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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(399) Realidade como ficção científica: os Muskes

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

The Moon is a Harsh Mistress (Revolta na Lua), de Robert Heinlein, novela favorita de Elon Musk.

 

É a inovação privada e não a intervenção do estado ou o ativismo político que salvará o mundo.

 

Os problemas, como o desastre climático, não são devidos à ganância e à busca desenfreada de lucro por parte das grandes corporações, são apenas problemas meramente técnicos a resolver.

 

Meus senhores, [ele] pode falar como um idiota e parecer um idiota. Mas não se deixe enganar por ele. Ele é mesmo um idiota, Groucho Marx.

 

 

 

 

Foi no século XX, que o conhecido escritor russo-americano Isaac Asimov definiu “ficção científica” como o “ramo da literatura que lidava com a reação dos seres humanos perante as alterações da ciência e da tecnologia”.

 Curiosamente, parece que a primeira obra considerada como sendo ficção científica foi a escrita pelo grego Luciano de Samosata, no século II d. C., História Verdadeira, na qual abordava já temas como o das viagens a outros mundos, vidas de extraterrestres, guerra interplanetária e vida artificial. Seguiram-se depois muitas outras obras de literatura ao longo dos tempos.

Com o aparecimento do cinema, televisão e outros meios de comunicação, todos acabaram por ser invadidos pela ficção científica, pelo que hoje ela se tornou muito popular e influente em todos os campos sociais.

Daí que a ficção científica atual inclua temas sobre o ambiente, a internet e o universo da informação, questões sobre biotecnologia, nanotecnologia, sociedades utópicas, distópicas, pós-apocalípticas e de pós-escassez, a evolução dos humanos na Terra ou noutros planetas, etc.

A par de Asimov (1920 – 92), da Trilogia da Fundação e do Eu, Robot, e de Arthur C. Clarke (1917 – 2008), do 2001: Uma Odisseia no Espaço, um dos seus maiores representantes foi o também americano Robert A. Heinlein (1907 – 88), aliás o único a ganhar quatro prémios Hugo atribuídos ao melhor romance de ficção científica, com Estrela oculta (1956), Tropas estelares (1959), Um estranho numa terra estranha (1961) e Revolta na Lua (The Moon is a Harsh Mistress) (1967).

 Olhemos com mais atenção para este último, particularmente por ter sido considerado por Elon Musk como novela favorita.

 

A ação passa-se em 2075, na colónia penal em que a Lua se transformou, onde habitam em cidades debaixo do solo cerca de três milhões de criminosos, exilados políticos, ou seus descendentes, em que o número de homens é o dobro do das mulheres e onde a poliandria e várias formas de poligamia são a norma.

O diretor desta prisão é nomeado pelo governo da Terra, mas, na realidade a sua única responsabilidade é garantir que os carregamentos vitais de trigo hidropónico sejam enviados para a Terra. E isto porque os próprios prisioneiros se autogovernavam anarquicamente.

Toda a infraestrutura e maquinaria necessárias eram controladas por um só supercomputador, o HOLMES IV (“High-Optional, Logical, Multi-Evaluating Supervisor, Mark IV), que acabou por desenvolver autoconsciência quando os seus “neuristors” ultrapassaram o número de neurónios do cérebro humano. Ele chegou à conclusão que ao ritmo que as quantidades de trigo exigidas pela Terra, em breve esgotariam as reservas das minas de gelo da Lua, deixando-a sem água.

Previu ainda tal facto ocasionaria revoltas dentro de sete anos e canibalismo em nove anos. E juntamente com os prisioneiros, calcula que as hipóteses de sucesso de uma revolta contra a Terra serão de uma em sete. Era tempo de começar a atuar. Os revoltosos começam a movimentar-se.

A Terra envia soldados para acabar com a revolta, mas os soldados são derrotados, levando inclusivamente os revoltosos a ameaçarem a Terra com o uso da catapulta eletromagnética utilizada para a exportação do trigo como arma de arremesso de grandes rochas contra a Terra.

A 4 de julho de 2076, aniversário dos 300 anos da Declaração de Independência dos EUA, a Lua declara a sua independência.

Durante as conversações havidas, os governos da Terra são pressionados a construírem uma catapulta para enviar água para a Lua por troca pelo trigo recebido, de acordo com uma expressão muito popular na Lua e que era TANSTAAFL! (There Ain’t No Such  Thing As A Free Lunch!) (Não Há Almoços Grátis!).

 

Resumidamente, estamos perante uma revolta entre uma sociedade caraterizada por mercados livres com mínima intervenção do governo e um estado monopolista. Esta sociedade é tão livre que, inclusivamente, aceita a catástrofe que a aguardará ao recusar a assistência alimentar que a Terra lhe promete, por acreditar que o sacrifício da população que se verificará entre os mais dependentes dessa assistência acabará, ao longo do tempo, por dar lugar a uma população “mais eficiente e melhor alimentada”.

Para os revoltosos, “as revoluções não são ganhas pela quantidade das massas. A revolução é uma ciência que apenas alguns têm a competência para pôr em prática. Ela depende de uma organização correta e, acima de tudo, de comunicações”.

Por isso vemos Mannie, um dos conspiradores e técnico do supercomputador, desenhar o sistema que decidiria sobre a autorização da transmissão de informações entre as células clandestinas dos revolucionários como um “diagrama de computador”, uma “rede neural”, o que significa que a organização dos quadros não era feita por um processo democrático de deliberação ou de acordo com a experiência prática de cada um, mas pela aplicação de princípios cibernéticos. Ou seja, a solução aplicada ao problema dos grupos insurrecionais era a mesma que a aplicada a “um motor elétrico”.

Isto é a crença no chamado princípio do “solucionismo tecnológico” segundo a qual qualquer problema social ou político pode ser resolvido através de uma correta solução técnica. Exemplo atual: para Musk, o carro elétrico é a solução para a alteração climática, o que o leva a alicerçar ainda mais a sua convicção que é a inovação privada e não a intervenção do estado ou o ativismo político que salvará o mundo.

Os conspiradores confiam no supercomputador para os conduzir no processo de confrontação e separação do governo colonial da Terra, e a justificação é que o computador consegue gerir essa alteração desejada melhor do que qualquer movimento ou organização humana.

Interessante também notar a obsessão que o supercomputador tem com as comunicações, para assim acautelar e impedir que a Terra as utilize para espalhar a confusão e influenciar a opinião pública, quer através de campanhas de media quer através de acesso indevido a dados. O que é totalmente atual: a elite revolucionária tem a esperança de alterar a sociedade através da manipulação da informação.

 

Para os que chefiam a conspiração, as aspirações democráticas transmitidas pela base revolucionária não passam de “ruído” que poderia interferir com os sinais transmitidos pela chefia para os seus subordinados ligados pela rede (net).

Mesmo quando se trata de estabelecer a Constituição para o Estado Livre da Lua, os conspiradores usam de truques para ultrapassarem os congressistas que não são seus seguidores. Os indivíduos espertos ganham sempre às massas da democracia, e isso é bom”.

 

O que se retém da leitura de Revolta a Lua é que a cibernética é a chave para se entender o universo. Por isso, tudo, desde os mercados aos sistemas ecológicos, não são mais que processadores de informação com base em mecanismos de feedback. Tal como termostatos, limitam-se a responder à alteração das circunstâncias sem qualquer tipo de controle por uma consciência humana.

Como a economia é um sistema autorregulado demasiado complexo para que alguém o possa entender, controlar ou encaminhar, ela deve ser isolada de possíveis interferências democráticas através de uma ordem global legal desenvolvida por experts (neste caso a melhor tradução será a de espertos) neoliberais.

 

É esta mesma ideia que leva Musk a querer retirar do Twitter quaisquer constrangimentos (nem todos, evidentemente) aos conteúdos das mensagens: a crença em que “a informação quer ser livre”. Mais uma vez não se trata de um problema de preocupação com a humanidade, mas sim do simples facto de a fala ou escrita contar apenas como data e não como diálogo, pelo que não se vê qualquer problema em considerar um discurso de ódio como perigoso. Apenas um problema de bits. (1)

Os Muskes acreditam firmemente que uma vez libertos de constrangimentos físicos e governamentais, o mercado livre produzirá novas tecnologias capazes de resolverem qualquer possível problema ou necessidade que viermos a ter.

Para eles a sociedade não é movimentada devido a antagonismos, muito menos devido a luta de classes. Os problemas, como o desastre climático, não são devidos à ganância e à busca desenfreada de lucro por parte das grandes corporações, são apenas problemas meramente técnicos a resolver.

 

Pelos vistos, os Muskes deram-se bem nesta realidade: a Oxfam diz-nos que atualmente há dez pessoas que possuem mais riqueza que os últimos 40% da humanidade, e que os 20 mais ricos possuem coletivamente mais que todo o PIB da África subsariana.

Que Musk, entre abril de 2020 e abril de 2021 (pandemia) fez 140 biliões de dólares. Como o vencimento médio anual dos americanos era de 75.000 dólares, ele ganhou 1,86 milhões de vezes mais, 383 milhões de dólares cada dia. Ou seja, trabalhou 1,86 milhões de vezes mais arduamente que qualquer trabalhador e/ou é 1,86 milhões de vezes mais esperto que qualquer trabalhador.

Mark Zuckerberg ganha 28.538 dólares por minuto. Podia dar a cada americano 100 dólares e ainda ficava com mais de metade dos seus 82,3 biliões de dólares.

Jeff Bezos, segundo alguns cálculos, faz 3.715 dólares por segundo, o que dá à hora 13.374.000 dólares.

 

Mais dez ou vinte ou trinta anos (ou os que forem necessários, desde que os governos não intervenham) e terão a riqueza suficiente que lhes permitirá então resolver todos os problemas que afligem a humanidade: pobreza, saúde, trabalho, habitação, alimentação. Os bons samaritanos do Grande Recomeço.

 

Recordemos a frase de Groucho Marx (dos Irmãos Marx) no filme Duck Soup (Os Grandes Aldrabões):

Meus senhores, [ele] pode falar como um idiota e parecer um idiota. Mas não se deixe enganar por ele. Ele é mesmo um idiota”.

 

 

 

Notas:

1: Um recente ramo da ciência, a física da informação, sugere que a realidade física é fundamentalmente feita com bits de informação, e que só depois a partir deles é que se forma a nossa experiência do espaço-tempo. Ou seja, as leis físicas como as conhecemos não refletem a ordem do universo, mas sim da ordem imposta pela forma como descrevemos o universo.

Isto levou a que em 1989 o físico John Archibald Wheeler considerasse a possibilidade de o universo ser fundamentalmente matemático, emergindo da informação obtida, e a que mais tarde, em 2003, Nick Bostrom apresentasse a hipótese de se viver numa simulação (a nossa realidade física pode, portanto, ser uma realidade virtual em vez de um mundo objetivo que exista independentemente do observador). Hipótese altamente provável, como explicou Elon Musk em 2013.

Esse mundo de realidade virtual terá como base o processamento de informação. Tal significa que tudo acabará por ser digitalizado e reduzido a um tamanho o menor possível por forma a que não possa ser mais subdividido: reduzido a bits.

 

 

 

(398) O envelhecimento desigual das mulheres

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

À medida que as mulheres descem na escala da desejabilidade sexual supõe-se que se tornam mais estúpidas, menos interessantes, Jane Campbell.

 

 Isso é assim, é obvio […] Penso que isso faz parte deste negócio, Sean Young.

 

O problema é que essa mulher não se parece comigo. Ela não é quem eu pensava que era, Ursula Le Guin.

 

Era como se Alice tivesse sido considerada culpada por viver demasiado tempo, Vivian Gornick.

 

 

 

Numa recente entrevista dada por Sean Young, a famosa Rachael do “Blade Runner” (1982) de Ridley Scott, notava que “os homens envelhecem como montanhas, mas continuam a terem papéis. Mas assim que uma mulher começa a ficar um pouco mais velha, deixa de ter essa segurança. […] Isso é assim, é obvio […] Penso que isso faz parte deste negócio. As pessoas querem ver lindas raparigas mais novas nos papéis.”

 

Quando a inglesa Jane Campbell (1942 -) publicou pela primeira vez uma obra de ficção, Cat Brushing, tinha oitenta anos (2022). Uma série de 13 contos com diferentes heroínas, todas mulheres idosas com os seus variados problemas, que a crítica não se tem cansado de aclamar.

Numa das suas últimas intervenções públicas, Campbell disse o seguinte:

 

Sendo eu própria uma mulher idosa, é fácil ficar zangada com a difamação vulgar com que as mulheres mais velhas são tratadas pelos mídia, por instituições de assistência social, pelo corpo médico e, às vezes, até pelos membros das próprias famílias.

À medida que as mulheres descem na escala da desejabilidade sexual - à medida que desenvolvem uma forma diferente, andam com mais dificuldade e perdem o brilho da juventude -, supõe-se que se tornam mais estúpidas, menos interessantes, menos merecedoras de tudo o que desejavam antes "da queda"; que, em essência, elas se tornam não-mulheres e, mais significativamente, homogéneas.

Tenho vindo a apreciar ao longo do tempo toda aquela literatura que oferece representações maravilhosamente variadas de mulheres idosas. Ela é uma boa companhia. São peças que expõem a crueldade infligida às mulheres mais velhas e que me impressionam pela capacidade de procurar a essência da criatura complexa que ainda existe dentro do corpo desgastado. Dentro de todos eles está a luta pela sua independência.”

 

 

Ursula K. Le Guin (1929 – 2018) é uma muito conceituada e apreciada novelista americana com uma extensa e inovadora (ficção científica feminista, The Left Hand of Darkness, - A Mão Esquerda das Trevas) obra. Do seu livro póstumo, Ursula K Le Guin: Conversations on Writing, (Dizer é ouvir. Sobre escrever, ler e imaginação), pode-se ler:

 

“Isto é um novo sinal ou estou a transformar-ma num dálmata? Até que ponto uma prega pode alargar sem se tornar um joelho? Não quero ver, não quero saber.

 E ainda assim eu olho para homens e mulheres da minha idade, ou mais velhos, e as suas cabeças e nós dos dedos e manchas e inchaços, embora variados e interessantes, não afetam o que eu penso deles. Algumas dessas pessoas parecem-me muito bonitas, outras não. […] Tem a ver com os ossos. Tem a ver com quem é essa pessoa. Com clareza crescente, tem a ver com o que os rostos e corpos retorcidos transmitem.

Sei o que mais me preocupa quando me olho ao espelho e vejo uma mulher mais velha sem cintura. Não é o facto de eu ter perdido a beleza: nunca tive o suficiente para ficar obcecada por ela. O problema é que essa mulher não se parece comigo. Ela não é quem eu pensava que era.”

 

 

Vivian Gornick (1935 -), outra grande escritora feminista americana, escreveu em 2015, The Odd Woman and the City, (A mulher singular e a cidade):

 

“Ela necessitava desesperadamente de um interlocutor que soubesse quem ela era, e eu necessitava desesperadamente continuar a prestar tributo a uma autora que um dia significara tanto para mim. [...]

