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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(271) Arte e Poder. Arte na Igreja.

 Tempo estimado de leitura: 12 minutos.

 

“Tornar de Novo Bonitos os Edifícios Federais(Make Federal Buildings Beautiful Again)”.

 

Uma igreja não é só um problema de geometria, mas ainda um problema de fé, de cultura, de história.

 

O cristão não vai à igreja para gozos de arte; vai para rezar, para chorar talvez, também para cantar. A arte aqui é serva do culto.

 

Uma igreja não pode ser uma casa utilitária ou um museu para ostentação morta de obras de arte ou exposição de ensaios arrojados de vanguardismo.

 

Arte religiosa não é o mesmo que arte sacra. Haverá obras-primas de arte religiosa, que não têm cabimento numa igreja.

 

 

 

Desde que apareceu, a Arte esteve sempre presente em todas as atividades e representações humanas, das singelas grutas às grandes construções. E foi sempre aproveitada, apropriada, utilizada, pelos poderes instituídos, numa demonstração de intimidação (cultural e outras), para deslumbramento próprio ou do povo submetido ou que se deixou ou se foi deixando submeter.

A 3 de fevereiro de 2020, o Architectural Record publicou um bosquejo de o que virá a ser uma ordem executiva do presidente Donald Trump, sobre os princípios porque se deve nortear a arquitetura federal dos EUA: “Tornar de Novo Bonitos os Edifícios Federais” (Make Federal Buildings Beautiful Again), assegurando que “o estilo de arquitetura clássico deve ser preferido e tido como modelo quer para os novos edifícios federais, quer para os que necessitem de ser melhorados ou reconstruídos”. (https://www.theguardian.com/us-news/2020/feb/04/trump-federal-buildings-beautiful-classical-order). Novos tempos, novas vontades.

 

Pretende assim, substituir os “Princípios Guias para a Arquitetura Federal”, (Guiding Principles for Federal Architecture), escritos em 1962 pelo senador Daniel Moynihan a pedido do presidente John F Kennedy, em que explicitamente dizia que “um estilo oficial deve ser evitado”, e que os novos edifícios deviam refletir os seus tempos. Outros tempos, outras vontades.

 

 

Uma das instituições onde melhor se poderá aquilatar sobre esta “relação existente” entre a arte e o poder será, sem dúvida, a Igreja, não só pelo largo período de tempo em que tem permanecido como referencial, como pelo facto de as  igrejas serem, por excelência, construções representativas de uma comunidade, que aparecem como locais privilegiados onde se acolhiam as várias artes. É, por isso, importante entender-se o conceito que a Santa Sé tem sobre o que é Arte, arte da igreja e arte na igreja.

 

A disposição e a construção das igrejas refletem, desde o início, as orientações da doutrina revelada e da liturgia. Por exemplo: só os cristãos podiam entrar nas Igrejas, motivo porque se construíram pequenos edifícios contíguos e exteriores à igreja, os batistérios, onde as pessoas eram batizadas. Só depois poderiam entrar na igreja.

 

Ao fim de vários séculos, as igrejas foram-se encontrando invadidas com tudo o que as comunidades e seus representantes entendiam lá colocar. É assim, que a fim de evitar a heterogeneidade e quantidade de representações aparecidas durante o Renascimento, a Santa Sé se viu na necessidade de avisar, aconselhar e ordenar sobre a Arte da Igreja, o que veio a acontecer no Concílio de Trento e Direito Canónico (1545-1563).

Com o início do século XX, devido ao constante aparecimento de novas interpretações sobre a realidade, inicia-se um período de grandes transformações e ruturas no campo da Arte, expresso nos movimentos cubistas, surrealistas, abstracionistas, impressionistas, dadaístas, etc.

A impreparação e a rapidez dos movimentos, que tudo invadiam e progressivamente invalidavam, muitas vezes de teorias opostas e opiniões exageradas, e que acabavam por extravasar para o campo da Igreja, tornou obrigatório o debate interno sobre a Arte da Igreja. Pelo que a Igreja sentiu que tinha de fazer mais.

 

Assim, em 1924, Pio XI cria a Pontifica Comissão Central para a Arte Sacra em Itália, com a finalidade de “manter o senso da Arte Cristã e o zelo inteligente devoto da conservação e incremento do património artístico da Igreja”.

Estas Comissões estenderam-se a outras Dioceses, nem sempre com a presteza necessária. Em Portugal, as primeiras Comissões só aparecem em 1953, na Guarda, e em 1955, em Aveiro.

 

Logo após a Segunda Guerra Mundial,  devido ao sem número de reconstruções de igrejas destruídas, Pio XII, em 1947, não querendo perder a ocasião de ver juntar os artistas modernos à voz de louvor a Deus, vê-se quase que obrigado  a “legislar” sobre a Arte na Igreja, o que o faz através da encíclica Mediator Dei, onde diz que a Igreja aceita a Arte moderna “no que ela tem de vital”, (1) não confundindo aquilo que é intrinsecamente moderno com modos efémeros e inconvenientes.

 Diz ainda que a Igreja tem receio da “arte deformadora” e ofensiva à doutrina e ao senso religioso e litúrgico, reprovando aqueles que expõem à veneração dos fiéis uma multidão de estátuas e de imagens que acentuam as práticas particulares e insignificantes ridicularizando assim a religião e diminuindo a dignidade do culto.

 

Posteriormente, em 1952, a Santa Sé dirige às dioceses do mundo inteiro uma “Instrução sobre Arte Sacra”, (2) da responsabilidade da Congregação do Santo Ofício, onde, para além de aclarar alguns princípios no que se refere à casa de Deus,  se afirma “o constante carinho que a Igreja sempre teve pela arte”, e a constante preocupação da Igreja para que a arte contribua para a dignidade da Casa de Deus.

 

 

O que é a Casa de Deus?

 

Uma igreja, pelo Código de Direito Canónico, é um “edifício dedicado ao culto e às reuniões dos fiéis”, e sendo “aos olhos dos crentes […] verdadeiramente a ‘casa de Deus’. Deus habita pessoalmente nela”, sendo, portanto, “mais, infinitamente mais, do que casa de oração e reunião”.

 Além disso, segundo a “Instrução da Suprema Congregação do Santo Ofício […] deve contribuir para a beleza da casa de Deus e fomentar a fé e a piedade”.

 

  Como?

 

“Uma igreja tem de obedecer a leis, que derivam da doutrina revelada e duma reta ascética”, não podendo ser uma casa utilitária ou um “museu para ostentação morta de obras de arte ou exposição de ensaios arrojados de vanguardismo”.

Terá de ser obra de arte, em que todas as artes chamadas a colaborar, devem fazer “ato de humildade, esquecendo-se de si para se submeterem como servas ao que ela exige de cada uma”.

 Expressa depois uma das preocupações constantes ao sublinhar que:

 “Quer Sua Santidade o Papa que se afaste das igrejas tudo aquilo que seja indigno da casa de Deus, que perturbe ou diminua a piedade e a devoção, que dê motivo de estranheza ou de escândalo. Haverá obras-primas até de arte religiosa, que lá não têm cabimento; arte religiosa não é o mesmo que arte sacra”.

 

Princípio basilar da arquitetura

 

O princípio basilar da arquitetura é o seu caracter funcional e racional.

 “A mais bela arquitetura é aquela que realiza a sua função com mais sinceridade, com mais unidade, com mais simplicidade. No caso de uma igreja, ela só será bela se for realmente e parecer evidentemente uma igreja”, tendo, contudo, em atenção que uma igreja não é só um problema de geometria, mas ainda um problema de fé, de cultura, de história.

 Por outro lado, “funcional, e mesmo racional, não pode tornar-se como sinónimo de utilitário”. E acrescenta que nenhum estilo está excluído, lembrando que Pio XII abria portas e “convidava a “arte dos nossos tempos” …com uma condição: que se “pusesse ao serviço dos edifícios e ritos sagrados com a devida reverência e honra”.

 

Valores permanentes

 

Valores, que independentemente do estilo, são permanentes numa igreja: em primeiro lugar o carácter sagrado; depois a nobreza, a dignidade, a espiritualidade, a beleza, e ainda a tranquilidade, a segurança, a estabilidade da Fé Católica.

 Admite que os edifícios profanos “acompanham mais vivamente o progresso ou a evolução da arte”, pois as “igrejas prestam-se mal a experiências temerárias: as suas pedras foram beijadas por gerações sucessivas”. Lembra Vitrúvio, que ficaria do lado dos tradicionalistas, com o seu aforismo: “estabilidade, utilidade, antiguidade”.

Lembra que não se deve esquecer que as igrejas novas são para o público cristão, e que “estariam funcionalmente erradas se o povo não as pudesse compreender. O cristão não vai à igreja para gozos de arte; vai para rezar, para chorar talvez, também para cantar. A arte aqui é serva do culto.”

 

Valores modernos

 

Segundo a Instrução referida – “Na construção dos templos atenda-se à comodidade dos fiéis, de maneira que possam participar dos divinos ofícios com melhor visão e disposição de espírito…evite-se tudo o que mostre negligência na conceção e na execução.”

Referindo-se ao espaço na igreja, chama a atenção para o altar, pois ele é o coração da igreja. “Tudo deve derivar do altar e convergir para o altar. A Multiplicidade dos altares vinha acentuar a dispersão e distância que o altar deveria ter relativamente aos fiéis.”

“Cada igreja significa e realiza a unidade do povo católico, um só Cristo, um só altar, um só rebanho, um só pastor.

Outro valor moderno é a simplicidade, pois o “gosto contemporâneo aprecia sobretudo, aquele género de beleza que resulta do esplendor da verdade.” “A simplicidade resulta da justeza, da pureza, da unidade”.

Outro valor é a sobriedade, que vale pela “nobreza, pela discrição, pela medida.”

 

Modernidade e tradição

 

 “Nunca a Igreja oficializou um estilo como seu. Este nasce do ambiente cultural, da técnica e do material: é-lhe estranho.

Donde, não condena o moderno, tendo-o até acolhido em todos os tempos. “Pois não foram modernas em seu tempo as obras consagradas do passado?” “Novo, moderno, se tem verdadeiro valor artístico, não se confunde com diretivas efémeras, atitudes polémicas, exercícios habilidosos, extravagâncias de escândalo. Sobretudo numa igreja, que não é atelier de ensaios”.

Novo, há-de ser coisa viva e vital”, “arte que não se renova é arte morta”.

 

O prejuízo da novidade

 

O prejuízo da novidade mata a arte nova. “Consiste no gosto da novidade pela novidade. A obra de arte, não vale pelo seu valor intrínseco, mas porque é diferente”, o que levaria a definir a arte “por aquilo que é a negação dela, defini-la por aquilo que é a parte mortal das coisas, que é exatamente a sal qualidade de ser novas”.

 “Este prejuízo provém do vazio interior, da incapacidade de julgar e contemplar a obra de arte naquilo que a constitui, da ausência de cultura sólida. “

Daí que “O artista verdadeiro nunca faz obra igual, mesmo quando faz a mesma”.

 

Tradição e estagnação

 

Tradição, significa etimologicamente alguma coisa que se entrega. É capital de ciência e cultura, a experiência das gerações anteriores, confiado aos novos para o desenvolver e enriquecer. Sem ele, a arte seria um principiar sem fim. Está na base de todo o progresso artístico”.

A arte sacra, fundada sobre a tradição, deve a si própria, mais que qualquer outra, ser arte viva”.

Se são de reprovar igrejas, imagens e representações modernas que “parecem, no dizer de Pio XII, deformações e depravações da arte sã”, não é menos de reprovar “que se exponha à veneração dos fiéis, sem ordem nem gosto, ou nos próprios altares ou nas paredes contíguas às capelas, uma profissão de estátuas e imagens de pouco valor, tantas vezes feitas em série”.

 “A arte sacra deve tornar-se inteligível à comunidade cristã. Mais, deve ajudar à sua vida litúrgica. Isso implica que tem por sua vez de a educar, de a encaminhar para as fontes puras, de lhe sugerir e facilitar a purificação dos sentidos”.

 

Arte viva

 

Arte viva, a respeito duma igreja católica…é pensar dentro de si o mistério cristão, e procurar a expressão mais clara para o traduzir plasticamente, com verdade, respeito e devoção”, e finaliza dizendo “E no ato doloroso da conceção é preciso que passe Cristo, como uma aparição de luz e de graça.

 

Ilações

 

Deste documento, ressalta em primeiro lugar, a preocupação em definir igreja como uma obra essencialmente comunitária, onde os artistas devem ter a sua liberdade de expressão, mas onde têm de ouvir a voz de uma bem entendida tradição, que guarda em si o respeito e a interpretação da Doutrina e da Liturgia.

Que a Igreja não tem uma política de arte e nunca a teve.

Que aquilo que leva a Igreja a aceitar o serviço das Belas-Artes, é a dignidade do culto e o louvor de Deus e edificação dos fiéis, ou seja, os fins da liturgia.

Que a Igreja aceita a Arte moderna no que ela tem de vital.

Que a Igreja tem receio da arte deformadora e ofensiva à doutrina e ao senso religioso e litúrgico.

 

Problemas

 

O que é vital na arte moderna?

Uma pintura de Rubens não pode ser dita melhor que uma de Van Gog. São distintas, mas igualmente boas, criadas em momentos diferentes. As catedrais góticas são boas para o seu tempo, e não se pode dizer que são melhores que a Cúpula de Miguel Ângelo.

 Seguindo o mesmo raciocínio, uma pintura de Matisse é boa, da mesma forma que um mosaico de Ravena. O vital de cada arte e artista está no expressivo da mentalidade do momento em que nasceu. Só dentro do mesmo estilo é que se pode discutir da qualidade.

Com o expressivo quer-se dizer, com a interpretação da sensibilidade atual. Exatamente porque esta sensibilidade afeta o próprio Cristianismo, o que se verifica pela atualização da Liturgia, é natural que a Igreja admita a arte moderna sempre que esta a ajudar a interpretar essa mesma sensibilidade pastoral e cultural.

 

Quais são então as obras deformadoras?

 

 São aquelas que não são dignas de serem chamadas Arte, por não respeitarem a verdade do tema, visto à luz da sensibilidade social do momento.

No caso da arte moderna, se ela é expressão do nosso tempo, é arte, e sendo intérprete da nossa sensibilidade não é deformadora. Se é deformadora, ela não é arte, por não encarnar a linguagem estética do espírito humano do momento em que nasce.

 São também deformadoras “a multidão de imagens e estátuas…e tudo o que acentua o particular e insignificante com detrimento do essencial, ridicularizando assim a religião e diminuindo a dignidade do culto”.

 

A quem deve de ser deixado o juízo sobre a deformação ou vitalidade da arte?

 

Seguindo o exemplo vindo de Roma, tal caberá a Comissões de Arte Sacra, compostas de engenheiros, pintores, escultores, arquitetos, críticos de arte, arqueólogos, historiadores, ao lado de teólogos, liturgistas, peritos que devem ajuizar do que é bom na arte da Igreja.

 

Como distinguir a arte da Igreja?

 

Sob o ponto de vista jurídico, só a Hierarquia tem poder para declarar o que deve ser admitido e ser, portanto, considerado arte da Igreja. Contudo, pode acontecer que se aceite o que não é arte, e se reprove o que é, e nem o que não é arte passe a ser arte por ter sido aceite, nem o que é arte passe a não ser arte por não ter sido aceite.

 Devemos admitir que entre as obras de arte religiosa (as que tratam de um tema cristão), há obras que valem só juridicamente porque foram aceites, e há outras capazes de serem aceites, estética e religiosamente, mas que demasiadamente individualistas e descompostas não são aceites, continuando a ser obras de valor.

Outras obras, têm valor artístico e religioso, mas não entraram de facto. Há finalmente outras obras que têm valor artístico e religioso e que são aceites, e que por isso são as que constituem a verdadeira arte da Igreja.

 

Filosofia subjacente

 

Todas estas conceções explanadas não só na Pastoral, mas ainda em outros documentos acima citados, escoram-se numa interpretação cristã de arte, sua função, seu valor, que resumidamente assim se apresentam:

 

Da mesma forma que o santo é um génio no plano ético, o sábio é um génio no campo do verdadeiro, também o artista sente o belo. Daqui resultam os “transcendentes”, que, filosoficamente se unificam na Perfeição Absoluta, de modo a poder concluir-se que o bom, o verdadeiro e o belo são qualidades reciprocamente participantes.

 O que é bom também é verdadeiro e belo, e assim por diante. Verdade, é o acordo entre a coisa e a inteligência. O “ser” é bom em si mesmo na medida em que realiza o seu fim, a sua perfeição, o seu tipo ideal.

