativas mentais sobre o que está a acontecer, pelo que se se puder controlar essas narrativas, poder-se-á controlar os humanos.

Eles sabem que o poder controla o que acontece, mas também sabem que o verdadeiro poder é controlar o que as pessoas pensam sobre o que acontece.

Eles sabem que quem controla a narrativa controla o mundo.

 

E alguns manipuladores inteligentes compreendem que é possível controlar uma sociedade controlando as suas narrativas dominantes.

Os governantes não pensam nas coisas como as pessoas normais pensam. Eles não pensam em fazer o que é certo ou em agir de uma forma que beneficie a todos. Eles não pensam em termos de verdade e honestidade ou na falta delas. Eles só pensam em termos das histórias que as pessoas contam umas às outras e como essas histórias poderão ser alteradas de forma a que promovam os interesses do império que gerem.

 

Os administradores dos impérios – e as pessoas altamente manipuladoras em geral – não usam a linguagem da mesma maneira que as pessoas normais a usam. Os seres humanos normais usam a linguagem para se ligarem e comunicarem, enquanto que os manipuladores usam-na apenas para extrair das pessoas o que desejam para poderem exercer o seu controle sobre elas. É isso que eles fazem ao trabalhar para controlarem as narrativas que as pessoas têm sobre a sua realidade material.

É por isso que quando Romney e Blinken conversam entre si sobre a razão pela qual as pessoas estão tão indignadas com Israel, nunca lhes ocorre discutir sobre como a imagem pública de Israel está a ser prejudicada pelas suas próprias ações, ou mesmo sequer sugerir que essa imagem poderia ser melhorada se Israel deixasse de se comportar da forma que está a fazer.

Eles falam é sobre “a narrativa” do que Israel está a fazer, e de como as pessoas que têm a capacidade de partilhar ideias e informações umas com as outras online tornam essa narrativa mais difícil de controlar.

 

Assim, enquanto as pessoas normais olham para a catástrofe humana e o horror em Gaza e gritam em voz alta que é preciso parar, os governantes ouvem e pensam: “Ah, não, precisamos é de encontrar uma forma de os fazer parar de acreditar nessa narrativa e fazê-los acreditar numa outra.”

 

É por isso que temos vindo a assistir a todas estas tentativas que estão a ser feitas para acabar com a liberdade de expressão, tanto em manifestações como online. Porque julgam que se perderem o controle da narrativa, não mais conseguirão mobilizar os seus exércitos.

 

 

Notas:

 

Sobre narrativas, provérbios, ditos populares, ver o blog de 26 de julho de 2017, “Osenso comum’ que nos tem permitido sobreviver”.

 

Sobre o controle exercido pelos meios de comunicação social, ver o blog de 29 de março de 2017, “Fábricas de papas e bolos”.

A que não posso deixar de acrescentar uma célebre entrevista feita a 31 de agosto de 2016 por Andrew Marr da BBC a Noam Chomsky (Noam Chomsky on Propaganda, The Big Idea, Interview with Andrew Marr) em que Chomsky estava a explicar que era uma falsa imagem o acreditar-se que os jornalistas dos grandes meios de comunicação fossem verdadeiros “cruzados da profissão” e “adversários que se levantavam contra o poder”, por tal ser impossível nos grandes meios de comunicação do Ocidente.

Ao que Marr objetou: “Como é que sabe que eu me autocensuro? Como é que sabe que os jornalistas são-“

Eu não estou a dizer que se autocensura”, replicou Chomsky. “Estou certo que você acredita em tudo o que diz. Mas o que eu estou a dizer é que se você acreditasse em algo de diferente, certamente não estaria sentado nesse lugar onde está”.

 

E já que estamos a relembrar Chomsky, ouçamo-lo:

 

A maneira inteligente para manter as pessoas passivas e obedientes é limitar estritamente o espectro de opiniões aceitáveis, mas permitir um debate muito animado dentro desse espectro — encorajar até mesmo as opiniões mais críticas e dissidentes. Isso dá às pessoas a sensação de que existe um pensamento livre, ao mesmo tempo que os pressupostos do sistema são reforçados pelos limites impostos ao alcance do debate.”

“The smart way to keep people passive and obedient is to strictly limit the spectrum of acceptable opinion, but allow very lively debate within that spectrum — even encourage the more critical and dissident views. That gives people the sense that there’s free thinking going on, while all the time the presuppositions of the system are being reinforced by the limits put on the range of the debate.”

 

Ver ainda um interessante artigo de Caitlin Johnstone “15 Reasons why Media don’t do Jounalism”, de 5 de junho de 2023.

 

Sobre a Palantir, ver o blog de 30 de agosto de 2017, “Aquele que vê de longe”.

E ainda o bem informado e pormenorizado estudo de 17 de abril de 2024 de Roberto González, “How Big Tech and Silicon Valley are Transforming the Military-Industrial Complex”, pp 14-16.

 

 

(478)

(477) As Bem-Aventuranças

Tempo estimado de leitura: 10 minutos.

 

A igreja hoje não está localizada em casas de culto cavernosas e em grande parte vazias, mas aqui, com vocês, com aqueles que exigem justiça, aqueles cujo credo não oficial são as Bem-Aventuranças, Chris Hedges.

 

Resistir ao mal radical […] é suportar uma vida que, pelos padrões da sociedade em geral, é um fracasso, Chris Hedges.

 

Jesus, se vivesse na sociedade contemporânea, seria indocumentado, Chris Hedges.

 

 

 

 

No domingo de 28 de abril de 2024, Chris Hedges (1) proferiu um sermão, num serviço religioso organizado por alunos do Seminário Teológico de Princeton, realizado no acampamento por Gaza na Universidade de Princeton.

 Aqui se transcreve a maior parte desse sermão por Gaza:

 

 

“Nos conflitos que cobri como repórter na América Latina, em África, no Médio Oriente e nos Balcãs, encontrei indivíduos singulares de vários credos, religiões, raças e nacionalidades que se levantaram majestosamente para desafiar o opressor em nome dos oprimidos. Alguns deles estão mortos. Alguns deles são esquecidos. A maioria deles é desconhecida.

 

Estes indivíduos, apesar das suas vastas diferenças culturais, tinham características comuns – um profundo compromisso com a verdade, incorruptibilidade, coragem, uma desconfiança relativamente ao poder, ódio à violência e uma profunda empatia que se estendia a pessoas que eram diferentes deles, até mesmo a pessoas definidas pela cultura dominante como inimigas. Eles são os homens e mulheres mais notáveis ​​que conheci nos meus 20 anos como correspondente no estrangeiro. Estabeleci a minha vida de acordo com os padrões que eles estabeleceram.

 

Já ouviram falar de alguns, como Vaclav Havel, com quem eu e outros repórteres estrangeiros nos encontrávamos quase todas as noites, durante a Revolução de Veludo de 1989 na Checoslováquia, no Teatro das Lanternas Mágicas em Praga. Outros, não menos importantes, provavelmente não conhecem, como o padre jesuíta Iganacio Ellacuria, que foi morto a tiros pelos esquadrões da morte em El Salvador em 1989. E há também aquelas pessoas “comuns”, embora, como disse o escritor V.S. Pritchett, nenhuma pessoa é comum, que arriscaram as suas vidas em tempos de guerra para abrigar e proteger aqueles de uma religião ou etnia oposta que estavam a serem perseguidos e caçados. E a algumas dessas pessoas “comuns” devo eu a minha própria vida.

 

Resistir ao mal radical, como vocês estão a fazer, é suportar uma vida que, pelos padrões da sociedade em geral, é um fracasso. É desafiar a injustiça à custa da vossa carreira, da vossa reputação, da vossa solvência financeira e, por vezes, da vossa vida. É ser um herege para o resto da vida. E, talvez este seja o ponto mais importante, é aceitar que a cultura dominante, mesmo as elites liberais, irão empurrá-los para as margens e tentar desacreditar não só o que vocês fazem, mas o vosso carácter. Quando voltei à redação do The New York Times depois de ser vaiado no início da minha comissão em 2003 por denunciar a invasão do Iraque e de ser publicamente repreendido pelo jornal pela minha posição contra a guerra, repórteres e editores que conheci e com quem trabalhei durante 15 anos baixaram a cabeça ou voltavam-se quando eu estava por perto. Eles não queriam ser contaminados pelo mesmo vírus do contágio que mata-carreiras.

 

 

As instituições governantes – o Estado, a imprensa, a Igreja, os tribunais, as universidades – falam a linguagem da moralidade, mas servem as estruturas de poder, por mais venais que sejam, que lhes proporcionam dinheiro, estatuto e autoridade. Todas estas instituições, incluindo a academia, são cúmplices através do seu silêncio ou da sua colaboração ativa com o mal radical. Isto foi verdade durante o genocídio que cometemos contra os nativos americanos, a escravatura, a caça às bruxas durante a era McCarthy, os direitos civis e os movimentos antiguerra e a luta contra o regime de apartheid da África do Sul. Os mais corajosos são expurgados e transformados em párias.

 

Todas as instituições, incluindo a Igreja, escreveu certa vez o teólogo Paul Tillich, são inerentemente demoníacas. E uma vida dedicada à resistência tem que aceitar que uma relação com qualquer instituição é muitas vezes temporária, porque mais cedo ou mais tarde essa instituição vai exigir atos de silêncio ou de obediência que a sua consciência não lhe permitirá fazer.

 

[…] Reinhold Niebuhr rotulou esta capacidade de desafiar as forças da repressão como “uma loucura sublime na alma”. Niebuhr escreveu que “nada além da loucura lutará contra o poder maligno e a ‘maldade espiritual em lugares elevados’”. Essa loucura sublime, como Niebuhr entendia, é perigosa, mas é vital. Sem ela, “a verdade fica obscurecida”. E Niebuhr também sabia que o liberalismo tradicional era uma força inútil em momentos de crise. O liberalismo, disse Niebuhr, “carece do espírito de entusiasmo, para não dizer fanatismo, que é tão necessário para tirar o mundo dos seus caminhos habituais. É demasiado intelectual e pouco emocional para ser uma força eficiente na história.

 

Os profetas da Bíblia Hebraica tinham essa loucura sublime. As palavras dos profetas hebreus, como escreveu o rabino Abraham Heschel, foram “um grito no meio da noite. Enquanto o mundo está tranquilo e adormecido, o profeta sente a explosão do céu.” O profeta, porque viu e enfrentou uma realidade desagradável, foi, como escreveu Heschel, “compelido a proclamar exatamente o oposto do que seu coração esperava”.