Mas ninguém se importava com a essência humana de Alice. Cada vez que ia visitá-la, via-a muito mais cansada do que da vez anterior. É verdade que ela tinha mais de oitenta e cinco anos e vivia à base de analgésicos; o cansaço, porém, era sobretudo espiritual, não do corpo. Quando já levava alguns meses a viver na residência, sempre que ia visitá-la encontrava-a caída na cadeira, tão exausta que dava medo vê-la. Ainda assim, sentava-me à sua frente e, sem sequer perguntar como é que ela estava, eu começava a falar. Minutos depois de ouvir a minha voz, o seu rosto, o seu corpo, as suas mãos começaram a voltar à vida. De imediato estávamos a conversar sobre livros, das manchetes do dia e de conhecidos mútuos, tão animadamente como sempre, embora sem discutir. Acho que nunca esquecerei a visão dessa transformação milagrosa. Ver como a atividade de uma mente brilhante trazia de volta à vida uma pessoa meio morta era testemunhar uma metamorfose que sempre me pareceu como nenhuma outra. [...]

Não, o que realmente importava era que Alice passara a vida a lutar para se converter num ser humano consciente cuja maior alegria era usar o seu cérebro; e agora estava presa num ambiente criado para ignorar - ou melhor, para descartar - esse esforço constante e valente, quando a única coisa que era devida a um ser humano - sim, do começo ao fim – era que se honrasse esse esforço. [...]

A única coisa que agora importava era que - exceto quando ela estava a ler - a minha amiga tinha sido relegada para um exílio da mente que equivalia a um encarceramento. Era como se Alice tivesse sido considerada culpada por viver demasiado tempo.”

 

 

Grandes escritoras como estas sabem perfeitamente que estão a escrever não a realidade, mas sobre a realidade, e também sabem de onde vem essa realidade sobre a qual estão a escrever.

É um facto histórico que se prolonga até hoje que a primeira de todas as divisões da sociedade em classes é a que resultou da divisão de trabalho entre os dois sexos e que se traduz na submissão de um sexo ao outro. É em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (1884) que se pode ler:

 

“O casamento conjugal não entra, pois, na história como a reconciliação do homem e da mulher e muito menos ainda como a forma suprema do casamento. Pelo contrário: surge como sujeição de um sexo pelo outro, como a proclamação de um conflito entre os dois sexos, desconhecido até então em toda a pré-história. Num velho manuscrito inédito, composto por Marx e por mim em 1846 [Ideologia Alemã] encontro estas linhas […” a divisão do trabalho não era primitivamente mais do que a divisão do trabalho no ato sexual” …]. Às quais posso agora acrescentar: A primeira oposição de classe que se manifesta na história coincide com o antagonismo entre o homem e a mulher no casamento conjugal, e a primeira opressão de classe coincide com a opressão do sexo feminino pelo sexo masculino. O casamento conjugal foi um grande progresso histórico, mas ao mesmo tempo abre, ao lado da escravatura e da propriedade privada, essa época que se prolonga até aos nossos dias, em que cada progresso é simultaneamente um relativo passo atrás, pois que o bem-estar e o desenvolvimento de uns são obtidos pelo sofrimento e o recalcamento de outros. O casamento conjugal é a forma-célula da sociedade civilizada, forma a partir da qual já podemos estudar a natureza dos antagonismos e das contradições que aí se desenvolvem plenamente”.

 

 

Talvez interesse:

Artigo de 14 de dezembro de 2016, “Blade Runner”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/blade-runner-24547).

 

 

 

 

 

 

 

(397) Música não só no coração

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Música no Coração. Um clássico intemporal que nos traz de volta o amor em tempo de guerra, título do DN.

 

O caráter ‘austríaco’ de uma sua respeitável família, a Von Trapp, imortalizada na Música no Coração.

 

Nem todos, podendo ter a sua cave, habitam castelos.

 

 

 

Hoje, 8 de novembro de 2022, dia em que alguns americanos vão confirmar as suas indicações para alguns lugares reservados no aparelho do Estado, o Diário de Notícias cá do burgo informa que “Música no Coração. Um clássico intemporal que nos traz de volta o amor em tempo de guerra” vai subir ao palco do Super Bock Arena, no Porto, neste sábado, dia 12.

Seguem-se curtas e incisivas entrevistas com os principais intérpretes, encenador e produtor, que me escuso de transcrever, remetendo para a notícia em questão.

 

Relembro que, sem ser a propósito, escrevi a 8 de março de 2017 um artigo

que aqui vos deixo, julgo que a propósito:

 

Corações cheios de música

 

“Se não fosse eu, a Kerstin (filha-neta mais velha com 19 anos) hoje já não estaria viva. Não sou um monstro. Podia tê-los matado a todos. E assim não teriam ficado pistas. Ninguém me teria descoberto”, J. Fritzl.

 

O importante desta declaração é a premissa de que o pai tinha o poder de usufruir sexualmente dos filhos e até de os matar, e que só não o fizera por ser bondoso. Tal qual um “pai primitivo”.

 

A Áustria da Música no Coração não é a Áustria dos austríacos, mas a imagem mítica que Hollywood faz da Áustria.

 

Penis normalis, duas vezes por dia”.

 

 

 

Em abril de 2008, a Áustria foi sacudida pelo que ficou conhecido como o “caso Fritzl” (https://www.youtube.com/watch?v=SdSgQY7fF9w), quando Elisabeth Fritzl, uma mulher de 42 anos, contou à polícia de Amstetten, que há 24 anos se encontrava cativa na cave da residência do seu pai, Josef Fritzl, onde era abusada física e sexualmente por ele.

Desse relacionamento tinha tido oito filhos e um aborto. Que quatro dos seus filhos viviam também prisioneiros na cave, e que os outros três foram criados na parte de cima da casa pelos pais dela, Josef e Rosemarie Fritzl,

 O pai começara a abusar dela aos 11 anos, até que aos 18 anos a aprisionou na cave. Um dos filhos morrera três dias após o parto sem qualquer tipo de assistência médica; o seu corpo foi incinerado por Josef na sua propriedade. Outro tinha já problemas ao andar, pois crescera mais do que a altura do teto da cave.

 

Na sua defesa, Fritzl disse que o que queria era proteger a filha dos perigos do mundo exterior, pois ela começara a chegar tarde a casa, andava à procura de emprego, possivelmente namoraria com um drogado e já não obedecia às regras da casa.

Resolveu então, construir um local onde a pudesse instalar com todas as comodidades, com frigorífico, televisão. Nunca a violara, fora sempre sexo consentido. Tratara-a sempre bem, a ela e aos filhos, levava-lhes flores, livros, algumas vezes por semana comia com eles.

E acrescentou:

 

 “Se não fosse eu, a Kerstin (filha-neta mais velha com 19 anos) hoje já não estaria viva. Não sou um monstro. Podia tê-los matado a todos. E assim não teriam ficado pistas. Ninguém me teria descoberto”.

 

O importante desta declaração é a premissa de que o pai tinha o poder de usufruir sexualmente dos filhos e até de os matar, e que só não o fizera por ser bondoso. Tal qual um “pai primitivo”. (1)

 

 Traços de atitudes semelhantes continuam a serem encontrados mesmo nos pais mais ‘normais’: subitamente, um pai amável explode convicto que os seus filhos lhe devem tudo, começando pela sua própria existência, pelo que são seus devedores absolutos, sendo por isso o seu poder sobre eles ilimitado, o que lhe dá o direito de fazer o que quiser a fim de cuidar deles.

 

Não podemos cometer o erro de acusar de igual forma a autoridade patriarcal pelas monstruosidades dos Fritzles deste mundo, como também não podemos querer a erradicação da Lei do Pai.

 A atitude de Fritzl não é nem a componente de uma atitude paternal ‘normal’, na qual a medida do sucesso é a capacidade de deixar o seu filho tornar-se livre, permitir-lhe movimentar-se no mundo exterior, nem sinal do seu fracasso no sentido em que o vazio da autoridade paternal ‘normal’ venha a ser suprimida e preenchida pela figura do “pai primitivo” omnipotente.

 

Em sua defesa, Fritzl sugeriu também que a disciplina da educação nazi a que fora sujeito o tivesse influenciado sobre o que era decência e bom comportamento.

 Evidentemente, surgiram logo interpretações visando incriminar a particularidade do espírito de disciplina e ordem austríacos, numa tentativa de conservar e inocentar a paternidade enquanto tal, recusando-se a ver a potencialidade de atos semelhantes na própria ideia de autoridade paternal.

A violência excessiva do “pai primitivo” assume em cada cultura certos traços específicos, mas daí a culpar a história da Áustria ou o seu gosto vincado de ordem pela monstruosidade do seu comportamento é algo difícil de aceitar como explicação.

 

 

Pode-se, contudo, elaborar um pouco sobre este caráter ‘austríaco’, recorrendo a uma sua respeitável família, a Von Trapp, imortalizada na Música no Coração.

Família que igualmente vivia num castelo fechado, sob a benevolente autoridade militar do pai que protegia da maldade do mundo exterior aqueles que tem à sua guarda, e onde conviviam três gerações (o pai, Maria, como Elisabeth, e os filhos).

 

Mas, atenção: o imaginário que vamos encontrar não é o austríaco, mas o de Hollywood, como representante da cultura ocidental. A Áustria da Música no Coração não é a Áustria dos austríacos, mas a imagem mítica que Hollywood faz da Áustria.

 Curiosamente, ao longo dos tempos que se lhe seguiram, os próprios austríacos começaram a ‘fazer de austríacos’, como se se identificassem com a imagem que Hollywood deles sugeria.

 

Na versão Fritzl, as crianças aterradas reúnem-se à volta da mãe, receando a chegada do pai, enquanto a mãe as acalma com uma canção sobre “algumas das suas coisas preferidas”.

 Na versão Trapp, as crianças da cave são convidadas a título excecional para uma receção na parte de cima da casa, onde, quando chega a hora de se irem deitar, cantam, à laia de despedida, a canção Aufwiedersehen Goodbye, saindo uma a uma da sala.

A casa dos Fritzl era uma cave que não dava para as colinas, e o som era o da música do coração.

 

Há ainda a considerar o importante elemento sagrado sempre presente na Música no Coração, que se verifica logo no tema de abertura do filme com o coro das freiras na procura de uma solução:

 

 “Que fazer com um problema como Maria?

 

 A solução proposta pela Madre Superiora, perante a inquietação sexual experimentada por Maria é dada pela canção “Escala a Montanha”, ou seja:

 Arrisca! Não te deixes tolher por receios mesquinhos!

Do personagem do qual esperaríamos um sermão em defesa da abstinência e da renúncia, vem antes um apelo à fidelidade do sujeito ao seu desejo.

O mesmo argumento poderia ter sido usado pelo pároco de Fritzl após este lhe ter confessado o seu desejo apaixonado em aprisionar e violar a filha:

 “Escala a montanha”.

 

Finalmente, aquele episódio em que o Barão fica furioso por ver os seus filhos pendurados em árvores e todos sujos. Autoritariamente repreende-os.

Quando mais tarde chega a casa e ouve os filhos e Maria a cantarem em coro “As Colinas Estão Vivas” (“The Hills are Alive”) fica todo comovido, acabando também por se juntar ao coro, mostrando afinal que aquelas ordens disciplinares militares não passavam de uma máscara que encobria um homem terno e delicado.

 

Tal como Fritzl, que embora usasse o seu poder para impor o seu sonho, desejava construir a sua “música no coração” sentado no sofá a ler histórias dos livros que levava para os seus filhos netos. Como disse quando foi preso: “Arruinaram-me a vida”. Nem todos podendo ter a sua cave, habitam castelos.

 

 

(1) Ver blog de março de 2017, “O pai primitivo”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/o-pai-primitivo-27165

(396) A economia dos economistas

Tempo estimado de leitura: 9 minutos.

 

A economia é demasiado importante para ser entregue aos economistas, Joan Violet Robinson.

 

A culpa da inflação, ou do seu agravamento e descontrole, tem que ver como o aumento dos salários, voz dos especialistas que o povo repete.

 

Os trabalhadores não poderão receber mais do que o “necessário para lhes permitir […] viver e perpetuar a raça, sem aumentar nem diminuir”, David Ricardo.

 

O lucro, enquanto objetivo económico, é uma condicionante e não um determinante da capacidade de adaptação, inovação e evolução humanas, B. Lonergan.

 

 

 

Por princípio, os filósofos escrevem sempre sobre a realidade, embora muitas vezes o possam fazer de forma hermética e sobre coisas que aparentemente não têm que ver com o que se está a passar, o que os torna ao nosso olhar uns chatos que falam incompreensivelmente sobre coisas que não nos interessam.


Por exemplo, quando Lacan nos vem dizer que “Realidade é a realidade social dos indivíduos efetivos implicados em interações e nos processos produtivos”, e que o “Real é a inexorável e abstrata lógica espetral do capital determinando o que ocorre na realidade social”, o que ele está a fazer é a tentar através de um processo intelectual aceder à generalização de um problema que, embora sendo particular, se põe à sociedade.

Interpretemos exemplificando o que ele nos quer dizer: em Portugal (não só) temos assistido à degradação constante das condições de vida das pessoas, ao alargar da miséria, à incerteza em todas as suas vertentes sobre o indivíduo e sobre o estado social, ao aumento da desigualdade, à culpabilização e ao ataque aos mais desprotegidos. Isto é a Realidade. Por outro lado, temos os relatórios económicos em que todos eles são unânimes a dizerem que a situação económica do país é “financeiramente sólida”. Isto é o Real.

E é isto que permite que alguns economistas e comentadores políticos que pontuam nos meios de comunicação social, quando confrontados sobre o estado da economia face ao aumento constante da desigualdade e do número de pobres, nos digam, com toda a tranquilidade, que “a economia está bem, o país é que está mal”.

O que eles nos estão a dizer é que o que conta não é a Realidade, o que conta é a situação do capital, porque isso é que é o Real. (1)

 

Não é, pois, de espantar que como resultado, os corolários dessa vulgata amplamente transmitida e repetida venham a ser tranquilamente aceites pela população. Como é o caso de que a culpa da inflação, ou do seu agravamento e descontrole, tem que ver como o aumento dos salários.

Desçamos à realidade. Vejamos alguns exemplos: será que o aumento do preço dos medicamentos tem sido motivado pelo aumento dos salários dos farmacêuticos? O aumento dos preços dos bilhetes do transporte aéreo foi motivado pelos aumentos dos salários das assistentes de bordo? O aumento dos preços das unidades hoteleiras tem sido motivado pelo aumento dos salários das empregadas de limpeza?

Exemplos como estes podem-se repetir pelos diversos setores económicos, particularmente naqueles em que a inflação tem crescido mais, o que curiosamente são os que mais nos afetam: eletricidade, alimentação e habitação.

E as perguntas são sempre as mesmas: que aumentos de custo sofreram as empresas para justificarem os enormes aumentos de preços? Estão os grupos dos donos dos prédios a pagarem muito mais aos porteiros, ou ao pessoal da limpeza, ou da segurança? Etc.

 

Outro exemplo é o relacionado com aquela voz corrente que nos conta que. as empresas, à medida que os preços sobem, se limitam a passá-los para os consumidores. Se fosse só assim, então não se perceberia porque é que os seus lucros aumentam. O que significa que elas não estão só a passar os aumentos de preços para os consumidores. Os preços estão a subir muito mais depressa que os custos.

 

Esta diferente perceção sobre o estado das coisas (chamem-lhe ideologia, artimanha, luta de classes, ou o que seja) há muito que vem sendo utilizada particularmente pelos economistas, mormente a partir da Revolução Industrial. Foram eles que nos deram a “conhecer” uma série de leis que entendiam serem tão válidas para a sociedade e para a economia como as leis dos cientistas para o mundo físico. São as chamadas “leis naturais” da Economia. Fixas, eternas. Não discutíveis. Vejamos algumas.