 São Tomás diz que o bem é que torna o ser perfeito. Para que o “ser” seja bom, para poder realizar o seu fim, é necessário que seja ordenado, definindo-se ordem como “unidade na multiplicidade”. Qualquer “ser” em si mesmo, é bom, mas se não há nele uma relação ordenada ao fim, é mau. O mal é uma privação e uma desordem.

Também a nossa inteligência distingue no “ser”, a noção do belo. Se o bem é o “ser” considerado sob o ponto de vista da ação, o verdadeiro é o “ser” considerado sob o ponto de vista de conhecimento, o belo é o “ser” enquanto objeto de prazer para o espírito.

Todo o “ser” é belo por ser verdadeiro e bom, o que implica que a beleza pertence à perfeição do “ser”, sendo, no entanto, essencialmente espiritual. Não se dizem belas as coisas que impressionam de tal modo os sentidos ao ponto de não ser capaz o nosso espírito de facilmente encontrar o prazer espiritual. A beleza é a possibilidade de ver as coisas no “esplendor do ser”.

 

As artes, destinam-se a pôr em realce a beleza das coisas. Os artistas são os agentes da beleza, porque nos fazem descobrir nas coisas o esplendor da verdade. Se um artista quiser criar uma obra de arte, que seja bela em si mesma e ao mesmo tempo bela na relação com a inteligência humana, de modo a fazer-nos sentir o prazer espiritual, deve evitar que a sua obra desperte em nós a paixão dos sentidos.

Se a beleza de uma obra de arte corrompe o homem, a obra de arte terá valor estético, mas não tem o direito de existir, porque o homem que contempla e o que cria estão ambos sujeitos à ordem moral. (3)

Compreenda-se que se os artistas tratam o corpo humano com nobreza e poesia, eles fazem-no porque encontram nele a beleza espiritual. Como respondeu Miguel Ângelo aos que se lamentavam do nudismo das suas figuras da Capela Sistina:

 “Mas as almas não têm alfaiate que as vista”!

 

Pio XII, na alocução que fez a quando da comemoração do V centenário de Frá Angélico disse:

 

A arte não implica uma missão moral ou religiosa: enquanto é linguagem do espírito humano, se ela o reflete na sua verdade total, ou se ao menos não o deforma positivamente, a arte é já por si mesma sagrada e religiosa, na medida em que interpreta a obra de Deus”. (4)

 

 Ou seja, o sentido do sagrado é inato à natureza humana e vive na alma de todo o homem, sobretudo no artista. Qualquer artista capaz de criar em verdade, torna-se tributário desta sacralidade.

 

Em conclusão

 

Num curto espaço de tempo, entre 1947 e 1954, a Igreja espraiou-se em indicações sobre arte. Isso aconteceu, porque, uma vez terminada a guerra, havia que restaurar e reconstruir enorme número de igrejas atingidas ou destruídas pelas violências da guerra.

 Não foi o caso em Portugal, onde o Cardeal Cerejeira teve de aproveitar a inauguração de uma igreja, (abertura ao culto da nova igreja de São João de Deus, na Praça de Londres, em Lisboa, obra do arquiteto António Lino, 1953) para explanar na “Pastoral sobre a Arte Sacra” o  resumo de um sem número de conceitos que pontuavam e pontuam o que era e é a arte da Igreja.

 

Para grande parte dos artistas faltava a perspetiva dos problemas que se punham à Arte da Igreja. Preocupados com os problemas estéticos, desejariam que a igreja lhes servisse para todas as iniciativas bem-intencionadas. Mas o Cardeal vai tirar-lhes as dúvidas:

 

 “Uma igreja tem de obedecer a leis, que derivam da doutrina revelada e duma recta ascética. Nem casa utilitária onde não há lugar para voo da poesia, para contemplação de fé, para comunhão mística de amor; nem museu para ostentação morta de obras de arte ou exposição de ensaios arrojados de vanguardismo. Há-de ser efectivamente obra de arte, ela. E todas as artes chamadas a colaborar para a sua construção e decoração, devem fazer acto de humildade, esquecendo-se de si para se submeterem como servas, ao que ela exige de cada uma”. (5)

 

A igreja é, pois, uma obra essencialmente comunitária, onde os artistas devem ter a sua liberdade de expressão, mas onde têm de ouvir a voz da tradição, que guarda em si o respeito e a interpretação da Doutrina e da Liturgia.

E, sobre tradição, no que parece ser um programa compacto sobre a Arte na Igreja, o Cardeal vai pontificar:

 

Novo, moderno, hão-de ser coisa viva e vital, linguagem sincera como a própria voz, dom humilde e generoso do artista, na obra realizada. Arte que se não renova, é arte morta. Mas só se renova o que de algum modo se conserva. Como a vida que se renova incessantemente, rejeitando os elementos gastos e assimilando outros novos. Tradição, significa etimologicamente alguma coisa que se entrega. É capital de ciência e cultura, a experiência de gerações anteriores, confiado aos novos para o desenvolver e enriquecer. Sem ele, a arte seria um principiar sem fim. Está na base de todo o progresso artístico, como os alicerces de um edifício, que se não veem, mas o sustentam”. (6)

 

Os mesmos tempos, as mesmas vontades.

 

 

 

 

CITAÇÕES

  1. Citações referentes à Encíclica Mediator Dei, retiradas de OCHSE, Madeleine, Un Art Sacré pour le notre temps, Je sais-Je crois, Paris, 1959.
  2. “Instruction du Saint-Office sur l’Art Sacré”, segundo OCHSE, Madeleine, La Nouvelle Querelle des Images, Paris, 1953.
  3. LECLERCQ, Jacques, Les grandes lignes de la Philosophie Morale, p.233-246, Pub. Univ. Louvain, 1953.
  4. OCHSE, Madeleine, Un Art Sacré pour le notre temps.
  5. CEREJEIRA, D. Manuel Gonçalves, “Pastoral sobre a Arte Sacra”, in “Lumen”, maio, Lisboa 1953.
  6. CEREJEIRA, D. Manuel Gonçalves, idem.

 

Sobre a arte da Igreja, segui de muito perto a obra de Mendes ATANÁSIO, Arte Moderna e Arte da Igreja, M. das Obras Públicas, Coimbra, 1959.

 

 

 

 

 

(270) Os bárbaros já cá estão

Tempo estimado de leitura: 9 minutos.

 

O vírus da Covid foi um presente de Deus. O reino de Deus avança através de uma série de vitórias gloriosas, habilmente disfarçadas de desastres, Ken Eldred.

 

Antes da Segunda Vinda de Cristo, qualquer ensinamento sobre paz é uma heresia, James Robison.

 

As nossas escolas ensinam às crianças que elas não passam de chimpanzés glorificados que evoluíram a partir do barro primordial, Tom Delay..

 

“If you can say you can’t breathe, you’re breathing”, Hal Marx.

 

 

 

 

 

À espera dos bárbaros”, é um dos poemas escritos por Constantino Cavafy antes de 1911, traduzido por Jorge de Sena em 1953, publicados pela Centelha em 1986 (Noventa e mais quatro poemas), que, embora sem a vocalização e a cadência da língua grega, vale a pena, aqui e agora, lembrar:

 

 

O que esperamos nós em multidão no Forum?

 

Os Bárbaros, que chegam hoje.

 

Dentro do Senado, porquê tanta inacção?

Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

 

É que os Bárbaros chegam hoje.

Que leis haviam de fazer agora s senadores?

Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

 

Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?

E às portas da cidade está sentado,

No seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?

 

Porque os bárbaros chegam hoje.

E o imperador está à espera do seu Chefe

para recebê-lo. E até já preparou

um discurso de boas-vindas, em que pôs,

dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

 

E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,

hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?

E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,

e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?

E porque levavam hoje os preciosos bastões,

Com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

 

Porque os Bárbaros chegam hoje,

E coisas dessas maravilham os Bárbaros.

 

E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores

Para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

 

Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,

e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

 

Porque, subitamente, começa um mal-estar,

e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!

E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,

e todos voltam para casa tão apreensivos?

 

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.

E umas pessoas que chegaram da fronteira

dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

 

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?

Essa gente era uma espécie de solução.

 

 

 

Quando em 1536, João Calvino publicou A Instituição da Religião Cristã (Christianae Religionis Institutio), ou como é mais conhecido As Institutas (ensinos doutrinários próprios para a formação de um cristão), provavelmente estava longe de imaginar as repercussões que tais “verdades da religião cristã” acabariam por ter, ainda hoje.

 

Na linha de intenções agora saído do tronco do calvinismo, o teólogo americano Rousas Rushdooney (1916-2001) publica em 1973, os seus Institutos da Lei Bíblica (Institutes of Biblical Law), onde vai defender que a sociedade americana deveria ser governada de acordo com os preceitos bíblicos dos Dez Mandamentos, pois só assim Deus daria aos americanos, o domínio total sobre a Terra, tal como acontecera com Adão e Noé. Esse domínio implicaria também a subjugação de todos os não-crentes, possibilitando assim a nova vinda do Messias.

Seria certamente o fim dos tempos atuais. No fim destes tempos, instalados o caos e as guerras, os não-crentes sofrerão tormentos e morte, apenas se salvando os eleitos que serão arrebatados para o céu (o Arrebatamento) pelo regresso do Messias.

 

A sociedade desses chamados Estados Unidos Cristãos, preconizada e prevista nos Institutos, é uma sociedade dura, violenta e que não perdoa. O adultério, a bruxaria, a blasfémia, a homossexualidade, o incesto, a bestialidade, a apostasia, o rapto, o estupro e o mentir sobre a virgindade de outrem, serão crimes puníveis com pena de morte.

Será, ainda e também, uma sociedade eminentemente branca, pois, segundo Rushdooney:

 

O homem branco tem atrás de si séculos de cultura Cristã, bem como a disciplina e a seleção resultante dessa fé” […] “O negro é um produto com um passado radicalmente diferente, e a sua hereditariedade tem sido governada por considerações radicalmente diferentes.”

 

Ao governo federal pouco mais deve caber do que a defesa nacional. A educação e os serviços sociais devem ser entregues às igrejas. A lei bíblica deve substituir a legislação secular. A ideologia deve tudo comandar.

Tal será conseguido através das escolas cristãs a que o estado deve entregar os meios financeiros suficientes, bem como aos serviços sociais da igreja em substituição das repartições do estado. Dinheiro em quantidade deve ser disponibilizado a organizações religiosas fundamentalistas e para programas que promovam a abstinência sexual.

Os leaders religiosos mais relevantes, como Tony Evans, Tom Delay, Pat Robertson e Zell Miller, acreditam que foram escolhidos por Deus para este combate contra as forças do mal encarnadas no “humanismo secular”, para assim criarem a nação verdadeiramente cristã. O teólogo Francis Schaeffer, não se coíbe em apontar os “humanistas seculares”, como sendo “a maior ameaça, jamais vista pelo mundo, à cristandade”.

 

Um dos livros que melhor retrata a finalidade destes movimentos é America’s Providential History, livro importante porque serve de base ao ensinamento em grande parte das escolas cristãs. Começando por citar  o Genesis 26, “os homens  têm domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves do ar, sobre o gado e sobre toda a terra e sobre todas as coisas que existam sobre a terra”, vai pretender provar que na Bíblia se acredita que a América foi escolhida por Deus para vir a ser “a primeira verdadeiramente nação cristã”, tendo como obrigação dominar todo o mundo.

 

 Como se chega lá? O genro de Rushdooney, Gary North, fundador do Instituto de Economia Cristã, diz abertamente (“Christianity and Civilization”, Spring, 1982):

 

Sejamos francos: Devemos usar a doutrina da liberdade religiosa como forma para obtermos essa independência para as escolas cristãs até conseguirmos ter doutrinado uma geração de pessoas que sabem que não existe a neutralidade religiosa, que não existem leis neutrais, nem educação neutral, e nem governo civil neutral.”

 

Esta seria a forma com que os “dominionistas” teriam para operarem numa “sociedade secular contaminada”, num estado liberal. Ou seja, teriam de se mascararem de bonzinhos, aprenderem a falar em código, única forma que lhes permitia manter essa dicotomia entre a face pública e a privada. Aliás nada que não tivesse já sido usado por certas vanguardas políticas ou por terroristas islâmicos que cortavam as barbas, que se vestiam à ocidental, viam filmes pornográficos nos quartos de hotéis antes de no dia seguinte assaltarem aviões para um ataque suicida.

Essa dicotomia é bem expressa pelo conhecido tele evangelista e ex-candidato presidencial Pat Robertson, quando no panfleto, “How to Participate in a Political Party” (Como participar num partido político), distribuído aos seus seguidores no Caucus Republicano de Iowa (Iowa Republican County Caucus) para as eleições (1986) dentro do partido Republicano, os incentiva a:

 

Dar a impressão de que lá está para trabalhar para o partido, e não para impor uma ideologia.

Esconda a sua força.

Não exiba a sua Cristandade.

Os Cristãos necessitam de ter posições de liderança. Os oficiais do Partido controlam os partidos políticos e por isso é muito importante que os verdadeiros Cristãos obtenham sempre que possível a maioria dessas chefias, se Deus quiser.”

 

A justificação para esta ideologia, vai a “Direita Cristã” buscar a algumas partes apocalíticas da Bíblia (Livro das Revelações, Evangelho segundo João, conversão de Paulo na estrada para Damasco no Livro dos Atos dos Apóstolos), únicas em que Jesus sanciona a violência, e em que Cristo aparece como o comandante de um exército de vingadores celestiais.

O Jesus dos outros três Evangelhos, o Jesus que dá a outra face e abraça os inimigos, ideia radical e espantosa naquele mundo romano, a mensagem de amor, perdão e compaixão, é totalmente expurgada da narrativa selecionada pela Direita Cristã, que opta por se focar na mensagem de destruição e perdição para os não crentes, dividindo radicalmente o mundo entre o bem e o mal, entre os que são agentes de Deus e todos os outros que são agentes do Diabo.

 

Não é de admirar que segundo esta visão, o culto da masculinidade invada a ideologia. O feminismo e o homossexualismo são as forças sociais que tornaram os machos americanos fisicamente e espiritualmente impotentes. Jesus é o batalhador contra o Anticristo, atacando hipócritas e castigando os corrutos. O culto da masculinidade vai glorificar a força, a violência e a vingança. Apregoa-se a guerra santa:

 

Antes da Segunda Vinda de Cristo, qualquer ensinamento sobre paz é uma heresia, expressa o evangelista James Robison.

 

Para estes líderes que acreditam piamente que Deus os escolheu para criarem a Nação Cristã, na batalha contra as forças do mal, representadas pelo “humanismo secular”, a marcha para a guerra global, ou mesmo para a guerra nuclear, não deve ser temida, deve antes ser acolhida como um sinal que a Segunda Vinda está perto: a vinda do Messias à frente de um exército que chacinará milhões de não crentes.

 Os desastres naturais, ataques terroristas, instabilidade em Israel, a guerra no Iraque, tudo isso não passam de sinais.  A guerra no Iraque já tinha sido prevista de acordo com os crentes no capítulo 9 do Livro das Revelações, quando quatro anjos “são encaminhados para o rio Eufrates para chacinarem terça parte da humanidade”.

Tudo o que possa impedir este caminho para a confrontação final, atrasando-a, deve ser atacado. Daí, Pat Robertson, no seu livro, The New World Order, dirigir os seus ataques contra as Nações Unidas e outras organizações internacionais.

 

 

Não é por acaso que esta Direita Cristã tem vindo a impor que o criacionismo, ou o “desígnio inteligente” face parte dos programas de grande parte das escolas, a ser ensinado em pé de igualdade científica com o evolucionismo. O descrédito das disciplinas racionais, pilares do Iluminismo, é fundamental para destruir a indagação intelectual honesta e desapaixonada. A partir daí, os factos passam a poder ser intermutáveis com as opiniões.

O conhecimento da realidade não necessita já de ter por base a colheita elaborada de factos e evidências. Só por si, a ideologia é a verdade. Os factos que se interponham no caminho da ideologia podem ser mudados. As mentiras passam a ser verdades.

Segundo o criacionismo, as espécies animais cabiam todas na arca de Noé. O Grand Canyon foi criado em alguns milhares de anos pelas águas do dilúvio que levantaram a arca de Noé. E a Terra tem apenas alguns milhares de anos, tal como vem no Genesis.

A quando do massacre de Columbine, o político republicano Tom Delay, durante o seu discurso no Congresso (16 junho 1999) disse que aquelas mortes aconteceram porque “as nossas escolas ensinam às crianças que elas não passam de chimpanzés glorificados que evoluíram a partir de barro primordial”.