 

Esta loucura sublime é a qualidade essencial para uma vida de resistência. É a aceitação de que quando você está ao lado dos oprimidos, você será tratado como oprimido. É a aceitação de que, embora empiricamente tudo o que lutamos para alcançar durante a nossa vida possa ser pior, a nossa luta valida-se.

 

O padre católico radical Daniel Berrigan – que foi condenado a três anos numa prisão federal por queimar registos de recrutamento militar durante a guerra do Vietname – disse-me que a fé é a crença de que o bem atrai o bem. Os budistas chamam isso de karma. Mas ele disse que para nós, como cristãos, não sabíamos para onde isso iria. Confiávamos que isso iria para algum lugar. Mas não sabíamos para onde. Somos chamados a fazer o bem, ou pelo menos o bem na medida em que podemos determiná-lo, e depois deixá-lo ir.

 

Como escreveu Hannah Arendt, as únicas pessoas moralmente fiáveis ​​não são aquelas que dizem “isto é errado” ou “isto não deve ser feito”, mas sim aquelas que dizem “não posso”. Eles sabem que, como escreveu Immanuel Kant: “Se a justiça perecer, a vida humana na terra perderá o seu significado.” E isto significa que, tal como Sócrates, devemos chegar a um ponto em que é melhor sofrer o mal do que fazer o mal. Devemos ver e agir ao mesmo tempo, e dado o que significa ver, isso exigirá a superação do desespero, não pela razão, mas pela fé.

 

Eu vi nos conflitos que cobri o poder desta fé, que está fora de qualquer credo religioso ou filosófico. Esta fé é o que Havel chamou no seu ensaio “O Poder dos Impotentes”, o viver na verdade. Viver na verdade expõe a corrupção, as mentiras e o engano do Estado. É uma recusa em fazer parte da charada.

 

James Baldwin, filho de um pregador e ele próprio um pregador por um breve período, disse que abandonou o púlpito para pregar o Evangelho. O Evangelho, sabia-o, não era ouvido na maioria dos domingos nas casas de culto cristãs.

 

A igreja hoje não está localizada em casas de culto cavernosas e em grande parte vazias, mas aqui, com vocês, com aqueles que exigem justiça, aqueles cujo credo não oficial são as Bem-Aventuranças:

 

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão satisfeitos. Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos e filhas de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguições por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.

 

Jesus, se vivesse na sociedade contemporânea, seria indocumentado. Ele não era cidadão romano. Viveu sem direitos, sob ocupação romana. Jesus era uma pessoa de cor. Os romanos eram brancos. E os romanos, que vendiam a sua própria versão de supremacia branca, pregavam as pessoas de cor em cruzes quase com a mesma frequência com que acabamos com elas com injeções letais, baleamo-las nas ruas, trancafiámo-las em jaulas ou massacramo-las em Gaza. Os romanos mataram Jesus como um insurrecional, um revolucionário. Eles temiam o radicalismo do Evangelho cristão. E eles estavam certos em temer isso. O estado romano via Jesus da mesma forma que o estado americano via Malcolm X e Martin Luther King Jr. Então, como agora, os profetas foram mortos.

 

A Bíblia condena inequivocamente os poderosos. Não é um manual de autoajuda para se ficar rico. Não abençoa a América ou qualquer outra nação. Foi escrito para os sem poder, para aqueles que James Cone chama de “crucificados da terra”. Foi escrito para dar voz e afirmar a dignidade daqueles que estão a ser esmagados pelo poder e pelos impérios malignos.

 

Não há nada fácil na fé. Exige que destruamos os ídolos que nos escravizam. Exige que morramos para o mundo. Exige autossacrifício. Exige resistência. Chama-nos a vermo-nos nos miseráveis ​​da terra. Isso separa-nos de tudo o que nos é familiar. Sabe que assim que sentirmos o sofrimento dos outros, agiremos.

 

Mas, e o preço da paz?” pergunta Berrigan no seu livro “No Bars to Manhood”.

 

Penso nas pessoas boas, decentes e amantes da paz que conheci aos milhares. Quantos delas estão tão afligidos pela doença devastadora da normalidade que, mesmo quando declaram a paz, as suas mãos estendem-se com um espasmo instintivo... na direção do seu conforto, da sua casa, da sua segurança, do seu rendimento, do seu futuro, dos seus planos - aquele plano de estudos de cinco anos, aquele plano de dez anos de estatuto profissional, aquele plano de crescimento e unidade familiar de vinte anos, aquele plano de cinquenta anos de vida decente e morte natural honrosa. “Claro, tenhamos paz”, gritamos, “mas ao mesmo tempo tenhamos normalidade, não percamos nada, deixemos que as nossas vidas permaneçam intactas, não conheçamos a prisão, nem a má reputação, nem a rutura de laços”. E porque devemos abranger isto e proteger aquilo, e porque a todo custo – a todo custo – as nossas esperanças devem marchar dentro do cronograma, e porque é inédito que em nome da paz uma espada deva cair, desmembrando aquela bela e astuta teia que nas nossas vidas se entrelaçaram, porque é inédito que homens bons sofram injustiças ou que famílias sejam divididas ou que a boa reputação seja perdida - por causa disso clamamos paz e clamamos paz, e não há paz. Não há paz porque não há pacificadores. Não existem promotores da paz porque a realização da paz é pelo menos tão dispendiosa como a realização da guerra – pelo menos tão exigente, pelo menos tão perturbadora, pelo menos tão suscetível de trazer desgraça, prisão e morte no seu rasto.”

 

Carregar a cruz não significa buscar a felicidade. Não abraça a ilusão do progresso humano inevitável. Não se trata de alcançar estatuto, riqueza, celebridade ou poder. Implica sacrifício. É sobre o nosso vizinho. Os órgãos de segurança do Estado monitoram-vos e perseguem-vos. Eles acumulam arquivos enormes sobre as vossas atividades. Eles intrometem-se na vossa vida.

 

Por que estou eu aqui hoje com vocês? Estou aqui porque tentei, ainda que imperfeitamente, viver de acordo com a mensagem radical do Evangelho. Estou aqui porque sei que não é o que dizemos ou professamos, mas o que fazemos. Estou aqui porque vi que é possível ser judeu, budista, muçulmano, cristão, hindu ou ateu e carregar a cruz. As palavras são diferentes, mas o autossacrifício e a sede de justiça são os mesmos.

Esses homens e mulheres, que não podem professar o que eu professo ou acreditar no que acredito, são meus irmãos e irmãs. E estou com eles, honrando e respeitando as nossas diferenças e encontrando esperança, força e amor no nosso compromisso comum. Em momentos como este, ouço as vozes dos santos que vieram antes de nós. A sufragista Susan B. Anthony, que anunciou que a resistência à tirania é obediência a Deus, e a sufragista Elizabeth Cady Stanton, que disse: “No momento em que começamos a temer as opiniões dos outros e hesitamos em dizer a verdade que está em nós, e por motivos políticos silenciamos quando deveríamos falar, as inundações divinas de luz e vida não fluem mais nas nossas almas.” Ou Henry David Thoreau, que nos disse que deveríamos ser homens e mulheres primeiro e depois súbditos, que deveríamos cultivar o respeito não pela lei, mas pelo que é certo. E Frederick Douglass, que nos avisou: “O poder não concede nada sem uma exigência. Ele nunca fez e nunca fará. Descubra exatamente a que qualquer pessoa se submeterá silenciosamente e você descobrirá a medida exata da injustiça e do erro que lhes será imposto, e estes continuarão até que sejam resistidos com palavras ou golpes, ou ambos. Os limites dos tiranos são prescritos pela resistência daqueles a quem eles oprimem.” E a grande populista do século XIX, Mary Elizabeth Lease, que trovejou: “Wall Street é dona do país. Já não é um governo do povo, pelo povo e para o povo, mas um governo de Wall Street, por Wall Street e para Wall Street. O grande povo comum são escravos e o monopólio é o senhor.” E o General Smedley Butler, que disse que depois de 33 anos e quatro meses no Corpo de Fuzileiros Navais ele tinha chegado à compreensão de que não tinha sido nada mais do que um gangster do capitalismo, tornando o México seguro para os interesses petrolíferos americanos, tornando o Haiti e Cuba seguros para os bancos e pacificar a República Dominicana para as empresas açucareiras. A guerra, disse ele, é um jogo viciado em que os países subjugados são explorados pelas elites financeiras e por Wall Street, enquanto os cidadãos pagam a conta e sacrificam os seus jovens, homens e mulheres, no campo de batalha pela ganância corporativa. Ou Eugene V. Debs, o candidato presidencial socialista, que em 1912 obteve quase um milhão de votos, ou 6 por cento, e que foi enviado para a prisão por Woodrow Wilson por se opor à Primeira Guerra Mundial, e que disse ao mundo: “Enquanto houver uma classe baixa, estou nela, e enquanto houver um elemento criminoso eu pertenço a ela, e enquanto houver uma alma na prisão, não sou livre.” E o Rabino Heschel, que quando foi criticado por marchar com Martin Luther King no sábado em Selma respondeu: “Rezo com os pés” e que citou Samuel Johnson, que disse: “O oposto do bem não é o mal. O oposto do bem é a indiferença.” E Rosa Parks, que desafiou o sistema segregado de ônibus e disse “a única cansada que eu estava, estava cansada de ceder”. E Philip Berrigan, que disse: “Se um número suficiente de cristãos seguir o Evangelho, eles podem colocar qualquer estado de joelhos”. E Martin Luther King, que disse: “Em algumas posições, a covardia faz a pergunta: ‘É seguro?’ A conveniência faz a pergunta: 'Isso é político?' A vaidade faz a pergunta: 'É popular?' E chega um tempo em que um verdadeiro seguidor de Jesus Cristo deve tomar uma posição que não seja nem segura nem política nem popular, mas ele tem de tomar uma posição   ficar de pé porque é o certo.”

 

Onde estavas quando crucificaram o meu Senhor?