Adam Smith vem ligar o bem-estar da sociedade à liberdade do indivíduo (1776). Se dermos a todos a maior liberdade, se os deixarmos ganharem o mais que puderem, se apelarmos para que cada pessoa procure apenas o seu interesse individual, toda a sociedade melhorará, pois, a oferta de qualquer artigo acabará por se ajustar à procura pelo preço certo.

Mas para que isso aconteça não se deve interferir nesta lei natural, quer seja através da regulamentação dos horários ou da fixação dos salários dos trabalhadores, até porque seria inútil. O monopólio dos capitalistas para elevarem os preços e dos sindicatos dos trabalhadores para elevarem os salários, constituem violações da lei natural. A concorrência a todos os níveis é a ordem natural: mantém os preços baixos e assegura o êxito dos fortes e eficientes, livrando-se ao mesmo tempo dos fracos e ineficientes. O governo, servirá apenas para preservar a paz, proteger a propriedade.


Vai ser em resposta a William Godwin que dizia (1793) que embora todos os governos fossem um mal, o progresso era, no entanto, possível e a humanidade poderia chegar à felicidade pelo uso da razão, que Thomas Malthus aparece a afirmar (1798) que o progresso no destino da humanidade era impossível, e que, portanto, todos deveríamos viver contentes com o que havia (ou seja, não tentássemos fazer uma revolução como a da França).

Para ele, as “causas profundas” da miséria da humanidade não estavam nas instituições, mas no facto de a população aumentar mais depressa que o alimento para a manter viva. A razão pela qual as classes trabalhadoras eram pobres não residia nos lucros excessivos (razão humana) mas no facto da população aumentar mais depressa do que a subsistência (lei natural).

Nada se pode fazer para melhorar a situação dos pobres. É, sem dúvida, um pensamento muito acabrunhador, o de que o grande obstáculo a qualquer melhoria extraordinária da sociedade seja uma natureza impossível de superar.”

 Na segunda edição do seu livro (1803), Malthus propunha uma solução: o “controle moral” para obviar à “miséria e vícios”. Greves, revoluções, caridade, regulamentações governamentais, nada disso poderia ajudar os pobres na sua miséria – eles é que deviam de ser responsabilizados por se reproduzirem tão rapidamente. Impeça-se que se casem tão cedo. Pratiquem o “controle moral” – não tenham famílias grandes – e assim poderão ajudarem-se a si próprios. Em conclusão, os pobres são os únicos culpados pela sua pobreza.


Uma outra “lei natural” era a que ficou conhecida como a “lei férrea dos salários” que os trabalhadores ganhavam. Sabia-se já que o salário não era sempre o mesmo, e que tal dependia não só do trabalhador em questão e do acordo que fizera com o empregador. Que o empregador escolheria os que trabalhavam mais por menos salário. Os trabalhadores eram assim obrigados a reduzirem o seu preço mediante a concorrência de outros trabalhadores.

O economista David Ricardo vai demonstrar (1817) que o “preço do mercado” de trabalho tende a conformar-se com o “preço natural”, uma vez que quando o preço do mercado é alto e os trabalhadores recebem mais do que o suficiente para a manutenção das suas famílias, isso faz com que a tendência seja para o aumento do tamanho das famílias. Ora isso aumentará o número de trabalhadores, que consequentemente levará a uma baixa de salários. Quando o preço do mercado é baixo, os trabalhadores recebem menos do que o necessário para manterem as famílias, o seu número acaba por se reduzir, o que conduzirá a um aumento dos salários.

Segundo esta “lei de salários”, Ricardo conclui que com o tempo, os trabalhadores não poderão receber mais do que o “necessário para lhes permitir […] viver e perpetuar a raça, sem aumentar nem diminuir”.

Posteriormente, a quando da tentativa dos trabalhadores para diminuírem as horas de trabalho, e perante a tremenda oposição dos industriais que previam que se tal viesse a ser aprovado conduziria à ruína, surge o economista Nassau Senior com a doutrina (1844) segundo a qual as horas não podiam ser mais reduzidas, porquanto o lucro obtido pelo empregador vinha da última hora de trabalho, pelo que se se a retirasse, desapareceria o lucro.

Sob a lei atual, nenhuma fábrica que emprega pessoas com menos de 18 anos pode trabalhar mais de 12 horas por dia nos cinco dias da semana e 9 horas aos sábados. Ora, a análise seguinte mostrará que numa fábrica sob tal regime o lucro líquido é obtido na última hora”.


Esta teoria da “última hora” foi empregada para combater os pedidos a favor de um menor dia de trabalho.

Outra teoria de Nassau, a doutrina do “fundo de salário”, foi utilizada para combater os pedidos de aumento de salário. Segundo ele, era “pura tolice” os sindicatos e os trabalhadores fazerem greve a favor de aumentos de salário, e isto porque o pagamento dos salários era retirado de um certo fundo posto de lado exatamente para isso. Assim, a menos que o fundo de salários aumentasse ou o número de trabalhadores diminuísse, não havia qualquer outra hipótese para as revindicações dos trabalhadores.

Bastava, explicava ele, saber aritmética elementar:

É uma questão de divisão. Reclama-se que o quociente é muito pequeno. Bem, então, quais são as formas de torná-lo maior? Duas. Aumente-se o dividendo, permanecendo o divisor o mesmo; reduza-se o divisor, permanecendo o dividendo o mesmo, e o quociente será maior.”


Mas Nassau propunha uma solução: o aumento do fundo de salários. Isso seria possível “libertando a indústria da massa de restrições, proibições e tarifas protetoras, com as quais a Legislatura por vezes, numa ignorância bem-intencionada, tem procurado esmagar ou dirigir mal os seus esforços.”

Ou seja, deixem os negócios em paz e o resultado será mais dinheiro no fundo reservado aos salários. Velha aspiração sempre viva.


É também assim que quase um século depois da lei de 1816 ter proibido a contratação de trabalhadores com menos de 9 anos e da celeuma sobre a liberdade de contratação, o Supremo Tribunal dos EUA declarou em 1905 inconstitucional uma lei do estado de Nova Iorque que limitava a 10 horas por dia o trabalho dos padeiros, invocando que tal lei “privava os padeiros da liberdade para poderem trabalhar mais horas se assim quisessem”. A sempre presente, oportuna e nunca esquecida tentativa para fazer o tempo andar para trás, para o mais atrás possível.


Também há quase um século, em 1931, F. A. von Hayek teorizou que para se evitar que os lucros caíssem, se deveria reduzir a assistência social bem como os salários pagos:

Certos tipos de ação estatal, causando um desvio na procura dos bens do produtor para o consumidor, podem provocar um retraimento na estrutura capitalista da produção, e, portanto, uma estagnação prolongada […] A concessão de crédito aos consumidores, recentemente defendida como cura para a depressão, teria na verdade um efeito contrário; um aumento relativo na procura de bens do consumidor apenas pioraria a situação.”

 Ou seja, a restauração do lucro deve ser feita através da redução da capacidade aquisitiva das massas, ou seja, através da redução dos salários. O tal de “empobrecimento”, evidentemente das massas. Hayek, o profeta.


Mas Hayek nota também que “Na moderna economia de troca, o industrial não produz com o objetivo de atender a uma certa procura – mesmo que use essa frase por vezes – mas na base dos cálculos de lucros.”

Sem dúvida a melhor definição do funcionamento do sistema económico em que vivemos. O que faz com que o conhecido e aclamado cronista americano Walter Lippmann, na sua crónica semanal do Herald Tribune de 13 de julho de 1934, nos resuma:

Não adianta falar de recuperações nas atuais condições, a menos que os capitalistas, grandes e pequenos, comecem a investir em empresas com o objetivo de obter lucro. Não investirão para ganhar medalhas. Não o farão por patriotismo, ou como ato de serviço público. Só o farão se tiverem oportunidade de ganhar dinheiro. O sistema capitalista é assim. É assim que funciona”. (2) (3)

 

Não é, pois, de admirar que se desconfie cada vez mais dessa Economia Política e dos próceres que a vendem, que por várias vezes parece entrar em contradição com o que se passa na realidade.

Uma das vozes mais lúcidas a tentar opor-se a esta falsa dicotomia existente entre a sociedade como um todo e a economia, foi a do sacerdote católico canadiano, Bernard Lonergan, considerado por muitos como o mais importante filósofo do século XX.

Citando muito brevemente a sua Macroeconomic Dynamics: Na essay in Circulation Analysis:

 

A renda excedente pura (equity) deve ser dirigida para elevar o padrão de vida de toda a sociedade. A razão porque assim não sucede, não é a razão simplista segundo os moralistas – ganância – mas a principal causa é a ignorância. A dinâmica da produção básica e da mais-valia, e das expansões básica e de mais-valia não é compreendida, nem formulada, nem ensinada. Quando as pessoas não entendem o que está a acontecer e o porquê, não se pode esperar que atuem com inteligência. Quando a inteligência se torna um espaço em branco, avança a primeira lei da natureza, a autopreservação. Não é principalmente a ganância, mas os esforços frenéticos de autopreservação que transformam a recessão em depressão, e a depressão em crash.”

 

Eis como Mendo Castro Henriques (Bernad Lonergan Uma Filosofia Para O Século XXI) explica as propostas económicas de Lonergan:

“[…] Sempre questionou a linha tradicional de demarcação entre disciplinas “objetivas” e “científicas”, como a Economia, e disciplinas “subjetivas” ou “nebulosas”, como a Ética. É corrente nas universidades existir um desfasamento entre o que é ensinado nas escolas de Economia e Gestão e nas de Estudos Filosóficos e teológicos. Ora Lonergan chama a atenção que “os teóricos morais sobre a economia são também economistas”; e se não forem “então temos de ter economistas melhores, uma lição repetida há cerca de duzentos anos”.

“[…] Lonergan salienta a necessidade de colaboração interdisciplinar. A teoria económica convencional não consegue ver o agente humano como um ‘sujeito consciente de forma empírica, inteligente e racional, e capaz de desenvolver a inteligência e a razoabilidade, como entidade que, mesmo do ponto de vista do método científico, tem de ser abordada de forma essencialmente diferente do estudo dos átomos, ou das plantes e animais’. Em vez disso, aborda a atividade económica como uma série de eventos previsíveis, da mesma forma que os físicos do século XIX abordavam eventos que são apenas estatisticamente prováveis. O resultado é que ‘[a] relação entre a ciência humana e a sua aplicação não será humana; será sub-humana’.

“[…] negar a possibilidade de uma nova ciência e de novos preceitos é negar a possibilidade de sobrevivência da democracia. Se a ciência e os valores não forem integrados ‘os mais bem educados tornam-se uma classe fechada sobre si própria sem tarefa proporcional à sua formação. O significado e os valores da vida humana empobrecem. A vontade de realizar afrouxa e estreita-se. Onde antes havia alegrias e tristeza, agora há apenas prazeres e dores. A cultura torna-se um buraco’.

 

Na pática o que Lonergan nos vem dizer é que medir os fluxos de dinheiro numa economia e a contrapartida real é a chave para compreender o que nela ocorre. Conseguir isso é mais crucial que a noção de mercado. Esse modo de medir a riqueza, ao definir uma linha entre o investimento e o seu resultado, medido em bens – satisfação dos consumidores – e não em avaliações de mercado sobre as indústrias, propriedade e tendências.

O lucro, enquanto objetivo económico, é uma condicionante e não um determinante da capacidade de adaptação, inovação e evolução humanas; é um erro excluir do processo económico as atividades que não produzem lucro e considerar exclusivos os pressupostos da microeconomia. O padrão de vida e a capacidade de adaptação humana é que devem de servir de padrão às decisões económicas e não a mensuração monetária da riqueza potencial e efetiva.

O lucro tem de ser compreendido não como critério da atividade económica, mas como envolvente do interesse da comunidade, ou seja, do bem comum.

O problema reside, pois, na ignorância dos mecanismos subjacentes ao processo económico por parte de todos os agentes e não apenas os especialistas.

Atente-se no conselho que a britânica Joan Robinson da Universidade de Cambridge deu aos economistas:

 

A economia é demasiado importante para ser entregue aos economistas”.

(395) Gasoduto ao fundo!

Tempo estimado de leitura: 10 minutos.

 

Para os inquiridores de muitas e vastas coisas com o objetivo de tentar explicar o mundo.

 

A massa do aço do gasoduto é equivalente a quase 500 vezes o peso de aço da Torre Eiffel (que pesa cerca de 10.000 toneladas), correndo ao longo de uma distância 4.000 vezes a altura da Torre.

 

A era do gás barato na Europa está definitivamente encerrada após este ataque energético.

 

A competitividade chinesa será impulsionada por este gás que agora recusamos. No futuro seremos solicitados a compensar essa falta de competitividade reduzindo as nossas conquistas sociais.

 

 

 

 

 

Mesmo quando o termo Pré-socráticos apareceu no século XIX, numa tentativa para melhor se definir a separação entre aqueles pensadores da antiga Grécia que se preocupavam principalmente com a especulação cosmológica e física e os outros que apareceram depois de Sócrates (o que até nem era correto na medida em que alguns deles foram contemporâneos de Sócrates e de Platão) particularmente interessados com os problemas morais (o que também não era correto porque alguns deles se debruçaram sobre questões de ética e da melhor maneira de se viver a vida), talvez o mais importante do que essa diferenciação para efeitos de catalogação seja o que os une: inquiridores de muitas e vastas coisas com o objetivo de explicar o mundo.

Para tal, necessitavam todos eles de estarem imersos no mundo, para dele receberem o maior número de influências possível. Tal como hoje, para se tentar compreender o mundo, ter uma ideia sobre o que se passa nele, passa por quebrar as barreiras entre filosofia, política, economia, ciência.

Como escreveu Magalhães-Vilhena num comentário às Teses para Feurbach, “não é apenas o pensamento do homem, mas o homem inteiro, com o pensamento e todo o seu corpo material: com o cérebro e as mãos – pensa agindo e age pensando.”

É com essa intenção que aqui transcrevo um recente artigo de  Oliver Berruyer, “O atentado ao Nord Stream: vão as nossas economias resistir ao choque?” sobre um dos acontecimentos que maior impacto virá a ter nas nossas vidas.

 

Começa assim:

 

A 26 de setembro de 2022, a Europa assistiu ao pior atentado energético da sua história com uma indiferença quase geral, devido à cobertura insuficiente dos meios de comunicação social. Mais orientada para a procura dos culpados sem o menor elemento de prova, a imprensa esqueceu-se de explicar o essencial: o que este grande acontecimento vai fazer mudar concretamente para nós, o nosso abastecimento energético e a nossa sobrevivência económica. […]

 

 

Nord Stream: o equivalente a 500 Torres Eiffel submersas

 

Para entender a sequência dos acontecimentos, é preciso primeiro conhecerem-se as características deste gasoduto submarino. Ele é construído montando e soldando segmentos de aço de 12 metros de comprimento, com um pouco mais de 1 metro de diâmetro e 4 cm de espessura, cada um deles pesando 12 toneladas. São muito grossos e sólidos, para poderem suportar as pressões internas muito altas no gasoduto. Depois são recobertos com uma camada de betão de 8 cm de espessura, também pesando 12 toneladas, o que permite torná-los suficientemente pesados para que se afundem e permaneçam no fundo.

Esses segmentos têm cada um 12 metros de comprimento para poderem ser transportados por um meio-trailer.