 

Este movimento não para até todos sermos regidos pela Lei Bíblica, uma igreja autoritária que se imiscuirá em todos os aspetos da nossa vida, as mulheres ficarem em casa a cuidarem dos filhos, os homossexuais a serem curados, o aborto considerado como assassínio, os meios de comunicação e as escolas a promoverem os valores Cristãos “positivos”, o governo federal domado, e em que a guerra será a única forma de comunicação com o resto do mundo  e os recalcitrantes não crentes serão eviscerados ao som da voz do messias”, (Chris Hedges, “The Rise of Religious Right in the Republican Party”).

 

Quaisquer tentativas de debater racionalmente problemas com estes movimentos não levam a nada. E isto porque eles não querem nenhum diálogo. As únicas opiniões que contam são as deles. As únicas certas. Têm sempre resposta para tudo. (1)

Exemplo muito curto e recente: Hal Marx, presidente da câmara de Petal, cidade perto de Jackson, justificando o incidente em Minneapolis da morte filmada do americano negro Floyd pelo polícia Derek Chauvin, escreveu no Twitter que não viu nada de anormal na ação do polícia, porquanto se o submetido podia dizer que não podia respirar é porque estava a respirar (“if you can say you can’t breathe, you’re breathing”. (https://www.yahoo.com/news/t-breathe-breathing-mississippi-mayor-231418722.html).

 

Toda aquela mensagem de amor e compaixão de Cristo, desaparece perante esta mensagem de violência e ódio. Pelo que qualquer acontecimento tido como catastrófico pode vir a servir, ser aproveitado, como desculpa para o desmantelamento acelerado da sociedade que conhecemos.

Ken Eldred, importante doador de campanhas evangélicas e republicanas, líder da UIP (United in Purpose), para o lançamento da coligação “Evangélicos por Trump”, disse a propósito do covid19:

 

O vírus da Covid foi um presente de Deus. O reino de Deus avança através de uma série de vitórias gloriosas, habilmente disfarçadas de desastres”.

 

Ainda segundo ele, milhões de americanos estão se voltando para Cristo, o Walmart está vendendo Bíblias e as transmissões online das igrejas atingiram números recordes.

 

Hannah Arendt, dá-nos uma explicação sobre o comportamento das massas, quando nas Origens do Totalitarismo, escreve:

 

Aquilo que convence as massas não são os factos, nem mesmo os inventados, mas apenas a consistência do sistema de que eles presumidamente fazem parte. A repetição, muitas vezes sobrevalorizada por se acreditar na capacidade inferior das massas para a perceber e recordar, é, contudo, importante porque as convence da consistência ao longo do tempo.”

 

 

 

Retiro algumas passagens:

“[…] Uma vez criado este meio social, torna-se impossível quebrá-lo pela persuasão. Se algum indivíduo de opinião contrária abrir a boca para persuadi-los, eles comportam-se como surdos, não ponderam as razões que lhes são oferecidas, e a tudo respondem repetindo as palavras de João: ‘Nós somos de Deus; aquele que conhece Deus nos ouve’.

 Eles são assim impermeáveis a quaisquer argumentos e têm respostas bem treinadas. Caso lhes sugiram que são incapazes de julgar tais matérias, responderão: ‘Deus escolheu os simples´. Caso se lhes mostre que estão dizendo coisas sem sentido, dirão: ‘Até mesmo os Apóstolos de Cristo foram considerados loucos´. Caso se lhes acene com um mínimo de disciplina, dissertarão sobre a ´crueldade dos homens sanguinários’ e apresentar-se-ão como a inocência perseguida por dizer a verdade. Em suma, não há argumento que possa abalar a rigidez psicológica da sua atitude [..].

[…] Mas Hooker vai mais longe na desarticulação do gnosticismo, chamando a atenção para os perigos que ele representava para a destruição da ordem racional estabelecida e para a utilização da função social da persuasão.

 Segundo ele, a posição dos puritanos, contrariamente ao que defendiam, não se baseava nas Escrituras: eles usavam as Escrituras apenas quando certas passagens delas, retiradas de contexto, corroboravam a causa, ignorando-as nos outros casos.

Esta colagem que faziam às Escrituras fora inicialmente necessária, porquanto não se poderiam apresentar abertamente como um movimento anticristão. Mas essa camuflagem, a partir de certa altura, começou a ser incómoda.

Para evitarem as críticas embaraçosas, vão servir-se de dois recursos técnicos, que ainda hoje são utilizados pelos movimentos fundamentalistas:

O primeiro era a escolha padronizada de seleções efetuadas das Escrituras, bem como pela interpretação das mesmas. A reforma de Lutero, ao dar a liberdade de interpretação das Escrituras feita por cada um de acordo com as suas preferências, conduzia ao caos; além do mais, uma vez que todas as interpretações seriam assim possíveis e equivalentes, não se poderia argumentar contra a interpretação da Igreja, porquanto essa também seria válida.
Quando Calvino publica os Institutes, uma formulação sistemática das Escrituras para a nova doutrina, o seu propósito foi o de oferecer orientação para uma leitura correta das Escrituras que evitasse o recurso a todas as obras anteriores, partindo do princípio que era nos trechos escolhidos que residia a verdade.

Esta obra de Calvino foi o primeiro Livro/Lei gnóstico criado de modo deliberado por alguém capaz de romper com a tradição intelectual da humanidade, porque estava imbuído da crença, da fé, de que com ele se iniciaria uma nova verdade e um novo mundo […]”

 

 

 

 

 

 

 

 

(269) Das categorias do Belo ao roubo como Arte.

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Todo o belo é difícil, Sócrates.

 

As principais formas do belo são a proporção e a simetria, Aristóteles.

 

Integritas ou perfeição…devido à proporção ou harmonia [consonatia]; e finalmente, luminosidade ou claridade [claritas], Tomás Aquino.

 

O prazer que retiramos da contemplação de um objeto deve ser desinteressado, não ligado a qualquer interesse útil, económico, moral e dos sentidos, segundo Kant.

 

Roubem um banco, mas não sejam apanhados, Ai Weiwei.

 

 

 

 

Há um provérbio grego, citado por Sócrates no Hípias Maior, que diz que “todo o belo é difícil”. De facto, como reconhecer que uma coisa é bela? Através de uma quantificação objetiva das suas qualidades, ou através do prazer subjetivo que dela extraímos?

Para Platão (Simpósio), esta reconciliação é tornada possível através de eros, recaindo a enfâse sobre a experiência e o prazer que se retira do belo no alinhamento do belo com eros.  

Aristóteles (Metafísica, (1078 b,1), vai procurar definir mais objetivamente o belo, sustentando que as suas principais formas “são a proporção e a simetria”.

Esta diferença de abordagem, levando a uma distinção entre subjetividade e objetividade na interpretação do belo, ainda hoje continua viva.

 

 Na filosofia medieval, prevaleceu o critério da objetividade, onde o belo era classificado como fazendo parte de um dos transcendentes, que tendo atributos como o Bom e o Verdadeiro, se unificavam na Perfeição Absoluta.

São Tomás de Aquino descrevia (Suma Teológica, I, 39, 8) as três condições do belo como sendo:

 

 “Integritas ou perfeição…devido à proporção ou harmonia [consonatia]; e finalmente, luminosidade ou claridade [claritas] …”.

 

Estas eram as condições que permitiam “converter” o belo nos outros transcendentes: Integritas com o Único, consonatia com o Bom e a claritas com o Verdadeiro.

 

Leibniz, vai mais tarde combinar esta visão do belo como transcendente com a experiência do prazer, ao insinuar que é esta visão objetiva do belo, percebido de forma obscura, que está na base subjetiva do prazer.

Os sucessores de Leibniz vão cair na tentação de exagerarem, quer os aspetos objetivos quer os aspetos subjetivos do belo.

 

Kant, na sua Crítica da Faculdade do Juízo, vai seguir uma linha em que o juízo sobre o belo o afasta de qualquer dessas correntes. É assim que os juízos sobre o gosto passam a ser definidos de acordo com uma tabela de categorias, a saber:

.  (qualidade), segundo a qual o belo “é o objeto de um prazer sem interesse” (§5), querendo com isto dizer que o prazer que retiramos da contemplação de um objeto deve ser desinteressado, não ligado a qualquer interesse útil, económico, moral e dos sentidos. Assim, se um quadro representar uma pintura de um fruto, se dissermos que ele é belo porque nos aguça o apetite para o saborearmos, então ele não é esteticamente belo; tem de nos dar satisfação sem referência a desejo. O sentimento estético não está, pois, interessado pela posse do objeto, mas somente pela sua contemplação.

. (quantidade), segundo o qual o belo “agrada universalmente sem conceito” (§9), querendo com isto dizer que, apesar do belo ser um sentimento subjetivo sem hipótese de demonstração objetiva, não tendo por isso um valor universal, pelo facto do livre jogo de faculdades que se encontram em mim como em todos os outros meus semelhantes (a imaginação e o entendimento), o sentimento do belo pode aspirar à universalidade.

. (relação), segundo o qual o belo é “forma da finalidade de um objeto…percecionada por ela própria, independente da finalidade que possa ter”, em que é belo o que dá a impressão de ter sido realizado segundo uma intenção, se bem que tal intenção não se possa provar. É o caso de uma flor: nós sentimos sem conceitos, que existe uma finalidade na flor, mas não sabemos qual é essa finalidade. O belo aparece-nos como uma espécie de fenómeno absoluto, sem outro fim que não seja o puro esplendor da sua própria manifestação, fim em si mesmo.

. (modalidade), segundo o qual o belo é “o objeto de um comprazimento necessário…independente do conceito” (§22), postulando assim o assentimento de qualquer um. Como os juízos estéticos não podem ser comunicados por conceitos ou por apelarem por uma regra lógica universal, a sua comunicabilidade só poderá ser feita pelo “senso comum”, única forma de poder levar qualquer um a aprovar também o objeto que eu declarei como sendo belo.

 

A natureza do belo é, pois, apresentada por Kant, quer em termos de negação da sensibilidade ou de conceito, quer em termos paradoxais como o de finalidade sem fim.

Ao separar o belo de qualquer conceito, quer racional quer sensível, vai limitá-lo: ao retirar o conceito de sensibilidade, então o objeto não poderá ser belo, mas apenas agradável; a existir um conceito, então o belo seria convertível em algo de racional.

É assim que para alguns críticos, Kant privilegia a beleza da natureza relativamente à beleza da arte, mesmo quando ele tenta recuperar a beleza da arte insistindo que ela aparece como sendo natural.

 Devido às suas propriedades paradoxais, Kant chega a reclamar o belo como símbolo de moralidade (§59), como um suprassensível.

 

A influência desta teoria de Kant sobre o belo tem sido enorme, curiosamente porque contem sempre pelo menos um qualquer significado para qualquer um, desde a sua tentativa de servir de ponte entre a natureza e a liberdade, até à justificação para a arte abstrata (o belo livre, que vai libertar o artista do espartilho da simetria).

Daí que a teoria de Kant sobre o belo continue a servir como referência para qualquer reflexão sobre arte, e curiosamente, não apesar das suas inconsistências e reservas, mas exatamente por causa delas.

 

 

 

Ai Weiwei, é o “mais famoso” artista contemporâneo chinês (1957-), atualmente a viver em Cambridge, UK. Vale a pena ler partes de uma recente entrevista dada a Chris Wiegand (https://www.theguardian.com/stage/2020/apr/24/ai-weiwei-hampstead-theatre-aiww-the-arrest-of-ai-wei-wei-streamed) e na qual descreve os seus 81 dias de confinamento após ter sido preso em abril de 2011:

 

“[…] Os que me estavam a interrogar nunca acreditaram que aquilo que eu tinha feito pudesse ser chamado arte. Eles não conseguiam acreditar que tudo o que eu pudesse agarrar ou que pudesse deixar cair, ou uma ação na internet ou apontar com o meu dedo do meio para um monumento pudesse ser chamado arte. Eles achavam que eu era famoso por ser pago por forças ocidentais anti China. Não os censuro. Não me preocupo se o meu trabalho é considerado como arte ou não.

Eu sou um artista porque não tenho outro trabalho; não que eu goste muito do trabalho. É o único trabalho onde não se tem de trabalhar muito e ninguém o questiona porque, em qualquer dos casos, as pessoas também não percebem o que é arte. Gosto da liberdade de ser alguém que faz coisas que não são práticas.

Ao mesmo tempo, no Ocidente, inclusive no mundo da arte, também pensam que a minha obra não é “séria”. Julgo que talvez seja por eu não alinhar com o jogo da mesma forma que eles fazem, ou por a minha voz ao cantar ser diferente das vozes deles. Esta é uma das partes que eu mais gosto. Se eu me tiver de chamar de artista, então que o seja por ser diferente dos outros. […]

 

Que conselho dá aos artistas com dificuldades para sobreviverem financeiramente e espiritualmente ao atual confinamento?

Desistam da arte. Façam qualquer outra coisa que traga para casa pão e sopa. Roubem um banco, mas não sejam apanhados […]”.

 

 

(268) Porquê a pressa?

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

O estudo da economia serve para evitar que as viúvas e os órfãos morram de fome, B. Lonergan.

 

Há coisas mais importantes que viver. Como seja o salvar este país para os meus filhos, e para os meus netos e salvar este país para todos nós, vice-governador do Texas, Dan Patrick.

 

Estamos encantados por anunciar a reabertura do Trump GolfLA a partir de sábado, dia 9 de maio! Estamos ansiosos para os acolher de novo. Marquem já os vossos jogos! Tweet da abertura do campo de golfe do presidente Trump na Califórnia.

 

Dizer que as pessoas não podem sair de suas casas e que se o fizerem serão presas, isso é fascismo, Elon Musk.

 

As teorias económicas só têm sido aplicadas à economia de segunda, porquanto a economia de primeira, a criminosa, não se vê, ou melhor, não se quer ver, nem os “respeitáveis professores da  melancólica ciência” se aplicam na sua visibilidade e contenção.

 

 

 

“Há vida depois da morte”, expressão frequentemente usada, normalmente interpretada como um incentivo a que se continue a porfiar porquanto a vida está cheia de surpresas, acreditando-se que algumas possam vir a serem boas. Para os crentes, é também uma expressão de tranquilidade e incentivo nos que acreditam que depois da morte há toda uma vida não vivida à espera de ser vivida, talvez de outra maneira, mas que está lá. Em qualquer dos casos, são sempre expressões de conforto.

Mas, dizer que “há vida para além da morte” não é o mesmo que dizer “há coisas mais importantes do que viver”.

 

Eis o que recentemente (4 de maio) disse o vice-governador do grande estado do Texas, Dan Patrick, numa sua entrevista para um dos canais de televisão (https://nypost.com/2020/04/22/lt-gov-dan-patrick-there-are-more-important-things-than-living/):

 

No Texas, temos 29 milhões de pessoas e só morreram 495 […] Todas as vidas têm valor, mas por 500 pessoas em 29 milhões termos o estado fechado, significa esmagar o trabalhador médio. Estamos a esmagar os pequenos comerciantes. Estamos a esmagar os mercados. Estamos a esmagar este país.

Há coisas mais importantes do que viver. Como seja o salvar este país para os meus filhos, e para os meus netos e salvar este país para todos nós”.

“E eu não quero morrer, ninguém quer morrer, mas temos de assumir alguns riscos e voltar a jogo, para por de novo este país em marcha e a trabalhar. Não podemos suportar isto por muito mais tempo.”

 

 

O Trump International Hotel, hotel de luxo com 263 quartos, situado a alguns quarteirões da Casa Branca, Washington, que é propriedade e é gerido pela família do presidente, embora o edifício pertença ao governo dos EUA. E, se até há pouco tempo tenha estado praticamente cheio, pelas razões óbvias da promiscuidade entre politiquice/economia/negócios, encontra-se agora praticamente vazio, pelas razões também óbvias da pandemia.

Como o contrato de 60 anos assinado em 2013 com o governo (General Services Administration, G.S.A.), prevê o pagamento de uma renda mensal de 268.000 dólares, os familiares do presidente têm de reduzir custos. Neste sentido, o filho de presidente, Eric, pretende proceder a alterações dos termos do contrato, nomeadamente no respeitante ao ajustamento das rendas mensais.

Embora muitas outras empresas em igualdade de circunstâncias tenham também feito pedidos idênticos, este pedido da Organização Trump levanta um problema: se a G.S.A. negar o pedido, a agência arrisca-se a perder a boa vontade do presidente, que é quem nomeia o chefe da agência; mas se der provimento ao pedido, vai ser acerrimamente criticada pelos que veem nisso um ato de favorecimento. Em qualquer dos casos, um conflito de interesses.