 

Estavas lá para impedir o genocídio dos nativos americanos? Estavas lá quando Sitting Bull morreu na cruz? Estavas lá para acabar com a escravização dos afro-americanos? Estava lá para deter as multidões que aterrorizaram homens, mulheres e até crianças negras com linchamentos durante Jim Crow? Estavas lá quando perseguiram os organizadores sindicais e Joe Hill morreu na cruz? Estavas lá para impedir o encarceramento de nipo-americanos na Segunda Guerra Mundial? Estava lá para deter os cães de Bull Connor enquanto eles eram soltos nos manifestantes pelos direitos civis em Birmingham? Estava lá quando Martin Luther King morreu na cruz? Estavas lá quando Malcolm X morreu na cruz? Estavas lá para acabar com os crimes de ódio, a discriminação e a violência contra gays, lésbicas, bissexuais, queers e transexuais? Estava lá quando Matthew Shepard morreu na cruz? Estava lá para acabar com o abuso e, às vezes, a escravização dos trabalhadores nas terras agrícolas deste país? Estava lá para impedir o assassinato de centenas de milhares de vietnamitas inocentes durante a guerra do Vietnam ou de centenas de milhares de muçulmanos no Iraque e no Afeganistão? Estavas lá para deter o genocídio em Gaza? Estavas lá quando crucificaram Refaat Alareer na cruz?

 

Onde estavas quando crucificaram o meu Senhor?

 

Eu sei onde eu estava.

 

Aqui.

 

Com vocês.

 

Amém.

 

 

 

(1) Chris Hedges é um jornalista vencedor do Prémio Pulitzer, foi correspondente no estrangeiro durante quinze anos para o The New York Times, onde atuou como Middle East Bureau Chief e Balkan Bureau Chief. Anteriormente, trabalhou no estrangeiro para The Dallas Morning News, The Christian Science Monitor e NPR. Ele é o apresentador do programa The Chris Hedges Report.

 

Foi membro da equipe que ganhou o Prémio Pulitzer de Reportagem Explicativa de 2002, pela cobertura do terrorismo global para The New York Times, e recebeu o Prémio Global de Jornalismo de Direitos Humanos da Amnistia Internacional de 2002. Hedges, que possui o mestrado em Divindade pela Harvard Divinity School, é autor dos best-sellers, American Fascists: The Christian Right and the War on America, Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle e foi finalista do National Book Critics Circle pelo seu livro War Is a Force That Gives Us Meaning. Ele escreve uma coluna online para o site ScheerPost. Lecionou na Universidade de Columbia, na Universidade de Nova York, na Universidade de Princeton e na Universidade de Toronto.

(476) Maquiavel, Mussolini, e Fascismo

Tempo estimado de leitura: 9 minutos.

 

 O adjetivo “soberano” aplicado ao povo é uma farsa trágica. Quando muito o povo nomeia delegados, mas é absurdo supor que o povo exerça a soberania, B. Mussolini

 

O povo tem apenas o dever de afirmar e obedecer, B. Mussolini.

 

Governos baseados exclusivamente na vontade do povo nunca existiram, não existem e provavelmente nunca existirão, B. Mussolini.

 

Deve-se saber que existem duas maneiras de decidir qualquer questão. Uma, pelas leis. A outra, pela força. A primeira é peculiar aos homens, a segunda aos animais, Maquiavel.

 

 

 

 

 

Em junho de 1924, a fugaz revista mensal English Life, (o editor era Brendan Bracken, mais tarde ministro da informação do governo de Winston Churchill) publicou um artigo do então Primeiro Ministro de Itália,  Benito Mussolini, “The Folly of Democracy” (A loucura da democracia), a que se seguiria em julho de 1924 um artigo-resposta do Secretário Político do Partido Socialista Italiano, Giacomo Matteoti, intitulado “Machiavelli, Mussolini, and Fascism”.

Durante o mês que mediou entre a publicação dos dois artigos, Matteoti, enquanto caminhava para o Parlamento em Roma, foi raptado (10 de junho) e assassinado por apoiantes fascistas de Mussolini.

Um carro (Lancia Lambda) com cinco membros (Giuseppe Viola, Albino Volpi, Augusto Malacria, Amleto Poveromo) de um recém-formado grupo policial secreto fascista (“Checa) chefiados por Amerigo Dùmini (um dos fundadores do Fascio de Florença, nomeado pessoalmente por Mussolini como chefe da “Checa”  com um salário mensal de duas mil e quinhentas liras pago pelo jornal pró-fascista Corriere Italiano, com carro à disposição, com alojamento no hotel Dragoni, um apartamento na via Cavour, gratificações para repartir entre os seus homens de confiança, mesa sempre reservada em seu nome no restaurante Breche ou no Al Buco),  agarram e forçam violentamente Matteoti a entrar para o carro que arrancou velozmente pelas ruas de Roma.

Matteoti nunca mais foi visto com vida. O seu corpo apareceu em meados de agosto num bosque a 20 quilómetros de Roma, altura em que a maior parte dos italianos estava de férias, e o Parlamento fechado. O esquife foi transportado de noite, sendo o enterro consumado na sua terra natal, Fratta Polesine.

 

Relatório do testemunho ocular de Renato Barzotti sobre o sequestro de Matteoti: 

Eram quatro e meia. Estava a brincar com os meus companheiros. Perto de nós, estava um carro que tinha acabado de parar mesmo em frente à rua Antonio Scialoja. Dentro dele saíram cinco homens e começaram a passear para cima e para baixo. De repente vi Matteoti sair. Um dos homens foi ao seu encontro e deu-lhe violentamente um murro que o fez cair ao solo. Matteoti pediu ajuda. Então chegaram os outros quatro, e um deles deu-lhe um golpe forte na cara. Depois agarraram-no pela cabeça e pés e meteram-no dentro do carro, que passou ao nosso lado. Pudemos ver que Matteoti continuava a lutar. Depois não vimos mais nada.” (A. Scurati, M, o filho do século).

 

Apesar de duas semanas antes, perante um discurso de Matteoti no Parlamento em que denunciava que a recente eleição geral (que dera aos fascistas a sua única vitória eleitoral) fora fraudulenta e precedida de atos de violência que impediram muitos candidatos antifascistas de se apresentarem e muitos trabalhadores de votarem, Mussolini ter soltado “Como é que este homem continua a andar por aqui?”, o escândalo provocado pelo desaparecimento de Matteoti  obriga-o a vir assegurar que “a polícia foi informada do prolongado desaparecimento do Hon. Matteoti”, e que ele próprio tinha “ordenado que intensificassem as buscas”.

Quando o porteiro de um prédio vizinho da casa de Matteoti comunica à polícia a matrícula do carro, a polícia identifica o proprietário como sendo Filippo Filippelli, ex-secretário pessoal de A. Mussolini e diretor do jornal pró-fascista Corriere Italiano. A ligação a Dùmini é imediata, o que conduz à sua detenção (12 de junho 1924). Nas semanas seguintes, mais prisões são feitas.

 

Os partidos políticos da oposição tentam pressionar o rei, Victor Emmanuel III, a destituir Mussolini, abandonando (secessione dell’Aventino) em bloco a Câmara de Deputados até que os responsáveis pela morte de Matteoti fossem a julgamento.

A (in)decisão do rei vai colocar o parlamento nas mãos de Mussolini que aproveitou para legislar sem qualquer oposição. Sentindo que tem a situação controlada, a 3 de janeiro de 1925, num discurso na Câmara de Deputados, vai admitir “a responsabilidade política” pelo assassinato de Matteoti, mas não admitindo que o tenha ordenado:

 

Portanto, senhores, eu declaro aqui perante esta assembleia e em presença de todo o povo italiano, que assumo, só eu, responsabilidade política, moral, histórica de tudo o que aconteceu. Se as frases mais ou menos balbuciantes bastarão para enforcar um homem, ‘Fora o poste e fora a corda!’ Se o fascismo não foi mais que o azeite de rícino e os bastões, e não antes uma magnífica paixão da melhor juventude italiana, ‘A culpa é minha!’ Se o fascismo foi uma associação criminosa, ‘Sou eu o chefe dessa associação criminosa!’” 

 

 É um convite a que o destituam, mas os deputados do parlamento, agora só com fascistas, aplaudem e vitoriam-no. “Todos contigo! Todos contigo, presidente!”

A sessão termina sem discussão e sem votação. Uma nova Itália nascera.

O julgamento dos assassinos de Matteoti vai ter início em janeiro de 1925, começando logo por ser transferido de Roma para uma pequena cidade de forte implantação fascista, Chieti. Em julho de 1925, Mussolini decreta uma amnistia para todos os crimes políticos, e os acusados são todos soltos.

Em 1948, após a morte de Mussolini, é reaberto o processo e um tribunal acaba por condenar Dùmini a 30 anos de prisão pelo assassinato de Matteoti. Em 1953, uma nova amnistia faz com que saia da prisão.

 

 

O assassinato de opositores políticos ou inimigos, mais legalmente ou menos legalmente, tem sido uma constante nas nossas civilizações (casos mais paradigmáticos como os de Sócrates – o ateniense – e Jesus – o Cristo), mas que se manifestam mais em certos períodos de grandes alterações sócio-políticas-económicas, e particularmente em certos regimes como aqueles saídos da Grande Guerra.

No fascismo de Mussolini vários foram os crimes praticados sobre os seus opositores e mesmo para com camaradas da mesma ideologia. Dizia ele, a propósito do que se passara com Cesar Forni (12 de março de 1924), num artigo intitulado “Quem atraiçoa, morre”, que o fascismo tinha o direito a castigar os seus próprios traidores. E argumentava que a violência fascista era pouca quando comparada com a ferocidade com que na Rússia os bolcheviques exterminaram os dissidentes mencheviques.

O mesmo aconteceu com os malogrados Camisas Castanhas que suportaram Hitler até à altura em que este os mandou assassinar (30 de junho de 1934, “A Noite das Facas Longas”), e até aqui neste pequeno, lento e rural Portugal temos o caso do assassinato (13 de fevereiro de 1965) de Humberto Delgado pela polícia política de Salazar.

 

No caso Matteoti, que razões levaram à tomada de decisão para o assassinar? O discurso que prometera pronunciar no dia seguinte perante o parlamento em que iria provar a corrupção de Mussolini pela Sinclair Oil Company?  A denúncia dos métodos violentos e as ameaças exercidas a quando das eleições? A existência de uma força armada paralela? Quem ordenou?

 Certamente agora que se vão cumprir os cem anos sobre o seu assassinato, o novo governo de Itália, preocupado com a história e a verdade, terá todo o interesse em libertar toda a documentação que permita resolver o enigma. Ou não.