Como o gasoduto tem 1.220 km de extensão, cada tubo é feito pela junção de aproximadamente 100.000 segmentos, pesando, portanto na totalidade, 2.400.000 toneladas.

Os 4 tubos que constituem o Nord Stream pesam assim, cerca de 10 milhões de toneladas no total, contando já com os 5 milhões de toneladas de aço. Esta única massa de aço é equivalente a quase 500 vezes o peso de aço da Torre Eiffel (que pesa cerca de 10.000 toneladas), correndo ao longo de uma distância igual a 4.000 vezes a altura da Torre.

 

Os segmentos são depois transportados para o barco de montagem especializado. Eles são soldados uns aos outros no barco e descarregados continuamente a uma velocidade de quase 3 km por dia (ou seja, 1 segmento colocado a cada 7 minutos) e vão descendo para o fundo do mar unicamente pela ação do seu peso. [Ver imagem HD aqui e vídeo aqui]

Se a água tiver menos de 14 metros de profundidade, o gasoduto é enterrado; para além disso, assenta simplesmente no fundo – o que obviamente o torna muito vulnerável em caso de sabotagem.

 

A sabotagem do Nord Stream

 

A 26 de setembro de 2022, foram detetadas por sismógrafos dinamarqueses e suecos às 2h03 e 19h03, duas explosões muito fortes, a priori duplas, de magnitude 2,3 e 2,1 na escala Richter.

Em seguida foram detetados nos tubos Nord Stream 3, e logo de seguida quatro grandes fugas de gás de 200 metros de largura. Parece que as quatro explosões afetaram apenas três dos quatro tubos: as linhas A e B do Nord Stream 1 e a linha A do Nord Stream 2, que, portanto, teriam sido atingidas duas vezes; a linha B deste último foi poupada. As primeiras estimativas falavam de 500 a 700 quilos de explosivos.

Nos dias seguintes o fluxo foi secando gradualmente, tendo a água invadido parcialmente os tubos substituindo o gás, sendo o fornecimento de gás cortado. Evaporaram-se milhões de metros cúbicos de gás.

 

Os gasodutos Nord Stream afetados estarão provavelmente perdidos para sempre

 

Muitas pessoas pensam que para consertar essas fugas será suficiente isolar as secções. Na verdade, é bastante mais complicado. Este gasoduto foi concebido para ser muito resistente e para durar pelo menos 50 anos sem qualquer intervenção, tendo em conta a probabilidade de acontecer 1 acidente por cada 100.000 anos. Mas tudo isso sem contar com ataques. Não foi, portanto, concebido qualquer dispositivo que permita isolar seções.

O grande problema é que um gasoduto é muito sensível à água do mar, por uma simples razão: a parede interna dos tubos é feita de aço cru, muito sensível à oxidação e à corrosão. Essas paredes nuas são necessárias para que seja possível realizar a soldagem dos tubos nos barcos especializados.

Após a soldagem, a superfície externa passa por um tratamento anticorrosivo e é isolada. Mas não a superfície interna, que permanece em aço cru, aço que não é inoxidável. Normalmente, isso não constitui um problema, a menos que a água salgada penetre no tubo. A corrosão seria então rápida, podendo ocasionar risco de rutura, dadas as altas pressões internas.

Além disso, o gasoduto serpenteia a profundidades entre os 20 e os 200 metros. O ataque ocorreu numa área pouco profunda, cerca de 70 metros de profundidade. Dependendo dos efeitos de sifão, a água infiltrar-se-á por dezenas (se não centenas) de quilómetros, danificando irreparavelmente as bordas de cada tubo.

No melhor dos casos, seria necessário agir muito rapidamente nas secções alagadas para secá-las, o que constitui um trabalho colossal dependendo da distância. Após algumas semanas de inundação, essas seções provavelmente teriam que ser removidas e essas partes do gasoduto reconstruídas. Para isso, seria então necessário ter duas coisas:

 

- em primeiro lugar, equipamentos pesados ​​e altamente especializados; ora como estes gasodutos estão sob sanções ocidentais, tal afugentou todos os industriais não-russos;

 

- em segundo lugar, enormes meios financeiros que só poderiam, portanto, serem russos. É evidente, porém, que a Rússia, encontrando-se atualmente em guerra, está numa situação que não é compatível para suportar um investimento de vários milhares de milhões em gasodutos que, aliás, certamente nunca obteriam as autorizações necessárias para funcionarem, e, ainda por cima, para o fornecimento de gás para um cliente que dentro de poucos de anos deixaria de o necessitar.

 

Em resumo, é, portanto, muito provável que, na sequência desta sabotagem, três das quatro linhas dos gasodutos Nord Stream se percam definitivamente, e com elas 82 Gm3 (se não 110) de capacidade de transporte. O fornecedor russo perdeu pelo menos 15 biliões de euros neste ataque, o que equivale, por exemplo, ao preço de cinco porta-aviões. A era do gás barato na Europa está, portanto, definitivamente encerrada após este ataque energético.

 

Após o ataque: o que está realmente a acontecer?

 

Atualmente, o nosso abastecimento a partir da Rússia tem vindo a cair acentuadamente desde março. As entregas pelos gasodutos estão atualmente a 15% do nível de janeiro. Com efeito:

- o gasoduto Yamal não transporta gás desde maio de 2022, tendo a Polónia colocado a Gazprom sob sanções em 26 de abril, o que levou a Gazprom a interromper as suas entregas;

- o gasoduto Brotherhood reduziu as suas entregas para a Europa, tendo a Ucrânia, após a invasão russa, bloqueado o trânsito num dos ramais;

- o gasoduto Nord Stream 1 não estava em operação desde o início de setembro. Os russos indicaram que uma fuga de óleo exigia intervenção na turbina. Surgiram então desacordos. Por um lado, a Rússia alegou que não poderia resolver o problema das turbinas devido a problemas técnicos e legais devido às sanções que afetam os equipamentos operacionais, e declarou-se pronta para fornecer gás após o fornecimento de uma nova turbina pelo Ocidente. Por outro lado, a Europa criticou a Rússia por não querer entregar o gás por motivos políticos e para pressionar os europeus.

 

Devido à crise, a União Europeia armazenou muito gás durante o verão (antecipando este inverno), mas será mais difícil alcançar os níveis necessários em 2023 para o inverno seguinte, porque a procura mundial de gás provavelmente excederá em muito a oferta...

A Europa terá, portanto, de recorrer à Noruega - membro da NATO que se recusa a vender-nos o seu gás a um preço moderado -, à Argélia e aos países exportadores de Gás Natural Liquefeito (GNL).

 

GNL americano: a nova dependência energética?

 

As exportações globais de GNL (gás natural liquefeito) têm aumentado acentuadamente desde 2015, em particular devido ao crescimento das exportações da Austrália e dos Estados Unidos. As exportações globais de GNL agora representam o mesmo volume que as exportações de gasodutos.

No entanto, os recursos de GNL estão longe de ser infinitos. Isso significa que haverá acirrada concorrência global para comprar gás, e que o seu preço permanecerá permanentemente alto, em benefício dos países produtores e em detrimento dos países consumidores.

 

Enquanto o gás vendido por gasoduto é geralmente objeto de contratos vinculantes de longo prazo, a um preço fixado por períodos largos, o GNL, por outro lado, especialmente o americano, é vendido ao preço de mercado, quase no dia a dia, o que torna os preços altamente voláteis e a concorrência ainda mais acirrada.

 

Esta concorrência irracional do GNL é perfeitamente ilustrada com o exemplo do navio transportador de GNL Hellas Diana. Partindo dos Estados Unidos no final de novembro de 2021 para vender o seu gás na Ásia, este transportador de GNL fez meia-volta em 20 de dezembro (perdendo, portanto, um milhão de dólares em pedágios ao ter de cruzar de novo o Canal do Panamá na direção oposta) para ir vender o seu gás … na Inglaterra, onde um novo comprador havia superado a oferta – efetivamente privando a Ásia desse gás.

 

Esta crise energética revelar-se-á, portanto, muito lucrativa para alguns países, a começar pelo Qatar, Reino Unido e sobretudo Estados Unidos, que vendem o seu gás à União Europeia a 4 vezes o preço que cobram às suas próprias indústrias.

 

Após os ataques, os americanos nem esconderam a alegria diante desse novo mercado que se abria:

 

    “[Esses ataques contra o Nord Stream] também são uma grande oportunidade. Esta é uma tremenda oportunidade para erradicar a dependência da energia russa de uma vez por todas e, assim, privar Vladimir Putin de utilizar a energia como arma de guerra como meio de promover os seus desígnios imperiais. Isso é muito importante e oferece uma tremenda oportunidade estratégica para os próximos anos.” [Anthony Blinken, Secretário de Estado, 30/09/2022]

 

De facto, se os ataques contra o Nord Stream permitem que a Europa ponha fim à sua dependência da energia russa, eles recriam imediatamente uma nova dependência para com o GNL americano ao mesmo tempo muito caro e não sem consequências ambientais. Mas está claro que nossos "amigos" americanos parecem mais interessados ​​na atração do lucro do que no sombrio futuro económico do nosso continente...

 

Consequências políticas e climáticas importantes

 

No mercado de gás, além da Europa, os Estados Unidos têm outros clientes para satisfazer. Atualmente, vendem metade de seu gás (desta vez por gasoduto) para o Canadá e México, representando a Europa menos de 20% de suas exportações.

 

Além disso, a curto prazo, a Rússia não tem meios físicos para exportar para outros lugares todo esse gás que a UE não pode e não quer mais receber. A Rússia ficará, portanto, temporariamente excluída da possibilidade de vender uma das suas principais riquezas.

Mas mais, além do preço, o gás suplementar que será entregue à Europa para compensar a perda de gás russo, pelos Estados Unidos ou outros países, irá necessariamente faltar em outros países, o que provavelmente lhes causará importantes problemas econômicos e políticos. Todas as previsões de trocas futuras estão, portanto, obsoletas, pelo que as cartas terão de ser dadas de novo.

 

Existirão, também, consequências climáticas. As quantidades em falta, quando não são substituídas por carvão, que está a passar por um renascimento dramático, serão substituídas por GNL, que é quase 3 vezes mais poluente do que o gás entregue por gasoduto. Obviamente, as questões ecológicas ficam em segundo plano para os belicistas...

 

China, a grande beneficiária da crise energética?

 

A médio e longo prazo, a Rússia já anunciou o seu plano: voltar-se cada vez mais para a China. Em maio de 2014, assinou um contrato de 30 anos com a China, no valor de 400 biliões de dólares, e construiu o seu primeiro gasoduto Força Siberiana ligando-a à China. Este gasoduto, inaugurado em 2019, entregará cerca de 40 Gm3 em 2023 e 60 Gm3 em 2025, mais que o Nord Stream 1.

Em julho de 2022, foi anunciado o lançamento do projeto “Força Siberiana 2” para ligar a Sibéria Ocidental à China. O histórico gasoduto “Yamal – Europa” será assim substituído pelo “Yamal – China”. Como os alemães indicaram em fevereiro que se recusavam a autorizar que o Nord Stream 2 ficasse operacional, os russos finalmente declararam que ele seria substituído pelo "Força Siberiana 2" para vender o seu gás para a China e não para a Europa.

Em 22 de setembro de 2022, a Rússia anunciou a iminente assinatura de um acordo com a China para a entrega de 50 Gm3 por ano por meio deste gasoduto, que será iniciado em 2024 e estará operacional em 2030.

 

Também deve ser lembrado que em 4 de fevereiro de 2022, a Rússia e a China assinaram um contrato de energia no valor de quase US$ 120 biliões ao longo de 25 anos. Desse montante, quase 40 biliões corresponderam à venda de 10 Gm3, a US$ 0,15 por m3 por 25 anos. Para colocar em perspetiva, 15 cêntimos é 2 a 3 vezes menos que o preço da compressão-transporte-descompressão do GNL. Este último vale mais de 2,5 euros por m3 (na Europa em 2022), ou seja, 15 vezes o preço negociado com a China. E mesmo que descesse para 1€, ainda seria 7 vezes mais caro que o preço chinês.

 

A competitividade chinesa será assim impulsionada por este gás que agora recusamos. Aposto que seremos solicitados, no futuro, a compensar essa falta de competitividade reduzindo as nossas conquistas sociais...

 

Tudo isso é em parte consequência da esquizofrenia diplomática europeia, como demonstram as palavras da Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao declarar em 4 de fevereiro de 2022: “O nosso pensamento estratégico é o seguinte: queremos construir o mundo de amanhã como democracias com parceiros que pensam da mesma forma”. Poderia dizer da mesma forma sem um sorriso: “Muitos países mostram interesse numa boa cooperação de longo prazo com a Europa. Falamos em princípio com todos, começando com a Noruega […] mas também com o Qatar, o Azerbaijão e o Egito” – três democracias bem conhecidas de todos, e especialmente dos arménios invadidos…

 

Quais as consequências económicas para a França e para a Europa?

 

Ao contrário do problema da quantidade de gás – que, embora onipresente no meio dos mídia, não deve trazer problemas muito grandes – é de facto a questão do preço do gás que é muito preocupante, pelo impacto que terá nas nossas vidas.

Com efeito, este gás importado será muito caro, o que afetará diretamente não só os orçamentos das famílias europeias consumidoras de gás, mas também as finanças públicas de todos os países que procurarão limitar os aumentos, como a França, mas também a Alemanha, que acaba de anunciar um plano de 200 biliões de euros que está a destruir a UE. Os países afetados verão os seus défices aumentar substancialmente, o que terá um efeito cascata nas taxas de juro pagas pelo Estado. Portanto, o financiamento dos déficits públicos e da dívida pública pode-se tornar insustentável, como explicámos neste artigo.

 

Note-se também que as políticas neoliberais de desregulamentação levadas a cabo durante 15 anos levaram três quartos das habitações a abandonar os preços regulados do gás, a lançar-se nos braços do mercado livre supostamente mais interessante – exceto, por exemplo, em caso de uma crise…

A loucura da desregulamentação de Bruxelas também forçou a França a aprovar uma lei em 2019 abolindo os preços regulados do gás... a partir de 30 de junho de 2023!

 

Esta é de facto a última etapa da desregulamentação, após a destruição do campeão europeu francês de energia EDF-GDF, e o fim dos preços regulados do gás – uma decisão que, no entanto, coloca tantos problemas para as empresas francesas hoje…

Depois das famílias, esse aumento do preço do gás afetará muito mais fortemente (na ausência de um forte apoio público) as contas operacionais das empresas e a sua competitividade. Essa situação vai levá-los a:

- aumentar o seu preço, o que aumentará a inflação;

- reduzir as suas compras não essenciais e, portanto, penalizar o crescimento;

- reduzir a contratação de pessoal, ou mesmo a despedi-los, o que agravará o desemprego;

- falir na pior das hipóteses, especialmente se estiverem sujeitos a uma forte concorrência não europeia.

 

Estes efeitos serão transfronteiriços devido à forte interdependência do comércio europeu: as empresas francesas estão menos expostas do que as empresas alemãs, mas sendo a Alemanha o seu primeiro cliente estrangeiro, os problemas no Reno terão consequências em França.

 

Estas questões de preços não se limitam ao gás e ao petróleo. Irão também afetar o preço da eletricidade devido a um estúpido regulamento europeu que, de facto, liga o seu preço ao do gás. Como a simples observação do mix de eletricidade na Europa mostra, esta regulamentação é ainda mais inepta em França, uma vez que a grande maioria da nossa produção de eletricidade depende da energia nuclear, de barragens e de outras energias renováveis.