Anote-se que a Organização Trump tem no seu portfolio mais de uma dúzia de clubes de golfe, a propriedade e/ou gestão de vários hotéis de cinco estrelas em Chicago, Havai, Las Vegas, New York, Vancouver, Washington, na Irlanda e na Escócia, (https://www.nytimes.com/2020/03/20/business/trump-businesses-coronavirus.html), e que devido ao coronavírus já se viu obrigada a reduzir para metade o pessoal dos hotéis de New York e de Washington, a cancelar as reservas para o hotel em Las Vegas e fechar os campos de golfe em Los Angeles e na área de Miami. Fecharam também o clube de Mar-a-Lago na Florida, que estaria nesta época a abarrotar.

De igual modo, a Organização tem também contactado com vários dos seus parceiros financeiros e credores, como por exemplo o Deutsche Bank. Só relacionado com os empréstimos para o hotel de Washington, o golfe resort de Doral na Florida e o arranha-céus na baixa de Chicago, o Deutsche Bank é credor de 300 milhões de dólares, pelo que a Organização Trump tem estado a pedir a possibilidade de diferir os pagamentos dos empréstimos.

O problema que aqui se levanta é quase idêntico ao da G.S.A., só que há uma outra pequena questão: é que o Ministério da Justiça americano está a investigar criminalmente o Deutsche Bank devido a alegada lavagem de dinheiro e outras condutas impróprias. Será que nestas circunstâncias o Deutsche Bank poderá não ceder aos pedidos da Organização Trump?

 

No dia 10 de maio, o clube de golfe de Trump na California, Trump GolfLA, publicou o seguinte tweet:

O jogo está aberto! Estamos encantados por anunciar a reabertura do trumpgolfla a partir de sábado, dia 9 de maio! Estamos ansiosos para os acolher de novo. Marquem já os vossos jogos!

 

Ao que o outro Trump, o presidente, logo se apressou a comentar num novo tweet:

 

É ótimo ver como o nosso País começa de novo a abrir!

(So great to see our Country starting to open up again! https://twitter.com/trumpgolfla/status/1258808647280279552 …)

 

 

 

Dia 2 de maio de 2020 deu entrada no tribunal federal de San Francisco, uma ação contra a Direção de Saúde do distrito de Alameda, Califórnia, (https://www.theguardian.com/world/2020/may/10/elon-musk-threatens-to-move-tesla-hq-out-of-california-over-covid-19-restrictions), a pedido da empresa Tesla de Fremont, segundo deu a conhecer o próprio Elon Musk:

 

A Tesla vai interpor imediatamente uma ação contra o Distrito de Alameda. O não-eleito e ignorante ‘Diretor de Saúde’ de Alameda atua contrariamente ao Governador, ao Presidente, ás nossas liberdades Constitucionais & ao mais comum bom-senso!

 

 

Tudo isto porque a Tesla decidiu que iria abrir as suas instalações a 6 de maio, contrariando as indicações do distrito de Alameda que mantém a ordem de confinamento emitida desde 29 de abril, não permitindo a abertura das instalações da Tesla até ordem em contrário.

 

Após ter recebido o relatório de atividade do primeiro trimestre da Tesla, Musk veio dizer o seguinte:

 

 “Em minha opinião, isto não é outra coisa que manter as pessoas presas em casa contra todos os seus direitos constitucionais. […] não é para isto que elas vieram para a América {…] Mas que merda. Desculpem. Vergonha. Vergonha.”

“Dizer que as pessoas não podem sair de suas casas e que se o fizerem serão presas, isso é fascismo. Restituam já as malditas liberdades ás pessoas.”

[…] A Tesla sabe mais sobre o que é preciso ser feito sobre segurança devido á experiência da nossa fábrica na China, do que um mero oficial de justiça (não eleito) do Distrito de Alameda.”

 

E seguiu-se a ameaça de fechar a fábrica na Califórnia e mudá-la para o Texas ou Nevada, se não o deixassem abri-la e se o continuassem a tratar da mesma forma:

 

Francamente, isto é a última gota de água. A Tesla vai desde já mudar a sua sede e os futuros programas para o Texas/Nevada. E a manutenção da atividade fabril em Fremont, fica para já dependente da forma como a Tesla será tratada no futuro. A Tesla é a última fábrica de automóveis que ainda está na Califórnia.”

(“Frankly, this is the final straw. Tesla will now move its HQ and future programs to Texas/Nevada immediately. If we even retain Fremont manufacturing activity at all, it will be dependent on how Tesla is treated in the future. Tesla is the last carmaker left in CA.”)

 

Nesse mesmo dia a Califórnia registou 67.500 infetados por CV19, e 2.700 mortos.

 

Nessa mesma semana, em resposta a uma pergunta sobre qual iria ser o nome do seu recém-nascido filho com a artista musical Grimes (Claire Elise Boucher), Musk escreveu no Twitter:

X AE A-12 Musk”.

 

Ao que Grimes se apressou a explicar: 

 

@Grimezsz

 

  • X, the unknown variable
    •Æ, my elven spelling of Ai (love &/or Artificial intelligence)
    •A-12 = precursor to SR-17 (our favorite aircraft). No weapons, no defenses, just speed. Great in battle, but non-violent
    +
    (A=Archangel, my favorite song)

233K

1:54 AM - May 6, 2020

 

 

 

 

 

 

 

Ganância, Ignorância

 

 

Ao longo de toda a sua vida, Bernard Lonergan (1904-84), um dos grandes pensadores  sobre a humanidade, foi sempre sensível aos problemas das pessoas, não podendo, portanto, ignorar a economia, especialmente nos tempos em que o seu impacto produziu efeitos devastadores como aqueles a que assistiu durante a grande depressão dos anos 20. 

Tendo começado em 1930 pela análise económica, criando uma inovadora teoria sobre a natureza dos ciclos económicos (For a New Political Economy) vai, após um interregno de quarenta anos, dedicar-se mais profundamente à investigação no campo da economia, o que o leva a  completar uma obra fundamental: Macroeconomic Dynamics: An Essay in Circulation Analysis.

 

 

Lonergan, embora entendendo a necessidade de se promover a expansão dos bens de produção, devidamente financiada por bens de capital, que por sua vez levará ao aumento dos bens de consumo, sabe também que este processo tem dado origem a grandes ciclos de regressões ou crises, que têm incorretamente sido atribuídas ao egoísmo, quer por parte dos patrões (ganância do lucro) quer por parte dos trabalhadores. Para ele, o problema deve ser atribuído à ignorância do processo económico por parte de todos os agentes e não só dos especialistas.

Não é a ganância dos agentes económicos que está na origem do mal-estar do presente, mas sim a ignorância, porque quando as pessoas não entendem o que se está a passar, nem porquê, então a inteligência deixa de comandar as nossas ações, e quando isso acontece o refúgio do ser humano é a auto-perservação:

são os esforços frenéticos de auto-preservação que transformam a depressão em recessão, e a depressão em crash”.

 

Sem pôr em causa o sistema capitalista, o que Lonergan pretende é torná-lo suficientemente transparente, para o que bastará seguir o fluxo do dinheiro, mas com uma nova e simples contabilização, em que não se exclui do processo económico as atividades não produtivas.

Assim, conseguir-se-iam evitar os desajustamentos bruscos e nefastos provocados pela adaptação das fases do ciclo económico, na persecução de uma economia equitativa em que as receitas dos produtores e os rendimentos de produção fossem aceitáveis para a sociedade como um todo. Só assim, o processo económico, servido pelo processo financeiro, servirá a sociedade.

 

Tem plena consciência que não basta “levar os economistas a admitir a falha das teorias económicas”, para que “as consigam substituir”. E explica que o problema é que essas teorias económicas só têm sido aplicadas à economia de segunda, porquanto a economia de primeira, a criminosa, não se vê, ou melhor, não se quer ver, nem os “respeitáveis professores da  melancólica ciência” se aplicam na sua visibilidade e contenção.

 

A proposta de Lonergan é que a economia valorize a importância da ética, dos problemas, em que os seus agentes, nós todos, sejamos mais educados, mais conhecedores, em que “os teóricos morais sobre a economia sejam também economistas”, e se não forem “então teremos de ter economistas melhores”.

 

Trata-se, portanto, no seu entender, de um problema de educação (ou de falta de educação), de um problema de ética (ou de falta de ética).

É que, como ele disse, o seu estudo da economia foi realizado para que “as viúvas e os órfãos não morressem de fome”.

 

 

 

 

 

(267) A bondade do homem, a maldade da mulher

Tempo estimado de leitura: 11 minutos.

 

Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher, Pitágoras.

 

O meu único repouso consistirá em ver o universo comigo confundido na mesma ruína: que tudo desapareça comigo! É doce, ao morrer, arrastar a outrem, Medeia de Sófocles.

 

Mentalidade primitiva [é] uma designação bastante justa para a conduta mental da maior parte dos homens de hoje, Nilsson.

 

Quem quer que, tendo no coração um outro sentido religioso, se aproximar destes olímpicos, em busca de elevação moral, de santidade, de imaterialidade espiritual, e procurar nos seus olhos amor e piedade, em breve decerto se afastará deles, irritado e desiludido, Nietzsche.

 

 

 

Mitos, são narrativas fabulosas inicialmente engendradas como explicação totalizante da vivência humana (drama ou tragédia) onde se congregam todos os ingredientes irredutíveis que a uma narrativa emprestam qualidade mítica, nela assumindo a forma de um sentimento, uma estrutura, um estado, um número, uma dificuldade.

Aparecem como um sistema, mais ou menos coerente, de explicação do mundo, em que cada um dos gestos dos intervenientes (heróis) que nele participam pode implicar consequências que se repercutirão em todo o Universo.

Estas elaborações, que muitos creem oriundas de mentalidades primitivas, têm, no entanto, muito pouco de primitivas, sendo antes conceções já bastante evoluídas que devem ter sido formadas em meios sacerdotais e que, pouco a pouco, foram sendo integradas com elementos filosóficos na forma de símbolos.

Os mitos que mais comumente se encontram em todas as civilizações são os que se referem à formação do mundo (mitos “cosmogónicos”) e ao nascimento dos deuses (mitos “teogónicos”).

Seguem-se-lhes os mitos que nos contam séries de episódios ou histórias, em que a única unidade é fornecida pela identidade de uma personagem que é o herói (Heraclito, Gilgamesh e outros). Os especialistas chamam-lhes “ciclos”.

Distinguem-se ainda as “novelas”, nas quais a unidade intrínseca é puramente literária, definindo-se apenas pela intriga. Por esse motivo não há um “ciclo Aquiles”, ou um “ciclo Helena (de Troia)”, mas antes a Ilíada, novela de uma longa aventura com histórias, episódios complexos e personagens variadas.

 

Só que estas distinções que aparentemente tão bem servem para um processo de arrumação classificativo, não são nem estáticas nem imutáveis. Nem no conteúdo, nem no tempo, nem na utilização. Daí que um mito cosmogónico ou teogónico, possa facilmente transformar-se num ciclo ou novela, conforme a fantasia ou as exigências espirituais da sociedade a que diz respeito lhes vai introduzindo. É esta plasticidade do mito que lhe tem permitido sobreviver desde esses tempos longínquos. Como metamorfose que continua a permitir-lhe sobreviver nos dias de hoje. Como a humanidade.

 

Um dos mais conhecidos mitos é o que aparece referenciado como “ciclo dos Argonautas”, relativo à procura e roubo do Velo de Ouro, e ao encontro e relação entre Jasão e Medeia. Ele é particularmente importante por, pela primeira vez, nos mostrar a diferença em confronto do papel atribuído pelos deuses ao homem e à mulher.

Muito esquematicamente, trata-se da expedição à Cólquida empreendida pelos Argonautas chefiados por Jasão com o fim de se apoderarem do Velo de Ouro, das dificuldades que tiveram para lá chegar, do encontro entre Jasão e Medeia, da superação de provas e da fuga com o Velo de Ouro, do fratricídio perpetrado por Medeia, do abandono de Medeia por Jasão, da vingança de Medeia, e do filicídio por ela cometido.

 

Compliquemos: Jasão, filho do rei Aesão de Iolcos, Tessália, vê-se forçado a exilar-se após o pai ter sido destronado pelo meio-irmão Pélias. Chegado à idade adulta, resolve regressar sem ser reconhecido e apresentar-se na corte de Iolcos. Alto, bem constituído, de cabelos loiros, vinha estranhamente vestido: com uma pele de pantera sobre os ombros, uma lança em cada uma das mãos, com o pé esquerdo descalço à maneira dos guerreiros antigos.

Ao vê-lo, Pélias recordou-se da profecia de um oráculo que o avisara para se acautelar com um parente que lhe aparecesse calçado com uma só sandália. Dirigindo-se ao jovem, perguntou-lhe qual seria o castigo que aplicaria a quem conspirasse contra o seu rei. Sem exitar, Jasão disse que o enviaria à Cólquida para conquistar o Velo de Ouro, máxima aspiração de Iolcos. Pélias faz-lhe ver que ele próprio acabara de se condenar e que, portanto, teria de obedecer e organizar uma expedição nesse sentido.

 

Segundo se acreditava, o Velo de Ouro era a pele de um cordeiro divino com lã de ouro, que Hermes tinha oferecido a Néfele, a primeira mulher do rei Átamas. Assim que Ino, a segunda mulher do rei, soube que Frixo e Hele, filhos de Néfele, se preparavam para regressar ao reino, organizou um plano para os prender e sacrificar. Para os salvar, Néfele resolve enviar aos filhos o cordeiro divino, que os deveria transportar pelos ares até à Cólquida (no Cáucaso).

Durante o percurso, ao atravessar o estreito, Hele caiu, afogando-se, pelo que desde essa altura o estreito passou a ter o nome de Helesponto (mar de Hele). Frixo conseguiu salvar-se e chegado a terra firme, num bosque sagrado de Ares, resolveu oferecer a Zeus o sacrifício do cordeiro. Aetes, o rei da Cólquida, acabou por se apoderar da pele do cordeiro, guardando-a ciosamente desde então.

 

Dando início à sua tarefa, Jasão começou por pedir ajuda a Argos, filho de Frixo. Com o aconselhamento de Atena, Argos inicia a construção de uma embarcação, a Nave Argo, que possuiria propriedades maravilhosas (podia falar e profetizar). Durante a construção, Jasão vai reunir uma tripulação de cerca de cinquenta homens, todos de boas famílias: os “navegadores de Argos”, os “Argonautas”.

Entre eles encontramos nomes dos principais príncipes e heróis da idade imediatamente anterior à guerra de Troia, todos eles filhos e netos de deuses: Hércules, Orfeu, o músico-mestre, os filhos de Tíndaro, Castor e Pólux, Peleu, o pai de Aquiles, Lince ou Linceu (“de quem um só golpe de vista descobre os objetos mais afastados”), Cálais e Zetes, ambos filhos do Vento Bóreas, Tífis (“o domador das vagas”).

 

Segue-se a descrição da tormentosa e aventureira viagem até à Cólquida, onde se contam  peripécias como a estadia na ilha de Lemnos só habitada por mulheres (por Afrodite lhes ter morto todos os homens, ou por os homens terem fugido por elas cheirarem mal), os filhos que lá deixaram; o episódio da costa da Mísia onde Hércules perde o seu fiel pajem Hilas para as Ninfas; o auxílio que prestam a Fineu, o velho adivinho cego pelos deuses, combatendo e afastando as Harpias que o impediam de comer; o segredo revelado por Fineu que lhes permitiu a passagem incólume pelos Rochedos Movediços (Simplégades), enormes rochas errantes que se fechavam se um navio tentasse passar por elas.

 Após mais algumas escalas, alcançam finalmente a Cólquida. Jasão apressa-se a informar o rei Aeëtes do motivo da sua presença. Aeëtes não se recusa a dar-lhes o Velo de Ouro, mas para isso, Jasão deveria primeiro enfrentar e domar os dois ferozes touros com patas de bronze e que deitavam fogo pelas ventas. Depois, deveria lavrar com os touros um determinado campo, no qual semearia dentes do dragão de Ares.

Tarefa impossível, não fosse a ajuda de Medeia, a filha do rei, que mal vira Jasão logo ficara loucamente apaixonada. Medeia dá-lhe um bálsamo mágico, que o tornaria invulnerável e imune às queimaduras. Explica-lhe também como teria de proceder após ter lançado à terra os dentes de dragão, dos quais iriam surgir guerreiros totalmente armados e prontos a matá-lo: Jasão teria de atirar uma pedra para o meio do círculo que os guerreiros fizessem, que eles logo se voltariam para o local onde a pedra cairia, e matar-se-iam uns aos outros.

 

Ao ver que Jasão sairia vencedor, o rei não cumpre a promessa de lhe entregar o Velo de Ouro, dirigindo-se antes para o porto para incendiar a Nave Argo. Entretanto, auxiliado por Medeia que consegue adormecer com uma canção de encantamento a terrível serpente que guardava o velo, Jasão apodera-se dele e fogem os dois. Medeia leva consigo o irmão mais novo, Absirto.  Aeëtes persegue-os.