 

Para a história, aqui se reproduz o artigo póstumo de Matteoti, “Machiavelli, Mussolini, and Fascism”:  

 

 

“A democracia da Inglaterra tem recentemente vindo a ser entretida pela conversão do Senhor Mussolini aos princípios do maquiavelismo. No seu extravagante artigo sobre Maquiavel deixa claro que a força é o seu único guia político. As suas observações sobre Maquiavel serão certamente incorporadas de forma perpétua numa tese universitária. São dignas de análise por quem tem experiência nas teorias de Mussolini aplicadas ao governo. Diz ele que “são muito poucos os heróis e santos que agora estão preparados para se sacrificarem no altar do Estado. Mas há muitos cidadãos dispostos a perturbar o altar e a sacrificar esse estado para os seus próprios fins. A Revolução Francesa e outras revoluções foram uma tentativa para sujeitar o governo ao livre arbítrio do povo. Esta teoria é baseada em tolices e inverdades. Porquê? Em primeiro lugar, o povo nunca foi definido. Tal teoria é apenas uma abstração política. Ninguém sabe onde começa ou onde termina. O adjetivo “soberano” aplicado ao povo é uma farsa trágica. Quando muito o povo nomeia delegados, mas é absurdo supor que o povo exerça a soberania. Há pouca justificação moral para o governo representativo, mas muito pode ser dito sobre a sua utilidade mecânica. Mesmo em países onde o governo representativo sempre prevaleceu, chega um momento em que é fatal consultar o povo. Em tempos de guerra, a coroa de cartão da soberania é retirada do povo (pois só serve para tempos normais) e o povo não tem outra alternativa senão mergulhar nos perigos desconhecidos ou na guerra ou declarar-se a favor da revolução. Nessas ocasiões, o povo tem apenas um dever de afirmar e obedecer. É evidente que a soberania graciosamente concedida ao povo lhe é tirada no momento em que é mais necessária. Na verdade, só pode continuar quando for inócua ou considerada como tal, ou seja, durante o curso plácido da administração ordinária. Relativamente a este ponto, gostaria de apresentar esta questão. Pode alguém imaginar uma guerra ser declarada por referendo? Um referendo é uma coisa muito boa quando se trata de escolher o melhor local para colocar um fontanário na aldeia. Mas quando o interesse supremo do povo está em jogo, mesmo os Governos mais ultrademocráticos cuidam em não os submeter ao julgamento do povo”.

 

Governos baseados exclusivamente na vontade do povo nunca existiram, não existem e provavelmente nunca existirão. Sou apoiado nesta visão por uma citação significativa do “Príncipe” de Maquiavel: “Profetas armados conquistam; aqueles que estão desarmados estão arruinados”. Porque a natureza dos povos é mutável; e embora seja fácil persuadi-los de alguma coisa, é difícil mantê-los na mesma persuasão. Portanto, é bom organizar as coisas de modo que, quando as pessoas já não acreditarem, possam ser levadas a acreditar através da força. Moisés, Ciro, Teseu e Rómulo não teriam sido capazes de fazer cumprir as suas constituições por muito tempo se tivessem sido desarmados”.

 

É ousado perguntar-se se a Inglaterra, o país de Gladstone e Bright, apreciará tais sentimentos violentos e tirânicos – penso que não. A minha última experiência em Inglaterra mostra que o governo democrático está a imprimir-se lenta, mas seguramente, no vasto interesse imperial da Inglaterra. É um crescimento gradual que será ajudado por indiscrições como a defesa de Mussolini dos princípios infernais de Maquiavel. Quando Mussolini faz a pergunta “alguém pode imaginar uma guerra sendo declarada por um referendo? Um referendo é uma coisa muito boa quando se trata de questionar ou escolher o melhor local para colocar um fontanário na aldeia, mas quando o interesse supremo do povo está em jogo, mesmo o governo mais ultrademocrático toma cuidado para não os submeter ao julgamento do povo." A resposta é que o povo pobre e trabalhador declarar-se-ia esmagadoramente contra a guerra se um referendo lhes fosse concedido. E porque não? A palavra é dizimada, empobrecida e dilacerada, mas as terríveis consequências da última guerra ficam. Se tivessem sido realizados referendos nos países envolvidos, não teria havido guerra.

 

Segundo Mussolini, a utilização das armas conquistam. Pode ser que sim. Mas serão as suas conquistas permanentes? Não! O próprio Mussolini, com grande energia, fez uma forma de governo dependente da espada, da violência, de perversões políticas. O vigor dos seus pontos de vista e o poder dos seus implacáveis ​​seguidores suprimiram durante algum tempo a democracia da Itália. Ela elevar-se-á novamente. O governo fascista já está a ser gravemente prejudicado pelos métodos dos seus líderes e pelas sinistras atividades comerciais levadas a cabo por altos funcionários cujo formidável poder impede a supervisão pública do trust que administram. Tais coisas não podem ser sufocadas por muito tempo. Mesmo agora surgiram factos sobre os quais o nosso país será chamado a julgar.

 

A conduta do Banca Commerciale relativamente ao empréstimo polaco é um exemplo da avareza desenfreada permitida pelos governantes fascistas. Muito piores são as ações do Ministério da Economia Nacional nas suas negociações com a Sinclair Oil Company. O Senador Corbino, Ministro da Economia Nacional, entregou vastos espaços de território na Emília e na Sicília contendo mais de 100.000 hectares* (*cerca de 250.000 acres) de ricos depósitos de petróleo à Sinclair Oil Company, que está ligada ao polvo da Standard Oil. Este território imensamente rico é conferido a uma empresa estrangeira sem salvaguardas. A natureza surpreendente desta concessão é ilustrada pelo nono parágrafo do comunicado oficial do governo: – “A concessão abrange a produção de óleos minerais, gás e produtos relativos de hidrocarbonetos, enquanto a exploração de rochas betuminosas está reservada às empresas italianas. O acordo tem a duração de 50 anos. Os privilégios fiscais concedidos à empresa são os seguintes: a) isenção de direitos de importação no caso de máquinas exigidas pela empresa, caso não seja viável obter tais máquinas de empresas italianas. Em todos os casos, a preferência de fornecer estas máquinas é reservada caso todos os outros termos sejam iguais; (b) isenção de imposto de renda nos primeiros dez anos.

 

 Já temos conhecimento de muitas irregularidades graves relativas a esta concessão. Altos funcionários podem ser acusados ​​de corrupção/traição ou dos mais vergonhosos compadrios. Muito mais sinistra é a conduta de muitos líderes fascistas, que realizam uma imposição generalizada sobre empresas privadas e semipúblicas com o objetivo de manter jornais fascistas e outras organizações para seu interesse e lucro.

 

Quando Mussolini afirma no seu artigo sobre Maquiavel que “há pouca justificação moral para o governo representativo”, ele bem poderia examinar o sistema construído por ele próprio, o que em parte é um ultraje contra a moralidade.

 

 Enquanto ele se ocupa em denunciar os defeitos da democracia, uma parte incontrolada dos seus seguidores comete crimes de violência e chantagem. Ele pouco se esforça para os repreender. Ele não os pode suprimir, pois foi sobre os ombros deles que se alcandorou ao poder. Eles colocaram-no lá, considerando-o como apoiante deles, pelo que ele é impotente para controlar os seus desígnios malignos.

 

Teria Maquiavel permitido esta situação? Não teria. Ele sabia que um Estado deve perecer se os agressores privilegiados puderem cometer crimes sem restrições. Mussolini invoca a sua autoridade para justificar a sua política. Ele deveria ler o seu Mestre com maior aplicação. Passemos ao capítulo 18 de O Príncipe e leiamos o que Maquiavel pensava a respeito do Governo. “Deve-se, portanto, saber que existem duas maneiras de decidir qualquer questão. Uma, pelas leis. A outra, pela força. A primeira é peculiar aos homens, a segunda aos animais”. Ou ainda no capítulo 9 de O Príncipe: “Que ninguém cite contra mim o velho provérbio de que quem confia no povo constrói sobre uma base arenosa. Isso pode ser verdade para um único cidadão que se opõe a inimigos poderosos ou é oprimido pelos magistrados, como aconteceu com os Gracos em Roma e com George Scali em Florença; mas um príncipe que não seja deficiente em coragem e seja capaz de comandar, que não seja desanimado pela má sorte, que não seja deficiente nos preparativos necessários, que saiba como preservar a ordem nos seus Estados por meio de seu próprio valor e conduta, nunca precisará de se arrepender por ter estabelecido a base da sua segurança na afeição do seu povo.”

 

A democracia em Itália pode agora ser adormecida, por sentimentos tais como os de Mussolini que não podem deixar lhe roubar a sua preguiça. Em vez de efusões tão grosseiras como as deste artigo sobre Maquiavel, Mussolini poderia dedicar-se à limpeza da sua criação – os Fascistas – cujas ações públicas tendem a tornar a Itália infame em todo o mundo.”

 

 

 

 

 

 

 

(475) Medidas contra a violência

Tempo estimado de leitura: 2 minutos.

 

“Massnahmen gegen die Gewalt” (Medidas contra a violência), um pequeno conto deBertolt Brecht, traduzido por Diana Martins, Isabel Santos, José Santos, Rodolfo Lima, alunos de Tradução de Textos Literários (Alemão-Português) do Mestrado em Tradução e Interpretação Especializadas do ISCAP. 

 

 

 

Quando o Sr. Keuner, o Pensador, estava a discursar contra a violência, numa sala, perante muita gente, notou que os presentes se iam afastando e saindo. Olhou à sua volta e reparou que atrás de si estava – a Violência.

 

―O que é que estavas a dizer? perguntou a Violência.

―Eu estava a falar a favor da Violência, respondeu o Sr. Keuner.

 

Quando o Sr. Keuner se foi embora, os seus alunos perguntaram-lhe se não tinha espinha dorsal. O Sr. Keuner respondeu:

 

―A minha espinha dorsal não é para partir. É que eu tenho que sobreviver à violência.

 

E o Sr. Keuner contou a seguinte história:

 

A casa do Sr. Egge, um homem que sabia quando dizer não, chegou um dia, na época da ilegalidade, um agente que mostrou um certificado emitido por aqueles que dominavam a cidade, do qual constava que lhe pertenceria qualquer casa em que entrasse. Da mesma forma, teria direito a toda a comida que exigisse. Da mesma forma, também deveria ser servido por todo o homem que visse.

O agente sentou-se numa cadeira, exigiu comida, lavou-se, deitou-se e perguntou, virado para a parede, antes de adormecer:

 

―Vais-me servir?

 

O Sr. Egge cobriu-o com um cobertor, enxotou as moscas, vigiou-lhe o sono e, tal como neste dia, obedeceu-lhe durante sete anos. Mas por mais que fizesse por ele, uma coisa não fazia: dizer uma única palavra. Passados sete anos, o agente estava tão gordo de tanto comer, dormir e dar ordens, que morreu. Então o Sr. Egge envolveu-o no cobertor, já velho, atirou-o para fora de casa, lavou o aposento, pintou as paredes, respirou fundo e respondeu:

 

Não.