 

Nada, absolutamente nada, justifica aumentos significativos no preço da eletricidade, exceto a mortífera ideologia neoliberal. O funcionamento deste mercado é tão disfuncional que até o governo francês o considera agora “aberrante”.

 

Por último, todos estes problemas de preços irão obviamente reduzir a procura de gás e, provavelmente, de energia. No entanto, existe uma relação direta entre a produção económica (PIB) e o consumo de energia. Se a eficiência energética aumentou, é verdade que não sabemos produzir mais com menos energia...

Este problema será, portanto, somado aos outros e deverá desacelerar significativamente o crescimento do PIB, ou mesmo reduzi-lo.

 

Para concluir

 

Para concluir, o atentado energético que levou à destruição dos gasodutos Nord Stream marca tragicamente o culminar de um processo do afundamento pela Europa de uma das suas maiores vantagens competitivas, a energia a gás barata. Este afundamento tem vindo a ser realizado há vinte anos através da liberalização deste sector, tendo resultado num funcionamento aberrante.

Pela nossa parte, vamos pagar um alto preço, importando gás muito mais caro, mais poluente, sacrificando empregos e poder aquisitivo prejudicados pela inflação, sofrendo até talvez interrupções no fornecimento de gás e eletricidade.

Os nossos vizinhos alemães e italianos, que não sacrificaram a sua indústria, sofrerão ainda mais (porque são mais dependentes de energia produzida em seu solo), e os seus problemas espalhar-se-ão por contágio até nós, por causa da interdependência das nossas economias. Os próximos anos serão difíceis.

 

 

 

 



(394) Os homens da primeira cidade

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Há 7.900 anos a. C., em pleno Neolítico, Çatalhöyük na Anatólia, foi a primeira cidade construída e habitada por seres humanos.

 

O seu abandono após 2.500 anos, quer tenha sido por conquista (derrota), por doença, por endogamia, por alteração climática, por inadequação do regime social, por desenvolvimento tecnológico, por outras causas, parece ser o indicador do que foi acontecendo às sociedades humanas que se lhe têm sucedido.

 

Permanências de sobrevivência ou de vivência, transmitidas ou adquiridas não se sabe bem como, que aparentemente são por enquanto as nossas.

 

 

 

É em A história começa na Suméria, que o conhecido arqueólogo Samuel Noah Kramer nos vai explicar a importância e as vantagens de poder  trabalhar com os vestígios de uma primeira sociedade humana organizada. Segundo Kramer, só assim se consegue saber:

 

Quais foram, por exemplo, as primeiras ideias morais e as primeiras conceções religiosas que o homem fixou por escrito? Quais foram os seus primeiros raciocínios políticos e mesmo filosóficos? Como se apresentavam as primeiras crónicas, os primeiros mitos, as primeiras epopeias e os primeiros hinos? Como foram formulados os primeiros contratos jurídicos? Quem foi o primeiro reformador social? Quando teve lugar a primeira redução de impostos? Quem foi o primeiro legislador? Quando se reuniu, e com que intenção, o primeiro parlamento com duas câmaras? Como foram as primeiras escolas, a quem e por quem era ministrado o ensino e segundo com que programa?

 

Tudo isto escrito a propósito da descoberta no quinto milénio antes de Cristo da existência na Suméria de algumas localidades já com uma organização social capaz de comportar dezenas de milhar de habitantes, ou seja, de cidades como Uruk (cerca de 60.000 em 4.900 a. C.) e Lagash (em 3.500 a. C.), o que vinha alargar e alterar o conhecimento que se tinha sobre o início do povoamento humano da Terra. Anteriormente, só se sabia de Mênfis, no rio Nilo, Harappa, no vale do Indo e Liangzhu, no baixo Yangtzé.

Essa região compreendida entre os rios Tigre e Eufrates (a Mesopotâmia) em que se encontraram várias grandes cidades (como as citadas Uruk, Lagash, e as famosas Babilónia e Nínive), vai ser apelidada de “crescente fértil” (por poder garantir o sustento a tanta população), e por inerência, vai também ser chamada de “berço da humanidade”.

 

Mas eis que em 1961, o controverso arqueólogo inglês, James Mallart, descobre nas escavações que estava a empreender na Anatólia, Turquia, uma cidade que teria sido fundada aproximadamente há 7.900 anos a. C., com uma extensão de 130.000 metros quadrados, com mais de 150 habitações, com uma população aproximada de 5.000-8.000 pessoas. Localizada em Çatalhöyük, era a primeira cidade conhecida, construída e habitada por seres humanos. Uma cidade do período neolítico.

 

Caraterísticas da sua cultura: sendo uma cidade constituída só por habitações praticamente idênticas, sem edifícios públicos ou outros que pudessem parecer moradias de reis ou de hierarquia religiosa, tal sugere a existência de uma sociedade igualitária.

As habitações eram construídas com tijolos de lama e palha, lado a lado, parede com parede, com aberturas por cima (entradas e saídas pelos telhados planos -terraços - por onde se circulava e comunicava com os vizinhos) com uma estrutura tipo colmeia (ver fotos e desenhos ). Divisões interiores rebocadas e conservadas escrupulosamente limpas. Descobriram-se fornos comunitários construídos no cimo das plataformas dos telhados.

Parece também não ter existido uma distinção social baseada no género, uma vez que homens e mulheres recebiam alimentos, utensílios de cozinha e outras artefactos de pedra em quantidades iguais, o que aliás era típico das culturas do Paleolítico.

Devido ao aparecimento de várias estatuetas de mulheres sentadas há quem sugira tratar-se de uma sociedade matriarcal. Contudo, várias interpretações são possíveis, não conclusivas.

Após cerca de dois mil anos de ocupação, por volta de 5.700 a. C. a cidade foi abandonada. Desconhecem-se as causas.

 

Ou seja: para além da importância (como Kramer explicitou) que tem o encontrar-se a primeira cidade que os humanos habitaram, acrescenta-se ainda o facto de tal descoberta ter feito da Anatólia o lugar onde pela primeira vez se iniciou a grande revolução neolítica, que inclui o viver em comunidades fixas, a aparição da agricultura e da domesticação de animais, e o início do trabalho com metais.

 

Importante também notar, ao que parece, o ter sido possível viver-se numa sociedade igualitária, sob o ponto de vista social e de género, durante cerca de dois mil anos.

O seu abandono, quer tenha sido provocado por conquista (derrota), por doença, por endogamia, por alteração climática, por inadequação do regime social, por desenvolvimento tecnológico, por outras causas, parece ser o indicador do que foi acontecendo às sociedades humanas que se lhe têm sucedido, exatamente quase pelos mesmos motivos.

 

Há, contudo, algumas caraterísticas muito particulares e singelas das civilizações/culturas que não figuram ou não são visíveis nas grandes escavações, nem nos atributos dos grandes períodos históricos, nem nas grandes literaturas ou ciclos literários, nem mesmo nos processos tecnológicos, e que, no entanto, parecem perdurar.

Tomemos alguns pequenos exemplos, observados em quase todas as sociedades, a começar pelo chamado princípio do nome, que é o que diz que uma coisa só existe quando tem um nome (mais refinadamente, o problema da existência e do significado).

É assim que no Genesis, após a criação dos animais, Deus fá-los desfilar diante de Adão para que lhes fossem atribuídos nomes que os identificassem. Platão, no Crátilo, diz que os seres possuem uma designação natural cuja propriedade é representá-los, o que levou depois a filosofia medieval escolástica a concluir que os nomes são a consequência das coisas.

O nome da pessoa ou da coisa é o seu substituto mental. É assim que quem o tem, quem o usa, se faz conhecer e se torna conhecido. E a partir daí torna possível o haver uma ação sobre ele: o facto de se conhecer o nome de uma pessoa confere um determinado poder sobre ela, daí que haja um certo cuidado em esconde-lo.

 Sumérios, egípcios, assírios, depois de darem um nome a uma criança, tratavam-na sempre por um nome diferente durante o resto da vida, para assim evitarem que os deuses que eram quase todos violentos, falsos, vingativos (talvez numa representação das sociedades que os conceberam), se pudessem apoderar (mau olhado) dela. Ainda hoje, na nossa sociedade, ninguém gosta que, para o chamarem, o seu nome seja gritado na rua.

 

Também a escolha do nome se torna importante, na medida em que o nome implica para a pessoa as qualidades que enuncia. Já na Mesopotâmia, um “bom nome” equivalia a um bom destino, que faria do seu detentor a possibilidade de gozar desse benefício a vida inteira: o nome aparece como uma aspiração, uma afirmação do favor divino, uma bênção.

O nome tem um significado para além da simples enunciação. Vejamos alguns nomes de reis do antigamente: Sargão é o “rei estável, legítimo”; Senaquerib, “o deus Sin aumenta o número de irmãos”; Assurbanípal, “Assur é criador do filho”; Nabucodonosor, “Ó Nabu, protege a descendência”. Hoje temos Eusébio ou Ronaldo se quiseres que o teu filho venha a ser futebolista, Maria, Vitória, Pio, Deolinda, Anastácio, Eugénio, Jesus, Gaspar, Carneiro, etc.

 

Foi na Mesopotâmia que se começou a vulgarizar a atribuição de números aos sinais do silabário, por forma a permitir que todo o nome pudesse ser expresso por um algarismo. Quando mandou construir o palácio de Korsabad, eis o que diz Sargão: “Fiz o circuito da sua muralha com 16.283 côvados, número do meu nome”.

Os gregos e os romanos, irão mais longe: possuindo uma escrita alfabética, vão adicionar o valor das letras de uma palavra e compará-lo ao valor de outras, procurando a existência de relações entre elas. Por exemplo: Nero estava predestinado a matar a mãe porque a soma das letras do seu nome era igual à da palavra matricida. Os gnósticos e padres das igrejas, ampliam o conceito: o Espírito Santo manifestou-se no batismo de Cristo sob a forma de uma pomba, peristera, cujo número é 801. Mas o valor das letras alfa e ómega é também 801. Logo, a afirmação “Eu sou o alfa e o ómega”, representa a Trindade.

Jogos de palavras ainda hoje plenamente atuais.

 

O exorcismo, ainda tão correntemente praticado, tem por base a convicção que o doente é um possesso, umas vezes no sentido vulgarizado na Idade Média, outras vezes por torturado por um demónio, causa da sua afeção. Quando a doença é indeterminada não trazendo assim a assinatura do demónio que a produziu, como todo o doente é um pecador, convém descobrir o pecado em que incorreu.

Segundo os antigos mesopotâmios, por meio da leitura da lista dos pecados conscientes ou inconscientes que o doente poderá ter cometido, o pecado acabará por ser nomeado, exercendo assim domínio sobre o demónio (o problema do nome). Então o sacerdote poderá pronunciar o seu exorcismo, seguido depois de uma terapêutica antidemoníaca destinada a expulsar o demónio. É o papel desempenhado pelas substâncias nauseabundas, apodrecidas e excrementais que os médicos antigos conheciam.

O diagnóstico estabelece-se muitas vezes considerando certos sintomas como presságios, enquanto que mais tarde, melhor interpretados, serão verdadeiramente os elementos de um diagnóstico.

 

Para os cientificamente avançados Sumérios, o dia era dividido em doze horas duplas, com começo à meia-noite, e o calendário comportava 12 meses de trinta dias e mais um mês intercalado no fim do primeiro ou do segundo semestre. Tinham também catalogado as estrelas que podiam ver, agrupando-as em constelações, distinguindo entre planetas e estrelas fixas, calculando a distância que as separava. Os seus cálculos astronómicos pouco diferiam dos atuais e, no entanto, nunca consideraram que a Terra andasse à volta do Sol.

Quando muitos séculos mais tarde se constatou que afinal não era o Sol que andava à volta da Terra, mas a Terra que andava à volta do Sol, o que constituiu grande escândalo para a alta intelectualidade e que suporia uma grande transformação de mentalidades, pouco ou nada aconteceu. Passaram-se mais uns séculos, vamos para o espaço, passámos o perigoso ano 2.000 que tudo avariaria, e continuamos a dizer de manhã que o sol nasceu e à tardinha que o sol se pôs, exatamente como se fazia antes do heliocentrismo. E como dizia aquele famoso basquetebolista americano, a Terra não podia ser esférica porque quando ele ia de carro de Chicago para S, Francisco ia sempre a direito.

Na realidade, ninguém pensa que por uma mínima alteração da gravidade e da velocidade de rotação sempre possível, todos cairíamos da Terra, ou que fosse mesmo a Terra a cair. Alguém pensa, evidentemente.

 

Permanências de sobrevivência ou de vivência, transmitidas ou adquiridas não se sabe bem como, que aparentemente são por enquanto as nossas. Aquisições que não sei se ainda serão necessárias para os tempos futuros que nos estamos a preparar.

 

 

 

Adenda:

Podem consultar em pdf o livro original de James Mellaart, Catal-huyuk. A Neolithic Town in Anatoli.

Sugiro ainda o blog de 09 de novembro de 2016, “Gilgamesh, o turista-mor” https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/gilgamesh-o-turista-mor-23277;

O de 28 de fevereiro de 2018, “A destruição do mundo finito”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/152-a-destruicao-do-mundo-finito-40466;

O de 03 de outubro de 2018, “A burca, segundo Platão”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/183-a-burca-segundo-platao-48394;

E o de 03 de junho de 2020, “Os bárbaros já cá estão”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/270-os-barbaros-ja-ca-estao-71830.

 

 

 

 

 

 

 

(393) O rabo de fora dos gatos escondidos

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Nos dias de hoje, só nas pequenas notícias aparentemente inócuas poderemos entrever o que verdadeiramente por aí vai.

 

Quando para chefes máximos da raça pura alta e loura em construção se aplaudia como referência ideal um homem com um só testículo (Hitler) e um coxo (Goebels), então qualquer conceito pode ser defendido.

 

Já viu o que seria se ele viesse com a minha beleza e a sua inteligência? Bernard Shaw.

 

 

 

A comunicação social foi quase sempre desde o seu aparecimento apropriada e controlada por um número muito restrito de entidades. Então em determinados períodos, como aquele em que atualmente vivemos, esse controle torna-se quase absoluto, transformando-a ainda mais numa comunicação “sucial” onde a bem ou a mal se pretende regular o que deve ser o nosso pensamento sobre os acontecimentos já de si e por si escolhidos, pelo que só nas pequenas notícias aparentemente inócuas poderemos entrever o que verdadeiramente por aí vai.

Atente-se, por exemplo, nas recentes notícias sobre o  Prémio Nobel da Medicina, atribuído ao biólogo sueco Svante Pääbo, pelo seu trabalho relativo ao genoma dos hominídeos extintos e a evolução humana.

Não está em causa o trabalho, mas o modo como as suas conclusões foram apresentadas pela quase totalidade dos órgãos de comunicação social . Isso sim que é interessante e importante, pelo que disseram, pelo que não disseram e pelo que sugeriram.

 

Para a comunicação social, Pääbo mostrou que os neandertais se misturaram com outros hominídeos seus contemporâneos, "deixando um rasto genético nos europeus e asiáticos, mas não nos africanos". E por aqui se ficaram.

Para os que advogam a pureza da raça, a não miscigenação, será que serão levados a concluir que os africanos, por terem menos misturas, são afinal os mais puros? Ou será que poderão concluir que neste caso, exatamente por não se misturarem com os outros que afinal eram os ‘bons’, não ‘evoluíram’ tão bem?