 Para o retardar, Medeia mata o irmão, esquarteja-o e dispersa pelo mar as partes do corpo. O rei perde tempo a tentar recolher os vários pedaços do filho. Os Argonautas escapam e mudam de rota (há divergências sobre as possíveis rotas seguidas).

 

A voz da Argo faz-lhes saber que Zeus ficara irritado pela morte de Absirto, pelo que para se purificarem deveriam aportar ao país de Circe (irmã de Ates), na costa italiana. Purificados por Circe, atravessam o mar das Sirenes que, com as suas vozes encantatórias reteriam os Argonautas não fosse Orfeu que, com as suas canções e melodias, a todas elas emudecesse.

Passam o estreito de Messina, e são atirados para as costas da Líbia. Daí intentam prosseguir para Creta, onde o gigante de bronze Talo impede o acesso à ilha arremessando-lhes pedregulhos. Vale-lhes de novo Medeia, que com os seus encantamentos leva Talo a quebrar o seu tornozelo nos rochedos (único ponto em que era vulnerável, acabando por morrer). Finalmente, alguns dias depois, chegam à Grécia, desembarcando com o Velo de Ouro em Iolcos, onde continuava a reinar Pélias.

 

Durante o tempo em que reinara, Pélias levara o pai de Jasão ao suicídio, tendo a mãe morrido de desgosto. Medeia decide vingar-se de Pélias. Insinuando-se junto das filhas do rei, consegue persuadi-las a rejuvenescer o pai. Mostra-lhes como consegue com um cordeiro velho cortando-o aos bocados e pondo-o a ferver numa poção mágica, transformá-lo num cordeiro novo.

As filhas de Pélias não hesitam. Embebedam o pai, cortam-no aos pedaços, e põem-no num caldeirão a ferver. Quando procuram por Medeia para lhes dar a poção mágica, não a encontram.

 

Depois deste crime, Jasão e Medeia são banidos de Iolcos, retirando-se para Corinto, onde vivem por uns anos e lhes nascem dois filhos. Para melhor garantir a segurança da sua família, Jasão acede em aceitar para esposa, a filha do rei de Corinto. Fingindo aceitar a combinação, Medeia vai oferecer à noiva um vestido lindíssimo. Quando a noiva o veste, além de morrer envenenada, o vestido pega fogo ao palácio.

Para completar a vingança, sabendo que Jasão não lhe perdoaria, Medeia mata os dois filhos, e foge num carro voador puxado por dragões.

 

 

Este é um resumo possível das várias versões desta procura do Velo de Ouro. Convém, no entanto, estarmos atentos às realidades e não nos deixarmos envolver pelas espantosas histórias quase sem fim que tão bem cumprem a sua finalidade de não terem fim.

 

Estamos certamente perante a primeira narrativa de uma grande empresa ultramarina, fruto da abertura das rotas para o Mar Negro que se verificaram no século VIII a. C., e das expedições marítimas que se aventuraram naqueles tempos à conquista e colonização de novas terras, de regiões bárbaras, longínquas, inóspitas e desconhecidas que ocultavam tesouros magníficos, como o Velo de Ouro. O longínquo Este (far east).

Era o início de tempos novos que punham fim a uma época em que “cada um estacionava preguiçosamente sobre a sua própria costa, envelhecendo na terra dos avós, contente com o pouco que possuía e ignorante de quaisquer riquezas que não fossem as do solo natal” (Séneca, Medeia)

 

Esta gesta, foi contada, cantada e assumida naqueles tempos antigos por mais de centena e meia de autores, acabando, inclusivamente, por ser tida como verídica por alguns: Heródoto, outorgava valor histórico à viagem do Argo, bem como ao rapto de Medeia; o mesmo acontecendo, séculos mais tarde com Estrabão, que chega a aduzir como razões para a expedição a procura de riquezas minerais. Para alguns arqueólogos, a própria existência do velo poderia estar relacionada com o costume típico verificado na região do rio Fásis onde se utilizava a pele de um carneiro para peneirar as areias auríferas.

 

Estamos também perante uma grande narrativa anterior às de Homero, já que os heróis que participam na expedição pertencem cronologicamente a uma geração que precede a dos grandes heróis homéricos, onde também os deuses imortais, seja por suscetibilidade de amor, por capricho ou por misteriosa eleição, procuram, independente de qualquer forma carnal (cisne, touro ou homem) o ente humano, dando assim vida a Perseu, Aquiles, Eneias, Helena, Clitemnestra, Hércules, etc.

Nestes mitos helénicos, os heróis são sempre apresentados como seres assimétricos, não só pelo seu nascimento, por provirem do encontro entre dois entes que não guardam entre si proporção no valor, no estado, na finalidade de cada um (entre um deus ou deusa e um vulgar humano), como ainda pela influência que tal assimetria induz no seu comportamento.

É isso que faz com que o herói esteja condenado a não conciliar a afetividade natural (onde cabem o enamoramento, o desejo, a gratidão, a piedade) e um destino implacável, a que o seu impassível estado divino se conforma.

 

 Píndaro (522 a.C.-443 a.C.), numa das primeiras referências escritas sobre Jasão, descreve-o como o arquétipo do herói, fazendo alusão à sua grande beleza física e à sua natureza virtuosa, a todos sobranceiro pela estirpe, pelo mando e pelo extremo vigor, com uma olímpica ataraxia que tudo lhe faz parecer natural, o primus inter pares, filho do rei deposto, o vingador, o designado da fortuna para a chefia da aventura portentosa, “aquele que à mera inspeção logo se distingue, e logo merece o descompassado arfar do peito de Medeia”. Mas também o que possui a impavidez de um coração de mármore, quando soa a hora do abandono de Medeia.

 

Já Medeia, aparece tratada pelo mesmo Píndaro com uma certa subalternidade e indulgência devida a uma jovem enamorada, de caráter crédulo (seduzida e enganada por Jasão), com dotes de feitiçaria, e pronta a trair.

Este esquema de mulher traidora já aparecera repetido noutras histórias, mas, neste caso de Medeia, a conotação vai alargar-se devido ao facto de ela ser vista como mulher bárbara por ser oriunda de uma região muito afastada da civilização grega e oriental e, portanto, a quem se atribui um caráter impulsivo e irracional.

 

Eurípedes, que com a sua Medeia representada pela primeira vez em 431a.C., ficou nesse ano em terceiro lugar no concurso de teatro, é, contudo, o primeiro a dotá-la de uma profundidade psicológica que a partir daí vai ser seguida pela maioria das recreações posteriores.

Antes de Eurípedes, o mito já continha o capítulo sobre o infanticídio dos filhos de Medeia, só que o ato não aparecia feito por ela, sendo antes levado a cabo como vingança pelo povo de Corinto. Ou então aparecia como resultado de uma ação involuntária de Medeia ao querer transmitir aos filhos o dom da imortalidade.

A atribuição do infanticídio a Medeia, vai permitir a Eurípedes “introduzir um clímax dramático realmente espetacular que produziria no espetador uma tensão máxima do seu pathos: o assassinato intencional dos seus próprios filhos”. A eleição de uma mulher estrangeira, feiticeira, abandonada e infanticida, seria bem o exemplo “das possibilidades e dos limites (ou falta deles quando a paixão é desmedida) do comportamento humano”.

 

Mais tarde, nas Metamorfoses, no primeiro, mais popular e difundido compêndio de todos os mitos heroicos da Grécia, Ovídio (43 a.C.-17 d.C.), vai assumir toda esta herança milenar, mostrando-nos Medeia como uma mulher estrangeira, bárbara, vingativa e malvada.

Posteriormente, Séneca, ao escrever a sua Medeia (60-61 d.C.), baseando-se sobretudo na versão de Ovídio, vai carregar mais nos adjetivos, apresentando-a como uma mulher malvada, sanguinária, rancorosa, vingativa e determinada, assassina fria, irracional e quase demente.

 Esta versão de Séneca é importante por vir a ser a principal fonte de conhecimento utilizada pelos escritores que se lhe seguiram, perpetuando assim para as gerações futuras as “caraterísticas” da Medeia mulher.

 

Medeia passou a representar o protótipo feminino que leva ao abandono de tudo: do povo – ela a princesa da Cólquida; dos pais e do irmão, Absirto -o inocente que é por Medeia esquartejado e oferecido a Poseidon; do avô e deus, Hélio – Medeia era a sacerdotisa que velava pela conservação do Velo de Ouro, e que sacrificava cruelmente no altar todo o forasteiro; da sagrada hospitalidade de Pélias – morto graças a um expediente de feitiçaria; e do infanticídio dos seus filhos.

Medeia de tudo se despoja, a sua oferta de mulher não sofre restrições pela imolação do amor de um homem. Invocadora, “com voz sinistra do caos da eterna noite, reino oposto ao céu” (Séneca).

 

Esta tem sido a dramaturgia que até hoje tem prevalecido ao longo das várias épocas. Daí a importância deste “ciclo dos Argonautas” que, através das figuras de Jasão e Medeia, vai permitir desde então constatar a assimetria radical que define a condição masculina e a feminina:

 

o desencontro sem remédio entre a compleição que pode ascender à mais olímpica ataraxia, e aquela outra na qual sobrenadam as noturnas potências do sentimento”, e que pode chegar a “uma total inconsciência da infâmia”. “Medeia não sabe moderar nem as iras nem os ímpetos amorosos” (Séneca).

 

É este comportamento atribuído a Medeia que justifica porque Jasão não tem que se dar à constância e à fidelidade para com ela. Alguma coisa nele escapa inelutavelmente ao domínio dos afetos comuns: a sua melhor parte, aquele “quê” divino herdado dos imortais.

Não é de estranhar que Séneca acabe a peça com Medeia a dizer:

 

O meu único repouso consistirá em ver o universo comigo confundido na mesma ruína: que tudo desapareça comigo! É doce, ao morrer, arrastar a outrem.

 

Até num pequeno estudo de Maria Helena da Rocha Pereira, “O mito de Medeia na poesia portuguesa”, se pode constatar desta permanência negativa da magia e do filicídio como fazendo parte do caráter da mulher Medeia.

Não é, pois, também de admirar que no pórtico do seu livro O Segundo Sexo, Fatos e Mitos, Simone de Beauvoir tenha inscrito esta sentença atribuída a Pitágoras:

 

Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher”.

 

Não podemos esquecer que, tal como o teorema de Pitágoras não é dele, também a sociedade em que ele vivia e que tantas obras tidas como belas produziu, era eminentemente patriarcal, religiosa, machista e esclavagista.

 Não podemos também esquecer que é possível que em todo o humano subsista um fundo impercetível e inescrutável de mentalidade primitiva, o que pode permitir considerar-se a “mentalidade primitiva uma designação bastante justa para a conduta mental da maior parte dos homens de hoje, exceto nas suas atividades técnicas ou conscientemente intelectuais”. (M.- P. Nilsson, The Minoan-Mycenean religion and its survivals in Greek religion).

E, sobretudo, não esquecer o que nos disse Nietzsche, A origem da Tragédia, ou Helenismo e Pessimismo, sobre os olímpicos que nos propõem como modelo:

 

Quem quer que, tendo no coração um outro sentido religioso, se aproximar destes olímpicos, em busca de elevação moral, de santidade, de imaterialidade espiritual, e procurar nos seus olhos amor e piedade, em breve decerto se afastará deles, irritado e desiludido”.

 

Do outro lado da história, a bíblica, também consta a serpente, a maldade de Eva e a bonomia de Adão. Não há muito por onde escolher.

 

 

 

Encantatório

 

Ao reler alguns escritos relacionados com encantamentos, como que hipnoses, estupores inibitórios, estados de paralisia geral, do fascínio que outro nos causa, do olhar da serpente que assim imobiliza as suas presas, das falas suaves e cadenciadas que nos adormecem, recordei aquela figura mítica presente em quase todas as civilizações, a esfinge, corpo alado de animal, rosto parado de mulher que nos mira (julgamos nós) interrogando.

Conseguir verter todos estes sentimentos, emoções, estados de alma, para prosa escrita é tarefa só para alguns. Como é o caso de Jean Cocteau e a sua peça de teatro, La machine infernale, (1934), na parte em que Édipo encara a Esfinge. Aqui deixo a cena, sem sequer me atrever a traduzi-la:

 

 LE SPHINX

Inutile de fermer les yeux, de détourner la tête. Car ce n'est ni par le chant, ni par le regard que j'opère. Mais, plus adroit qu'un aveugle, plus rapide que le filet desgladiateurs, plus subtil que la foudre, plus raide qu'un cocher, plus lourd qu'unevache, plus sage qu'un élève tirant la langue sur des chiffres, plus gréé, plus voilé, plus ancré, plus bercé qu'un navire, plus incorruptible qu'un juge, plus vorace que les insectes, plus sanguinaire que les oiseaux, plus nocturne que l'œuf, plus ingénieuxque les bourreaux d'Asie, plus fourbe que le cœur, plus désinvolte qu'une main qui triche, plus fatal que les astres, plus attentif que le serpent qui humecte sa proie de salive; je sécrète, je tire de moi, je lâche, je dévide, je déroule, j'enroule de telle sorte qu'il me suffira de vouloir ces nœuds pour les faire et d'y penser pour les tendre ou pour les détendre; si mince qu'il t'échappe, si souple que tu t'imagineras être victime de quelque poison, si dur qu'une maladresse de ma part t'amputerait, si tendu qu'un archet obtiendrait entre nous une plainte céleste; bouclé comme la mer, la colonne, la rose, musclé comme la pieuvre, machiné comme les décors du rêve, invisible surtout, invisible et majestueux comme la circulation du sang des statues, un fil qui te ligote avec la volubilité des arabesques folles du miel qui tombe sur du miel.

 ŒDIPE

Lâchez-moi!

 LE SPHINX

Et je parle, je travaille, je dévide, je déroule, je calcule, je médite, je tresse, jevanne, je tricote, je natte, je croise, je passe, je repasse, je noue et dénoue etrenoue, retenant les moindres nœuds qu'il me faudra te dénouer ensuite sous peinede mort ; et je serre, je desserre, je me trompe, je reviens sur mes pas, j'hésite, jecorrige, enchevêtre, désenchevêtre, délace, entrelace, repars ; et j'ajuste, j'agglutine, je garrotte, je sangle, j'entrave, j'accumule, jusqu'à ce que tu te sentes, de la pointe des pieds à la racine des cheveux, vêtu de toutes les boucles d'un seul reptile dont la moindre respiration coupe la tienne et te rende pareil au bras inerte sur lequel un dormeur s'est endormi.

 

 

Podem ler toda a peça em:

(http://docplayer.fr/23892301-La-machine-infernale-jean-cocteau.html)

 

(266) “Tempo para morrer”

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Androides-como-escravos, metáfora da condição humana.

 

Quite an experience to live in fear isn’t it? That’s what it is to be a slave”, Roy Batty, in Blade Runner.

 

Um dia, esse puramente mundo predatório acabará por se consumir a ele próprio…, in Cloud Atlas de David Mitchell.

 

Por isso, é que em tempos de crise, dizem que temos de estar todos juntos. Até a crise passar.

 

 

 

Uma obra de ficção científica é normalmente entendida como sendo um relato de  algo que se virá a passar num tempo futuro, transportando-nos para locais e cenários que pouco têm que ver com os contemporaneamente existentes, e que com a ajuda do cinema tende a projetar ações, movimentos, sons espetaculares  que tudo absorvem.

Contudo, subjacente a tudo isso, encontra-se sempre a intenção de nos dizer coisas importantes sobre a condição humana.

Quando Roy Batty, o replicante Nexus 6 do filme Blade Runner (adaptação do livro de Philip Dick, Do Andriods dream of Electric Sheep?), no seu monólogo final diz

 

Quite an experience to live in fear isn’t it? That’s what it is to be a slave” (Grande experiência é o ter de  viver com medo, não é? Isso é o que é ser escravo)

 

está a referir-se, não só à situação particular existente na altura, mas também a uma condição humana mais geral que se tem verificado ao longo dos tempos.

 

É, contudo, num dos episódios de Cloud Atlas, que melhor vai ser descrita esta relação de escravo-trabalhador-proprietário, de predador-presa. Cloud Atlas, é uma obra escrita por David Mitchell em 2004, na qual pretende enfatizar o facto de a experiência humana ser essencialmente universal através de todos os tempos.

Na sua adaptação de 163 minutos ao cinema, os (as) irmãos (irmãs) Wachowski (da trilogia Matrix) recortam o livro em seis episódios passados nas ilhas do Pacífico em 1849, em Cambridge/Edinburgh em 1936, em San Francisco em 1973, em Londres em 2012, em Nova Seoul em 2144, e na Grande Ilha, 106 invernos depois da Queda em 2321.