 

 

 

 

 

(474) Revisitar Lisboa 1971

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

“Sempre a merda do futuro, sempre a merda do futuro, e eu que me lixe!”, José Mário Branco.

 

As pessoas esperam com surda raiva e muita paciência o autocarro, aumento de ordenado, a chegada do Paracleto, bolsas da Gulbenkian, Jorge de Sena.

 

Até 1974 as mulheres não tinham em Portugal universalmente direito de voto, Fernanda Câncio.

 

 

 

 

Neste tempo próximo que se prevê que seja de grandes comemorações relativas à substituição do regime autocrático fascista moderado então prevalecente no Continente pelo atual regime não fascista vigente, iremos certamente assistir a uma catadupa de discursos louvando as conquistas alcançadas, para além do inevitável mas inócuo discurso do Presidente, sempre apontado ao futuro (“sempre a merda do futuro, sempre a merda do futuro, e eu que me lixe!”, como pontuava José Mário Branco) e exemplarmente bem escrito não fosse ele professor, exímio na sua repartição do bem pelas aldeias para deixar extasiados e contentes todos os aldeões, e que certamente ficará para a história à frente de todos os outros dos anteriores presidentes, longe já que se está o suficiente para ninguém se lembrar dos seus tempos da corrida de táxi e do mergulho no Tejo.

 

Outra forma de celebrar é, como o faz Fernanda Câncio, (Diário de Notícias, 9 de abril de 2024, “Por uma família sem amos”), lembrar o que as mulheres não tinham então em Portugal: 

 

Até 1974 as mulheres não tinham em Portugal universalmente direito de voto; eram impedidas de aceder a certas profissões, como a da magistratura; obrigadas pelo Código Civil, se casadas, a encarar como “chefe da família” o marido, que podia por exemplo abrir-lhes a correspondência, impedi-las de desempenhar determinados trabalhos e decidir, sem que elas pudessem opor-se, sobre a educação dos filhos (elas tinham apenas o direito de “ser ouvidas”). 

As mulheres poderiam também ver o casamento legalmente anulado caso o noivo denunciasse a respetiva ausência de virgindade. E havia ainda aquela disposição magnífica do Código Penal que penalizava com apenas “seis meses de desterro da comarca” o marido que matasse a mulher adúltera ou, se “desonradas”, as filhas até aos 21 anos que vivessem sob o seu “pátrio poder” (faz lembrar uma coisa a que se dá o nome de “crimes de honra”, que se associa geralmente a países muçulmanos, não faz?).

 

Mas vai ser Jorge de Sena quem melhor nos consegue transmitir os estados de alma sentidos e vividos já então, quando em junho de 1972 publica nos cadernos Caliban 3/4, os poemas “Lisboa – 1971” e “Noções de linguística”:

 

Lisboa – 1971

 

 

O chauffeur de táxi queixava-se da vida.

Ganha 400$00 por semana, o patrão conta

que ele se arranje do a mais com as gorjetas.

Os meus amigos morrem de cancro,

de tédio, de páginas literárias.

Vi um rapaz sem as duas mãos que perdeu

na guerra (e o ortopedista ria-se de que ele

só queria por enquanto “calçar” uma

das que artificiais lhe preparou tão róseas).

As pessoas esperam com surda raiva e muita paciência

o autocarro, aumento de ordenado, a chegada

do Paracleto, bolsas da Gulbenkian.

Mas o chauffeur de táxi contou-me que

discutira com um asno e lhe dissera:

“… V. que nesse tempo ainda andava em fuga

de colhão para colhão lá do seu pai, para ver se escapava a ser filho da puta …”

E é isto: andam de colhão para colhão

a ver se escapam – e muitos não escapam.

E os outros não se escapam aos que não escaparam.

 

 

 

Noções de linguística

 

Ouço os meus filhos a falar inglês

entre eles. Não os mais pequenos só

mas os maiores também e conversando

com os mais pequenos. Não nasceram cá,

todos cresceram tendo nos ouvidos

o português. Mas em inglês conversam,

não apenas serão americanos: dissolveram-se,

dissolveram-se num ar que não é deles.

Venham-me falar dos mistérios da poesia,

das tradições de uma linguagem, de uma raça,

daquilo que se não diz com menos que a experiência

de um povo e de uma língua. Bestas.

As línguas, que duram séculos e mesmo sobrevivem

esquecidas noutras, morrem todos os dias

na gaguez daqueles que as herdara:

E são tão imortais que meia dúzia de anos

as suprime da boca dissolvida

ao peso de outra raça, outra cultura.

Tão metafísicas, tão intraduzíveis,

que se derretem assim, não nos altos céus,

mas na merda quotidiana de outras.

 

 

 

(473) Aos Homens Futuros

Tempo estimado de leitura: 2 minutos.

 

 “Aos Homens Futuros”, poema de Brecht sobre o direito a duvidar e continuar a agir apesar das dúvidas.

 

 

1

 

Na verdade, vivo em tempos sombrios.

A palavra ingénuo é insensata. Uma testa lisa

Revela insensibilidade. Aquele que ri

É porque ainda não ouviu a terrível notícia,

Ainda não chegou.

Que tempos são estes em que

Falar de árvores é quase um crime

Porque significa calar tantas traições!

Aquele homem que anda calmamente pela rua,

Encontrá-lo-ão os amigos

Quando o precisarem?

É verdade que ainda ganho a vida.

Mas acredite, é pura casualidade. Nada

Do que eu faço me dá o direito de ficar farto.

Por acaso eu escapei. (Se a minha sorte acabasse, estaria perdido.)

Dizem-me: “Come e bebe! Aproveita o que tens!”

Mas como posso comer e beber

Se estou a tirar ao faminto o que como

E o meu copo d’água faz falta ao sedento?

E, no entanto, como e bebo.

Gostaria também de ser sábio.

Livros antigos explicam a sabedoria:

Afastar-se das lutas do mundo e percorrer

Sem inquietudes o nosso pouco tempo.

Livrar-se da violência,

Dar o bem pelo mal,

Não satisfazer os desejos e até

Esquecê-los: tal é a sabedoria.

Mas não posso fazer nada disso:

Na verdade, vivo em tempos sombrios.

 

2

 

Cheguei às cidades em tempos de desordem,

Quando a fome reinava.

Misturei-me entre os homens em tempos de rebelião

E rebelei-me com eles.

Assim que passei o tempo

Que me foi concedido na terra.

Comi o pão entre batalha.

Dormi entre os assassinos.

Fiz amor sem prestar atenção

E contemplei a natureza com impaciência.

Foi assim que passei o tempo

Que me foi concedido na terra.

Na minha época, as ruas levavam a pântanos.

O carrasco traía-me a palavra.

Pouco poderia fazer. E os poderosos

Sentiam-se mais tranquilos sem mim. Eu sabia-o

Foi assim que passei o tempo

O que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. A meta

Ainda estava muito longe.

Já se podia ver claramente, embora para mim

Fosse quase inacessível.

Foi assim que passei o tempo

O que me foi concedido na terra.

 

3

 

Vocês, que sairão do marasmo

Em que nos afundámos,

Quando falarem sobre as nossas fraquezas,

Pensem também nos tempos sombrios

A que escaparam.

Mudamos de país como de sapatos

Através das guerras de classes, e desesperava-nos

Onde só havia injustiça e ninguém se levantava contra ela.

E, ainda assim, sabíamos

Que também esse ódio contra a baixeza desfigura o rosto.

Também a raiva contra a injustiça

Punha a voz rouca. Desgraçadamente, nós

Que queríamos preparar o caminho para a amabilidade

Não pudemos ser amáveis.

Mas vocês, quando chegarem os tempos  

Em que o homem seja amigo do homem,

Pensai em nós

Com indulgência.

(472) Os vícios dos pobres, as virtudes dos ricos

Tempo estimado de leitura: 7+2 minutos.

 

O rico vê, e não sem inveja, o prazer e a recuperação que o repouso proporciona ao pobre, Arquidiácono W. Paley.

 

Neste feliz país onde a lei coloca o menor súbdito em igualdade com a maior personagem do Reino, todos são igualmente protegidos, e não pode haver necessidade de se associarem.

 

“Amazon Spent $3.1 Million On Anti-Union Consultants In 2023”.

 

Por que é que a riqueza e o estatuto social diminuem os nossos sentimentos de compaixão para com os outros?

 

 

 

O desenvolvimento do sistema económico em que vivemos foi inicialmente lento, mas foi tal lentidão, a par de uma certa dose de violência, que possibilitou a transformação progressiva dos conceitos lógico-morais de vida, a ponto de ainda hoje acreditarmos em muitos deles como sendo “verdades naturais” e “incontestáveis”.

Recorde-se, por exemplo, a cobrança de juros pelo uso do dinheiro, hoje plenamente aceite como uma dessas verdades naturais e incontestáveis, e que ainda no início da Idade Média era considerada como crime. Para a Igreja, emprestar a juros era usura, e a usura era pecado. Naquela época, quem emprestava fazia-o para ajudar, para tirar de uma má situação, não devendo lucrar com a desventura do outro.

O justo era receber só o que se tinha emprestado. Se se emprestava um saco de farinha, devia receber-se só um saco de farinha (costume que ainda hoje se mantém quando se empresta à vizinha ovos ou leite). Quem cobrasse juros pelo uso do dinheiro estaria a vender tempo, e o tempo não pertencia a ninguém para poder ser vendido. O tempo só a Deus pertencia.

Além do mais, emprestar dinheiro e receber depois ainda um acréscimo de juro fixo, significava a possibilidade de se viver sem trabalhar, o que era considerado errado.

É claro que uma coisa era o que a Igreja dizia, outra o que fazia à medida que se ia enredando e controlando a sociedade, pelo que aos poucos a doutrina foi cedendo. Lentamente, novas leis foram surgindo: “A usura é um pecado – mas, sob certas circunstâncias …”, “Embora seja pecado exercer a usura, não obstante, em casos especiais …”.

O próprio sistema económico (mais corretamente, os que o controlavam) à medida que se foi desenvolvendo, foi também encontrando respostas para tudo aquilo que pudesse impedir ou atacar esse desenvolvimento. Alguns exemplos dessas “respostas” encontradas na época da industrialização, ainda hoje muito presentes:

 

  1. A. Lee, dono de uma tecelagem de algodão onde as crianças trabalhavam das 6 da manhã às 8 da noite, explicava porque as crianças deveriam ir trabalhar para as oficinas em vez de irem à escola: “nada era mais favorável para estimular a moral [dos pobres] do que o hábito, desde cedo, da subordinação, da indústria e da regularidade”.