Em qualquer dos casos, é assunto que não deve ser levantado: convém passar despercebido. Ou não; quando para chefes máximos da raça pura alta e loura em construção se aplaudia como referência ideal um homem com um só testículo (Hitler) e um coxo (Goebels), então qualquer conceito pode ser defendido, combatido ou ignorado. O tal problema dos cegos e dos que não querem ver como característica humana.

 

Pääbo também descobriu a existência de uma espécie humana desconhecida, os denisovanos, (da gruta de Denisova), exclusivamente a partir do DNA. A sequência genética foi conseguida de “um pequeno osso do dedo de uma menina que viveu na Sibéria há 50.000 anos”.

Este genoma denisovano revelou que eles tiveram descendência com os sapiens passando-lhes genes chaves, como os que permitiam viver a grande altitude. Foi também assim que os neandertais nos passaram genes que melhoraram o funcionamento do sistema imunitário e de outros genes que podem tornar mais graves algumas doenças, como a covid.

Note-se que Sibéria é Rússia asiática, pelo que Pääbo teve sorte da sua descoberta ter sido feita em 2018, quando os russos ainda eram bons. Fosse agora e o Nobel ficaria possivelmente congelado até os russos voltarem a não serem maus.

 

Nada tendo que ver com o assunto que me propus tratar, não posso, contudo, deixar de o aflorar por ser importante: há uns 200.000 anos, existiam pelo menos oito espécies de grupos humanos diferentes (além dos anteriormente citados vêm os Homo longi, Homo de Nesher Ramla, Homo Luzonensis, Homo floresiensis, Homo erectus, Homo daliensis). Todos formavam parte do género Homo a que também o Homo Sapiens pertence.

Ao longo do tempo todos foram desaparecendo exceto o nosso, o que parece acontecer pela primeira vez: o existir apenas um grupo na Terra. Como desapareceram os outros grupos? Naturalmente (doenças, alterações climáticas, etc) ou por extinção provocada por outros (guerras)? Porque ficou apenas o nosso grupo?

 

Até agora não existem respostas conclusivas. Aventam-se hipóteses: da mesma forma que temos vindo a dar cabo de imensas espécies, fizemos o mesmo com os outros grupos; os outros grupos não foram suficientemente grandes para ultrapassarem o problema provocado pelos ‘casamentos’ dentro dos mesmos grupos (endogamia), o que os levou ao enfraquecimento ao longo de gerações; outras causas.

 

Voltemos às peças jornalistas sobre Pääbo onde se o apresenta como filho de um bioquímico sueco, Sune Bergström, que em 1982 "também ganhou o Nobel da Medicina". Casado e já com um filho, envolveu-se com uma química que trabalhava com ele, e de quem veio a ter outro filho (o nosso Pääbo), que conservou o apelido da mãe. Bergström visitava-o aos fins de semana e o filho do casamento só se inteirou da situação pouco antes da morte do pai.

Esta insistência no filho de um Nobel também ganhar um Nobel, sem se querer saber mais, apenas para sugerir, confirmar que a inteligência, a bondade, todas as boas caraterísticas são transmissíveis e que a linhagem é importante e justificada, e daí a insistência na necessidade do apuramento da raça, fazem-me lembrar os comentadores das transmissões das provas equestres com a sua enorme erudição sobre os familiares, descendentes e ascendentes dos cavalos e as suas propensões e qualidades para os saltos e corrida (tal como os africanos para as provas de fundo, depois para as de velocidade, ainda não para a equitação ou para a dança aquática).

Lembro ainda a pequena história que contam passada entre a lindíssima bailarina Isadora Duncan e o intelectual notoriamente reconhecido como feio  Bernard Shaw, quando durante um encontro Isadora lhe sugeriu a hipótese de terem um filho juntos: “Já viu o que era trazer ao mundo um ser com a sua inteligência e a minha beleza?” Ao que rapidamente Bernard retorquiu: “Pois é. Mas já viu o que seria se ele viesse com a minha beleza e a sua inteligência?

 

A primeira página do The New York Times do dia 5 de outubro dava relevo a um interessante artigo intitulado “Os EUA acreditam que os ucranianos estiveram por trás de um assassinato na Rússia”, onde segundo as mesmas agências credenciadas de recolha de informação americanas que tinham alertado com dois meses de antecedência sobre a eventualidade da invasão russa, vinham agora dizer que o assassinato de Daria Dugina, filha de um proeminente nacionalista russo, ocorrido em agosto em Moscovo devido à colocação de uma bomba no carro, tinha sido perpetrado pelos serviços ucranianos, e mais, que os americanos não só não estavam envolvidos na ação como ainda admoestaram os ucranianos sobre esse assassinato que fora feito com o conhecimento do presidente Zelensky.

Numa altura em que já ninguém se lembrava do assassinato, é muito estranho que tal notícia seja plantada por acaso nos maiores órgãos de comunicação social. Trata-se da primeira crítica aberta a operações militares ucranianas e diretamente ao presidente Zelensky.

Muitas podem ser as razões que se escondem por detrás desta publicação: os americanos não querem ser envolvidos em ações que visem diretamente o assassinato de civis, receiam retaliações do mesmo nível sobre o seu pessoal, não foram antecipadamente informados sobre tal ação, houve um deslise no passar da informação para a comunicação social, há negociações a correr entre as partes envolvidas, a filha do nacionalista russo era amiga de uma americana importante, os pais conheciam-se, etc., etc…

O que me parece é que se trata de uma maneira explícita para dizer a Zelensky e/ou a parte dos seus apoiantes que não podem fazer tudo que lhes apeteça sem autorização prévia de quem os sustenta, e que não se importam de levar ao conhecimento do mundo quaisquer ações que não respeitem o acordado. Chama-se a isto, “Pô-lo no seu lugar”.

 

 

Tudo isto, aparentemente, não passa de uma conversa de alhos e bugalhos. Parole, parole, parole …

 

(392) Porque existe o mundo?

Tempo estimado de leitura: 9 minutos.

 

Fazemos coisas e fazemos coisas e ninguém realmente tem a mínima ideia porque o fazemos, John Updike em Rabbit, Run.

 

O mito cosmogónico narra como o mundo se iniciou.

 

A ideia do nada como o estado natural, é um vestígio do judaísmo-cristianismo inicial para justificar que Deus tinha criado o mundo a partir do nada, Grunbaum

 

Não acredito que estejamos agora, ou que jamais estaremos, perto de entender tudo o que existe, David Deutsch.

 

 

 

O filósofo, escritor e ensaísta americano Jim Holt há muito que andava com a angústia motivada pela seguinte interrogação: Porque é que existe algo em vez de nada?

Pergunta aparentemente simples, daquelas que apenas ocorre às crianças e, contudo, tão profunda que só surge aos metafísicos. Resolveu então fazer essa pergunta a alguns conhecidos filósofos, físicos, teólogos e escritores atuais, visitando-os nos seus locais habituais, de Oxford ao Café de Flore em Paris, reunindo em 2013 as respostas que obteve, no livro: 

Why Does the World Exist? An Existential Detective Story.

 

Mas antes, e para comparação, parece-me ser importante começar por rever o que o pensamento antigo grego tinha a dizer sobre o assunto, ou seja, sobre o mito cosmogónico. Mito cosmogónico é aquele que narra como o mundo se iniciou. É, portanto, o mito fundador de tudo, de todo o sentido, de toda a racionalidade atual e possível. É o mito principal de qualquer povo.

 

Para os helenos, no princípio havia algo mais primordial de tudo, e que era o Caos. O Caos era uma espécie de “espaço” absoluto, em que tudo está numa forma informe: ele é a total confusão de tudo, onde a discernibilidade é impossível, onde, portanto, não é possível uma qualquer racionalidade, um qualquer «logos».

Mas mesmo sendo o que é, o Caos é o absoluto que contraria o nada, é ele que impede que exista o nada. Pelo que tudo o que seja possível tem nele a sua origem. Ou seja, o fundamento primeiro de tudo é o Caos, realidade primordial fonte infinita de tudo.

Há, contudo nele, algo muito profundo e inexplicável que faz com que ele não seja totalmente amorfo. Há nele uma força, um impulso para a cessação da confusão, um impulso para a distinção. Este impulso é Eros, que vai fazer surgir a partir do Caos a primeira forma real e distinta:  Terra (Geia ou Gaia). Estamos perante o primeiro momento da emergência da possibilidade de um sentido, de um “logos”.

O que significa que no mito existe já uma noção da necessidade de explicação fundamental do mundo, que corresponde ao nascimento de uma forma própria de racionalidade que vai estar presente ao longo de toda a história do pensamento: a tensão entre um aparente absoluto de desordem e uma necessidade de uma qualquer ordem.

 

Retomando agora o livro de Holt:

A primeira pessoa que se propõe visitar é o físico ex-soviético, agora americano, promotor da teoria da ‘inflação caótica do multiverso’ (inflationary multiverse and eternal chaotic inflation), Andrei Linde, que sucintamente lhe transmite que para ele o universo foi criado num laboratório por um hacker, que evidentemente seria um físico. E por aí se ficou.

 

Visita depois o filósofo alemão-americano, ateu e crítico da religião, Adolf Grunbaum, que entende que a questão está malposta, é um falso problema. Para ele, a ideia de que o mundo precisa de uma explicação pressupõe que sem essa explicação o nada prevaleceria. Porque é que apenas os desvios do nada precisam de explicação? Porque não pode o algo ser o estado natural?

 Grunbaum acredita que a ideia do nada como o estado natural, veio da doutrina teológica da criação ex nihilo – é um vestígio do judaísmo-cristianismo inicial para justificar que Deus tinha criado o mundo a partir do nada.

 Segundo ele, não há qualquer razão para nos surpreendermos com a existência do mundo em comparação com o nada. O nada não era mais provável de existir do que o algo. “O que poderia ser mais comum empiricamente do que o algo ou o outro existir?”

Grunbaum também recusa a ideia de que o nada seja uma explicação mais simples ou um estado de coisas mais natural do que o seu oposto - portanto, não há necessidade de explicar o algo.

 

O próximo entrevistado é o professor emérito de filosofia da Universidade de Oxford, o inglês Richard Swinburne, apologista cristão, que sustenta que o deus cristão é a explicação mais simples e adequada para a existência do universo. O seu argumento é que o deus do teísmo tradicional é infinitamente bom e preocupado com o mundo, ao contrário das outras conceções de deuses.

 Mas, se é tão bom e tão preocupado, por que há tanto mal? Swinburne explica que o mal é necessário para que certos bens sejam possíveis, principalmente o bem do livre-arbítrio. “Um bom pai permite que os seus filhos sofram, às vezes para o bem deles, às vezes para o bem de outras crianças.”  Para Swinburne a existência do seu deus invisível é um facto. Ainda assim, ele afirma: “Sobre por que Deus existe, não posso responder a essa pergunta…

 

Em seguida, Holt entrevista David Deutsch, um físico israelita da Universidade de Oxford, que rejeita qualquer fundamento para a nossa existência. Deutsch acha que nunca descobriremos uma explicação definitiva para tudo, pois, se o fizéssemos, não saberíamos por que é essa a explicação verdadeira - portanto, o problema da explicação definitiva é insolúvel. Como diz Deutsch, “não acredito que estejamos agora, ou que jamais estaremos, perto de entender tudo o que existe”.

 

O físico teórico americano vencedor do Prémio Nobel, Steven Weinberg, passou grande parte da sua vida a procurar uma “teoria de tudo”. Weinberg acredita que uma teoria final talvez pudesse esclarecer por que existe alguma coisa - talvez as leis da natureza o ditem -, mas mesmo assim ainda poderíamos perguntar por que é que as leis são assim e não de outra maneira.

 Também argumenta que a crença num deus não ajuda. Se acreditarmos que o nosso deus é algo muito definido - digamos, bondoso, gentil ou ciumento -, então devemos de conseguir responder por que é que o nosso deus é assim e não de outro modo. E se não quisermos dizer algo definido sobre Deus, então porque usamos a palavra?

Além disso, Weinberg não acha que saibamos o suficiente sobre física para responder a essas questões fundamentais. No final, diz que “estamos perante um mistério que não temos possibilidade de entender”. Segundo ele: “A ciência não torna impossível o acreditar em Deus, torna é possível o não acreditar em Deus”. Mas também acha que a nossa procura pela verdade é nobre. “O esforço para entender o universo é uma das poucas coisas que eleva a vida humana acima do nível da farsa, e que lhe dá um pouco da graça da tragédia.”

 

Holt conversa depois com o físico e matemático inglês, o platónico e relativista Roger Penrose, fundador da gravidade quântica. Penrose postula a existência de três mundos: o mundo físico, o mundo que consiste na consciência e o mundo platónico das formas puras. E acredita que há uma conexão entre o mundo físico e as nossas mentes, que nos ligam ao mundo platónico através da matemática. “O mundo platónico está lá fora, e podemos ter acesso a ele. Em última análise, os nossos cérebros físicos são construídos de material que está intimamente relacionado ao mundo platónico da matemática”.

Para Penrose, esse mundo platónico é mais real do que o físico, e que o nosso mundo surgiu de pedaços de matemática, embora seja um mistério como é que isso aconteceu. Ou seja, é a matemática que dá origem à vida e é a lógica que garante a existência do mundo platónico ou que nos assegure que a realidade emane desse mundo.

 

Já o filósofo canadiano John Leslie acredita que há algo em vez de nada porque é melhor que haja alguma coisa. Ele chama à sua ideia de ‘axiarquismo’, posição metafísica segundo a qual tudo o que existe, incluindo o universo, existe por uma boa razão. “As coisas são como são porque é assim que devem ser”, ou seja, é a visão de que os valores governam ou explicam a ordem natural.

 A bondade, ou o valor, cria o mundo a partir de um número infinito de possibilidades lógicas; o mundo existe por causa de uma necessidade de bondade. E Leslie continua: “Na minha grande visão… o cosmos consiste num número infinito de mentes infinitas, cada uma das quais conhece absolutamente tudo o que vale a pena conhecer”. Leslie afirma que o nosso universo físico - e todos os outros universos logicamente possíveis - resultam da contemplação de apenas uma dessas mentes.

Mas isto põe a questão de saber por que é que de um número infinito de universos possíveis, existe um como o nosso – com a sua quantidade arbitrária de bondade e maldade. Dito de outro modo, porque é que uma mente infinita cria um universo tão imperfeito como o nosso?

Leslie responde com uma analogia. O Louvre alberga pinturas de várias qualidades, não apenas múltiplas réplicas perfeitas da Mona Lisa, e é isso torna o Louvre um museu mais interessante.

Mas porque é que a bondade dá origem a mentes infinitas em primeiro lugar? Porque é que o ‘dever de existir’, implica existir? Leslie responde: “A bondade é uma existência necessária, num sentido não trivial”. A evidência para esta sua visão, é o fato da existência do mundo clamar por uma explicação. Estamos em presença de um argumento circular — a bondade cria o mundo e a existência do mundo é evidência da bondade.