No episódio referido tudo se passa em 2144, “Orison of Somni-451”, época em que todos os trabalhadores são clones de humanos, e em que Mitchell vai explorar a possibilidade de uma revolta de clones e do aparecimento de um clone do Messias.

Somni-451 é uma empregada-escrava clone de humanos, que trabalha num restaurante de fast food em Nova Seoul. Acaba por entrar em contacto com ideias revolucionárias através de uma outra clone, Yoona-939. Depois de Yoona ser morta, Somni é resgatada pelo chefe rebelde Hae-Joo Chang, que a inicia na leitura de obras banidas de Aleksandr Solzhenitsyn. O líder carismático do movimento rebelde mostra-lhe o que acontecia aos clones: eram reciclados para comida de outros clones. Somni vai expor essas revelações numa emissão pública, antes de um ataque em que Hae-Joo é morto e em que ela é presa. Após ter contado a sua história a um arquivista, é executada.

Eis parte do que ela diz:

 

As nossas vidas não nos pertencem. Desde o ventre até à tumba, encontramo-nos ligados a outros. Passado e presente. E por cada crime ou por cada ato de bondade, recomeçamos o nosso futuro.

 

Segundo Mitchell, há como que uma servidão da condição humana (onde se incluem clones) que faz com que o privilégio dos predadores se mantenha:

 

A crença é simultaneamente o prémio e a batalha, no espírito & no espelho do espírito, o mundo. Se acreditarmos que a humanidade é uma escada de tribos, um coliseu de confrontos, exploração e bestialidade, então essa humanidade será a que acabará por nascer, & prevalecerão Horroxes, Cabeças Rapinadas & Gansos. Tu & eu, os endinheirados, os privilegiados, os afortunados, não nos sentiremos tão mal nesse mundo, desde que a sorte não desapareça. E se a nossa consciência nos incomodar? Porquê minar o domínio da nossa raça, das nossas armas, da nossa herança & o nosso legado? Porquê lutar contra a ordem “natural” (oh, palavra vaga) das coisas?

Porquê? Apenas por isto: - Um dia, esse puramente mundo predatório acabará por se consumir a ele próprio…

Se acreditarmos que a humanidade possa transcender dentes e garras, se acreditarmos que diversas raças e credos puderem compartilhar pacificamente este mundo, se acreditarmos que os nossos líderes devem ser justos, as violências erradicadas, o poder responsabilizado & os ricos da Terra & os seus Oceanos compartidos equitativamente, então esse mundo predatório acabará por passar.” 

 

O que Roy Batty nos vem mostrar é o reconhecimento do que é viver-se permanentemente com medo, numa sociedade cujo ideal é de, através da educação ou de outro qualquer meio, produzir trabalhadores obedientes, escravos-salariados, sejam humanos ou clones, que servem unicamente para alimentar as engrenagens do moinho da economia. Androides-como-escravos, metáfora da condição humana.

Daí que as suas últimas palavras sejam:

 

“Time to die” (Tempo para morrer).

(https://www.youtube.com/watch?time_continue=3&v=NoAzpa1x7jU&feature=emb_title).

 

Abre a mão e solta a pombinha branca que voa em direção ao alto. Concessão estética de Ridley Scott? Imitação dos humanos que se assumem como escravos para se poderem depois libertar para depois em liberdade decidirem de novo serem escravos?

 

Para nós, humanos por enquanto, com menos vivência histórica que Roy, devemos, apesar de tudo, concluir que sempre que se tem verificado um desastre económico, o sistema vigente faz com que a tragédia reverta a favor das corporações. Os primeiros a serem descartados em grande número são os trabalhadores, dos quais apenas uma pequena parte acaba readmitida, mas com salários reduzidos e muitas vezes a tempo parcial, sem benefícios adicionais e sem segurança de emprego.

 

Eis o que diz Tim Bray, importante engenheiro e vice-presidente da Amazon, que saiu da empresa por discordar dos recentes despedimentos de trabalhadores:

 

O problema é que a Amazon trata os humanos nos armazéns apenas como potenciais unidades fungíveis de carregar-e-embalar. E isto não acontece apenas na Amazon, é como o capitalismo do século XXI é feito.” (https://www.nytimes.com/2020/05/04/business/amazon-tim-bray-resigns.html).

 

Há, contudo, um paradoxo escondido: enquanto os grandes e pequenos possuidores do capital, os grandes e pequenos gestores e apaniguados seguidores, nos andam a convencer (e nós acreditamos, e eles também acreditam) que a economia depende essencialmente do saber e esforço deles, a realidade que fica bem demonstrada nos tempos de crise, é que a economia para funcionar depende essencialmente dos trabalhadores menos “qualificados”. Se estes falharem, não há economia. Por isso, é que em tempos de crise, dizem que temos de estar todos juntos. Até a crise passar.

 

 

 

Recomendo:

Blog de 14 de dezembro de 2016, “Blade Runner”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/blade-runner-24547.

Blog de 20 de janeiro de 2016, “Tudo azul, tudo muito azul”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/tudo-azul-tudo-muito-azul-11402.

Blog de 20 de julho de 2015, “Os intelectuais são sempre de direita”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/os-intelectuais-sao-sempre-de-direita-3138.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(265) A insustentabilidade da moda

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Para se fabricar uma simples T-shirt gastam-se 594 galões de água, a mesma quantidade que uma pessoa bebe em dois anos e meio.

 

Uma fábrica que produz vestuário para exportação, e que necessita de energia para passar a ferro e tingir as roupas, utiliza o equivalente a 2,3 milhões de pés cúbicos de madeira, todos os meses.

 

A indústria da moda emite mais dióxido de carbono do que todos os voos internacionais e todos os transportes marítimos.

 

A sustentabilidade, que deveria ser entendida como sustentabilidade para os ecossistemas, para os recursos e para o trabalho humano, é engolida pela gigantesca máquina que exige a superprodução, plenamente convicta que a insegurança do público o leva, e levará sempre, a sobre comprar.

 

 

 

Talvez não seja para nós muito claro, mas o facto é que a moda, a indústria da moda, acabou por influenciar e marcar toda a indústria que se lhe seguiu (1). Ela foi, e continua a ser, a sua precursora, daí a sua importância para os tempos que vivemos e para os que se avizinham.

 Tudo começou quando Charles Frederick Worth (1825-95), fez algo que se revelou extremamente importante para toda a indústria futura, para qualquer indústria, ao impor uma organização em pirâmide, em que o vértice era o studio a quem cabia elaborar os modelos, que eram depois enviados para os diferentes ateliers com as suas diversas especializações, cada um com as suas várias hierarquias.

Vai assim separar as funções de direção e execução, de conceção e fabricação, dando origem a uma lógica que irá presidir à organização futura de fábricas, hospitais, escolas e força militares. Ou seja, vai colocar o processo da moda na origem da substituição da ordem artesanal pela moderna ordem burocrática.

Na altura, a diferença para com as outras indústrias é que para a moda, essa substituição é feita em nome do gosto e da novidade:

 

“Em vez da produção de objetos úteis, a Alta-costura propõe a glorificação do luxo e o refinamento frívolo. Em vez de um traje uniforme, propõe a pluralidade de modelos. Em vez de uma programação e de um código regulamentar, propõe a iniciativa pessoal. Em vez da coerção regular, impessoal e constante, propõe a sedução das metamorfoses da aparência.


Adiantando-se a todas as outras indústrias, a moda propõe antes um processo de sedução como lógica do poder. Esta sedução, com a teatralização e sobre-exposição do produto, com a multiplicação de protótipos e a possibilidade de escolha individual (a tal “liberdade de escolha”), irá estimular e desculpabilizar a compra e o consumo.

A moda aparece como um dos principais condutores do “progresso”, se o considerarmos como o tipo de mudança que desvaloriza tudo o que deixa para trás e o substitui por algo novo. A moda como precursora da organização do efémero e do superficial.

É apenas tendo em conta esta definição de “progresso”, que a sociedade atual se baseia para nos convencer que nos traz “felicidade”. “Felicidade” como condição segura e permanente, obtida assim pela obsolescência de tudo, levando a uma cada vez mais rápida substituição dos bens (computadores, tablettes, telemóveis, roupas, etc.) e mudança de identidade da pessoa (nem que seja pela alteração do traje ou aparência), e que só se poderá verificar numa sociedade desregulamentada, privatizada e individualizada.


É dessa forma, que as pessoas desejam escapar à necessidade de pensar sobre a sua “condição infeliz”. Procuram apenas ocupações urgentes e que as absorvam, para assim poderem parar de pensarem sobre elas, colocando como finalidades objetos atrativos que as possam seduzir. A vida passa a girar à volta da perseguição constantemente elusiva da moda, não dando qualquer sentido à vida. Aliás, a finalidade é mesmo banir dos nossos pensamentos a questão do significado da vida.

 

 

Mas eis que nos tempos que correm, a indústria da moda começa a preocupar-se com a sua “sustentabilidade”. E, se bem que para alguns esta preocupação tenha que ver com a indústria no seu todo, para quase todos os outros a preocupação que têm é tão só a da sua sobrevivência e imposição no mercado.

É o caso da Burberry, que apesar de ter como mote “Tornar Circular a Moda” (Making Fashion Circular), com o fim de reduzir os desperdícios e manterem os ativos em circulação, incineraram 38 milhões de dólares de peças não vendidas para que elas ”não caíssem em mãos erradas”. (2)

O mesmo fez a H&M em 2017, quando queimou na Suécia 19 toneladas de roupa obsoleta (equivalente a 50.000 pares de jeans) e 100.000 peças de roupa na Alemanha.

Os donos da Cartier, compraram aos seus revendedores cerca de 575 milhões de dólares de relógios para evitar que eles fossem vendidos a preços mais baratos ou vissem a figurar em vendedores não autorizados. A maior parte era depois destruída, sendo algumas partes recicladas.

A Nike, rasga roupas e ténis não vendidos, para que não possam ser reutilizados.

Estas e outras técnicas similares são seguidas por muitas das principais empresas, numa vertigem de destruição sem paralelo. E continuam sempre a produzir mais: cada ano, mais de 100 biliões de produtos à base de fibras virgens, são lançados no mercado.

 

A energia necessária para alimentar esta indústria é inacreditável. Por exemplo: uma fábrica em Phnom Penh que produz vestuário para exportação, e que necessita de energia para passar a ferro e tingir as roupas, utiliza o equivalente a 2,3 milhões de pés cúbicos de madeira, todos os meses. Não há floresta que resista.

Segundo a Ellen MacArthur Foundation (3), a indústria da moda emite mais dióxido de carbono que todos os voos internacionais e transportes marítimos.

Para se fabricar uma simples T-shirt gastam-se 594 galões de água, a mesma quantidade que uma pessoa bebe em dois anos e meio. No seu total, a indústria gasta 1,3 triliões de galões de água por ano só para tingir os tecidos (https://www.wri.org/blog/2017/07/apparel-industrys-environmental-impact-6-graphics), sem contar com os químicos e tintas que vão destruir ecossistemas, matar a vida aquática e contaminar os níveis freáticos. E esta poluição continua depois das peças serem fabricadas e compradas: cerca de 15 milhões de microfibras são libertadas no processo de lavagem das roupas, contribuindo para a poluição das águas. (4)

 

As empresas que verdadeiramente se preocupam com a sustentabilidade da indústria, têm tentado, sem grandes resultados, várias aproximações, desde esquemas de devolução, reciclagem (muito cara e não resolvida), novos materiais mais duráveis mas que consomem grande energia para produzir, como o algodão orgânico (sem pesticidas ou fertilizantes), poliéster reciclado, lyocell, circulose (feito de vestuário reciclado), econyl (espécie de nylon feito com produtos do lixo), etc.

Mas, ao mesmo tempo, as grandes empresas continuam a aumentar a sua expansão. O grupo H&M, que só nos EUA têm 593 lojas, abriram em 2019 mais 281 lojas fora dos EUA, tendo nesse ano fabricado 600 milhões de peças. Em 2018, o valor dos seus produtos atingiu 4,3 biliões de dólares.

A Zara, invade o mercado com 500 novos modelos por semana, mais de 20.000 por ano.  

 

A realidade, é que se continua a impulsionar o sistema de baixo-custo, de grandes quantidades, que torna inevitável a posterior incineração e destruição. Está estimado que compramos anualmente hoje mais 60% de vestuário do que em 2000, e que usamos cada vez menos cada peça antes de a deitarmos fora.

Pelo que a sustentabilidade que deveria ser entendida como sustentabilidade para os ecossistemas, para os recursos e para o trabalho humano, é engolida pela gigantesca máquina que exige a superprodução, plenamente convicta que a insegurança do público o leva e levará a sobre comprar.

Mas tenhamos esperança: a Zara prometeu que em 2025 toda a sua roupa será feita com material 100% sustentável (5). Vem-me à memória uma velha canção da Dalida, “Parole, parole, parole”.

 

 

 

  1. Blog de 15 outubro de 2015, “Vida da moda, moda da vida”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/vida-da-moda-moda-da-vida-7376).
  2. (https://www.bbc.com/news/business-44885983).
  3. (https://www.ellenmacarthurfoundation.org/assets/downloads/publications/A-New-Textiles-Economy_Full-Report_Updated_1-12-17.pdf).
  4. (https://www.wri.org/blog/2017/07/apparel-industrys-environmental-impact-6-graphics).
  5. (https://www.theguardian.com/fashion/2019/jul/17/zara-collections-to-be-made-from-100-sustainable-fabrics).

 

(264) O absurdo que está sempre connosco

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

A peste está aqui, é a companheira constante das nossas vidas transitórias. Pode até acontecer que nos venha a matar a todos. A peste está em todo o lado e está sempre connosco.

 

A peste não é nem racional nem justa. A peste representa o absurdo.

 

E tudo o que podemos fazer é cuidar uns dos outros. Lutar desafiadoramente contra o absurdo, segundo Camus.

 

É humano ter compaixão dos aflitos, citado por Boccaccio.

 

É preciso imaginar Sísifo feliz, Camus.

 

 

 

 

Panorâmica da peste (1350)

Há um autor e obra que, através de uma panorâmica multifacetada, nos descreve quase que cinematograficamente a Peste Negra (1347-1351) da Idade Média, na qual cerca de metade da população europeia morreu. Trata-se de Giovanni Boccaccio (1313-1375) e os seus cem contos sobre mercadores e serventuários contidos no Decameron (1350).

A intenção de Boccaccio era a de despertar os seus leitores para a responsabilidade que todos deveriam de ter para com os outros, dando a conhecer como é que os ricos se relacionavam com os pobres em tempos de desespero, e como os pobres sofriam nesses tempos. Acima de tudo, era uma tentativa para indagar sobre o valor que se dava à vida.

Para isso, recorre a um artifício literário: enquanto a cidade de Florença explodia em degradação física e moral causada pela peste, vai “ouvir” dez jovens (sete mulheres e três homens) que se recolheram numa igreja florentina (Santa Maria Novella) a fim de evitarem a peste, e que resolveram, para passarem o tempo, contar cada um dez histórias, durante os dez dias da quarentena. Toda a vida humana, com seus desencontros, sentimentos, morte e superação, aparece ali narrada como num grande afresco. Da degradação à elevação, tudo ali se vai encontrar.

 

No seu prefácio, começa por mostrar como os ricos viviam em suas casas, com bons vinhos e boa comida, música e outros entretenimentos, e como, ao menor sinal de peste, abandonavam essas suas casas nas cidades e se refugiavam nas suas luxuosas mansões das suas propriedades rurais, “como se a peste apenas atacasse quem ficasse dentro dos muros da cidade”.

Passa depois a descrever como a classe média e os pobres viveram esses tempos:

 

“Maior era o espetáculo da miséria da gente miúda e, talvez, em grande parte da mediana; pois essas pessoas, retidas em casa pela esperança ou pela pobreza, permanecendo na vizinhança, adoeciam aos milhares; e, não sendo servidas nem ajudadas por coisa alguma, morriam todas quase sem nenhuma redenção. Várias expiravam na via pública, de dia ou de noite; muitas outras, que expiravam em casa, os vizinhos percebiam que estavam mortas mais pelo fedor do corpo em decomposição do que por outros meios; e tudo se enchia destes e de outros que morriam por toda parte.

 Os vizinhos, em geral, movidos tanto pelo temor de que a decomposição dos corpos os afetasse quanto pela caridade que tinham pelos falecidos, observavam um mesmo costume. Sozinhos ou com a ajuda de carregadores, quando podiam contar com estes, tiravam os finados de suas respetivas casas e punham-nos diante da porta, onde, sobretudo pelas manhãs, um sem-número deles podia ser visto por quem quer que passasse; então, providenciavam ataúdes e carregavam (alguns corpos, por falta de ataúdes, foram carregados sobre tábuas). Um mesmo ataúde podia carregar dois ou três mortos juntos, e isso não ocorreu só uma vez, mas seria possível enumerar vários que continham marido e mulher, dois ou três irmãos, pai e filho, e assim por diante.