Também Giddy, o presidente da Royal Society, era contra a proposta de se criarem escolas primárias para as crianças, porque “dar educação às classes trabalhadoras pobres seria na realidade prejudicial à sua moral e felicidade; aprenderiam a desprezar a sua sorte na vida ao invés de fazer deles bons servos na agricultura e outros empregos laboriosos, a que a sua posição na sociedade os destina […] Permitir-lhes-ia ler folhetos sediciosos e torná-los-ia insolentes para com os seus superiores.”

Já o Arquidiácono W. Paley, dava consolo e ajuda aos pobres miseráveis através do otimismo:

 “Algumas das necessidades que a pobreza impõe não constituem durezas, mas prazeres. A frugalidade em si é um prazer. É um exercício de atenção e controle que produz contentamento. Este contentamento perde-se no meio da abundância. Não há prazer quando se vive rodeado de imensos recursos. Uma outra vantagem ainda maior que possuem as pessoas em situação inferior é a da facilidade com que sustentam os filhos (tão entranhada ficou esta ideia que ainda hoje a “sabedoria” popular diz que “tudo se cria” a propósito da vinda de mais um filho). Tudo o que um filho de um pobre precisa está encerrado em duas palavras, ‘indústria e inocência’”.

Os pobres não devem invejar aos ricos a sua ociosidade. Os ricos é que devem de estar invejosos. Porque a ociosidade é a cessação do trabalho, e, portanto, só pode ser gozada, ou mesmo provada, pelos que conhecem a fadiga. O rico vê, e não sem inveja, o prazer e a recuperação que o repouso proporciona ao pobre”.

 Estas considerações de Paley datam de 1793, altura da Revolução Francesa, pelo que, com receio que a revolução atravessasse a Mancha, aconselha ainda os pobres dizendo que “Ambicionar a situação ou a fortuna dos ricos, e a tal ponto desejar tomá-las pela força, ou através do tumulto e confusão públicos, não só é mau como insensato.”

Há também o caso de uma petição, enviada pelos trabalhadores diretamente para o Parlamento britânico relativa à diminuição do número de horas de trabalho diário, para se passar das 14 ou 16 horas para as 10, e que o Parlamento considerou que tal seria uma interferência à liberdade dos súbditos “que nenhuma outra legislatura da Cristandade teria tolerado por um momento”. Os industriais de Gloucester caracterizaram mesmo esta proposta como digna da pior Idade Média, por interferir na liberdade que tinha o operário de poder trabalhar tanto quanto o patrão desejasse.

Este argumento de que a limitação das horas de trabalho interferia na liberdade natural do homem foi repetidamente usado na América e na Inglaterra.

Quando em 1819 foi aprovada nova legislação para regulamentar o trabalho de menores nas Fábricas de Algodão (e apenas nelas, por aí o trabalho ser considerado muito perigoso), proibindo o emprego de menores de 9 anos, ficando o trabalho dos 10 aos 16 anos limitado a 12 horas por dia, muitos dos membros da Câmara dos Lordes votaram contra por considerarem que “o trabalho tem de ser livre”: se as crianças querem trabalhar e os donos das fábricas os querem empregar, qual era o problema? O que se estava a fazer era atentar contra o sagrado direito da liberdade contratual, destruindo assim os fundamentos do mercado livre.

 

Numa célebre sentença proferida em 1816 pelo juiz Sir William Garrow, em que condenou a dois anos de prisão nove chapeleiros por se terem reunido num sindicato para a proteção dos seus interesses (o que era considerado ilegal) pode ler-se:

 “Neste feliz país onde a lei coloca o menor súbdito em igualdade com a maior personagem do Reino, todos são igualmente protegidos, e não pode haver necessidade de se associar. A gratidão devia-nos ensinar a considerar um homem como o Sr. Jackson, que emprega de 100 a 130 pessoas, como um benfeitor da comunidade”.

 

Não é de admirar que ainda hoje se considere que os pobres são pobres porque não querem trabalhar, são sujos e porcos porque não querem tomar banho, são feios e vestem-se mal porque não se querem esforçar, vivem em tugúrios desarrumados porque não gostam de viver em casas, amontoam-se em famílias numerosas porque não têm qualquer moral, e que sempre que puderem, mentem, aldrabam e roubam, sem qualquer consideração para com os outros, como exemplarmente nos mostrou Ettore Scola no seu filme, “Feios, porcos e maus”.

Esta considerações sobre os pobres, a classe baixa, são sempre feitas tendo como padrão o modelo alternativo representado pela classe alta, os ricos.

 

A 27 de fevereiro de 2012, os psicólogos da University of California, Berkeley, Paul Piff e Dacher Keltner, publicaram sete estudos (“Higher social class predicts increased unethical behavior”) que acabaram por comprovar que os indivíduos da classe social alta (medida pela riqueza, prestígio ocupacional e educação) se comportavam de forma mais antiética que os indivíduos da classe baixa.

Na sua abstrata pode ler-se:

 

Nos estudos 1 e 2, os indivíduos da classe alta eram mais propensos a infringir a lei enquanto conduziam, relativamente aos indivíduos da classe baixa. Nos estudos laboratoriais de acompanhamento, os indivíduos da classe alta foram mais propensos a exibirem tendências antiéticas quanto à tomada de decisão (estudo 3), a apropriarem-se de bens valiosos de outros (estudo 4), a mentirem numa negociação (estudo 5), a aldrabarem para aumentar as hipóteses de ganharem um prémio (estudo 6) e a aplaudirem um comportamento antiético no trabalho (estudo 7) do que os indivíduos de classe baixa.”

 

Para o estudo 1, observaram discretamente o comportamento dos condutores de automóveis num cruzamento movimentado. Verificaram que os condutores de carros de luxo, em vez de esperarem pela sua vez, eram mais propensos a ultrapassarem os outros motoristas. Tal acontecia com os condutores da classe alta, quer fossem homens ou mulheres, independentemente da hora do dia e da intensidade do tráfego.

Num estudo complementar, verificaram ainda que os condutores de automóveis de luxo eram também mais propensos a ultrapassar a alta velocidade os peões que tentavam utilizar a passadeira, mesmo depois de com eles terem estabelecido contacto visual.

 

Para descobrir se o egoísmo levava à riqueza (e não o contrário), os investigadores, realizaram um estudo em que começavam por pedir aos participantes que passassem alguns minutos a compararem-se a pessoas com melhor situação financeira ou, se assim o quisessem, com pior situação financeira. No fim da sessão, ofereciam aos participantes uma taça com doces, informando-os que se quisessem também os poderiam levar para casa. Simultaneamente eram também informados que os doces que sobrassem seriam dados às crianças de um laboratório próximo. Os participantes que tinham feito o exercício a pensar que estavam em melhor situação financeira em comparação com outros, acabavam por levar significativamente mais doces para si - deixando menos para as crianças.

 

Num outro conjunto de estudos, Keltner tentou analisar se a classe social influenciava os sentimentos de compaixão. Verificou que os indivíduos menos abastados eram mais propensos a demonstrarem sentimentos de compaixão para com os outros. Por exemplo, era mais provável que concordassem com afirmações como: “Muitas vezes noto pessoas que precisam de ajuda” e “É importante cuidar de pessoas vulneráveis”. Mesmo depois de controlar outros fatores que afetam os sentimentos de compaixão, tais como género, etnia e crenças espirituais, verificava-se o mesmo comportamento.

 

Noutro estudo, os participantes foram convidados a assistir a dois vídeos enquanto eram monitorizadas as respetivas frequências cardíacas. Um primeiro vídeo mostrava alguém a explicar como se construía um pátio. O segundo vídeo mostrava crianças que padeciam de cancro. Depois de assistirem aos vídeos, os participantes deviam quantificar a compaixão que sentiram.

A classe social foi medida fazendo perguntas aos participantes sobre o nível de renda e educação da sua família. Os resultados do estudo mostraram que os participantes com menos renda e educação, eram mais propensos a relatar sentirem mais compaixão quando assistiam ao vídeo das crianças com cancro. Além disso, os seus batimentos cardíacos diminuíram enquanto assistiam ao vídeo sobre o cancro – uma resposta que está associada a prestar maior atenção aos sentimentos e motivações dos outros.

 

Estas descobertas vieram confirmar pesquisas anteriores que mostravam como os indivíduos da classe alta eram piores no reconhecimento das emoções dos outros e menos propensos a prestarem atenção às pessoas com quem estão a interagir.

A pergunta que se impõe: por que é que a riqueza e o estatuto social diminuem os nossos sentimentos de compaixão para com os outros? Até porque teoricamente o mais provável seria que quem tivesse poucos recursos teria mais razões para ser egoísta.

 

Para os investigadores, a resposta pode ter algo a ver com a forma como a riqueza e a abundância nos dão uma sensação de liberdade e independência em relação aos outros. Quanto menos dependermos dos outros, menos nos importaremos com os seus sentimentos.

Outra razão possível tem a ver com as nossas atitudes em relação à ganância. Tal como Gordon Gekko, as pessoas da classe alta podem ser mais propensas a propalar a ideia de que “a ganância é boa”. Os investigadores descobriram que as pessoas mais ricas são mais propensas a concordar com afirmações de que a ganância é justificada, benéfica e moralmente defensável. Atitudes como estas permitem prever a probabilidade destes participantes se envolverem em comportamentos antiéticos.

 

Dada a crescente desigualdade de rendimentos existente, a relação entre riqueza e compaixão tem implicações importantes. E isto porque aqueles que detêm a maior parte do poder, político ou não, vêm normalmente já de meios privilegiados. E, se a classe social influência o quanto nos preocupamos com os outros, então os mais poderosos poderão ser os menos propensos a tomarem decisões que ajudem os necessitados e os pobres.

E, além disso, podem também ser os mais propensos a envolverem-se em comportamentos antiéticos. Embora a ganância possa ser uma emoção humana universal, ela pode exercer uma influência mais forte sobre aqueles que já a possuem.

Eis como os autores destes estudos, Keltner e Piff, especularam no New York Times sobre como a sua investigação poderia ajudar a explicar por que razão a Goldman Sachs e outras corporações financeiras de alto poder seriam terrenos férteis para comportamentos gananciosos.

 

 

Notas

 

Chamo a atenção para um artigo de Dave Jamieson saído no Huffpost de 31 de março de 2024, “Amazon Spent $3.1 Million On Anti-Union Consultants In 2023”.

 

Para o blog de 28 de junho de 2015, “Cristianismo como barreira à barbárie”.