 

O último filósofo com quem Holt fala é o inglês Derek Parfit, um dos grandes da filosofia contemporânea. Parfit começa por considerar que a realidade poderia ter sido diferente – poderia ter sido como a realidade em que vivemos ou poderia ter sido uma outra realidade. Há um número infinito de possibilidades. A cada uma dessas diferentes possibilidades, Parfit vai chamar de possibilidades “locais”, e a todo o conjunto dessas possibilidades, vai chamar de possibilidades “cósmicas”. Pelo meio há um número infinito de possibilidades, tais como: existirem apenas 58 universos, existirem apenas universos bons, existem apenas mundos que obedecem à teoria das cordas, existirem apenas mundos maus, apenas existirem mundos vermelhos, etc. De todas essas possibilidades cósmicas, pelo menos uma delas deve vingar. Então a pergunta é: qual e por quê?

 

Parfit acredita que a hipótese nula é a mais simples e a menos intrigante, já que não precisaríamos responder à pergunta de porque é que algo apareceu. Mas a existência da nossa realidade contradiz essa hipótese. Isso leva Parfit a concluir que a hipótese da existência de todos os mundos é a menos arbitrária, já que com qualquer outra hipótese é preciso fazer mais perguntas, como por exemplo, porque existem apenas mundos bons ou maus, ou mundos que obedecem à teoria das cordas?

Quanto à nossa própria realidade, ela pode ser parte dos mundos ‘axiárquicos’ ou bons, ou dos mundos da teoria das cordas, ou dos mundos maus, ou de algum outro mundo. Parfit conclui que a hipótese nula é a mais simples, a hipótese de todos os mundos a mais completa, a hipótese axiárquica a melhor e assim por diante. E isto leva Parfit a interrogar-se se a existência de uma possibilidade cósmica não implicaria o ter uma característica especial como plenitude, simplicidade ou bondade. Agora, e se for essa caraterística a escolher a realidade? Se isso acontecer, Parfit o chama-a “seletora”.

Se a possibilidade cósmica obtida fossem os 58 mundos ou os mundos todos vermelhos, tal pareceriam arbitrários. Mas se a possibilidade cósmica obtida fosse a mais completa, mais simples ou melhor, isso sugeriria que tal não fora devido ao acaso. Em vez disso, a possibilidade cósmica tornou-se realidade porque tinha a característica de plenitude, bondade ou qualquer outra coisa. Então, nesses casos, a realidade tinha que ser de uma forma ou de outra por uma questão de necessidade lógica, e o seletor apenas faria pender o resultado para uma ou outra forma.

Mas qual seletor? Com o seletor nulo já descartado, Parfit passa a escoriar a ideia de que a bondade seja o seletor: “Podemos duvidar que o nosso mundo possa ser a parte menos boa do melhor Universo possível”. Parfit conclui que o seletor mais provável para a nossa realidade é que estamos entre os universos possíveis que são governados por leis relativamente simples.

Isto levanta a questão de saber se há alguma explicação mais profunda para a existência de um seletor em vez de outro. Existe um meta-seletor e um meta-meta-seletor ad infinitum?

Parfit reconhece que o seletor final teria que ser um facto bruto inultrapassável – para parar a regressão infinita –e que isso era melhor do que nenhuma explicação. Mas Parfit também acredita que a possibilidade explicativa mais simples no meta-nível é que não haja seletor! Isso não significa que não haveria nada – esse seria um resultado especial melhor explicado pela simplicidade como seletor. Em vez disso, nenhum seletor leva a um universo medíocre sem nada de especial – a maneira como as coisas aconteceriam seria aleatória. “A realidade não é um Nada imaculado nem um Tudo totalmente fecundo.”

 

A última pessoa que Holt visita é o romancista americano John Updike. Diz Updike: “Sou parte daqueles que pensam que a existência do mundo é uma espécie de milagre”. Para Updike, as questões últimas estão para além de nós, assim como a ideia de um motor de combustão interna está para além de um cão. Mas ele transmite a sensação de que não é assim tão mau não sabermos todas as respostas. Para Updike, nada parece ser um grande problema.

Acaba a conversa com Holt dizendo-lhe como fica sem fôlego quando brinca com os netos. E nesse capítulo, Holt termina assim: “Alguns meses depois, Updike foi diagnosticado com cancro de pulmão. Em menos de um ano falecia.”

 

O capítulo final tenta unir a discussão filosófica que se pretendia com a morte. Holt admite que o pensar na morte lhe faz pavor, e parece concordar com aquilo que os filósofos chamam de ‘teoria depravacionista da morte’ – a morte é má porque nos priva das coisas boas da vida. Mas admite que outros filósofos não achem a morte preocupante, e que inclusivamente alguns, como os budistas, pensem na morte e no estado próximo do quase nada como o melhor estado. Holt conclui que o ponto final da jornada da nossa vida parece ser... o nada. O seu livro termina com um relato comovente do seu testemunho das horas finais da mãe:

 

A respiração da minha mãe estava a ficar mais leve. Os seus olhos permaneceram fechados. Ela ainda parecia em paz, embora de vez em quando fizesse um pequeno ruído ofegante.

Então, enquanto eu continuava de pé diretamente sobre ela, ainda a segurar a sua mão, os olhos da minha mãe arregalaram-se, como se estivesse em alarme. Era a primeira vez naquele dia que eu os via. Ela parecia estar olhando para mim. Ela abriu a boca. Eu vi a sua língua contrair-se duas ou três vezes. Ela estava a tentar dizer alguma coisa? Dentro de alguns segundos, a sua respiração parou.

Inclinei-me e sussurrei que a amava. Então fui para o corredor e disse à enfermeira: “Acho que ela acabou de morrer”.

… Eu tinha acabado de ver a transição infinitesimal do ser para o nada. O quarto tinha contido dois seres; agora, continha só um.”

 

 

Para finalizar, transcrevo o início do “Primeiro Livro de Moisés” do Génesis:

 

No princípio, criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

E disse Deus: Haja luz; e houve luz.

E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas.

E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã o dia primeiro.”

 

 

(391) Os novos romanos

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

O ciberespaço não é limitado pelas vossas fronteiras. O nosso é um mundo que está em todos os lugares e em nenhum lugar., J. P. Barlow.

 

If you are a citizen of the world, you are a citizen of nowhere, Theresa May.

 

Sou um cidadão do mundo, Diógenes.

 

A única coisa para a qual não há fronteiras é o capital.

 

 

Parece ter sido o japonês Tsugio Makimoto o primeiro a utilizar o termo “nomadismo digital” (1997), querendo com isso mostrar a forma como o trabalho remoto iria alterar o modo como o mundo do trabalho se iria apresentar no futuro, forçando os Estados a alterarem o contrato social.

Equipados com o seu portátil, ligações wi-fi, os “nómadas digitais” viam-se como cidadãos do mundo percorrendo-o livremente, como se a não existência de fronteiras electro magnéticas se projetasse automaticamente nas fronteiras físicas terrestres abolindo-as, quais migrantes de um passado longínquo que, acreditavam, se deslocavam para onde queriam e onde a vida fosse mais fácil ou possível.

Possuidores da ferramenta tecnológica (o computador portátil e o telemóvel esperto) e do conhecimento para a sua utilização, acreditando na promessa do ‘empreendorismo’, na liberdade dos mercados e do comércio livre propalado e incentivado pelo neoliberalismo, não viam qualquer razão para não os poder usar para melhorarem as suas vidas, escolhendo ir trabalhando nos locais em que as rendas de casa fossem sempre as mais baratas, o clima o mais favorável, a comida a melhor, etc.? Finalmente, filosófica e politicamente, a possibilidade da realização do velho sonho de Diógenes quando proclamava: “Sou um cidadão do mundo”.

 

Mas, surpresa, por mais web siminars, mais conferências e encontros que promovam, essa vida não se tem revelado fácil: desde o conseguir vistos de entrada para permanecer ou trabalhar nos países desejados, o pagamento de impostos, os seguros de saúde que cubram vários países, o encontrar trabalho local compatível com as regulamentações ou encontrar o trabalho internacional através das plataformas de comércio eletrónico como a Amazon, eBay ou Shopify que se mostram cada vez mais exigentes, reguladas e limitadas (“o sistema e os algoritmos da plataforma da Amazon são tão assustadoras quanto as alfândegas estatais e os processos de imigração”), etc.

Um pequeno exemplo:

 

Devido às praias, à internet rápida e ao baixo custo de vida, a Tailândia é um dos locais preferidos. No entanto, as regras de concessão de vistos e de proteção aos trabalhadores são rígidas, embora nem sempre aplicadas com rigor. Em 2018, o estado tailandês tornou-se consciente e desconfiado dos ‘nómadas digitais’. Em resposta à pergunta sobre se os ‘nómadas digitais’ podiam trabalhar na Tailândia sem uma autorização, eis o que um site de advogados tailandês (apresentando-se como 'Embaixada da Tailândia') respondeu:

 “Para trabalhar no reino, um estrangeiro precisa de ter um visto apropriado, obter uma autorização de trabalho e pagar impostos' (Embaixada da Tailândia, 2020).”

 E acrescentou:

“Mas o que é trabalho? Um nómada digital a trabalhar no seu laptop num espaço de trabalho conjunto (coworking), é considerado trabalho? Um empresário sentado no quarto do hotel a preparar-se para um seminário? Quando é que a agência de Autorização de Trabalho considera isso como trabalho? Esta é uma pergunta difícil de responder com um simples sim ou não. (Embaixada da Tailândia).”

Até hoje o problema não está resolvido, sujeito a demoradas e imprevisíveis negociações individuais.

 

Não é, pois, surpresa o que relata um desses nómadas:

 

Sou muito crítico deste novo ‘precariato’, esta nova força de trabalho da atualidade das chamadas plataformas de partilha (sharing platforms) como a Uber e a Lyft como meio de vida […] Não estou convencido que a maior parte das pessoas queira ser nómada. Penso que é uma vida bastante feia, miserável e solitária. O problema é que a tecnologia nos está a empurrar para ela”.

 

Mas há sempre pintores da cor rosa.

 

Declaração da Independência do Ciberespaço:

A 8 de fevereiro de 1996, em Davos, Suíça, o poeta, compositor, ativista do ciberespaço e cofundador da Electronic Frontier Foundation, John Perry Barlow, deu a conhecer “A Declaração da Independência do Ciberespaço” dirigida aos Governos do Mundo Industrial:

 

 “O espaço social global que estamos a construir deve ser independente das tiranias que nos tentam impor. Não têm qualquer direito moral para nos impor regras nem para nos manietarem por quaisquer métodos legalistas que temos razão para temer.”

E isto porque o “ciberespaço não é limitado pelas vossas fronteiras”.

“O nosso mundo é diferente. O ciberespaço consiste em transações, relacionamentos e o próprio pensamento, dispostos como uma onda estacionária na teia das nossas comunicações. O nosso é um mundo que está em todos os lugares e em nenhum lugar, mas não é onde os corpos vivem.

Estamos a criar um mundo em que todos podem entrar sem privilégios ou preconceitos de raça, poder econômico, força militar ou local de nascimento.

Estamos a criar um mundo onde qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode expressar as suas crenças, por mais singulares que sejam, sem medo de ser coagida ao silêncio ou à conformidade.

Os vossos conceitos legais de propriedade, expressão, identidade, movimento e contexto não se aplicam a nós. Eles são todos baseados na matéria, e aqui não há matéria.

[…] Vocês têm pavor dos vossos próprios filhos, porque eles são nativos de um mundo no qual vocês serão sempre imigrantes. Porque vocês os receiam, vocês confiam às vossas burocracias as responsabilidades paternas que por cobardia não se ousam confrontar. No nosso mundo, todos os sentimentos e expressões da humanidade, do degradante ao angelical, são partes de um todo sem costura, a conversa global de bits. Não podemos separar o ar que sufoca do ar em que as asas batem.

Na China, Alemanha, França, Rússia, Singapura, Itália e Estados Unidos, vocês estão a tentar afastar o vírus da liberdade erguendo postos de polícia nas fronteiras do Ciberespaço. Eles podem conter o contágio por um curto período de tempo, mas não funcionarão num mundo que em breve será coberto por mídia de bits.

[…] Essas leis declarariam as ideias como outro produto industrial, não mais nobre que o ferro-gusa. No nosso mundo, tudo o que a mente humana fábricas a realizem. pode criar pode ser reproduzido e distribuído infinitamente sem nenhum custo. A transmissão global do pensamento não mais necessita que as vossas

Essas medidas cada vez mais hostis e coloniais colocam-nos na mesma posição daqueles antigos amantes da liberdade e da autodeterminação que tiveram que rejeitar as autoridades de potências distantes e desinformadas. Devemos declarar os nossos eus virtuais imunes à vossa soberania, mesmo que continuemos a consentir o vosso domínio sobre os nossos corpos. Espalhar-nos-emos pelo Planeta para que ninguém possa aprisionar os nossos pensamentos.

Criaremos uma civilização da Mente no Ciberespaço. Que seja mais humana e justa do que o mundo que os vossos governos fizeram antes.”

 

Esta Declaração expressa a convicção da existência efetiva de um espaço de trabalho virtual que, no limite, poderá dar origem ao aparecimento de um novo país “virtual”.

Para ele, a “nação-estado está ultrapassada – tem como base o pensamento do século XIX” que, nesta época em que já se utiliza um espaço de trabalho elétrico sem fronteiras, a cidadania e o imposto são limitações ao livre desenvolvimento humano.

 

Principado de Sealand:

 

Sem a pretensão do trabalho remoto sem fronteiras, mas como tentativa de resolução dos entraves postos pela cidadania e pelos impostos (e outros), o major inglês e radialista Paddy Roy Bates, ocupou em 1967 uma pequena plataforma (Roughs Tower) que fizera parte de uma fortificação no Mar do Norte construída durante a Segunda Guerra Mundial em águas internacionais a 12 quilómetros da costa de Suffolk, e que na altura era utilizada por uma estação de rádio pirata para transmissão de música pop. Passou a chamar a essa micronação, Principality of Sealand (Principado de Marterra), com constituição (monarquia constitucional), bandeira, hino, moeda e passaportes.

Depois de várias peripécias, só em 1987 é que o Reino Unido conseguiu incorporar essa plataforma no território inglês, quando aumentou as suas águas territoriais para 12 milhas náuticas.

 

O que era ser “romano”:

 

Quando a alguns dos habitantes de Roma lhes foi concedido passarem a ser conhecidos por ‘cidadãos de Roma’, ‘romanos’, tal não significava apenas um título honorífico para ostentarem perante os outros muitos habitantes da cidade (no século de Augusto, Roma tinha cerca de um milhão de habitantes, dos quais 320.000 cidadãos, sendo os restantes, libertos e escravos), mas principalmente, a garantia da distribuição mensal gratuita de alimentos a cargo do Estado, bem como a entrada gratuita nos muitos espetáculos. Citando Juvenal: “O povo romano está absorvido principalmente por duas coisas: os abastecimentos e os espectáculos”. Sucintamente: “Pão e circo”.

 

Relembremos que a organização do Estado Romano estava feita para assegurar que o Imperador vivesse dos impostos cobrados, deixando que as elites, senadores e outros, vivessem de rendas da terra.

Pelo que apenas o Exército e a Justiça Superior eram controlados e dirigidos pelo Estado. Quase todas as outras tarefas, nomeadamente a polícia, a manutenção de estradas, as fortificações, e especialmente a coleta de impostos, eram delegadas para a autoridade dos governos locais e municípios. Ou seja, um estado mínimo.

O principal dever dos municípios era serem agentes de extorsão em nome do império. A forma como o faziam, era problema deles. Podiam até serem tiranos.

Nesta sociedade, os grandes senhores viviam de rendas das suas propriedades. A “riqueza” encontrava-se essencialmente ligada à terra; no caso dos ricos, essa riqueza era transformada em dinheiro suficiente para alcançarem privilégios e poder.