 E foram inúmeras as vezes em que, indo dois padres com uma cruz para alguém, três ou quatro ataúdes, levados por carregadores, se puseram atrás dela: e os padres, acreditando que tinham um morto para sepultar, na verdade tinham seis, oito e às vezes mais. E tampouco eram estes honrados por lágrimas, círios ou séquito; ao contrário, a coisa chegara a tal ponto que quem morria não recebia cuidados diferentes dos que hoje seriam dispensados às cabras; porque ficou bastante claro que, se o curso natural das coisas, com pequenos e raros danos, não pudera mostrar aos sábios o que devia ser suportado com paciência, a enormidade dos males conseguiu tornar mais sagazes e resignados até mesmo os ignorantes.

 Não sendo bastante o solo sagrado para sepultar a grande quantidade de corpos que chegavam carregados às igrejas a cada dia e quase a cada hora [...], abriam-se nos cemitérios das igrejas, depois que todos os lugares ficassem ocupados, enormes valas nas quais os corpos que chegavam eram postos às centenas: eram eles empilhados em camadas, tal como a mercadoria na estiva dos navios, e cada camada era coberta com pouca terra até que a vala se enchesse até a borda.”

“[...] foi tamanha a crueldade do céu, e talvez em parte dos homens, que se tem por certo que do mês de março a julho [...] mais de cem mil criaturas humanas perderam a vida dentro dos muros da cidade de Florença, e que talvez, antes dessa mortandade, não se imaginasse que lá haveria tanta gente assim? Oh, quantos grandes palácios, quantas belas casas, quantas nobres moradas, antes cheios de criados, senhores e senhoras, esvaziaram-se de todos, até o mais ínfimo serviçal! Oh, quantas memoráveis linhagens, quantas grandes heranças, quantas famosas riquezas ficaram sem seus devidos sucessores! Quantos homens valorosos, quantas belas mulheres, quantos jovens airosos, que ninguém mais que Galeno, Hipócrates ou Esculápio teriam considerado saudabilíssimos, pela manhã comeram com familiares, companheiros e amigos, e à noite cearam no outro mundo com seus antepassados!”

 

 

Curiosamente, muito embora logo no início do prefácio Boccaccio comece por citar o provérbio, “É humano ter compaixão dos aflitos”, na grande maioria dos contos que se lhe seguem, as personagens que nos descreve vão se mostrar quase todas indiferentes ao sofrimento dos outros, pondo à frente as suas inclinações e ambições. Leiam os contos. (1)

 

 

A comunicação social das mortes (1665)

 

Durante os surtos epidémicos ocorridos no século XVII, apareceu em Londres uma singela publicação semanal, “Lord Have Mercy Upon Us”, que, além de incluir um histórico sobre as epidemias anteriores, medicamentos, orações, continha ainda os números relativos à mortalidade por paróquias, o que permitia acompanhar mais precisamente a progressão da epidemia, inspirando um pouco de confiança a uma população urbana totalmente amedrontada sobre as partes da cidade que deveriam evitar. (2)

Alguns dos remédios caseiros então usados, ainda hoje se recomendam:

 

Num copo de leite colocar dois pequenos dentes de alho, e beber de manhã em jejum (ou ao pequeno almoço), é o bastante para o afastar da infeção”.

 

 No The Truthers Journal de 17 de fevereiro de 2020, no artigo sobre os “Dez melhores tratamentos naturais para o coronavírus”, pode-se ler:

 

“[…] Alho:

Esta cura natural tem propriedades antibacterianas e antivirais que podem ajudar a combater o coronavírus. Deve-se tomar dois alhos frescos logo pela manhã, ou tomar suplementos de alho.” (https://thetruthersjournal.home.blog/2020/02/17/1575/).

 

 

Filosofia da peste (1947)

 

A ação desenrola-se na cidade de Oran, na Argélia, onde começam a aparecer mortos milhares de ratos. Assustada, a população exige ação por parte das autoridades, uma matança dos ratos. O que é feito, descansando a população, que regressa à vida normal. Contudo, o Dr. Bernard Rieux, médico ateísta, avisa as autoridades de que se está perante uma peste. As autoridades duvidam, são lentas a responder, só mais tarde acabando por declarar uma pandemia. Com os hospitais sobrelotados, muitos começam a morrer.

Decretada a quarentena, as reações das pessoas variam: desde o suicídio ou a fuga encapotada da cidade, ao padre que afirma tratar-se de uma punição divina, ao criminoso que acaba rico com o contrabando, até ao Dr. Rioux que se mantém a tratar os doentes o melhor possível.

Com a situação a agravar-se, as autoridades declaram o estado de emergência, para controlarem a violência e os roubos. Os funerais passam a serem conduzidos sem qualquer cerimónia ou preocupação para com as famílias. Os que fogem são apanhados e fuzilados. Aos poucos, as pessoas, gastas emocional e fisicamente, entram num estado de apatia.

A peste mantém-se durante meses. Um medicamento contra a peste acaba por aparecer, mas não é sequer suficiente para salvar uma criança. O padre diz que o sofrimento da criança é um teste à fé, mas, muito em breve também ele morre.

Gradualmente, as mortes oriundas da peste começam a diminuir, e as pessoas apressam-se a celebrar. Muitas pessoas morreram, algumas sem terem qualquer relação com a peste, como foi o caso da mulher do dr. Rieux. Apesar de tudo isto, o narrador conclui que há mais para admirar nos humanos do que para depreciá-los.

 

 

 Este é um breve resumo de A Peste, obra que Albert Camus (1913 – 1960) publicou em 1947, e na qual, de certa forma, Camus se vai servir da peste numa demonstração literária  em como o mundo não tem nem sentido nem razão, que a vida é absurda e vã, e tentando ainda responder ao problema filosófico sério de julgar se a vida merece ou não ser vivida.

A peste, ao não poupar nem distinguir ninguém, quem vive e quem morre, está para além da justiça. Não é possível de a explicar através de mitos religiosos ou deuses desvairados. Nem através de qualquer significado racional ou moral. Os deuses limitam-se a observá-la de braços cruzados, sem nada fazerem, por não poderem ou por não quererem. A peste não é nem racional nem justa. A peste representa o absurdo.

Ao estar por todo o lado, ao atingir todos independentemente do estatuto ou das proteções que julgavam ter, a vulnerabilidade é total e acontece a qualquer momento: não é só ao fim do túnel, mas aqui, agora.

A peste está aqui, é a companheira constante das nossas vidas transitórias. Pode até acontecer que nos venha a matar a todos. A peste está em todo o lado e está sempre connosco.

 

O que devemos então fazer? Aquilo que o dr. Rieux faz: aceitar o absurdo do sofrimento, da morte, e do sem significado da vida, tentando ajudar os nossos companheiros de viajem o melhor possível, com cuidado e preocupação. É tudo o que podemos fazer: cuidar uns dos outros. Lutar desafiadoramente contra o absurdo.

 

Que é a posição filosófica defendida por Camus, porquanto ele defendia que nos devemos revoltar contra o absurdo, não cometendo suicídio ou procurando refúgio em fés religiosas, mas assumindo a responsabilidade pelas nossas vidas, disfrutando da bondade e beleza que nos rodeiam, e criando a nossa própria razão de ser num mundo sem qualquer razão de ser. Lutar desafiadoramente contra ele. (3)

Em O Mito de Sísifo ensaio sobre o absurdo, publicado em 1943, já Camus escrevia:

 

O seu (de Sísifo, herói do absurdo) desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte e a sua paixão pela vida valeram-lhe esse suplício indizível em que o seu ser se emprega em nada terminar. É o preço que é necessário pagar pelas paixões desta terra.”

 

E termina:

 

Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil […] A própria luta para atingir os píncaros basta para poder encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.

 

 

O futuro presente que vivemos (2020)

 

Sem se saber porquê (ou melhor, sem se querer saber porquê, sendo sempre mais fácil atribuir a culpa aos chineses, aos russos, aos islamitas, aos cubanos, aos morcegos, aos pangolins, ele há tantos que uma vida inteira não dá para nada concluir mesmo porque se for para concluir perde-se a conclusão antes de chegar à conclusão) vamos quase todos sermos voluntariamente obrigados a viver e a sermos enterrados de máscara, mas sempre muito felizes por cumprirmos as diretivas que nos fazem pertencer a nações valentes e imortais, elas, nós não.

Os poucos outros que sobram, aristocraticamente prescindirão da máscara (para além da que são), mas serão também enterrados. Aqui na Terra.

Vem-me à lembrança uma visão daquele samba brasileiro, em que bamboleando e saltando, vamos alegremente cantando “Tristeza não tem fim, Felicidade sim”.

Tem razão Camus:

É preciso imaginar Sísifo feliz”.

 

Só acrescentar, ao fim destes milhares de anos de progresso, a recomendação altamente tecnológica que nos dão: “Não esqueça de lavar as mãos com água e sabão”.

 

 

 

 

Notas:

 

3) Aconselho este excelente pequeno  vídeo de 10 minutos da The School of Life, “Camus, The     Plague”, https://www.youtube.com/watch?v=vSYPwX4NPg4&list=PLwxNMb28Xmpfv2COuuJaKzy6E2n8nSMdi&index=16&t=0s

 

 

 

 

 

 

(263) O homem, lobo do homem

Tempo estimado de leitura: 10 minutos.

 

O homem “não é uma criatura terna e necessitada de amor, que só se defenderia se fosse atacado, mas antes pelo contrário, é um ser em cujos instintos se deve incluir uma grande dose de agressividade”, é “uma besta selvagem sem o menor respeito pelos seres da sua própria espécie”, com uma “inclinação inata para a maldade, a agressão, a destruição e também para a crueldade”, Freud.

 

Fontes de sofrimento que impedem o homem de ser feliz: o poder superior da natureza, a fragilidade do nosso corpo e a inadequação das regras que praticamos na nossa vida social, Freud.

 

O valor de liberdade individual não constitui a finalidade do desenvolvimento da civilização, Freud.

 

O destino da espécie humana será decidido pela circunstância de se – e até que ponto – o desenvolvimento cultural conseguirá fazer frente às perturbações da vida coletiva originadas pelo instinto de agressão e de autodestruição, Freud.

 

 

 

É no Capítulo III do Mal-Estar na Civilização, que Freud nos vai explicar as teses que defende sobre o que é a civilização, através de uma brilhante exposição, simultaneamente esclarecedora e ambivalente, em que nos revela a aplicação do conceito filogenético (segundo o qual o desenvolvimento de um organismo refletiria exatamente o desenvolvimento evolutivo da espécie) à origem de uma civilização repressiva em si, abordando ainda a possibilidade, ou não, da conciliação entre as necessidades do indivíduo e as da civilização.

 

Freud começa por analisar aquilo que considera serem as três fontes de sofrimento que impedem o homem de ser feliz: o poder superior da natureza, a fragilidade do nosso corpo e a inadequação das regras que praticamos na nossa vida social.

Quanto às duas primeiras, reconhece serem uma inevitabilidade facilmente aceite por todos. Já o mesmo não se passa relativamente à fonte social de sofrimento, em virtude de se tratar de algo que nós próprios criámos para vivermos melhor em sociedade. Chama-nos, contudo, a atenção para o facto de essa própria criação poder ser inevitável, devido à nossa constituição psíquica ser limitada.

Em qualquer dos casos, a nossa civilização seria a culpada da nossa infelicidade.

 

Mas, tal assunção poderá levar a que apressadamente se possa concluir que poderíamos ser mais felizes se abandonássemos a nossa civilização, regressando ao estado primitivo, onde a vida era simples, com poucas necessidades.

Tal conclusão teria por base as observações sobre a vida que os novos povos primitivos descobertos levavam, onde, aparentemente, a felicidade reinava, e sobre os casos recentes de pessoas neuróticas devido à sua inadequação em suportar a frustração imposta pelas normas da sociedade, e que certamente seriam felizes se estas normas fossem retiradas.

Ao que se poderia ainda acrescentar o facto de o enorme progresso técnico e científico que se tem verificado não nos ter trazido mais felicidade, apesar de todos os avanços e suas aplicações que contribuíram para o nosso bem-estar. E não nos devemos esquecer que todas as coisas que procurámos para nos proteger da nossa infelicidade, fomos e vamos busca-las a essa mesma civilização.

O que o leva a concluir que “o poder sobre a natureza não constitui a única precondição da felicidade humana, assim como não é o único objetivo do esforço cultural” . O que isso significa é que “não nos sentimos confortáveis na civilização atual”.

 

Mas como saberemos objetivamente se os homens de outros tempos eram mais felizes? Sendo a felicidade um conceito subjetivo, por mais que nos queiramos pôr no lugar deles, não poderemos nunca sentir o que eles sentiam. Pelo que esta via de raciocínio não nos conduzirá a nada.

 

 

Passa então a definir o que entende por cultura/civilização, palavra “que descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem as nossas vidas da dos nossos antepassados animais, e que servem dois intuitos, a saber: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos “.

 

 No respeitante à proteção dos homens contra a natureza, diz-nos que os primeiros atos de civilização foram a utilização de instrumentos, a construção de habitações e o controle sobre o fogo, sendo este último o mais importante. Com a ciência e a tecnologia que desenvolveu, o homem pensa que tudo pode, tornando-se uma espécie de “Deus de prótese”  e mesmo crendo nisso não se sente feliz neste seu papel semelhante a Deus.

Define uma civilização como sendo de alto nível quando, tudo o que puder ser útil para o homem (tudo o que o puder ajudar na exploração da natureza e na proteção contra as suas forças), estiver disponível para si e ao seu alcance.

Mas considera também como sinal de civilização, as preocupações dos homens para com aquilo que não tenha valor prático, que não dê lucro, ou seja, com a beleza.

O asseio e a ordem são outras das exigências que a civilização deve de comportar.

Contudo, aquilo que para ele mais identifica uma civilização é o seu grau de apreço pelas atividades mentais, as suas realizações intelectuais, científicas e artísticas, bem como o papel que as ideias desempenham, nomeadamente as que se encontram nos sistemas religiosos, na filosofia e nas ideias de perfeição e aperfeiçoamento do homem e da humanidade.

 

Quanto à segunda parte da sua definição de civilização, a que tem que ver com o modo como são regulados os relacionamentos entre os homens, começa por nos lembrar que a civilização aparece quando pela primeira vez se tentaram regular esses relacionamentos sociais, evitando assim ficar-se dependente da arbitrariedade e poder dos fisicamente mais fortes.

 O aparecimento do poder da comunidade em vez do poder de um indivíduo, é o passo decisivo para a civilização, mesmo que isso seja feito à custa de uma perca de parte da possibilidade de satisfação dos membros da comunidade.

 Daí a primeira exigência da civilização ser a justiça, a fim de garantir que uma lei uma vez criada, não seja violada a favor de um indivíduo. Esta perca de satisfação dos membros da comunidade é feita à custa de um sacrifício dos seus instintos.

Pelo que o valor de liberdade individual não constitui a finalidade do desenvolvimento da civilização, porquanto o máximo de liberdade individual pré-existe à civilização, que só a vai restringir.

 Daí que este impulso de liberdade apareça dirigido contra exigências específicas da civilização ou contra a civilização no geral: o homem defenderá sempre a sua liberdade individual contra a vontade do grupo.

 

Seja como for, o facto é que no caminho para a civilização, o guia para a alcançar é o sentimento comum. Ressalva, no entanto, que civilização não é sinónimo de aperfeiçoamento. Contudo, este caminho para a civilização pode levar a alterações de instintos dos seres humanos, o que, de certa forma, pode contrariar a ressalva acima feita.

Como exemplos apresenta o erotismo anal da criança, onde o seu interesse pela função excretória e seus produtos, se vai transformar ao longo do crescimento em parcimónia, ordem e limpeza, exatamente as mesmas exigências que foram consideras importantes para a civilização.

Freud impressiona-se por esta semelhança entre os processos da civilização e o desenvolvimento libidinal do indivíduo.

E apresenta ainda os casos em que se assiste à deslocação das condições de satisfação para outros caminhos, que é o que se passa com a sublimação dos instintos.

A sublimação desempenha um papel muito importante, pois é através dela que as atividades científicas, artísticas e ideológicas se tornam possíveis. Freud não tem dúvidas de que “a sublimação constitui uma vicissitude que foi imposta aos instintos de forma total pela civilização”.

Finalmente, ao considerar a civilização como sendo construída pela renúncia ao instinto, à não satisfação desses instintos, conclui que o campo dos relacionamentos sociais é dominado por esta “frustração cultural”, causa da hostilidade nas civilizações.