 

Para o blog de 2 de novembro de 2016, “Lá vamos, cantando e rindo”.

 

E para um recente artigo de Cátia Moreira de Carvalho, no Diário de Notícias, 28 de março de 2024, “O terrorismo, a barbárie e a crueldade como se explicam?”, onde se pode ler:

“[…]  A desumanização é um mecanismo que reduz a regulação moral e consiste no ato mais extremo de tratamento imoral contra outras pessoas. Os seres humanos tendem a tratar outros membros do seu grupo com mais preocupação moral do que membros de um grupo externo. Esse processo é mais forte quanto mais uma pessoa se identifica com o seu grupo. Perceber outra pessoa como tendo a mesma humanidade faz com que os indivíduos ajam com empatia e com um sentido de obrigação social. Por esse motivo, é difícil cometer violência contra pessoas “humanizadas”, ou seja, com quem se sente empatia. Assim, a desumanização é o ato de tratar outras pessoas como menos do que humanas, sem emoções, sem sentimentos e sem alguma característica humana que lhes configure empatia.

A atribuição de culpa é outro mecanismo usado para reduzir a preocupação moral e infligir mais facilmente violência. Este processo ocorre quando as pessoas se percebem obrigadas a cometer violência porque a vítima “provocou” esse tipo de conduta. Dessa forma, ao atribuir a culpa às vítimas pelo sofrimento infligido nelas, o comportamento prejudicial é visto como uma reação defensiva e moralmente justificada. Evita-se a autocondenação não apenas culpando as vítimas, mas também percebendo o comportamento violento como uma necessidade derivada da alegada provocação, em vez de uma decisão pessoal.

Uma maneira de atribuir culpa às vítimas pela violência contra elas é através de um processo de demonização. Esse processo ocorre quando membros do grupo externo são vistos como malignos, o que implica que os indivíduos são despidos de sua consideração moral. Isso facilita o cometimento de violência contra eles, justificando qualquer meio violento adotado com base na perceção de que esse indivíduo é visto como malévolo e culpado por isso, portanto, não merece qualquer consideração moral. A demonização é, assim, uma violência moralizada, que vai além da desumanização, porque as vítimas são vistas como incapazes de mudar sendo, desta forma, culpadas pela violência infligidos contra elas.

Para compreender melhor esses mecanismos, deixo como exemplo a propaganda jihadista, que frequentemente retrata as pessoas ocidentais como desprovidas das suas características humanas, desumanizando-as ao nível de animais. Por exemplo, é comum que as vítimas do terrorismo sejam rotuladas como “porcos”, justificando a violência contra elas com base nisso. Além disso, a narrativa jihadista frequentemente retrata as pessoas ocidentais como “apóstatas” ou “infiéis”, enquadrando-as como perpetradoras de atos irreconciliáveis com a ideologia promovida pelas organizações terroristas de inspiração islamista. Consequentemente, a culpa é atribuída às vítimas, racionalizando e facilitando a violência terrorista infligida a elas. 

Todas as formas de terrorismo e de extremismo utilizam estes mecanismos na sua propaganda para radicalizar, recrutar e instruir a violência. E são estes mecanismos que permitem que pessoas, de forma deliberada e intencional, cometam violência contra outras, que são vistas como inferiores ou merecedoras de tal brutalidade. […]”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(471) Explicar, o quê?

Tempo estimado de leitura:10 segundos.

 

 

 A MUDANÇA DE RODA

 

 

Estou sentado à beira da estrada,

o condutor muda a roda

Não gosto do lugar de onde venho.

Não gosto do lugar para onde vou.

Porque olho para a mudança de roda

com impaciência?

 

 

 

 Foi em 1953 que Bertolt Brecht escreveu estes seis versos como parte das Elegias de Bukow, publicados apenas em 1964 onze anos após terem sido escritos e oito anos após a sua morte.

(470) O Holocausto como paradigma da civilização moderna

Tempo estimado de leitura:  9 minutos.

 

Sociedade moderna é toda a sociedade organizada racionalmente, que seja manipulável e controlável.

 

A escolha do extermínio físico como o meio mais adequado para alcançar a “Solução Final” foi o resultado de procedimentos burocráticos de rotina.

 

O Holocausto não deve ser entendido como a antítese da civilização moderna ou como um desvio do caminho do progresso, mas sim como uma das suas possibilidades ocultas.

 

 

 

 

Que o Holocausto tenha sido um genocídio, ninguém minimamente informado tem hoje qualquer dúvida. Já quanto às razões, justificações, para que ele possa ter acontecido nas nações cultural e civilizacionalmente consideradas como as mais desenvolvidas, aí as interpretações variam entre minimizá-lo, ajuizá-lo erradamente, chegando mesmo a negar a sua importância.

Por exemplo, quando se apresenta o Holocausto como algo que aconteceu apenas aos judeus, como o culminar de todo um processo histórico de antissemitismo europeu e cristão na continuação do antissemitismo prevalecente por outros meios, o que estamos a fazer é a reduzi-lo a um episódio isolado que quase nada nos diz sobre a compreensão do estado dessa sociedade. É reduzi-lo a um fenómeno único.

Mas, se for ao contrário, apresentar o Holocausto como um caso extremo, mas que não se pode comparar com o extenso relatório das atrocidades e agressões étnicas e religiosas que se foram verificando ao longo da história e com os quais temos convivido, é apresenta-lo como apenas mais um elemento de uma ampla classe que engloba muitos casos semelhantes de conflito e agressão.

Isto é também atribuir o Holocausto a uma predisposição “natural”, primitiva e culturalmente inextinguível da espécie humana (tal como aos horrores das cruzadas, a matança dos hereges albigenses, dos arménios pela mão dos turcos e a invenção dos campos de concentração pelos ingleses durante a guerra dos Bóeres) um caso “único”, mas que, apesar de tudo, é normal acontecer.

Um “acontecimento” particularmente monstruoso, embora completamente lógico, de ódio étnico e religioso, mas que assim entendido, permite que se lhe encontre o sentido dentro dos parâmetros habitualmente usados para aquilatarmos o modelo da sociedade moderna (uma sociedade organizada racionalmente que seja manipulável e “controlável”). Pelo que, segundo este ponto de vista, nada aconteceu que justifique a introdução de qualquer alteração ao modelo de entendimento vigente.

Para os que assim pensam, para se entender o Holocausto basta explicar em detalhe certas variáveis psicológicas, ideológicas e estruturais relacionadas com as percentagens de vítimas judias ou sobreviventes das distintas coletividades nacionais da Europa dominada pelos nazis. O Holocausto aparece então como um produto único, ainda que completamente determinado por uma concatenação concreta de fatores sociais e psicológicos que desembocaram na supressão temporal do domínio da civilização na qual se mantem o comportamento humano.

E assim, o que se faz é minimizar a importância do holocausto, já que os horrores do genocídio se tornam praticamente indistinguíveis dos outros sofrimentos que a sociedade moderna gera quotidianamente em abundância.

Pelo que uma vez que a sociedade moderna se mostrou incapaz de suprimir os fatores de irracionalidade essencialmente alheios, que as pressões civilizadoras se mostraram incapazes de dominar os impulsos violentos e emocionais, e que a socialização se mostrou incapaz de criar um volume necessário de motivações morais, podemos ser tentados a ver o Holocausto como um “paradigma” da civilização moderna, o seu produto “natural” e “normal”, a sua “tendência histórica”.

 

Acontece que “se o poder nazi tivesse prevalecido, a autoridade para decidir o que deve ser, teria determinado que no Holocausto não se tinha violado nenhuma lei natural e que não se tinham cometido crimes contra Deus nem contra a humanidade. Decisões como a conveniência ou não de se prosseguirem operações com trabalho de escravos, ampliá-las ou terminá-las, teriam sido tomadas em função de critérios racionais”.

 

E é isso que não nos deixa encarar de frente esta recordação: a suspeita corrosiva que o holocausto possa ter sido algo mais que uma aberração, algo mais que um desvio da senda do progresso, mais que um tumor canceroso no corpo saudável da sociedade civilizada. Que, em resumo, o Holocausto não tenha sido a antítese da civilização moderna e de tudo o que ela representa. Suspeitamos que o holocausto poderia ter descoberto um rosto oculto da sociedade moderna, um rosto distinto do que já conhecemos e admiramos. E que os dois coexistem comodamente unidos no mesmo corpo.

 

É Henry Feingold que insiste em dizer que o Holocausto é parte da evolução da extensa história da sociedade moderna:

 

A Solução Final foi o ponto em que o sistema industrial europeu fracassou. Em vez de potenciar a vida, que era a esperança original do Iluminismo, começou a consumir-se. O sistema industrial e a ética associada, fizeram com que a Europa dominasse o mundo”.

 

E explica como foram essas mesmas técnicas que foram utilizadas para tornar efetiva aSolução Final”:

 

“[Auschwitz] foi também uma extensão rotineira do sistema de fábricas. Em vez de produzir mercadorias, a matéria prima eram seres humanos, e o produto final era a morte, tantas unidades ao dia cuidadosamente anotadas nas tabelas de produção do diretor. Das chaminés, símbolo do moderno sistema de fábricas, saía um fumo acre produzido pela cremação de carne humana. A rede ferroviária organizada com tanta inteligência, levava às fábricas um novo tipo de matéria prima. Igual a outro carregamento. Nas câmaras de gás, as vítimas inalavam o gás letal das botijas de ácido prússico, produzidas pela avançada indústria química alemã. Os engenheiros desenharam os fornos crematórios, e os administradores o sistema burocrático que funcionava com tanto entusiasmo e eficiência que constituía a inveja de muitas nações. Inclusivamente no seu conjunto, o plano era um reflexo do espírito científico moderno. O que presenciamos não foi outra coisa que um esquema massivo de engenharia social.

 

É por esta normalidade de ação e intenção que o Holocausto representou algo de novo e desconhecido, no sentido em que se acomodou por completo a tudo o que sabemos da nossa civilização, o espírito que a guia, as suas ordens de prioridade, a sua visão imanente do mundo, as formas adequadas para alcançar a felicidade humana dentro de uma sociedade perfeita.

 

O teólogo americano, Richard L. Rubenstein, vai utilizar os diagnósticos de Max Weber sobre as tendências da sociedade moderna, para tentar saber se teria sido possível prever o que tinha acontecido, se os tivéssemos utilizado.

E verificou que na exposição de Weber sobre a burocracia moderna, o espírito racional, o princípio da eficiência, a mentalidade científica, a relegação dos valores para o reino da subjetividade, etc. não se faz referência a qualquer mecanismo capaz de excluir a possibilidade dos excessos nazis e que, para além disso, nada havia nos tipos ideais de Weber que permitisse encarar os procedimentos nazis como excessos.