Leiamos a descrição feita pela jovem esposa sobre a fortuna do casal oriundo de duas grandes famílias de Roma, Valerius Pinianus e Melania a Jovem, com propriedades em Espanha, Itália, Sicília e África:

 “E mais uma vez arrecadámos uma enorme quantidade de ouro e doámo-la aos pobres e aos santos – 45.000 moedas de ouro. Quando entrei no átrio, pareceu-me que […] toda a casa se tornara resplandecente, como se estivesse em fogo, dado o imenso brilho que emanava da massa das moedas.”

 

Em comparação, os “romanos” na sua grande maioria não passavam de pobres que vivendo à custa da caridade do Estado eram menos miseráveis do que os outros que vivendo em Roma não eram “cidadãos de Roma”.

Em Roma, “em que as massas incluíam 150.000 homens desocupados, que o auxílio da assistência pública dispensava de procurar trabalho, e talvez outros tantos trabalhadores que dum extremo ao outro do ano todos os dias do meio do dia ficavam de braços cruzados e aos quais, todavia era negado o direito de despender na política a sua disponibilidade, os espectáculos ocupavam o tempo a esta multidão, cativavam-lhe as paixões, canalizavam-lhe os instintos, davam derivativo para a sua actividade. Os espectáculos foram a grande diversão para a desocupação dos seus súbditos, e por consequência o seguro instrumento do seu absolutismo. Rodeando-se de solicitude, sumindo neles somas fabulosas, cuidaram de assegurar o seu poder.”

 

Esses eram os tempos em que vivíamos.

 

Nota informativa para os novos romanos:

São já 16 os países europeus que oferecem uma versão de ‘visto de nómada digital’. Cada país tem seu próprio conjunto de condições, mas no geral os candidatos devem ser de fora do Espaço Económico Europeu e serem capazes de demonstrar que trabalham remotamente há pelo menos um ano. Devem ter um contrato de trabalho ou, no caso de serem freelance, comprovar que foram regularmente contratados por uma empresa fora do país.

Devem também demonstrar que ganharão o suficiente para serem autossuficientes. Na Croácia, por exemplo, os candidatos devem demonstrar poder ganhar pelo menos € 2.300 por mês, na Estónia e Grécia € 3.500, na Islândia € 7.100, e em Portugal apenas € 700.

Alguns países exigem que se tenha dinheiro no banco – € 5.500 no caso da República Checa – além da renda. Outros países também podem exigir um seguro de saúde privado.

(390) “Os bilionários nazis”

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

As dinastias empresariais mais ricas da Alemanha fizeram fortunas auxiliando e incentivando o Terceiro Reich de Adolf Hitler.

 

São celebradas por transformarem a Alemanha numa potência económica, com prédios, fundações e prémios com os seus nomes.

 

O problema é que devido à interdependência anteriormente havida, a “desnazificação” foi light, não tocando em muitos quadros importantes, e até exportando-os.

 

Até 1957, 77% dos funcionários com cargos de responsabilidade no Ministério da Justiça alemão (ou seja, três em cada quatro) eram antigos membros do partido nazi.

 

 

 

 

Ao que parece, tem sido como normal a tendência de uma vez alcançado o poder, se tentar conservá-lo o mais tempo possível, não só para si (tirania), mas por transmissão para os seus familiares (monarquia), ou para o conjunto de forças (classe) que tenha contribuído e permitido a conquista do poder e consequente perpetuação nele.

As prepotências e desmandos monárquicos no século XIX, a avidez e a gula das classes burguesas, deram origem à Primeira Guerra Mundial que resultou no desaparecimento das monarquias como fonte de poder, na vitória (embora ainda não consolidada) das burguesias e no aparecimento de regimes de substituição, que tendo todos começado por advogar um socialismo (para resolver o problema do controle das massas trabalhadoras), bifurcaram, quando as condições se extremaram, em comunismo e nazi-fascismo.

Na Europa Ocidental, face à falência dos regimes sociais-democratas para conseguirem controlar o sistema económico, os grandes magnatas acordam em permitir a governação por regimes nazis e fascistas.

É importante não esquecer que todos esses regimes funcionavam dentro da grande economia capitalista de então. A interdependência entre eles é quase total, quer ao nível de fornecimentos militares, quer ainda no respeitante aos campos económico, político, científico e cultural.

Pelo que, acabada a Segunda Guerra Mundial, perante os horrores cometidos e ‘encontrados’, teria de ser feita uma ‘deznazificação’ do Estado e da sociedade. O problema é que devido à interdependência anteriormente havida, a ‘desnazificação’ foi light, não tocando em muitos quadros importantes, e até importando-os.

Julgo não haver estudos completos (intencional?) sobre estas permanências e recolocações de nazis e seus colaboradores que se foram disseminando pelo mundo, dos EUA à URSS, da Argentina ao Japão. Assim, quando aparece uma obra abordando o tema, mesmo que muito parcial, é importante divulgá-la.

 

No seu novo livro, Nazi Billionaires, The Dark History of Germany’s Wealthiest Dynasties, o holandês David de Jong investiga como as dinastias empresariais mais ricas da Alemanha fizeram fortunas auxiliando e incentivando o Terceiro Reich de Adolf Hitler. Examina também como, oito décadas depois, elas ainda conseguem escapar a um exame minucioso mesmo numa nação que tanto fez para enfrentar esse seu passado.

 

Focando-se especialmente na Alemanha, De Jong vai debruçar-se em particular sobre as construtoras de automóveis, entre elas a BMW, a Volkswagen e a Porsche, responsáveis pelo milagre económico do pós-guerra e que contribuem com cerca de um décimo do produto interno bruto do país. Alguns exemplos:

 

 

O magnata do aço, carvão e armas Friedrich Flick foi condenado em Nuremberga por usar trabalho forçado e escravo, por financiar a SS e por saquear uma fábrica de aço. Libertado em 1960, tornou-se acionista controlador da Daimler-Benz, então a maior fabricante de automóveis da Alemanha. Em 1985, o Deutsche Bank comprou o conglomerado Flick, transformando os seus descendentes em bilionários.

 

Ferdinand Porsche começa por convencer Hitler a produzir o Volkswagen Beetle (Carocha). O seu filho, Ferry Porsche, ofereceu-se para a SS, tornou-se oficial e até hoje tem mentido sobre isso. Para projetar nos anos 50 e 60 o seu primeiro carro desportivo, rodeou-se de ex-membros da SS.

 

Talvez ninguém melhor se coadune com a pesquisa de De Jong que Günther Quandt e seu filho Herbert Quandt, ambos membros do partido nazi e patriarcas da família que agora domina o grupo BMW.

Quando Günther Quandt com 37 anos ficou viúvo, conheceu e casou-se com uma jovem de 17 anos, Magda Friedländer, com quem teve um filho. Após o divórcio, Magda casou-se com o ministro da propaganda nazi, Joseph Goebbels, que, como se sabe, por não quererem viver num mundo sem os ideais nazis e no qual tais ideais seriam criminalizados, assassinaram os seus seis filhos antes de ambos se suicidarem em 1945.

Após a guerra, Günther Quandt foi preso por suspeita de colaboração com os nazistas, acabando absolvido após alegar falsamente que tinha sido forçado por Goebbels a filiar-se no partido. Considerava ter sido “vítima de perseguição. Fui perseguido por Joseph Goebbels e pela minha ex-mulher.”

 

Herbert Herbert Quandt era responsável pelas fábricas de baterias em Berlim, onde trabalhavam milhares de trabalhadores forçados e escravizados, incluindo centenas de mulheres de campos de concentração. Ele adquiriu empresas roubadas de judeus na França e usou prisioneiros de guerra e trabalhadores forçados na sua propriedade privada. Chegou mesmo a construir um subcampo de concentração na Polônia ocupada pelos nazistas.

Quandt herdou a grande riqueza de seu pai e salvou a BMW da falência, tornando-se no maior acionista da empresa. Dois de seus filhos, Stefan Quandt e Susanne Klatten, são agora a família mais rica da Alemanha, com o controle quase majoritário do Grupo BMW, com grandes participações nas indústrias química e de tecnologia, com um património líquido de cerca de US$ 38 biliões.

 

Eles, juntamente com outras dinastias, com os seus prédios, fundações e prémios com os seus nomes, são celebrados por transformarem a Alemanha numa potência económica. E isto apesar de os esqueletos que têm nos seus armários não serem segredo. O que se passa é que também não são bem conhecidos ou contabilizados. Investigações profundas esbarram sempre em obstáculos.

Alguns, deram pequenos passos nessa direção. Os Quandts encomendaram em 2011 um estudo com a finalidade de analisar o seu passado. Relutantemente e aos poucos, foram feitas mudanças em sites corporativos, omitindo, contudo, detalhes importantes. Stefan Quandt ainda hoje atribui um prêmio anual aos mídia com o nome do seu pai e trabalha na sede com o nome do seu avô.

 

Numa entrevista que De Jong deu a David Smith a propósito do seu livro, diz:

 

Particularmente as famílias que controlam a BMW e a Porsche, conduzem esse branqueamento, celebrando os sucessos comerciais dos seus fundadores ou salvadores, mas deixando de fora o facto de esses homens terem cometido crimes de guerra.

Eu nunca recebi resposta (às entrevistas que pedi), não sei se pelo facto de virem a ser totalmente transparentes sobre a história temerem com isso prejudicar os resultados financeiros ou os valores das ações das empresas, ou se apenas porque assentam todo o seu carisma atual nos sucessos que os pais e avós tiveram e, ao serem transparentes relativamente a eles, estariam a desmentir as suas próprias qualidades. Provavelmente é uma combinação de ambos.”

 

Ainda segundo De Jong, essas famílias tendem a invocar e a apoiar-se na noção de ‘culpa coletiva da Alemanha’. “Mas é muito perverso ver a Fundação BMW Herbert Quandt, que tem um modelo para inspirar liderança responsável, com o nome de um homem que, sim, salvou a BMW da falência em 1959, mas também projetou, construiu e desmantelou um subcampo de concentração na Polónia ocupada pelos nazis. No mínimo, o que podemos esperar dessas empresas e famílias é transparência histórica”.

 

 

 

O problema do fim dos regimes e o que fazer com os seus mentores, executantes, participantes, apoiantes, simpatizantes, tem de ser visto não só tendo como referência as classes mais ricas que os sustentaram, mas também as classes que o apoiaram e ainda todas as outras classes dos países não apoiantes, particularmente as classes no poder, dada a promíscua interligação existente entre algumas delas.

Por exemplo:

 

É sabido que em 1939 os nazis contavam com mais de duzentos mil seguidores e simpatizantes nos EUA, que a revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz, e que entre os seus admiradores se encontravam o magnate automobilístico Henry Ford e o aviador Charles Lindbergh.

 

E que na Grã-Bretanha, a abdicação em 1936 do rei Eduardo VIII, Duque de Windsor, ficou certamente mais a dever-se às suas simpatias para com Hitler e o regime nazi do que com o facto de pretender casar com uma divorciada americana. Eram notórias as simpatias da classe alta e dos aristocratas britânicos para com o regime nazi, o que talvez tenha levado Hitler a cometer o erro estratégico de acreditar que a implantação do seu regime na Grã-Bretanha seria relativamente fácil, não se preocupando muito em dificultar a retirada do exército britânico de Dunquerque.

 

E que ainda antes do fim da II Guerra já centenas de milhar de prisioneiros dos exércitos nazis capturados e para os quais não havia campos de internamento em quantidade suficiente, foram colocados nos navios de carga que regressavam vazios aos EUA depois de terem descarregado todo o material na Europa.

No total, 425.000 prisioneiros de guerra alemães foram trazidos para os EUA, e concentrados em 700 campos, espalhados por todo o território. Talvez com uma ou outra exceção, o tratamento que receberam foi bom, ao ponto de os guardas americanos negros terem feito notar que os prisioneiros podiam visitar restaurantes segregados que eles não podiam. A confraternização com a sociedade americana excedeu as espectativas. Alguns alemães encontraram durante esse tempo as suas futuras mulheres.

Em alguns dos campos, permitia-se a promoção da ideologia nazi. Mesmo perto do fim da guerra em 1945, oito dos vinte jornais editados nos campos, advogavam a ideologia nazi.

 

Na destruição e na confusão que se seguiu após o fim da II Guerra, a necessidade de se manter a funcionar um mínimo de administração pública nos países derrotados, e até na dificuldade de separar nazis de não nazis fez com que, intencionalmente ou não, muitos deles passassem despercebidos.

Na realidade, os aliados que ocuparam a República Federal da Alemanha (Estados Unidos, Reino Unido e França) condenaram apenas 6650 nazis, o que só por si era uma pequena parte do total dos membros do partido. E, as elites alemãs da época fizeram o resto do trabalho de encobrimento.

Um recente estudo denominado “Projeto Rosemburg” apresentado publicamente por Heiko Maas, atual ministro da Justiça alemão, veio confirmar que em 1957, 77% dos funcionários com cargos de responsabilidade no Ministério da Justiça alemão (ou seja, três em cada quatro) eram antigos membros do partido nazi. O que não deixa de ser até curioso, porquanto essa percentagem em 1957 era mais alta do que durante o Terceiro Reich.

Infelizmente, não existem iguais estudos feitos nos outros países europeus. Possivelmente, porque não deve ser importante.

 

Outros casos em que a ideologia instituída se foi mantendo, é o que aconteceu na Finlândia, Dinamarca e na Noruega, onde mesmo após a derrota das forças nazis, se continuou a praticar a eugenia durante várias décadas. Entre 1935 e 1976, 63.000 suecas, 57.000 finlandesas, 40.000 norueguesas e 6.000 dinamarquesas foram esterilizadas, primeiro em nome da preservação da “pureza nórdica” face aos ciganos tatere, e mais tarde na obediência a critérios económicos do trabalhismo.

E na Noruega, até 1956, para uniformização de raça, classe e religião, os jesuítas estiveram proibidos de entrar.

 

Os ovos da serpente continuam a eclodir. Não ligámos ao velho provérbio moçambicano: “Os jacarés matam-se quando são pequenos”. Optámos antes pelos dizeres do padre Cruz: “São todos bons rapazes”.

 

 

 

 

Notas:

# Sobre a caraterização dos vários regimes políticos, rever blog de 14 de março de 2018, “As máscaras das oligarquias”, desde Aristóteles que escreveu que “A democracia e a oligarquia podem fundir-se desde que os muitos pobres não ameacem os poucos ricos através de instituições representativas, e os poucos ricos não concentrem riqueza ao ponto dos muito pobres se tornarem politicamente explosivos”, até ao relatório do Citigroup Global Markets Inc. onde se pode ler que As sociedades organizadas têm três formas para expropriar a riqueza […]: ou pela revogação dos direitos de propriedade, ou através do sistema de impostos, ou pela alteração das regras que afetam o equilíbrio entre o trabalho e o capital”, e onde também se conclui que a democracia é apenas uma das formas da política que os oligarcas utilizam para a defesa da sua riqueza.

 

# Sobre a permanência e ressurgimento de partidos nazis-fascistas refiro o blog de 37 de setembro de 2017, “Os ovos da serpente”, que embora desatualizado, mostra um panorama geral sobre o assunto.

 

# Sobre o que se continuou a fazer após o fim da Segunda Guerra, ver blog de 13 de março de 2019, “Hitler deu muito nas vistas

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