E conclui, opinando que “o desenvolvimento da civilização constitui um processo especial, comparável à maturação normal do indivíduo”.

 

A Ambivalência Esclarecedora como método

 

Através de exemplos sempre paralelos, em que a par de uma referência retirada da civilização, facto ou acontecimento histórico específico, apresenta um correspondente desenvolvimento humano, Freud vai sistematicamente carreando argumentos que nos conduzem até à conclusão apresentada no último parágrafo do capítulo, na qual nos diz que “o desenvolvimento da civilização constitui um processo especial, comparável à maturação normal do indivíduo” (8).

Ao atribuir à fonte social de sofrimento constituída principalmente pela nossa própria constituição psíquica uma das três formas de infelicidade, Freud não é suficientemente claro sobre a sua, ou não, inevitabilidade, mas responsabiliza-nos por ela.

E é esta ambivalência envolvente que ao longo do texto desenvolve: é assim que a civilização é por um lado a grande responsável pela nossa desgraça e simultaneamente a proteção da infelicidade; o progresso traz felicidade (vias de comunicação, contactos mais facilitados entre as pessoas, aumento de idade, e outros), mas de que adianta uma vida mais longa que só dará aso a mais tempo para desgraças?

É ao desenvolvimento da nossa cultura que ficamos a dever o que de melhor nós somos, mas também lhe ficamos a dever grande parte dos nossos sofrimentos. Estes sofrimentos, estes sentimentos de mal-estar, são o preço que temos de pagar para apreciarmos as imensas vantagens que tiramos da cultura. Não há, pois, cultura sem essa inquietação, não sendo possível existir civilização sem descontentamento.

 

Esta ambivalência utilizada por Freud como método expositivo, é muito mais do que isso: revela um autor que não nos pretende convencer escamoteando o conhecimento, que o expõe nas suas várias vertentes, aduzindo argumentos a favor de todos para logo nos apresentar uma outra possível alternativa, dentro de um sistema coeso em desenvolvimento.

 Talvez até seja fruto da sua postura de aprendizagem psicanalítica, onde todos os fatores teriam de ser contemplados, sem prévia preferência, ou mesmo da sua conceção de homem e da sociedade, sempre dependente e oscilante entre a busca do prazer e a agressividade.

 

Liberdade e felicidade, sentimento de culpa e agressividade

 

Freud vai interrogar-se sobre a compatibilidade entre as necessidades do indivíduo e as da civilização e se a acomodação portadora de felicidade, entre as reivindicações do indivíduo e as reivindicações culturais do grupo, “pode ser alcançada por meio de alguma forma específica de civilização ou se esse conflito é irreconciliável”.

Para Freud, a liberdade do indivíduo não constitui um dom da civilização. Aliás, é o próprio desenvolvimento da civilização que impõe restrições à liberdade e, por sua vez, a justiça (“primeira exigência da civilização”) vai impedir a fuga a essas restrições, ao garantir que o indivíduo não possa violar a lei em seu favor.

Apesar disto, a revolta de uma comunidade humana contra uma injustiça pode originar um progresso na civilização, sendo, portanto, compatível com a civilização, e por outro lado a revolta do indivíduo baseada nos “remanescentes de sua personalidade original” ainda não domada pela civilização, pode converter-se numa hostilidade contra a civilização em geral.

E segue explicando, que é sua intenção

              “Apresentar o sentimento de culpa como o problema capital do desenvolvimento da civilização e de nos fazer ver porque é que o progresso desta deve ser pago por uma perca de felicidade devido ao reforço desse sentimento” .

 Ou seja, Freud não tem dúvida em estabelecer uma relação entre o progresso da civilização e o crescimento do sentimento de culpa.

Há mesmo uma necessidade de reforçar o sentimento de culpa:

 

             “Como a civilização obedece a uma pulsão erótica interna com a finalidade de unir os homens numa massa mantida intimamente amalgamada, esse objetivo só poderá ser alcançado através de uma constante e progressiva acentuação do sentimento de culpa. O processo que começou pelo pai vai concluir-se com a massa. Se a civilização é a via indispensável para que se faça evolução da família para a humanidade, então este reforço está intimamente ligado a esse percurso, quer como consequência do conflito de ambivalência com o qual nascemos, quer devido à querela eterna entre o amor e o desejo da morte. E, talvez um dia, esta tensão do sentimento de culpa venha a atingir um nível tão alto que tal se torne difícil de ser suportado pelo indivíduo”.

 

Daqui se infere que a sociedade civilizada se encontra permanentemente ameaçada de desintegração, devido a uma hostilidade primordial dos homens, o que a leva a pôr barreiras para tentar dominar essas tendências agressivas.

 

O homem “não é uma criatura terna e necessitada de amor, que só se defenderia se fosse atacado, mas antes pelo contrário, é um ser em cujos instintos se deve incluir uma grande dose de agressividade”, é “uma besta selvagem sem o menor respeito pelos seres da sua própria espécie”, com uma “inclinação inata para a maldade, a agressão, a destruição e também para a crueldade”.

 

Lapidar é frase que Freud escolhe para descrever o homem na sua relação com o seu semelhante:

 

 “Homo homini lupus”.

 

 É esta tendência agressiva do homem, que Freud crê instintiva, inata e autónoma, que constitui o maior obstáculo à civilização. Sabendo isto, o que é que a civilização poderá fazer para controlar ou tornar inofensivos estes desejos agressivos?

 

Seguindo a história evolutiva do indivíduo, Freud vai dizer-nos que a agressão é internalizada, “devolvida ao sítio de proveniência, ao próprio ego, incorporando-se numa parte dele que na qualidade de superego se opõe à parte restante assumindo a função de consciência [moral], que vai tratar o ego com o mesmo grau de agressividade com que este, de bom grado, teria satisfeito essas mesmas pretensões. O sentimento de culpa que se manifesta sob a forma de necessidade de castigo, é o resultado da tensão criada entre o severo superego e o subordinado ego”.

 

Donde, a forma com que a civilização poderá dominar a agressividade individual será enfraquecendo-a, desarmando-a e pondo-a debaixo de vigilância por uma entidade alojada no seu interior.

 

Resumindo: os objetivos do desenvolvimento do indivíduo e o da civilização são diferentes. O indivíduo tem como primeiro objetivo alcançar a felicidade, mas para a civilização tal objetivo não consta entre os que lhe são atribuídos por Freud (limpeza, ordem, beleza, justiça), o que significa que a civilização lhe irá impor restrições para a sua realização.

 Estas restrições levarão a uma insatisfação crescente do indivíduo que tem de ser reprimida e sublimada (desvio da pulsão), o que leva à situação estranha de a civilização para progredir necessitar de reprimir as pulsões, mas ao fazê-lo irá aumentar a insatisfação dos seus membros.

 

Concluindo

 

Ao dizer que “a civilização foi conquistada devido à renúncia da satisfação dos instintos e exige de todo o novo indivíduo a repetição de tal renúncia”, Freud leva-nos a concluir que a civilização é fundada na repressão dos instintos. Não pode, pois, haver coincidência entre as necessidades do indivíduo e as necessidades da civilização.

 

Ao comparar o desenvolvimento da civilização à maturação normal de um indivíduo, uma vez que as experiências da infância de cada indivíduo ficam ligadas às experiências da espécie, e dado que essas experiências determinantes da infância são baseadas nas tendências instintivas, Freud vai fazer depender o destino da humanidade das tendências dos instintos.

E o controlo destes instintos não é nem efetivo, nem previsível, o que não permite programadamente impor modificações à nossa civilização de forma a alcançarmos uma felicidade.

 

Reconhece que “o homem civilizado tinha trocado uma parte da sua possível felicidade por segurança; não nos devemos, contudo, esquecer que na família primitiva só o chefe é que gozava da liberdade dos instintos, ao passo que os outros viviam oprimidos como se fossem escravos”.

 

E, contudo, embora o desígnio da felicidade seja irrealizável, reconhece também que “não se deve – nem se pode – abandonar os esforços para nos aproximarmos, seja como for, da sua realização”. E isto, não porque saiba qual vai ser o final desta luta da civilização, nem mesmo se esta tendência civilizacional ligada à restrição da vida sexual e à implantação dum ideal humanitário é mesmo uma lei inexorável da Natureza, mas pela contribuição da luta sempre constante e indecisa entre as forças da vida e as da morte.

O destino da espécie humana será decidido pela circunstância de se – e até que ponto – o desenvolvimento cultural conseguirá fazer frente às perturbações da vida coletiva originadas pelo instinto de agressão e de autodestruição”.

 

 

(262) Classe: a malvada categoria que teima em não desaparecer.

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Isto de estarmos todos no mesmo barco, e da guerra que todos temos de combater, não passam de lindas historinhas que nos contam.

 

Enquanto se discutem guerrinhas culturais, os oligarcas, no poder ou esporadicamente fora dele, continuam a pilhagem.

 

Tal como durante a Segunda Guerra Mundial, em que a GM, a Ford, e a Chrysler, maximizavam os seus lucros fornecendo aos dois lados o material que eles precisavam para conduzirem a guerra.

 

Tal como os Republicanos, os Democratas são a face política da oligarquia.

 

Sempre que os oligarcas tomam o poder, a sociedade será confrontada entre aceitar a tirania ou escolher a revolução, Aristóteles.

 

 

 

Esta linda historinha que nos contam de estarmos todos no mesmo barco, só surge quando quem comanda a embarcação navega por águas muito agitadas que podem levar à eclosão de motins a bordo. Só acontece, portanto, em tempos de crise.

Mesmo admitindo a bondade da comparação, devemos lembrar que não só os lugares no barco não são iguais, como nem tão pouco a sua distribuição é feita aleatoriamente: lugares da frente, do meio, da parte de trás, os de cima, os de baixo, os camarotes superiores, os de primeira, os de segunda e terceira, etc., e os da ponte de comando onde efetivamente se dirige a embarcação.  E isto se todos forem da mesma região, da mesma cor, do mesmo formato de olhos, do mesmo género, do mesmo clube, sei lá que mais considerações para a determinação (escolha?) do poleiro. E, tal como na Arca de Noé, só os escolhidos lá entraram.

 

Também é interessante a historinha que nos contam da guerra que todos temos de combater, porque, para além da mais que evidente separação existente entre os que a comandam e os que nela são por eles lançados, ela permite-nos perceber quem efetivamente dirige os que comandam, e em nome de quê.

Durante a Segunda Guerra Mundial, tendo a Alemanha Nazi falta de bauxita para a fabricação de alumínio para os seus aviões e os Aliados falta de magnetos para a regulação da ignição nos seus aviões, aprestaram-se a fazerem a troca (1) através de uma firma Suíça (neutral, evidentemente, tudo legal), podendo assim prolongar-se a guerra por mais uns tempos. Morreram mais uns soldados, mas fizeram-se mais negócios.

Segundo o United States Senate Committee on the Judiciary (1974), a General Motors, a Ford e a Chrysler, tiveram parte importante na preparação e progressão para a guerra, com a construção de motores para a aviação nazi e de veículos pesados de transporte (o diretor executivo da Ford, recebeu em 1938, a Águia Alemã Nazi de primeira classe), tudo isto ao mesmo tempo que as suas fábricas nos EUA produziam motores de avião para a U.S. Army Air Corps.

Como resumia esse relatório do Senado, “maximizaram os seus lucros fornecendo aos dois lados o material que eles precisavam para conduzir a guerra”, o que permitiu manter “a viabilidade dessas corporações e os interesses dos seus acionistas” (2).

 

As oligarquias que nos têm vindo a governar desde quase sempre (3),têm tentado convencer-nos que a eliminação ou redução de impostos para os ricos e para as corporações, o comércio livre, a globalização, o neoliberalismo, a desindustrialização, a destruição dos sindicatos, o estado de constante espionagem sobre os indivíduos, as guerras sem fim, a austeridade, tudo isso resulta de uma lei natural que conduz ao progresso social e económico, mesmo que isso venha a acabar com a democracia liberal e até com a vida humana devido à crise climática.

Tudo isso não passam de ideologias ou instrumentos utilizados pelos oligarcas para aumentarem cada vez mais os seus proventos por forma a permitir-lhes diferenciarem-se dos outros mortais, para o que arrebanham exércitos de advogados, publicitários, políticos, juízes, académicos e jornalistas, a fim de censurarem e controlarem o debate público e afastarem os dissidentes.

 

Os oligarcas deliciam-se a falar sobre raça. Deliciam-se a falar sobre identidade sexual e género. Deliciam-se a falar sobre patriotismo. Deliciam-se a falar sobre religião. Deliciam-se a falar sobre imigração. Deliciam-se a falar sobre o aborto. Deliciam-se a falar sobre a posse de armas e seu controle. Deliciam-se a falar sobre a degenerescência cultural ou sobre a liberdade cultural.”

 

Se repararem, todos estes temas, raça, género, religião, aborto, imigração, controle de armas, cultura, patriotismo, são temas que dividem o público, que põem vizinhos contra vizinhos, que levam a violentos ódios e antagonismos, conduzindo à divisão entre as pessoas. Enquanto se discutem estas guerras culturais, os oligarcas, no poder ou esporadicamente fora dele, continuam a pilhagem.

 

Em nenhum sítio se vê isto tão bem como nos EUA, com as pretensas grandes diferenças apregoadas entre os partidos Republicano e Democrata.

E, contudo, “os democratas, tal como os republicanos, servem os interesses das indústrias farmacêuticas e dos seguros. Os democratas, tal como os republicanos, servem os interesses dos contratantes da indústria da defesa. Os democratas, tal como os republicanos, servem os interesses da indústria de combustíveis fósseis. Os democratas, juntamente com os republicanos, autorizaram os gastos de 738 biliões de dólares para as já inchadas forças armadas durante o ano fiscal de 2020. Os democratas, como os republicanos, não se opõem às guerras sem fim no Médio Oriente. Os democratas, tal como os republicanos, retiram as liberdades civis, incluindo o direito à privacidade, à liberdade de não ser espiado pelo governo. Os democratas, tal como os republicanos, legalizaram a possibilidade da doação de fundos ilimitados pelos ricos e pelas corporações para os partidos, transformando o processo eleitoral num sistema legal de corrupção. Os democratas, tal como os republicanos, militarizaram a polícia e construíram um sistema de encarceração de massas que conduziu aos EUA terem 25% de todos os presos do mundo para uma população de apenas 5% do mundo.

 

Elucidativo também, é o exemplo de Bernie Sanders, cujo socialismo democrático pouco se afasta do New Deal do democrata Roosevelt. As suas propostas de acabar com as guerras no exterior, redução do orçamento militar, cuidados de saúde para todos, abolição da pena de morte, eliminação das prisões privadas, aumento de impostos para os ricos, aumento do vencimento mínimo para 15 dólares à hora, cancelar os débitos dos estudantes, eliminar o Colégio Eleitoral, banir as explorações do petróleo de xisto, não são propriamente propostas revolucionárias.

Ele não propõe a nacionalização dos bancos, das indústrias de armamento e de combustíveis fósseis. Não propõe a criminalização das elites financeiras que deram cabo da economia mundial, ou dos políticos e generais que mentiram para iniciarem guerras preventivas, consideradas à luz do direito internacional como guerras criminosas de agressão, que devastaram grande parte do Médio Oriente e que resultaram em centenas de milhar de mortos e milhões de refugiados, que custaram, só aos EUA, 5 a 7 triliões de dólares. Ele não incita os trabalhadores a apoderarem-se das fábricas e dos negócios. Ele não fala em punir as corporações que transferiram a sua produção para além-mar. Ele não concorda com ações de desobediência civil de massa que levem a fazer cair o sistema.

 

E, contudo, Sanders nunca poderá contar com o apoio dos democratas influentes do partido, que preferirão, inclusivamente, se se viesse a chegar a isso, Trump.  Tal como os republicanos, os democratas são a face política da oligarquia.

É que apesar de Trump ser um embaraço para os oligarcas, não os ameaça. Deixará sempre os ricos à parte.

E tudo isto porque Sanders se atreveu a falar de ricos e pobres como classes antagónicas. Os interesse dos ricos não são os interesses dos pobres. As vidas dos ricos não são as vidas dos pobres. Atreveu-se a romper com a tão bem montada máquina que tanto se delicia a discutir apenas sobre o que quer discutir e acha importante.

 

Vale a pena lembrar Aristóteles quando escreveu que sempre que os oligarcas tomem o poder, a sociedade será confrontada entre aceitar a tirania ou escolher a revolução.

Como corolário a este pensamento político do filósofo, cito o aforisma mais popular que nos avisa que quando o mar bate na rocha o mexilhão acaba sempre lixado.

 

 

 

 

 

 

 

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