Refere, por exemplo, que ”nenhum dos horrores perpetrados pelos membros da profissão médica alemã ou pelos tecnocratas alemães era inconsequente com a opinião que os valores são inerentemente subjetivos e que a ciência é intrinsecamente instrumental e não tem valores”.

 

E na sua obra, Approaches to Auschwitz: The Holocaust and its Legacy, vai dizer-nos que na “Solução final”, o potencial industrial e os conhecimentos tecnológicos de que a nossa civilização se jatava alcançaram novas alturas ao enfrentar-se com êxito com uma tarefa sem precedentes. A “Solução Final” mostra à sociedade uma capacidade que até aí não tínhamos conseguido perceber que tinha. Como nos ensinaram a respeitar e admirar a eficiência técnica e os bons planos, não podemos deixar de fazer outra coisa que admirar o que o progresso material trouxera à nossa civilização.

 

O mundo dos campos da morte e a sociedade que engendra, descobre o lado cada vez mais escuro da civilização judeo-cristã: Civilização significa escravidão, guerras, exploração e campos de morte. Também significa higiene médica, elevadas ideias religiosas, arte cheia de beleza e música esquisita. É um erro supor que a civilização e a crueldade selvagem são uma antítese. Na nossa época, as crueldades, e outros muitos aspetos do nosso mundo, são administrados de uma forma muito mais efetiva que anteriormente: não deixaram de existir. Tanto a criação como a destruição, são aspetos inseparáveis do que chamamos civilização”.

 

Como nenhuma destas condições parecem ter desaparecido, o sociólogo sul-africano, Leo Kuper faz-nos notar que, “o Estado territorial reclama, como parte integral da sua soberania, o direito a cometer genocídios ou a desencadear matanças genocidas contra as pessoas submetidas à sua autoridade e […] na prática as Nações Unidas defendem este direito”, então o Holocausto continua a ser uma das possibilidades ocultas da sociedade moderna.

 

 

 

Vai ser num livro de 1989, Modernnity and the Holocaust, (obra aqui seguida de perto) que Zygmunt Bauman, além de explorar a relação que vê entre a modernidade e o Holocausto, expõe a tese sobre a importância que a cultura burocrática instituída teve na Solução Final. Segundo ele, é preciso entender-se o modo como a burocracia moderna racionaliza, mantendo-se eticamente cega em busca da eficiência burocrática.

Um assassinato em massa desta magnitude depende da existência de técnicas e hábitos meticulosos e firmemente estabelecidos, de uma divisão de trabalho precisa, da manutenção de um fluxo suave de informação e comando e de uma sincronizada coordenação de ações independentes, mas complementárias: em resumo, todas as técnicas e hábitos que crescem e se desenvolvem num ambiente de uma oficina.

 

A estrada que conduziu à exterminação física dos judeus europeus não foi concebida por um monstro enlouquecido nem foi uma decisão pensada por dirigentes ideologicamente entusiastas que viram o processo total da resolução de problemas. Ele foi antes surgindo milímetro a milímetro, caminhando a cada momento conforme o destino que aparecia, mudando a cada nova crise que surgia e avançando com a filosofia de que “já atravessaremos essa ponte quando lá chegarmos”.

 

Eis como se passou: “Hitler fixou o objetivo do nazismo: livrarem-se dos judeus e sobretudo, que os territórios do Reich estivessem livres de judeus”, mas não especificou como o deviam fazer. Uma vez definido o objetivo, competia a cada um dos especialistas de acordo com os funcionários qualificados da direção da administração, darem conta dele tendo em consideração a viabilidade e os custos de vias alternativas de atuação.

Em 1935, começam por serem adotadas as leis raciais de Nuremberg, que distinguiam entre “judeu”, “mestiço” (Mischling) e “de sangue alemão ou aparentado” com base em critérios genealógicos. Os marcadores específicos de classificação grupal que permitiram a discriminação e precederam a própria ação genocida ficam já aqui estabelecidos. Em novembro de 1938, o regime nazista orquestrou um pogrom cujo resultado foi a destruição de centenas de sinagogas, saques, assassinatos, prisões e transferências para campos de concentração (ainda não existem campos de extermínio).

O primeiro que se pensou como solução prática para o objetivo traçado, seria transferir os judeus para outros países que os aceitassem. Após a anexação da Áustria, Eichmann foi muito elogiado por ter conseguido a que esses judeus emigrassem em massa, saindo do país. Após o território alemão ter começado a aumentar, a burocracia nazi considerou essas conquistas como a oportunidade sonhada para cumprir a ordem do Führer. Criaram então na Polónia, uma reserva (concentração) para o futuro “principado judeu”.

Mas a burocracia alemã encarregada da administração dos territórios da Polónia, objetou que tinha já muitos problemas para controlar os “seus” judeus. Eichmann vai passar então quase um ano a trabalhar no projeto alternativo de Madagáscar, pois uma vez que a França fora conquistada, era perfeitamente possível enviar os judeus para essa colónia francesa. A enorme distância, os transportes necessários e a marinha inglesa, foram atrasando o projeto.

Entretanto, o território conquistado ia aumentando e com ele o número de judeus debaixo da jurisdição alemã. Cada vez era mais visível uma Europa conquistada e dominada pelos nazis, pelo que o objetivo de uma “Alemanha livre de judeus” passou a ser uma “Europa livre de judeus”.

Com a próxima queda da Rússia, aqueles vastos territórios para oriente seriam a solução. Só que a Rússia não caiu, pelo que teria de aparecer uma solução alternativa. A 1 de outubro de 1941, Himmler dá ordens para se cancelar a emigração de judeus. Tinham-se encontrado outros métodos mais efetivos para cumprir a tarefa de se verem livres dos judeus: o extermínio físico.

Quando a 20 de janeiro de 1942 se realiza a célebre Conferência de Wannsee, já mais de meio milhão de judeus tinham sido assassinados.

 Os historiadores do Holocausto concordam que a decisão de assassinar todos os judeus da Europa foi tomada alguns meses antes por Hitler e pelo Reichsführer SS Heinrich Himmler, embora não exista nenhum documento que prove explicitamente isso.

Em Wannsee, Reinhard Heydrich relatou esta decisão, assumiu o comando e convidou os participantes a resolver diferenças de competência, a fim de sistematizar e estender o genocídio até ao último canto da Europa. Foram resolvidos aspetos legais – como tratar os judeus e os Mischlinge de primeiro e segundo grau, bem como os “casamentos mistos”, como confiscar os seus bens – e foram formuladas propostas concretas de “soluções” para o problema, ou seja, a eficiência dos diferentes métodos de assassinato. Após o encontro, que durou 90 minutos, foram servidas bebidas e os comensais almoçaram.

 

Tomada a decisão, restava apenas coordenar os distintos departamentos da burocracia do Estado: realizou-se uma cuidadosa planificação, fizeram-se cálculos, mobilizaram-se os recursos necessários. A Habitual rotina burocrática.

Sigamos Bauman:

 

A lição mais devastadora da análise da “estrada sinuosa para Auschwitz” é que, finalmente, a escolha do extermínio físico como o meio mais adequado para alcançar a “Solução Final” foi o resultado de procedimentos burocráticos de rotina, ou seja, do cálculo da eficiência, da regularização das contas, da aplicação dos padrões em geral. Pior ainda, a escolha eleita foi uma consequência do esforço para encontrar soluções racionais para os “problemas” que surgiram à medida que as circunstâncias mudavam.

 

Em nenhum momento da sua longa e tortuosa realização o Holocausto entrou em conflito com os princípios da racionalidade. A “Solução Final” não colidiu de forma alguma com a busca racional pela eficiência, com o alcance ótimo das metas. Pelo contrário, surgiu de um procedimento verdadeiramente racional e foi gerada por uma burocracia fiel ao seu estilo e à sua razão de ser.

Sabemos de muitos massacres, pogroms e assassinatos em massa, acontecimentos não muito distantes do genocídio, que foram cometidos sem contar com a burocracia moderna, com o conhecimento e tecnologias de que dispõe ou com os princípios científicos da sua gestão interna. O Holocausto não teria sido possível sem tudo isto. O Holocausto não resultou de uma fuga irracional daqueles resíduos ainda não erradicados da barbárie pré-moderna. Era um inquilino legítimo da casa da modernidade, um inquilino que não se sentiria confortável em qualquer outro edifício.

Não quero dizer que a intensidade do Holocausto foi determinada pela burocracia moderna ou pela cultura da racionalidade instrumental que ele encapsula, e muito menos que a burocracia moderna produza necessariamente fenómenos semelhantes ao Holocausto.

O que quero dizer é que as normas da racionalidade instrumental são especialmente incapazes de evitar esses fenómenos, que não há nada nesses padrões que desqualificam os métodos de “engenharia social” do estilo daqueles do Holocausto ou que considera irracionais as ações a que deram lugar.

Sugiro ainda que o único contexto em que poderia ser concebido, desenvolvido e realizada a ideia do Holocausto foi a cultura burocrática que nos encoraja a considerar a sociedade como um objeto a ser gerenciado, como uma coleção de diferentes “problemas” a resolver, como uma “natureza” que deve ser “controlada”, “dominada”, “melhorada” ou “remodelada”, como objeto legítimo de “engenharia social” e, em geral, como jardim que deve ser projetado e forçosamente preservado da maneira como foi projetado (a teoria da jardinagem divide a vegetação em dois grupos: “plantas cultivadas”, que não devem cuidar e “ervas daninhas” que devem ser eliminadas).

E também insinuo que o espírito de racionalidade instrumental e sua institucionalização burocrática não só deu origem a soluções como as do Holocausto, mas, fundamentalmente, tornou que estas soluções seriam “razoáveis”, aumentando com isso as probabilidades que elas fossem as escolhidas. Este aumento na probabilidade está relacionado com a forma mais do que coincidente com a capacidade da burocracia moderna para coordenar a ação de um grande número de pessoas jurídicas para atingir qualquer objetivo, mesmo que seja imoral.”

 

 

Conclusão:

 

 O Holocausto não deve ser entendido como a antítese da civilização moderna ou como um desvio do caminho do progresso, mas sim como uma das suas possibilidades ocultas.

O Holocausto não desapareceu da face da terra com a derrota do nazismo em 1945. Permanece como uma ameaça num mundo em que se multiplicaram os meios e as tecnologias para o tipo de dominação que os nazis levaram à sua expressão extrema.

 

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